A Judería de Toledo: Parte Final

A sociedade plural e tolerante de Toledo inicia sua decadência a partir do século XIV. Em 1391 ocorreram os primeiros ataques dos católicos contra a Judería Toledana. A convivência entre ambas comunidades se agravou quando o Rei Pedro I de Castilla, último monarca que protegeu a judeus e muçulmanos, foi assassinado por seu irmao Enrique de Trastámara durante a guerra civil travada em Castilla pelos direitos de sucessão ao trono. Nesta época, os monarcas castelhanos empreenderam um proceso para a construção de um estado moderno com a oposição da nobreza, que desejava manter seu poder. Estes viam na comunidade judaica colaboradores do poder real, que fez com que aumentasse o ódio dos inimigos que não desejavam o fortalecimento dos monarcas. Samuel Leví, tesoureiro maior de Pedro I, prestou inúmeros serviços para o rei. No entanto, devido aos problemas entre cristãos e judeus, o rei proibiu a construção de novas sinagogas, mas não pôde negar a seu amigo que edificasse a Sinagoga do Trânsito, pelo apoio recebido contra seu irmão Enrique, que almejava o trono. Apesar disso, o rei mandou prendê-lo e logo depois foi executado em 1361. Abaixo, vemos uma foto desta Sinagoga, atualmente sede do Museu Sefardí.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANão se sabe exatamente quantos judeus viviam na Espanha na Idade Média, mas seguramente era o país com a maior população judaica da Europa. Em Toledo viviam cerca de 350 famílias, que representava a maior comunidade de Castilla. Em todo o país, existiam outras juderías importantes, como as de Sevilha, Barcelona, Zaragoza, Tudela, etc. Nos primeiros tempos da reconquista, os judeus gozaram de uma situação jurídica especial, pois os monarcas os consideravam uma propriedade real, pertencentes ao tesouro real, e por este motivo eram protegidos. Este fato possibilitou que os judeus tivessem acesso direto aos reis, e privilégios foram concedidos. Um deles constituía numa multa coletiva, aplicada a uma cidade quando aparecia um judeu morto e o assassino não era encontrado.

DSC09355Os cristãos não viam com bons olhos as doações realizadas pelos monarcas às comunidades judaicas, nem os privilégios que ostentavam. No século XIII entra em vigor a lei eclesiástica que proibia o empréstimo com juros (usura), justamente num momento em que vários membros da comunidade judaica se especializaram em negócios financeiros. O ambiente social se agravou com a chegada na Península Ibérica das idéias anti judaicas reinantes pelo resto do continente europeu, e a propaganda contra a comunidade cresceu por todas as partes. As acusações contra os judeus de terem envenenado a água e de profanar hóstias consagradas aumentaram com a peste negra que assolou o continente entre 1348 e 1350. Também no ano de 1391 chegou à Toledo San Vicente Ferrer, monge dominicano e anti judeu declarado, que exaltou os ânimos contra a população judaica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANesta época já existiam na Espanha judeus que se converteram ao catolicismo. A partir do momento em que começaram a ocupar cargos de importância se criou uma atmosfera de inimizade e ódio. Quando se descobriu que muitos deles mantinham seus antigos rituais hebraicos, iniciou-se uma guerra aberta contra as comunidades judaicas no país. Uma das mais importantes ocorreu em Toledo em 1449. Os ataques se sucederam e grande parte das 12 sinagogas da cidade foram destruídas, além de muitas das casas habitadas por judeus. Apenas se conservaram as duas sinagogas que vemos atualmente, a de Santa María la Blanca e a Sinangoga do Trânsito, pois foram transformadas em igrejas católicas. Abaixo, vemos uma imagem interior da Sinagoga de Santa María

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPara solucionar o problema converso, os Reis Católicos obtiveram em 1478 uma bula papal autorizando a criação do Tribunal de Santo Ofício da Inquisição. Dois anos depois, foram nomeados os primeiros inquisidores, que começaram a atuar em Sevilha, e instigaram os monarcas para que a comunidade judaica fosse expulsa do país. Em 1480, foi promulgada uma lei real em Toledo que estabelecia novos bairros para a população judaica, situado fora do centro histórico da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalmente, em 1492 os Reis Católicos decretaram o édito de expulsão dos judeus da Espanha. Num prazo de 4 meses, todos aqueles que não optassem pela conversão tiveram que deixar o país. Os bens comunitários, sinagogas e cemitérios, por exemplo, foram confiscados pelo tesouro real. A expulsão gerou uma série de problemas, originados pela falta de pessoas com boa preparação intelectual e mão de obra qualificada. Muitas foram as explicações dadas pelos estudiosos sobre a decisão dos Reis Católicos, como a própria ambição real, que desejavam confiscar os bens da comunidade judaica. Outra razão foi a luta entre a nobreza e as grandes somas de dinheiro que os reis e a própria nobreza deviam a financeiros judaicos. Os judeus que permaneceram no país, obrigados à conversão, tomaram esta atitude para não perder seus bens, mas continuaram a serem perseguidos, principalmente quando mantinham suas tradições na intimidade do lar. Os judeus conversos foram apartados do poder, já que lhes exigiam responder ao denominado estatuto de “Pureza de Sangue“, sendo obrigados a demonstrar que seus antepassados eram cristãos velhos. Abaixo, vemos tumbas hebraicas de época medieval na Sinagoga do Trânsito.

DSC09454Se desconhece o número de judeus que partiram para outras terras, principalmente Portugal, Países Baixos, sendo que muitos foram acolhidos pelo antigo Império Otomano. O édito de 1492 representou um grande acontecimento em toda a Europa. Espanha, a terra européia judaica por excelência, lhes expulsava de seu território. Somente em 1968 se reconheceu oficialmente a abolição do édito promulgado pelos Reis Católicos. A comunidade judaica voltou a viver no país, e atualmente existem 12 delas espalhadas pelo território espanhol, principalmente em Madrid, Barcelona, Valencia, Palma de Mallorca, etc. Abaixo, vemos uma homenagem de Toledo aos judeus que viviam na cidade e que foram confinados e assassinados nos campos de extermínio nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois de 1492, o Bairro da Judería foi abandonado e ficou esquecido, mas muitas instituições religiosas católicas construíram conventos e monastérios em seu perímetro, como o Monastério de Santo Antônio, instalado em 1525 por uma comunidade de freiras franciscanas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOu o Convento de Carmelitas Descalças, a quinta instituição fundada por Santa Teresa de Ávila em seu processo de renovação da Ordem Carmelita (1569), que encontrou abrigo na Judería de Toledo….

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

A Judería de Toledo: Parte 4

Desde suas origens, a Judería de Toledo foi um bairro residencial, pois a atividade comercial se desenvolvia no centro da cidade. Ainda que os judeus podiam viver em qualquer parte da cidade, a maioria preferiu viver na zona oeste do recinto de muralhas da cidade, no local designado à comunidade judaica durante a dominação árabe. No bairro não existia uma muralha própria que o protegesse, estando composto por ruas estreitas e sinuosas, algumas delas sem saída.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma de suas ruas principais é a atualmente denominada Calle del Ángel, uma das artérias mais antigas de Toledo e que separava a judería com o resto da cidade. No meio da rua vemos um cobertizo, curiosas estruturas urbanas abundantes no centro histórico de Toledo (matéria publicada em 19/7/2017).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO nome desta rua se deve a uma pequena estátua gótica, decorada com um leão, situada na mesma. Uma lenda diz que uma dama da corte ficou doente e que um anjo lhe apareceu anunciando sua cura.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa Judería Toledana existiam estabelecimentos próprios para os banhos públicos e rituais (chamados Miqvés), e hoje em dia se conserva um deles na Calle del Ángel, que pode ser visitado. Infelizmente, nunca tive sorte, pois sempre que vou à cidade o encontro fechado. Este banho foi construído entre os séculos XI e XII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAs casas do bairro judeu, como as demais da cidade de Toledo, contava com um ou dois andares acima do térreo, além de uma parte subterrânea, aqui na Espanha denominada sótão. Normalmente, no interior das residências havia um pátio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma destas partes subterrâneas pode ser vista no Museu de El Greco, e sua estrutura lembram covas onde se instalaram armazéns de depósito e também um importante banho ritual.

DSC09382Normalmente possuíam um formato quadrado com cúpula octogonal, e podiam ser utilizados como reserva de água para os banhos ou como um local de banhos propriamente dito. Estas galerias constituem os únicos restos conservados do palácio que Samuel Leví, tesoureiro maior do Rei Pedro I, mandou construir a mediados do século XIV.

DSC09385Outra rua importante da Judería de Toledo é a atual Calle de San Juan de Dios, no século XV chamada de Calle de la Judería

OLYMPUS DIGITAL CAMERADentro dos limites da Judería Medieval existiam dois castelos, os chamados velho e novo. Infelizmente se conservam apenas ruínas, e poucas as informações referentes a eles. O Castelo Velho situava-se próximo à Sinagoga de Santa María La Blanca, e atualmente no local onde se localizava existe um hotel, que exibe restos do castelo em seu interior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAJá o Castelo Novo situava-se próximo à Ponte de San Martín, e atualmente podemos observar um muro e duas das torres da antiga fortaleza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERA

A Judería de Toledo: Parte 3

Depois que a cidade de Toledo foi reconquistada pelo monarca Alfonso VI em 1086, a boa convivência entre cristãos, árabes e judeus prosseguiu. Muitos dos muçulmanos mais ricos preferiram, no entanto, mudarem-se para a Andalucia, zona que ainda era governada por dirigentes árabes. Os que permaneceram na cidade passaram a ser denominados Mudéjares, que realizaram diversas construçoes para os reis castelhanos, contribuindo para o desenvolvimento do estilo mudéjar na cidade, uma de suas principais características e o estilo por excelência encontrado em Toledo. Abaixo, vemos um exemplo deste tipo de arquitetura encontrado na Judería de Toledo, a Igreja de Santo Tomé, famosa por acolher em seu interior o famoso quadro de El Greco, “O Enterro do Senhor de Orgaz”, tema de matérias publicadas em 28/1 e 29/1/2015. 

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA comunidade judaica prosperou porque alguns de seus membros foram nomeados para cargos de relevância dentro da corte, como conselheiros, médicos, astrólogos, financiadores etc, concedendo importantes benefícios para a sociedade judaica. Uma das personalidades mais famosas da Judería de Toledo foi Samuel Leví, tesoureiro maior do Rei Pedro I de Castilla.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERASamuel Leví foi o responsável pela construção de uma das sinagogas mais importantes de Toledo no século XIV (1357), denominada Sinagoga do Trânsito. Em 1971 passou a ser sede do Museu Sefardí, e representa um exemplo vivo da passagem da comunidade judaica pela Espanha e outra amostra do Mudéjar Toledano. Abaixo, vemos uma foto exterior deste templo de visita obrigatória…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos uma imagem do interior da Sinagoga do Trânsito.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Judería de Toledo chegou a contar com 12 sinagogas e 5 centros de estudo, dados que refletem a importância da comunidade na cidade castelhana. A outra sinagoga que se conservou, construída no final do século XII e declarada Monumento Nacional, é a Sinagoga de Santa María La Blanca, considerada a Sinagoga Maior de Toledo (matéria publicada em 27/6/2012).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Sinagoga de Sofer constituiu outro dos templos judaicos de importância, segundo as fontes documentais. No entanto, desta sinagoga se conservam apenas ruínas, que podem ser vistas em frente à Escola de Artes e Ofícios (publicado recentemente, em 22/7/2017), junto com restos arqueológicos referentes ao sistema hidráulico de época romana. Um pequena fonte de água identifica os restos conservados e na parte subterrânea podemos ver as ruínas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAlém das comunidades árabes e judia, a comunidade cristã se incrementou de forma notável depois da reconquista de Toledo. Num primeiro momento, os antigos mozárabes (católicos que viveram sob o poder muçulmano) conservaram suas tradições e continuaram utilizando o idioma árabe para a escritura de documentos. Numerosos grupos chegaram à cidade oriundos do norte da península, Portugal, França e da Europa Central. Este conjunto de culturas distintas estabeleceram laços de convivência, mas eram regidos por suas próprias leis. A sexta feira, por exemplo, era o dia sagrado para os muçulmanos, o sábado para os judeus e o domingo para os católicos. Seus rituais eram diferentes, e sua forma de vestir e de se alimentar também. Apesar disso, os membros das três culturas passeavam pelas mesmas ruas, compravam nos mesmos estabelecimentos comerciais, existindo relações de amizade e amor entre eles. É neste período em que se manifesta o auge cultural da cidade, culminando na fundação da famosa Escola de Tradutores de Toledo pelo Rei Alfonso X “El Sábio” (reinou entre 1241 e 1264), uma instituição na qual se reunia os grandes sábios das três comunidades. Foram eles que realizaram a tradução do árabe e do hebreu para o latim das grandes obras filosóficas e científicas da antiguidade clássica. Também nesta época se completa a configuração urbana herdada dos árabes, formada por um labirinto de ruas com construções mudéjares que propiciaram uma certa uniformidade à paisagem de Toledo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos a Porta del Cambrón, considerada a porta de acesso à Judería de Toledo. De origem muçulmana (séculos X e XI), seu nome se deve à presença no local de plantas espinhosas denominadas cambroneras, mas sempre foi conhecida como a Porta dos Judeus.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASeu aspecto atual é o resultado de reformas realizadas entre 1572 e 1577 durante o reinado de Felipe II, quando foi rebatizada como Porta de Santa Leocádia, padroeira da cidade, cuja imagem preside a porta, debaixo do escudo de Felipe II.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA seguir vemos uma foto da parte externa da Porta del Cambrón

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

A Judería de Toledo: Parte 2

Na matéria de hoje, veremos um pouco da histórica presença da comunidade judaica na Espanha, durante as várias etapas por qual passou o país, e as relações travadas com os diversos povos que governaram o território durante mais de mil anos. As fotos publicadas foram tiradas na Judería de Toledo. Parece que os judeus se assentaram em grande número na Europa Ocidental a partir do século III dC. Os primeiros textos que comentam a presença da comunidade judaica na Península Ibérica datam do século II aproximadamente, quando muitos judeus foram vendidos como escravos a famílias romanas assentadas em Hispania. Muitos outros chegaram à Europa depois da expulsão dos judeus de Jerusalém por parte do Imperador Vespasiano e de seu filho Tito, ocorrida logo após a destruição do Templo de Salomão em 70 dC. Em território espanhol, a sinagoga mais antiga, encontrada em Elche, data do século IV dC. Também desta época é o testemunho mais antigo da presença judaica em Toledo, uma lâmpada decorada com um Menorah.

DSC09446Toledo é uma cidade historicamente conhecida pela tolerância em relação a povos de outras culturas. Sua origem se remonta ao período visigodo, entre os séculos VI e VII, quando foi a capital do Reino, na qual coexistiram três sociedades culturalmente distintas: a Visigoda, cujos reis eram adeptos do Arrianismo, a comunidade Hispano-Romana, que representava a maior parte da população, que eram católicos, e a judaica, que viviam num bairro próprio, embrião do que mais tarde seria a Judería de Toledo. Apesar de ocuparem o mesmo espaço urbano, cada um destes grupos eram regidos por suas próprias leis, que proibiam inclusive os casamentos mixtos.

DSC09277OLYMPUS DIGITAL CAMERAApesar das diferenças culturais, estes grupos conviveram durante um tempo sem grandes conflitos. A situação mudou quando os visigodos abandonaram o Arrianismo (doutrina considerada herética pela igreja católica oficial, pois negava o dogma da Santíssima Trindade) e o Rei Recaredo se converteu ao Catolicismo no III Concílio de Toledo, realizado em 589 dC. A partir deste momento, a religiao católica passa a ser oficialmente a religião estatal, produzindo uma maior união entre os visigodos e a antiga população hispano romana, em detrimento da comunidade judaica. Severas limitações foram impostas aos judeus, como a obrigação de educar seus filhos como se fossem cristãos e a proibição de realizarem seus ritos ancestrais. Em 694 dC, durante o IV Concílio de Toledo, o Rei Égica ordenou submeter a comunidade judaica à escravidão, requisitando todos seus bens, dando-lhes apenas a alternativa à conversão ao catolicismo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADevido a esta repressão imposta pelos governantes visigodos, algumas teorias afirmam que a comunidade judaica facilitou a conquista muçulmana a partir do século VIII, vendo estes povos como aliados diante de sua precária situação. Devido a tolerância dos muçulmanos, tanto cristãos quanto judeus puderam conservar seus costumes e tradições, pois da mesma forma que o Islamismo, o Catolicismo e o Judaísmo eram credos monoteístas e se baseavam na Bíblia, livro sagrado respeitado pelo Islã. Evidentemente, as práticas religiosas foram toleradas desde que aceitassem as leis estabelecidas pelo poder muçulmano, como a obrigação de pagar impostos e de viverem em locais separados, além da impossibilidade de ocuparem cargos de importância.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERASe pode afirmar que enquanto durou o domínio muçulmano, as três religiões conviveram de forma pacífica, originando o título de Toledo como Cidade das Três Culturas. Os cristaos passaram ser chamados de Mozárabes e seguiram praticando seus rituais nas 6 paróquias para o culto católico espalhadas por Toledo. Os judeus aumentaram sua riqueza e ampliaram o perímetro de seu bairro. Graças a esta prosperidade, muitos judeus imigraram à cidade desde vários lugares da península e mesmo da Europa.

DSC09459Abaixo, vemos uma típica rua da Judería de Toledo….

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMuitos nomes das ruas pertencentes à Judería de Toledo recordam a presença judaica na cidade…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERA

A Juderia de Segóvia – Parte 2

Nao se conhece nenhum censo medieval que quantificasse a populaçao de judeus na cidade de Segóvia. A Juderia Segoviana pagava seus impostos de maneira coletiva, dificultando o conhecimento de quantas pessoas a habitava. No entanto, se sabe que a finais do séc. XV contava com aproximadamente centenas de famílias, um número importante para a época.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAo longo da Idade Média, os judeus de Segóvia atuavam em três grandes âmbitos profissionais: aqueles dedicados às finanças (arrecadaçao de impostos, fiadores e emprestadores), os comerciantes e os que trabalhavam com o artesanato (mais numerosos). Além do mais, eram muito respeitados os judeus de profissao liberal, principalmente os médicos. A grande maioria deles tem uma historia desconhecida, e nem sequer sabemos seus nomes. Apenas os mais importantes tiveram seus nomes citados em documentos, como é o caso de Abrahan Seneor, o personagem mais destacado da Juderia de Segóvia. Seu ascenso social produziu-se na época dos Reis Católicos, agradecidos pelo apoio prestado por ele na consolidaçao da rainha Isabel I ao trono. A partir deste momento, sua carreira pública se dividiu entre os serviços prestados aos reis, a quem serviu com honestidade e eficiência, e a atividade política e jurídica desempenhada junto à comunidade judaica castelhana.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1488, foi nomeado Tesoureiro Maior, o cargo fiscal mais importante do reino, e Juiz Maior das Juderias, cargo que ocupou até a expulsao dos judeus em 1492. Depois de sua  inesperada conversao, recebeu outros diversos cargos de importância. Abrahan Seneor possuía uma das casas mais luxuosas do bairro, e atualmente sedia o Centro Didático da Juderia de Segóvia, um centro cultural que mostra de forma permanente o legado da cultura judaica na cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAo entrar no centro, podemos admirar o belo pátio interior, típico das classes nobres da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPodemos conhecer diversos objetos relacionados à comunidade judaica, como este exemplar de uma Bíblia Portuguesa do séc. XIII, na realidade um fragmento do Livro do Êxodo, que narra a fuga dos hebreus do Egito, e normalmente lidos nas cerimônias religiosas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOu entao este traje típico de um noivo sefardí, como sao conhecidos os judeus que viveram na Espanha naquela época.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Centro Didático da Judería é uma excelente opçao para todos aqueles que desejem aprofundar-se no conhecimento da história dos judeus , em particular da cidade de Segóvia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs Sinagogas, além de uma referência como local de oraçao e de formaçao doutrinal, eram consideradas também um centro da vida social e local de reunioes. Durante a presença judaica na cidade, existiram 5 sinagogas, que nao coincidiram como tal ao longo dos séculos de existência do bairro judeu. A denominada Sinagoga Maior era a mais importante, e sua data de construçao é desconhecida. Sua primeira mençao data de 1373, e no começo do séc. XV foi expropriada e consagrada como a Igreja do Corpus Christi.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos uma foto do interior da antiga sinagoga.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa sequência, uma imagem da fachada sul da sinagoga, situada junto à muralha da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA denominada Segunda Juderia de Segóvia, instituída pelos Reis Católicos, era quatro vezes maior que a primeira, e seu recinto era acessível por 8 portas situadas estratégicamente. A Porta de San Andrés era a principal. Além dela, existiam os chamados Postigos, portas menores que facilitavam o trânsito de pessoas, como o Postigo do Sol, também conhecido como da Juderia. Abaixo, vemos ambas portas de acesso ao bairro judeu, que se conservam atualmente.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos principais pontos de encontro era a praça que se abria no interior da Porta de San Andrés, hoje em dia conhecida como Praça do Socorro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA juderia possuia todas as dependências de uso comunitário para satisfazer suas necessidades básicas, como hospitais, escolas, etc. Abaixo, vemos no lado esquerdo da foto a antiga carniceria (açougue), documentada já em 1287,  e situada próxima à muralha para facilitar a evacuaçao dos restos dos animais para fora das mesmas. No séc. XV, transformou-se no matadouro da cidade, funçao que exerceu até princípios do séc. XX. Atualmente abriga o Museu de Segóvia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPassear pela Juderia de Segóvia nos permite conhecer a própria história do povo judeu, e apreciar belos recantos, disfrutando de sua cultura e também de sua gastronomia nos diversos restaurantes que oferecem deliciosos pratos típicos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

A Juderia de Segóvia

Na época medieval, Segóvia foi habitada por uma comunidade judaica que cumpriu um importante papel histórico no desenvolvimento da cidade. No entanto, o legado material que se conserva de sua presença é somente uma sombra daquilo que um segoviano podia contemplar em pleno séc. XV. Segóvia foi repovoada por Raimundo de Borgonha, genro do rei Alfonso VI, no séc. XI e desta época sao escassos os documentos relacionados aos judeus que viviam na cidade. A primeira notícia da existência de uma comunidade hebrea data de 1215, apesar de que foi somente em 1287 quando aparece documentado o nome do primeiro judeu, Salomón de Ávila. Já no séc. XIV, existe constância de uma próspera comunidade formada entre 50 e 100 famílias firmemente assentadas em Segóvia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADa mesma forma que em outras comunidades judaicas existentes no Reino, a Aljama (ou Juderia, o bairro onde viviam os judeus) de Segóvia encontrava-se sob a proteçao direta da monarquia castelhana. Mediante o pagamento de impostos, os judeus reconheciam a soberania e a vassalagem ao monarca, os quais, por sua vez, protegiam a comunidade através de oficiais encarregados de administrar a justiça. A história menciona também a estreita relaçao que mantiveram os judeus com a Catedral de Segóvia, pois a igreja e os bispos eram proprietários de muitos imóveis que eram alugados pelos judeus. Inclusive, muitos deles participaram nas reformas realizadas no templo catedralicio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma crise na Baixa Idade Média (1391/1419) acarretou uma grave mudança no convívio entre judeus e cristaos, devido a uma onda de ataques aos bairros judaicos de várias cidades do país (Toledo, Córdoba, Cuenca, etc). Até entao, os judeus viviam espalhados pelo perímetro urbano de Segóvia, mas em 1412 se promulgaram leis restritivas à comunidade judaica castelhana, proibindo o desempenho de certas atividades profissionais e establecendo uma segregaçao social, obrigando-os a viverem em bairros separados (cabe ressaltar que o mesmo sucedeu com os mouros). Assim, nasceu a Primeira Juderia de Segóvia. Sua situaçao piorou ainda mais quando vários judeus foram acusados de profanar a hóstia sagrada, bem como através dos discursos do frade dominicano Vicente Ferrer, que exigia a conversao ao catolicismo de todos os judeus habitantes do reino. Abaixo, vemos a Ermita  del Santo Cristo de la Cruz, construída no local de pregaçao do mencionado religioso.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADessa forma, surgiu um novo grupo social, forrmado pelos judeus conversos, também denominados cristaos novos. Apesar deste panorama sombrio, a Aljama de Segóvia situava-se entre as mais prósperas naquele momento. Na primeira metade do séc. XV, durante o reinado de Enrique IV, a populaçao judaica se recupera, pois o monarca estabele sua residência no Alcázar da cidade, aceitando servidores judeus e conversos no seu entorno particular. Entao, alguns judeus passaram a conviver com cristaos fora da juderia, em outras zonas da cidade. Em 1474, a filha de Enrique IV, Isabel I foi proclamada Rainha de Castilla y León em Segóvia, e um judeu chamado Abrahan Seneor desempenhou um papel destacado no acesso da rainha ao trono.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois de casar-se com Fernando de Aragao, o casal real passou a ser reconhecido como os Reis Católicos, que adotaram um programa de governo com drásticas consequências para os judeus. Novamente, a comunidade foi isolada num bairro próprio, a denominada Segunda Juderia de Segóvia (1481). Muitos conversos seguiam praticando abertamente suas antigas crenças, e para combater esta prática os Reis Católicos obtiveram uma autorizaçao do papa Sixto IV para o estabelecimento do Tribunal da Inquisiçao na Espanha, três anos antes de serem isolados na segunda juderia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA A presença do Tribunal da Inquisiçao provocou uma verdadeira convulsao social na cidade, contribuindo para o aparecimento de tensoes entre as diferentes comunidades. Ao mesmo tempo, os monarcas mantiveram com firmeza os interesses da comunidade judaica. A oposiçao religiosa e social contra eles teve seu centro no Monastério Dominicano de Santa Cruz, cujo prior, o frade Tomás de Torquemada, foi nomeado em 1483 Inquisidor Geral pelos Reis Católicos. Paralelamente, dentro da própria juderia, surgiram conflitos ocasionados pela divergência de interesses dos próprios dirigentes da comunidade e seus demais integrantes.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 31 de Março de 1492, os monarcas católicos promulgaram, de forma inesperada, uma lei que concedia aos judeus um prazo de 4 meses para que se convertessem ao catolicismo, ou entao abandonar o reino. A conversao mais significativa foi a do financeiro Abrahan Seneor, acima mencionado, que foi batizado no mesmo ano com o nome de Fernán Pérez Coronel no Monastério de Guadalupe, numa cerimônia presenciada pelos próprios Reis Católicos, que foram seus padrinhos. Aqueles que nao quiseram renunciar à sua fé, tiveram que vender seus bens, casas e prepararam-se para sua imediata saída de Segóvia. A antiga juderia se converteu, entao, no chamado bairro novo, agora habitado por cristaos. Um censo realizado em 1510 contabilizou a existência de 788 conversos na cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos uma imagem geral da Juderia de Segóvia, situada no lado direito da Catedral, que vemos no centro da foto.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA