Centenário do Metrô de Madrid- Parte Final

Neste último post sobre o Centenário do Metrô de Madrid veremos uma das mais interessantes iniciativas organizadas pela companhia metroviária para sua comemoração. Trata-se de uma exposição de trens históricos que podemos ver na Estação de Chamartín.

20190416_110440O visitante poderá contemplar na exposição 4 trens históricos considerados clássicos na história do Metrô de Madrid, que circularam desde a inauguração da primeira linha em 1919 até o momento em que foram substituídos por veículos mais modernos.

20190416_111044A maior parte destes  trens circularam até 1965, mais uma pequena série adicional que foi colocada em serviço em 1976. Muitos deles depois prestaram seus serviços como veículos auxiliares.

20190416_11060320190416_111747Algumas das características básicas destes trens são sua estrutura metálica com motores fabricados pelas empresas General Eletric e Westinghouse, que foram construídos na Espanha sob licença. O sistema de freios também foi fabricado pela Westinghouse. Abaixo, vemos o interior de um destes trens históricos…

20190416_110832Muitos destes trens originais foram designados pelo nome das estações de metrô a que estavam destinados. O denominado de “Cuatro Caminos“, a estação final da linha inaugural de 1919, por exemplo, foi construído entre 1919 e 1921 por uma empresa de Zaragoza, com a parte elétrica e o sistema de freios sendo fabricados nos EUA e França. Estes trens foram os primeiros em serem construídos com estrutura metálica em toda a Espanha. Na época, foram admirados pelo conforto em comparação com os veículos de transporte existentes e alcançavam uma velocidade de 55 km/h. Foram retirados de serviços no final da década de 80. Abaixo, vemos um destes trens em serviço numa foto antiga…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA seguir, vemos o interior restaurado deste tipo de trens…

20190416_112257Já na época estava proibido fumar no interior como podemos observar na placa existente…

20190416_112358O Metrô de Madrid investiu um grande esforço na restauração destes trens históricos. Abaixo vemos o aspecto que tinham antes do processo de recuperação…

20190416_111954A seguir vemos um trem histórico numa foto de 1966…

20190416_111613Na sequência, o interior de outro veículo, com acentos reservados para pessoas mutiladas, abundantes no período da Guerra Civil Espanhola (1936/1939).

20190416_11302820190416_113112Abaixo vemos trens atuais que circulam pelas linhas do Metrô de Madrid, evidentemente muito mais modernos que os chamados “trens históricos”, em quanto a design, tecnologia e infraestrutura que oferecem.

20190220_085559OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlguns dos modernos trens que circulam pela linha 1 foram pintados à maneira dos trens antigos, para comemorar o Centenário do Metrô de Madrid, como vemos na foto a seguir…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEspero que vocês tenham gostado desta série de matérias publicadas em homenagem ao Metrô de Madrid, que está cumprindo seus 100 anos de vida. Aproveitem para utilizá-lo quando venham visitar a cidade…

 

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Centenário do Metrô de Madrid – Parte 2

Nesta segunda matéria sobre o Centenário do Metrô de Madrid veremos outros aspectos históricos de interesse deste popular sistema de transporte público da capital espanhola, através de fotos antigas pertencentes ao arquivo do Metrô e de fotos realizadas por mim. Como comentei no primeiro post, a linha inaugural ligava a Puerta del Sol, no centro da cidade, com o bairro de Cuatro Caminos, uma zona industrial importante na época, cuja imagem vemos abaixo, uma foto tirada no início do século XX.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANeste bairro se construíram as oficinas mecânicas da companhia metroviária, que foram utilizadas durante um bom tempo no século XX, como podemos ver a seguir…

20190416_11214620190416_111453Abaixo, vemos o local em construção…

20190416_112223O Metrô de Madrid foi pioneiro na inserção da mulher no mercado de trabalho. Aquelas que conseguiram um posto de trabalho nas bilheterias foram as primeiras, junto com as telefonistas empregadas na empresa Telefônica, cuja sede se encontra também em Madrid. Somente podiam ocupar o emprego se estivessem solteiras. No momento em que se casavam, eram obrigadas a abandonar o trabalho, segundo o costume da época. Esta norma esteve vigente até 1984 ! A primeira mulher maquinista apareceu somente em 1983.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAtualmente, o corpo de funcionários do Metrô de Madrid está formado por mais de 7 mil funcionários. Abaixo, vemos outra foto antiga de empregados da empresa…

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante a Guerra Civil Espanhola, o metrô serviu como local de refúgio para a população, como aconteceu com muitas outras cidades européias durante a Segunda Guerra Mundial.

20190220_085904Muitos trens do metrô passaram a ser utilizados como ambulância durante o conflito…

20190416_111333Em 1924 se inaugurou a central elétrica que abasteceu de energia o sistema metroviário da cidade. Composta por 3 motores Diesel, foi a estação elétrica de maior potência da Espanha na época, sendo desativada nos anos 50. Durante a Guerra Civil foi a responsável do abastecimento de energia elétrica da cidade, Atualmente forma parte do patrimônio industrial de Madrid e pode ser visitada, pois foi transformada num museu.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlgumas das primeiras estações construídas na linha inaugural contavam com elevadores manejados por ascensoristas, sendo que o primeiro elevador foi instalado em 1920. Abaixo, vemos a entrada da Estação de Gran Vía, projetada pelo arquiteto Antonio Palácios. Feita de granito, ferro e vidro, funcionou até 1970, quando foi desmontada e levada até o povoado de Porriño, situado na Galícia, local de nascimento do famoso arquiteto espanhol.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAté 1960, a profundidade médias das estações do Metrô de Madrid era de 9m. Em 1962, chegou aos 18m, quando as escadas rolantes começaram a funcionar. No final do século passado, a profundidade média chegou aos 25m. Atualmente, o Metrô de Madrid é considerado um dos sistemas de transporte de maior acessibilidade do mundo. Abaixo, vemos a Estaçao de Chamartín

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMuitos cartazes comemorativos foram colocados nas estações da linha 1 com a celebração do centenário do Metrô. Neles podemos observar as diferenças na evolução  tecnológica dos trens ao longo dos anos, além da inclusão de novos “passageiros”…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizo a segunda parte desta série com uma foto atual da Estação Sol, a primeira em ser construída em 1919…

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Toureiros famosos da Espanha – Parte 2

Neste segundo post sobre os Toureiros de maior renome da Espanha veremos outras personañidades do mundo taurino que  se destacaram na história da tauromaquia. Um deles foi Juan Belmonte (1892/1962), um toureiro nascido em Sevilha, considerado um dos mais populares da história e um dos renovadores da arte de torear à pé. Muitos o consideram o fundador do Toreo Moderno e liderou, junto com Joselito, a idade de ouro das touradas no início do século XX. Sua carreira profissional desenvolveu-se entre 1913 e 1936, ano em que se retirou definitivamente. Em 1919, chegou a participar de 109 touradas, uma cifra recorde na época. Foi o primeiro em torear estando imóvel junto ao touro, cujo estilo foi culminado por Manolete. Foi um grande amigo do escritor americano Ernest Hemingway, e aparece em duas de suas novelas, “Morte na Tarde ” e “Festa“. Em 1962, a ponto de cumprir 70 anos, se suicidou com um disparo. No filme “Meia noite em Paris“, de Woody Allen, Juan Belmonte foi representado pelo ator Daniel Lundh. Abaixo, vemos a Juan Belmonte na Plaza de Toros de Madrid (foto de Baldomero).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das dinastias taurinas mais famosas da história foi a família dos Ordóñez, originária de Ronda, encabeçada por Cayetano Ordóñez (1904/1961). Ficou conhecido pelo apelido “El Niño de la Palma“. Seu pai possuía uma loja de sapatos chamada “La Palma“, fato que explica o apelido. Abaixo, vemos uma escultura que lhe rende homenagem, situada em frente à Plaza de Toros de Ronda

OLYMPUS DIGITAL CAMERATeve 6 filhos, dos quais nada menos que 5 foram toureiros. O mais famoso de todos foi Antonio Ordóñez (1932/1998), que cresceu num ambiente taurino, presenciando as glórias de seu pai. Antonio triunfou em numerosas praças de touros, especialmente na de Madrid. Retirou-se de forma definitiva em 1981, momento em que passa a dedicar-se à ganadería e administrar a Plaza de Toros de Ronda, que havia adquirido. Considerado um dos maiores toureiros do século XX, Antonio Ordóñez possuía uma técnica perfeita, e também foi homenageado com uma escultura na Plaza de Toros de Ronda

OLYMPUS DIGITAL CAMERAVárias personalidades americanas do mundo artístico contribuíram para a divulgação das touradas, como o cineasta Orson Welles (1915/1985), autor do filme “Cidadão Kane“, uma obra fundamental da sétima arte. Sua amizade com Antonio Ordóñez foi de tal magnitude que suas cinzas foram depositadas numa fazenda situada em Ronda, pertencente ao toureiro. Abaixo, vemos uma imagem (carente de qualidade pela luz que incide no vidro que a protege) do grande cineasta americano assistindo uma tourada…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro grande admirador de Antonio Ordóñez foi o já mencionado escritor Ernest Hemingway (1899/1961), um grande apaixonado pelo país, seus costumes e tradições. Hemingway foi correspondente durante a Guerra Civil Espanhola (1936/1939) e um conhecido defensor da causa republicana. Abaixo vemos uma foto do escritor com Antonio Ordóñez (à direita) e seu pai Cayetano (à esquerda da foto)…

20190222_130947Na foto abaixo, vemos a Hemingway com Antonio Ordóñez

20190222_131325Outra das maiores rivalidades históricas das touradas foi protagonizada por Antonio Ordóñez e Luis Miguel “Dominguín”, motivo de inspiraçao para a obra “Verao Perigoso” de Hemingway, o último livro por ele escrito (1959/1960) e publicado póstumamente em 1985. Antonio Ordóñez era cunhado de Luis Miguel “Dominguín”, pois este casou-se com sua irma, Carmen Ordóñez. A seguir, uma foto de ambos toureiros…

20190222_131236Luis Miguel “Dominguín” (1926/1996) tornou-se famoso também por sua vida amorosa e sentimental, e suas relações com várias artistas de Hollywood agitaram a sociedade espanhola da época, como Rita Hayworth e Lauren Bacall. Seu romance com Ava Gardner tornou-se lendário. Se conta que na primeira noite com a atriz americana levantou-se da cama e preparava-se para sair do hotel, quando Ava Gardner lhe perguntou aonde se dirigia, e Dominguín respondeu que a contar aos demais a “façanha”. Dominguín foi um dos matadores mais  populares dos anos 40 e 50,  filho do também toureiro Domingo González “Dominguín” e pai do cantor Miguel Bosé. Seu êxito nas arenas taurinas foi tal que chegou a sair 5 vezes pela Porta Grande da Plaza de Toros de Las Ventas de Madrid. Retornando a Hemingway, o escritor foi assíduo frequentador das Tabernas de Madrid.  Uma de suas preferidas chamava-se “El Callejón“, como podemos ver na foto abaixo, junto com seu amigo Antonio Ordóñez, no lado direito da imagem.

20190222_131217Depois que a taberna foi fechada por seu proprietário espanhol nos anos 90, um cubano comprou o imóvel e o converteu num restaurante de gastronomía típica de seu país, chamado “Cuando salí de Cuba“. O busto em homenagem ao escritor, bem como uma grande quantidade de fotos da vida de Hemingway, algumas das quais aparecem nesta matéria (e que gentilmente me permitiram publicar) ainda podem ser admiradas no local.

20190222_131344Depois de conhecer o restaurante há alguns anos atrás, tornei-me um cliente habitual do mesmo…

20190222_135225O restaurante oferece um simpático atendimento e menus diários que custam 11 euros (dois pratos a escolher, bebida e sobremesa incluídas). Normalmente escolho batata com carne moída de primeiro prato e “Ropa Vieja” de segundo (carne desfiada com arroz branco, uma coisa rara na cidade). Realmente, uma delícia…

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A Evolução das Touradas

Como vimos na matéria anterior, a prática das touradas se remonta a muito tempo atrás. Antigamente, viajavam pelos povoados da Espanha os “matadores” ou “toreadores” que realizavam um espetáculo à pé de forma mais ou menos rudimentar, divertindo o público e cobrando pelo serviço. Em 1542, se realizaram em Barcelona festividades em homenagem ao Rei Felipe II que incluiu jogos com touros. Abaixo, vemos um retrato do monarca.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XVII, o famoso escritor Miguel de Cervantes relata a existência de locais destinados à criação de touros bravos para as touradas no seu “Don Quixote de La Mancha”. Foi somente na segunda metade do século XVIII quando se produziram na Espanha uma série de novidades relacionadas à prática  das touradas, que originaram as corridas de touros no sentido moderno que hoje conhecemos. A primeira delas foi que o toureiro a pé substituiu o toureiro a cavalo. Os protagonistas dos espetáculos constituem gente humilde que passaram a profissionalizar-se e a cobrar dinheiro por sua atuação.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANesta época surgem as primeiras ganaderías bravas (fazendas destinadas especialmente à criaçao de touros de lídia, ou seja, para as corridas) e se começa a selecionar touros para as touradas. Também são construídas as primeiras Plazas de Toros como um local permanente destinados às touradas. Abaixo, vemos a Plaza de Las Ventas, em Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalmente, se escrevem as primeiras “Tauromaquias”, obras que fixaram as técnicas e normas que passaram a definir a “Arte de Torear”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAExistiam duas correntes regionais cuja combinação deu origem ao Toreo Moderno, a escola vasco-navarra e a andaluza. A primeira se caracterizava pelos saltos realizados pelos toureiros, sem grande sofisticaçao. Desta variedade de tourear deixou uma impressionante documentação gráfica o genial pintor Francisco de Goya, que era um apaixonado pelas touradas, presenciando muitos espetáculos.

20150816_112339Já a escola andaluza utilizava capas para enganar o touro. Durante décadas, ambos estilos disputaram a supremacia do público, saindo vitorioso o modelo andaluz.

20150816_112313Se considera o toureiro Francisco Romero o “Pai do Toreo Moderno” e Ronda, sua cidade natal (Província de Málaga, Andalucía), o berço da “Arte de Torear”. Fundador de uma célebre dinastia de toureiros, Francisco Romero dividiu as corridas de touros em tres partes chamadas tercios (tercio de varas, de banderillas e de morte), que permanece vigente até os dias atuais. Seu neto Pedro Romero é conhecido até hoje como um dos principais toureiros da história. Abaixo, vemos uma estátua em Ronda que homenageia a Pedro Romero

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOs toureiros Pepe-Hillo e Costillares foram outros grandes nomes deste período inicial que triunfou na Espanha, finalizando com a Guerra da Independência Espanhola no início do século XIX. Terminada a guerra e com o desaparecimento destas figuras lendárias, as festas taurinas entram num período de decadência. Ganha um novo impulso com a chegada de outros toureiros de renome a partir de 1830, como “Paquiro”, conhecido como o “Napoleão dos Toureiros” e Rafael Guerra “Guerrita”, que dominaram o panorama taurino no final do século. Abaixo, vemos a histórica Plaza de Toros de Ronda

OLYMPUS DIGITAL CAMERA No final do século XIX, se proibiram na Argentina as corridas de touros (até então um país com grande tradição taurina) sem que voltassem a ser praticadas até os dias atuais. No Chile, as touradas foram abolidas décadas antes, em 1823, junto com as brigas de galos e a abolição dos escravos. Durante o começo do século XX, toureiros mexicanos se destacaram, como Rafael González “Machaquito” e Ricardo Torres “Bombita”.

20170528_191642A denominada época dourada das touradas estendeu-se de 1910 a 1920, com nomes como Juan Belmonte, um dos toureiros mais populares da história, e José Gómez “Joselito”, com quem travou uma das maiores rivalidades conhecidas entre toureiros profissionais. Graças a eles, a popularidade das touradas alcançou cotas nunca antes vistas, e que não foi superada  jamais na sociedade espanhola. Somente em 1919, Juan Belmonte participou de 119 touradas, uma cifra recorde até então. Ambos toureiros se consideram os diestros (termo sinônimo a toureiro) mais importantes do Toreo Moderno. Belmonte como o criador da estética e Joselito como um toureiro total, dominador de todas as técnicas e aspectos da tauromaquia, desde o impulso que deu à construção de novas Plazas de Toros a detalhes relativos à seleçao de touros bravos, etc.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois da Guerra Civil Espanhola (1936/1939), se produz outro ressurgimento do mundo taurino, especialmente graças a Manolete, que para muitos foi o toureiro mais vertical da história. Sua morte em 1947 na Plaza de Toros de Linares comoveu a nação. Abaixo, vemos uma placa comemorativa ao grande toureiro na Plaza de Toros de Las Ventas de Madrid.

IMG_3459O universo taurino sobreviveu apaixonadamente com outra rivalidade histórica, protagonizada pelos toureiros Dominguín e Antonio Ordóñez. As décadas de 70 e 80 do século passado foram o período de maior expansão comercial das touradas, e muitas foram organizadas mundo afora, inclusive nos EUA, com a participaçao de “El Cordobés” e um matador americano, John Fulton. As novas figuras do mundo taurino apresentam uma grande diversidade de estilos, como o colombiano César Rincón e o espanhol José Tomás, que em 2008 bateu o recorde que durava 36 anos na Plaza de Toros de Madrid, ao cortar 4 orelhas de dois touros, uma façanha considerada épica. Finalizo a matéria com uma foto minha na Plaza de las Ventas de Madrid, dando uma de toureiro…

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Cáceres – Extremadura

Cáceres foi a cidade que escolhi como base para conhecer a parte norte da Comunidade de Extremadura. Com quase 100 mil habitantes, Cáceres é a cidade mais populosa da parte norte da comunidade e considerada o município mais extenso de toda a Espanha (1.750 km quadrados).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos centros medievais mais importantes de todo o continente europeu, Cáceres foi declarada Patrimônio da Humanidade em 1986. Fundada pelos romanos, a cidade foi, no entanto, ocupada muito antes, como demonstram as pinturas rupestres encontradas em cavernas situadas na parte sul de seu núcleo urbano, como a Cueva de Maltravieso, cujas pinturas remontam a 20 mil anos atrás. Também foi ocupada pelos povos ibéricos, que construíram um castro (povoado ibérico) na região.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Cáceres foi fundada pelos romanos no ano de 28 aC com  a denominaçao de “Norba Caesarina“, em homenagem ao general romano Cayo Norbano Flaco, seu fundador, e ao Imperador Júlio César. Este primitivo núcleo transformou-se com o tempo no atual Centro Histórico da cidade. A cidade foi construída num local estratégico, na atualmente denominada Vía de la Plata, um caminho que unia as cidades de Astorga, no norte do país, com Mérida (Extremadura) e Sevilha (Andaluzia). Deste nome antigo, Norba Caesarina, procede o atual nome da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACom a chegada dos Visigodos no final do século V, o anterior assentamento romano foi arrasado e até os séculos VIII e IX não existem nenhuma referência à cidade. Foram os muçulmanos que aproveitaram sua localização estratégica e o que sobrou da antiga colônia romana como base militar para combater os reinos cristianos do norte. Desta forma, em 1147, Abd al-Mumin refundou a cidade e, a partir do século XII, árabes e cristãos se sucederam alternativamente no governo de Cáceres.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1169, o Rei Fernando II conquistou a cidade, entregando-a a um grupo de cavalheiros que constituíram uma ordem religiosa e militar, embrião da futura Ordem de Santiago. Quatro anos depois, Abu Yaqub reconquistou a cidade para os muçulmanos, ordenando degolar a maioria destes cavalheiros. A partir de 1212, data da vitória cristã na famosa Batalha de Navas de Tolosa, os avanços cristianos na Extremadura foram definitivos e em 1218 as Ordens Militares de Alcântara e de Santiago ampliaram seus domínios por quase toda a zona. Finalmente, em 1229, Cáceres foi definitivamente reconquistada pelo Rei Alfonso IX de León. O fato ocorreu precisamente no dia 23 de Abril, dia de São Jorge, que foi declarado padroeiro da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO falecimento de Alfonso IX de León um ano depois da reconquista fez com que Cáceres passasse a integrar o antigo Reino de Castilla. No século XIV, sucessivas lutas entre a nobreza local fez com que os Reis Católicos, no século seguinte, ordenassem a derrubada das torres defensivas pertencentes a estas famílias.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante as décadas seguintes ao Descobrimento da América, em Cáceres nasceram várias personalidades que desempenharam um importante papel no novo continente, ocupando cargos de relêvancia, como Diego García de Cáceres. Em 1790, ocorreu um fato decisivo para sua história, quando o Rei Carlos IV estabeleceu na cidade a sede da Real Audiência de Extremadura, o máximo órgão jurídico da região, fato que a transformou de uma simples vila a constituir uma cidade importante.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XIX, com a divisao administrativa de Extremadura em duas províncias, Cáceres foi designada capital de sua parte norte, enquanto Badajoz tornou-se a capital da província da metade sul. No verão de 1936, no início da Guerra Civil Espanhola, o General Franco estabeleceu em Cáceres seu quartel general. Atualmente, sua economia está baseada no setor de serviços, principalmente a construção e o turismo. Por ela passa o trem que liga Madrid a Lisboa, e transformou-se num dos principais destinos turísticos de toda a comunidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANesta nova série de matérias que hoje inicio, vocês poderão conhecer esta belíssima cidade e seu excepcional centro histórico, cuja visita é mais que recomendável….

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Hospital del Rey – Burgos

Nossa viagem por Castilla y León iniciou e finalizou-se em Burgos, capital da província homônima, e uma das cidades mais importantes do norte da Espanha. Estivemos dois dias na cidade, alugamos um carro para percorrer a Comarca de Las Merindades, e a ela retornamos para tomar um ônibus a Madrid.  Burgos foi o tema de uma série de várias matérias publicadas entre 28/9/2015 e 1/11/2015, quando publiquei posts relativos aos monumentos históricos mais importantes da cidade castelhana. Desta vez, pude mostrar a cidade a meu irmão Marcelo, e ainda conhecer lugares que não conhecia.

20150725_201436Burgos é uma das cidades fundamentais do Caminho Francês, o mais popular e famoso dos Caminhos que levam à Santiago de Compostela. Na Idade Média, o fluxo de peregrinos era intenso, de forma que foi necessária a construção de centros assistenciais para auxiliar àqueles que realizavam o caminho. Um dos mais importantes de toda a rota jacobea, o Hospital del Rey encontra-se na saída da cidade…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste hospital foi fundado pelo Rei Alfonso VIII de Castilla e por sua esposa Leonor no ano de 1195. Sua construção reflete a importância de Burgos na Idade Média, e desde sua fundação até o século passado esteve governado pelo Real Monastério de las Huelgas, situado próximo ao hospital (sobre este importante  monastério, ver a matéria publicada em 27/10/2015). Abaixo, vemos uma foto do monastério…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAntes de entrar no hospital, se construiu uma Ermita, dedicado a Santo Amaro, e um cemitério, onde os peregrinos  falecidos eram enterrados.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos a Porta de los Romeros, a principal porta de entrada ao Hospital del Rey. Ao longo do tempo, o hospital foi reformado, e esta bela porta foi construída já no século XVI no estilo renascentista por Juan de Salas. A seguir, vemos duas fotos, de sua parte externa e também desde o interior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XV, o Hospital del Rey chegou a contar com 87 leitos, um número considerável para a época. Sua excelente estrutura fez com que fosse considerado o melhor centro assistencial de todo o Caminho de Santiago. A igreja atual é barroca e data do século XVII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERA Se conservam, no entanto, elementos construtivos de época anterior, como este arco ojival…

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante a Guerra Civil Espanhola do século XX (1936/1939), o Hospital del Rey foi utilizado pelo bando nacionalista como hospital das tropas marroquinas que integravam o exército de Franco. Se construiu, inclusive, uma mesquita, que infelizmente não se conservou.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAtualmente, o antigo hospital foi convertido na sede da Universidade de Burgos, onde se situa o Reitorado, uma Biblioteca e a Faculdade de Direito.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFelizmente, sua parte histórica está protegida desde 1931, quando o Hospital del Rey foi declarado monumento histórico em 1931, na categoria de Bem de Interesse Cultural (BIC).

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Castelo da Alameda – Madrid

Depois de 8 anos vivendo em Madrid, descobri que a cidade possui um castelo pouco conhecido até mesmo pelos próprios madrilenhos, o Castelo da Alameda, assim denominado por estar situado no Bairro de Alameda de Osuna, na zona nordeste da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERALamentavelmente, o que sobreviveu da fortaleza constitui apenas uma pequena parte do castelo original construído em torno ao ano 1400 por uma das famílias mais poderosas da época, a dos Mendoza. O castelo foi edificado por Diego Hurtado de Mendoza, pai de Iñigo López de Mendoza, que recebeu o título de Marquês de Santillana. Com a chegada da Dinastia dos Trastâmara ao poder com o monarca Enrique II em 1369, iniciou-se um processo de “senhorização”, no qual os nobres partidários dos reis receberam, graças ao apoio oferecido, direitos jurídicos e econômicos sobre os territórios da coroa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra fortificação pertencente ao Senhorio dos Mendoza na Comunidade de Madrid é o Castelo de Manzanares El Real, um dos mais belos de toda a comunidade (post publicado em 23/3/2012).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Castelo da Alameda tinha suas dependências organizadas em torno a um pátio, com torres nas esquinas e um grande fosso defensivo ao redor do conjunto (com 12 m de largura por 6 m de profundidade). Sua função era evitar que o inimigo pudesse escapar dos projéteis lançados e também para aumentar o tamanho de seus muros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPara atravessar o fosso havia uma ponte, formada por uma parte maciça e outra de madeira.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA estância principal do castelo estava formada pela Torre da Homenagem, que infelizmente não se conservou. Nela, o senhor recebia a homenagem de seus vassalos, um ato protocolário em que ambos realizavam um pacto de fidelidade: em troca da proteção do senhor, além de terras e direitos, os vassalos se comprometiam a entregar-lhes suas rendas e servir-lhes com suas armas. Podemos imaginar como era a Torre de Homenagem graças à torre da mesma época que se conserva na cidade de Pinto, situada a pouca distância de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEntre 1555 e 1580, o castelo sofreu uma profunda reforma, transformando a antiga residência fortificada num Palácio Rural de estilo renascentista, com jardins, fontes e um fosso ainda mais amplo. A velha nobreza guerreira medieval se havia convertido numa classe aristocrática que tinha preferência pela vida urbana, mas que também apreciava cômodas residências no âmbito rural para seu descanso.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta reforma foi realizada pela família dos Zapata que, por motivos matrimoniais, adquiririu a propriedade destas terras e também do castelo. Seu membro mais importante foi Francisco Zapata de Cisneros, que alcançou um posto relevante na corte de Felipe II, recebendo o título de Conde de Barajas. O fosso, que originalmente possuía uma função defensiva, acolheu um exuberante jardim com várias espécies vegetais, e também uma horta, onde se cultivavam legumes e hortaliças. Em cada uma das esquinas do fosso se construíram fontes e um sistema de canalização de água.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs dependências interiores também foram renovadas, e a construçao passou a ter três andares, em vez dos dois andares do castelo original. Na parte superior se abriram janelas com vistas ao jardim.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs Zapata, sempre fiéis à monarquia, emprestaram sua residência para que fosse utilizada pela justiça real como prisão de vários personagens, entre os quais Don Fernando Álvarez de Toledo, o III Duque de Alba, famoso e temível governador de Flandres. Em 1599 serviu de aposento para a Rainha Margarita de Austria, antes de realizar sua entrada em Madrid depois de casarse com Felipe III, em Valencia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAo longo do século XVII, a situação social dos Zapata sofreu um grande declínio e em 1697 um incêndio destruiu o castelo, que não voltou a ser ocupado. Em 1785, com autorização municipal, a Duquesa de Osuna ordenou a extração dos materiais construtivos do castelo para edificar um palacete situado no belíssimo Parque do Capricho, a pouca distância da fortaleza (ver matérias publicas nos dias 13/2 e 15/2/2014). O resultado foi a demolição de boa parte da estrutura, com a Torre de Homenagem incluída. A partir dos anos 60 do século XX, com a crescente imigração que Madrid sofreu, antigas aldeias foram incorporadas ao município, transformando-se em bairros residenciais, caso da Alameda. Entre 1986 e 1990 foram realizadas as primeiras investigações arqueológicas no recinto do castelo. Abaixo, vemos uma imagem aérea da época.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA recuperação arquitetônica do Castelo da Alameda finalizou em 2010, e atualmente podemos visitá-lo. A seguir, uma imagem realizada após a reabilitação.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAComo interessante curiosidade, ao lado do castelo se conserva uma casamata utilizada durante a Guerra Civil Espanhola (1936/1939).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFeita de concreto armado, a estrutura encontra-se semienterrada, oferecendo uma menor superfície aos impactos da artilharia, protegendo seus atiradores. Por incrível que pareça, as escavações realizadas permitem afirmar que foi utilizada como residência após o término da Guerra Civil. As ruínas do castelo também foram usadas como fortaleza improvisada. Sob o castelo escavou-se um túnel para servir de refúgio e talvez como depósito de armas.

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