Arenas de San Pedro – Parte 2

No século XVIII, o pequeno município de Arenas de San Pedro converteu-se num local importante graças à presença de um membro da família real espanhola da época, o Infante Don Luis de Borbón y Farnésio (1717/1785), que estabeleceu  sua residência na cidade. Filho do Rei Felipe V (o primeiro monarca da dinastia bourbônica da Espanha) e de sua segunda esposa, Isabel de Farnésio, e irmão do Rei Carlos III, o infante Don Luis encarregou ao arquiteto Ventura Rodríguez (1717/1785), um dos mais renomados arquitetos do século XVIII no país, um grande palácio que ainda hoje podemos ver na cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO infante havia sido desterrado da corte de Madrid depois de casar-se com Maria Teresa Vallabriga, considerado um matrimônio morganático, isto é, aquele que estabelece a união entre duas pessoas de classes sociais diferentes, impedindo que os filhos obtivessem títulos, privilégios e propriedades nobres. Anteriormente, o infante havia vivido num outro palácio, também construído por Ventura Rodríguez, numa cidade próxima a Madrid, Boadilla del Monte (ver post publicado em 19/3/2015), e posteriormente se mudou para Arenas de San Pedro. O palácio foi finalizado em 1783, mas a obra permaneceu inacabada, sendo que se construiu apenas a metade do projeto original, devido a sua grande envergadura e a avançada idade do infante.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEdificado no estilo neoclássico, destacam em sua arquitetura a simetria e proporção de suas linhas, além da sobriedade decorativa, elementos característicos do estilo. O infante Don Luis viveu poucos anos no palácio, coincidindo com uma época de grande prosperidade para a vila, e nele veio a falecer em 1785. Amante das artes e das ciências, o infante formou no palácio uma rica coleção de pintura e escultura, convocando diversos artistas famosos da época, como o grande pintor Francisco de Goya, que realizou um retrato do infante, sendo homenageado com o nome de uma praça situada ao lado do palácio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO infante criou também um Gabinete de História Natural e uma esplêndida biblioteca. Depois de seu falecimento, o palácio começou a ser esvaziado, processo que terminou em 1796. Em 1809, durante a Guerra da Independência Espanhola, o palácio foi ocupado pelas tropas francesas e transformado num seminário a partir de 1868, sendo destinado a este fim até 1972. Abaixo, vemos o esbelto pórtico de entrada do palácio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1988 o palácio foi adquirido pela prefeitura de Arenas de San Pedro, e passou a ser utilizado como local de exposições e, inclusive, para desfiles de moda.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANum dos muros de um colégio da cidade, me chamou a atenção uma pintura, na qual foi representado o arquiteto Ventura Rodríguez, realizando o projeto do palácio…

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois de visitar o exterior do palácio, continuei minha caminhada em busca de outros lugares históricos, como o antigo Hospital de San Bartolomé, que acolheu a pobres e viajantes entre os séculos XVI e XIX.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANuma das praças principais da cidade, vemos a Igreja de San Juan Bautista, que pertenceu ao desaparecido monastério carmelita fundado por Santa Teresa de Ávila no século XVI. Depois, passou a fazer parte de outro convento, pertencente à comunidade de religiosas da Ordem de Santo Agostinho, desde sua fundação em 1623 até o abandono do mesmo, provocado pela destruição do convento durante a ocupação francesa de 1809.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos uma geral da praça, com uma das inúmeras fontes históricas existentes na cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPara conhecer o patrimônio histórico da cidade, convém dar uma chegada em sua Oficina de Turismo, situada no edifício do Mercado de Abastos de Arenas…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post sobre Arenas de San Pedro, vocês conhecerão um dos principais monumentos da cidade, seu imponente castelo…

Museu Lázaro Galdiano – Pintura Espanhola (Parte 2)

Lázaro Galdiano formou uma pinacoteca que, além de seu enorme valor, servisse de referência para avaliar a importância artística da Espanha e de sua própria história. Como outros grandes colecionadores da época, mostrou especial predileção pelos retratos de homens e mulheres ilustres, cuja coleção presente no museu é representativa de vários períodos, como veremos a seguir. O pintor Alonso Sánchez Coelho (1531/1588), por exemplo, tornou-se famoso por sua capacidade como retratista. Pintor de câmara do rei Felipe II, suas obras enaltecem os detalhes e a penetração psicológica do personagem, como neste quadro de Ana de Áustria (1549/1580), quarta esposa do rei Felipe II.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta obra é considerada uma das mais refinadas da pintura cortesana do reinado de Felipe II. Do período barroco, destacam os retratos de Sebastián Herrera Barnuevo (Madrid-1619/1671). Além de pintor de câmara do rei Carlos II, foi também escultor e arquiteto. Realizou o retrato do monarca quando menino, que vemos abaixo. Carlos II (Madrid-1661/1700) passaria a posteridade com o apelido de “El Hechizado” (O Enfeitiçado) por seus problemas de saúde, baixa estatura e esterilidade. Filho e herdeiro de Felipe IV e Mariana de Äustria, morreu sem descendência, fato que provocou a Guerra da Sucessão Espanhola e a chegada da Dinastia dos Bourbones ao trono espanhol, com o rei Felipe V.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs monarcas e rainhas de Espanha foram representados não só por pintores espanhóis, mas também por artistas estrangeiros, como Ticiano, por exemplo. Considerado um dos precursores do neoclassicismo, Anton Raphael Mengs (1728/1779) foi um grande  pintor alemão, além de teórico da arte, tornando-se célebre pelos retratos que realizou da corte europeia. Foi convidado pelo rei Carlos III para residir em Madrid, e nomeado pintor real. Retratou o monarca nesta importante obra que vemos na sequência. Carlos III (Madrid-1716/1788) era filho de Felipe V e Isabel de Farnesio. Entre 1734 e 1759 tornou-se o Rei de Nápoles e Sicília. Em 1759 foi proclamado Rei de Espanha, cujo reinado caracterizou-se pelas amplas reformas urbanas realizadas na capital. Por este motivo, passou a ser conhecido como o Rei Alcalde, sendo considerado até hoje como um dos melhores administradores que a cidade já teve em sua história.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA estética neoclássica na Espanha foi enriquecida com a obra de Zacarías González Velázquez (Madrid-1763/1834). Formado pela Real Academia de Belas Artes de San Fernando em Madrid, tornou-se posteriormente diretor desta instituição fundamental na vida artística do país. Sua capacidade criativa pode ser apreciada no refinamento de suas obras, que pode ser vista no quadro em que representa a Manuela González Velázquez tocando o piano, um quadro de forte influência francesa pintado entre 1820 e 1821.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos artistas espanhóis mais admirados por Lázaro Galdiano foi Francisco de Goya. Adquiriu várias obras do pintor aragonês, cujo conjunto representa uma das maiores atrações do museu. Abaixo, o Enterro de Cristo, realizado entre 1771 e 1772.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO quadro La Era ou El Verano, de 1786…

OLYMPUS DIGITAL CAMERADo período compreendido entre 1797 e 1799, o Museu Lázaro Galdiano conta com várias obras do pintor, como esta Madalena Penitente, de grande influência impressionista.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa imagem abaixo, vemos a Santa Isabel curando as chagas de um enferma (esquerda) e San Hermenegildo na prisão (direita).

OLYMPUS DIGITAL CAMERADuas das obras mais apreciadas do acervo pictórico do museu representam o mundo tenebroso de Goya, como o quadro El Conjuro o las Brujas

OLYMPUS DIGITAL CAMERAE o Aquelarre, nome pelo qual se conhece as reuniões de bruxas para a realização de rituais e feitiços.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA presença de artistas estrangeiros na coleção de Lázaro Galdiano ampliaria o conhecimento do povo espanhol em relação à arte que se desenvolvia no continente, contribuindo para sua educação cultural. No próximo post, veremos algumas das principais obras das escolas italiana, flamenca, alemã, etc, presentes no museu.

Interior do Palácio Real de Madrid

Como dissemos no post anterior, Felipe V foi o monarca espanhol que ordenou a construção do novo Palácio Real de Madrid, no mesmo local do antigo Alcázar que se incendiou em 1734. No entanto, o rei faleceu em 1746, e o palácio estava longe de estar terminado. Sua segunda esposa, Isabel de Farnésio, trouxe então da Itália, seu país natal, carpinteiros e mão de obra especializada para a finalização do projeto. As obras prosseguiram durante o reinado de seu filho Fernando VI. Quando seu irmão, Carlos III acende ao trono espanhol em 1759, ainda não havia sido concluído, razão pela qual este rei viveu no Palácio del Buen Retiro, situado no parque de mesmo nome. O rei substituiu o anterior arquiteto Juan Bautista Sachetti pelo também italiano Francisco de Sabatini, construtor  da famosa Porta de Alcalá de Madrid, entre outras obras. Sabatini realizou uma monumental escada  em 1765, que permite o acesso às várias dependências do palácio. A partir de 1764, Carlos III torna-se a ser o primeiro rei a viver no novo Palácio Real.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlém de Sabatini, Carlos III trouxe uma comitiva de pintores italianos para a decoração pictórica do interior do palácio. Acima, vemos a magistral bôveda pintada por Corrado Giaquinto, que vemos desde a escada principal projetada por Sabatini. A pintura representa a Religião protegida pela Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO recinto onde se encontra a grande escada é enorme, sendo o único local do interior do palácio onde as fotos estão permitidas. Abaixo, vemos algumas imagens deste local impressionante.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADe frente para escada, foi colocada uma estátua representando os reis espanhóis, como se fossem imperadores romanos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAUma vez que subimos a escada, as dependências visitáveis do palácio vão se sucedendo, uma mais bela que a outra, pena que as fotos estão proibidas…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Palácio Real foi construído em torno a um grande pátio, centro onde se distribuem as distintas salas do mesmo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs galerias que conformam a parte interior possibilitam o acesso a cada um dos recintos do palácio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm uma delas, vemos as estátuas dos Reis Católicos, Isabel de Castela e Fernando de Aragão

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAConhecer o interior do Palácio Real de Madrid é uma experiência fascinante e , ao mesmo tempo, arrebatadora, diante de tamanha beleza e sofisticação. Um motivo mais, entre inúmeros, para conhecer a linda capital da Espanha.

Pedro de Ribera

Depois de alguns dias de férias, retorno com uma vontade redobrada para mostrar a vocês mais lugares referentes do patrimônio espanhol e os personagens mais ilustres de sua cultura. O post de hoje e o próximo estarao dedicados a Pedro de Ribera, um dos arquitetos barrocos mais importantes do panorama artístico do país, que deixou uma marca inconfundível na paisagem urbana de Madrid. A matéria serve também como conclusao da série de posts sobre o Bairro de Lavapiés, pois na Calle del Oso nasceu o arquiteto em 1681 e no bairro residiu ao longo de sua vida, como comprova o edifício de sua propriedade que vemos abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAPedro de Ribera é considerado um arquiteto autodidata, que foi capaz de criar um estilo próprio. No início, Ribera alistou-se no exército de Felipe V, levantando as barracas de campanha feitas de madeira, ofício que aprendeu de seu pai, que era carpinteiro. Já como arquiteto, trabalhou com Teodoro Ardemans e José Benito de Churriguera, do qual é considerado discípulo, que também viveu no Bairro de Lavapiés. Estes três nomes formam o grupo mais representativo do chamado Barroco Castizo de Madrid, pertencente à fase final do estilo. No entanto, a fama que Ribera adquiriu atualmente, nao coincide com o desprezo que a Real Academia de Belas Artes outorgava às suas obras, bem como pelo monarca Felipe V e sua esposa Isabel de Farnésio, que nao eram partidários da arquitetura barroca realizada pelos arquitetos espanhóis, preferindo a  estética neoclássica que se estava desenvolvendo na Itália e na França no séc. XVIII. Abaixo, vemos uma escultura do monarca, que podemos ver no Palácio Real deMadrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAApesar da ditadura do neoclacissismo imposta na época, Pedro de Ribera logrou um êxito profissional que se deve em parte ao bom relacionamento que possuía com o Marquês de Vadillo, considerado um dos melhores prefeitos que Madrid já teve, que o apoiou em muitas de suas obras. Abaixo, vemos um retrato do marquês, realizado em 1729 pelo pintor Miguel Jacinto Meléndez,  no ano de seu falecimento.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA colaboraçao entre ambos se manteve até o final da vida do marquês, que foi enterrado num sepulcro existente na Ermita de la Virgen del Puerto, realizado por Ribera. Esta foi a primeira obra de importância do arquiteto em Madrid, considerada um dos primeiros edifícios barrocos do país.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAConstruída entre 1716 /1718, foi destruída durante a Guerra Civil Espanhola, pois se encontrava numa das frentes de batalha da disputa. Foi reconstruída em 1945, depois de ter sido declarada Monumento Nacional. Para maiores informaçoes, ver o post publicado em 13/7/2013. Abaixo, vemos o sepulcro do Marquês de Vadillo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1718, Ribera é nomeado ajudante de Teodoro Ardemans, entao Mestre Maior das Obras e Fontes de Madrid, cargo que passa a ocupar depois da morte deste último. Nesta privilegiada posiçao, Pedro de Ribera começa a realizar obras para a corte, apesar da preferência do rei pelos arquitetos estrangeiros. Um dos encargos recebidos por Felipe V foi a construçao da Ponte de Toledo, a terceira existente no local, sendo que as duas anteriores forma destruídas com as enchentes provocadas pelo Rio Manzanares. Construída com granito, foi edificada entre 1718 e 1732, e declarada Monumento Histórico-Artístico em 1956 (publicada em 18/4/2012).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERARibera edificou, total ou parcialmente, algumas das igrejas mais conhecidas da cidade, como a Igreja de San José, entre 1730 e 1748 (matéria publicada em 10 e 11/4/2014).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERALevantou também a torre da Igreja de Montserrat em 1729 (publicada em 20/1/2014), cuja técnica e esmero empregado é uma marca característica do arquiteto.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das principais senhas de identidade de Ribera sao as fachadas de pedra dos edifícios que construiu. Um exemplo notável vemos no Quartel do Conde Duque, cuja matéria foi publicada em 12/4/2015.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFelipe V ordenou ao arquiteto a construçao deste edifício, o maior de Madrid na época (224m de comprimento x 82m de largura). A fachada é um exemplo do estilo churrigueresco, realizada como se fosse um retábulo de pedra. No alto vemos o escudo do monarca com a inscriçao: “Reinando Felipe V, ano 1720”.

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