Patrimônio Cultural de Lavapiés

O primeiro grupo étnico que teve presença significativa no bairro de Lavapiés foram os ciganos, procedentes de Andalucía. Realizavam trabalhos manuais e se dedicavam a venda de objetos usados. Nas últimas décadas do século passado, a maior transformaçao ocorrida na zona se deu com a chegada massiva de extrangeiros. Os primeiros foram os cubanos na década de 70 e 80. A partir de 1990, vieram os chineses, marroquinos, senegaleses e indianos. Em Lavapiés existem 3 colégios públicos frequentados por 90 % de filhos de imigrantes. Quando perguntados de onde sao, muitos respondem: “Sou de Lavapiés…”. Abaixo, vemos a Plaza de Nelson Mandela.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo bairro existem vários centros culturais de grande interesse, entre teatros, cines, etc. O Cine Doré, por exemplo, é uma rara construçao modernista na cidade, construída em 1922 pelo arquiteto Críspulo Moro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO cinema foi construído sobre o solar do antigo Hospital de Antón Martín. Antes de sua construçao, havia no local uma barraca na qual se projetavam filmes, no começo do séc. XX. Atualmente, o local é a sede da Filmoteca Espanhola, com uma programaçao de filmes que foge do caráter comercial, asumindo uma postura mais alternativa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das explicaçoes para seu nome é porque está situado ao lado da Pasaje de Doré, um pequeno beco bem ao lado do cinema (podemos ver um pouco da rua na primeira foto do post à direita). O beco homenageia o mais bem sucedido ilustrador francês de livros do séc. XIX, Gustave Doré (1832/1883). Seus gravados realizados para a ediçao francesa da imortal obra de Cervantes, Don Quijote de la Mancha, se transformaram nas imagens mais emblemáticas dos personagens cervantinos, e foram copiados exaustivamente depois em ediçoes posteriores.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAo lado do Cine Doré encontra-se um dos mercados mais populares da regiao, o Mercado de Antón Martín, recentemente pintado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro emblemático centro cultural é o Teatro Pavón, construído em 1924 por Teodoro Anasagasti. Esta belíssima casa de espetáculos é um símbolo do Estilo Art Decô em Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADe arquitetura contemporânea é o Teatro Valle Inclán, realizado em 2005 e dedicado ao grande escritor que viveu uma temporada na Plaza de Lavapiés, onde se localiza o teatro.

DSC09708Outro personagem associado ao bairro é o do Frade Gabriel Téllez, que tornou-se conhecido por seu pseudônimo literário, Tirso de Molina. Um dos grandes escritores do Século de Ouro da Cultura Espanhola, foi seguidor de Lope de Vega e criou obras teatrais bastante populares na época. Residiu durante um período na praça que o homenageia, no Convento de la Merced, fundado em 1563. Com a Desamortizçao de Mendizábal no séc. XIX, o convento foi destruído para a criaçao de uma praça, que passou a ser chamada Plaza del Progreso, presidida por  uma estátua de Mendizábal. Posteriormente, a estátua foi removida e a praça pasou a ser chamada de Tirso de Molina, com um novo monumento ao escritor.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAComo curiosidade no monumento, vemos na parte baixa da estátua o Escudo de Madrid com o Urso e o Madroño à direita e o dragao à esquerda, uma dos poucos escudos de Madrid com a presença do animal que acabou desaparecendo de sua representaçao oficial. Um lugar de visita obrigatória para se comer bem no bairro é a Taberna de Antonio Sánchez, situada na Calle de Mesón de Paredes e certamente uma das mais tradicionais de Madrid, cujos primeiros datos se remontam a 1838.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo Bairro podemos ver dois relógios de sol, um colocado na que é considerada a maior Coralla de Madrid, visto no último post, e otro que foi desenhado na fachada da denominada Casa de las Velas, cuja explicaçao para o nome nao encontrei nenhuma referência. O relógio foi feito por Ángel Aragonés, pintor, escultor e paisagista madrilenho.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA mencionada Casa de las Velas chama a atençao por seus balcoes feitos à moda antiga, de madeira.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizo o post com a imagem de uma bela fonte, situada ao lado do Museu Reina Sofia,  (à direita da foto) situado nos limites do bairro.

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As Corralas de Madrid

Um dos aspectos mais curiosos em relaçao à grande imigraçao que se produziu em Madrid a partir do séc. XIX, e sobretudo em Lavapiés, sao as próprias residências onde os recém-chegados se instalaram. Conhecidas como Corallas, sao abundantes em toda a cidade, principalmente na zona de Lavapiés e do Rastro. Sao definidas como construçoes residenciais comunitárias, construídas em torno a um pátio e cujos apartamentos de pequeno tamanho sao acessíveis através de um corredor existente em cada andar do conjunto.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASuas origens sao antiquíssimas, sendo que seus primeiros exemplares foram encontrados na Mesopotâmia. De fato, se sabe que as primeiras residências coletivas feitas pelos sumérios no segundo milênio a.C era uma Corrala. No séc. XVI em Madrid sao criados os denominados Corrales de Comédia, antecessor do teatro atual. No séc. XIX, estas estruturas ganham verticalidade, passando a ser chamadas de Corralas ou Casas de Corredor. Com o aumento da imigraçao, alcança um grande desenvolvimento e atualmente Madrid é a cidade com a maior quantidade de Corralas de todo o mundo. Representava uma forma construtiva econômica e ideal para acolher uma grande quantidade de pessoas num espaço reduzido. Em algumas delas, chegaram a viver mais de 900 pessoas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA maior parte das Corralas de Madrid possuem uma planta retangular com um pátio estreito e alargado. Nas construçoes mais antigas, as vigas de sustentaçao estavam feitas de madeira, como na Corrala que vemos abaixo, convertida em sede do Museu do Folclore e de Artes Populares de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACostumavam ter um poço no pátio, às vezes de água potável, e outras vezes somente recomendável para a limpeza das roupas. A forma como estava construída favorecia a integraçao dos vizinhos e o pátio servia como uma espécie de praça, onde as pessoas se encontravam e as crianças brincavam. Originalmente havia somente um banheiro por corredor, normalmente situado num dos seus extremos. Cada semana, uma família ficava responsável por sua limpeza e o nome de cada uma delas eram escritas numa tábua para promover o revezamento. As residências, muitas das quais nao ultrapassavam os 20 metros quadrados, estavam formadas por uma espécie de sala-dormitório-cozinha, com uma janela aberta ao exterior e um quarto nos fundos, que servia como dormitório e armário, normalmente sem janelas. O lar era tao pequeno que nela somente se podia dormir, e nao sempre…No inverno, ao haver tanto calor humano, se descansava bem. No verao, porém, a coisa complicava e mutio vizinhos desciam ao pátio para conversar até altas da madrugada, quando finalmente eram vencidos pelo cansaço.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs paredes das Corallas, mais que isolamento acústico, propiciavam uma amplificaçao sonora, um problema para aqueles que desejavam um pouco de intimidade. Por outro lado, eram uma bendiçao no caso de uma senhora de idade que vivia só com constantes ataques de asma. Os vizinhos a escutavam e corriam para ajudá-la. Como vocês podem imaginar, a solidariedade é uma das principais qualidades humanas presentes numa Corrala. Uma das mais famosas de toda Madrid situa-se em Lavapiés. Construída em 1839, a destruiçao do edifício da frente a deixou descoberta, e podemos ver totalmente seus corredores da rua (imagem acima e abaixo).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO progresso verificado no século passado alterou de forma significativa o estilo de vida das Corralas. Os rádios, sempre no volume alto, difundiam as vozes dos cantores mais populares da época. Os primeiros vizinhos que tiveram telefone tinham que possuir também muita paciência, pois toda a Corrala se aproveitava do proprietário do aparelho para dar recados aos familiares distantes. A chegada da TV supôs uma verdadeira revoluçao. Algumas senhoras de idade colocavam suas melhores roupas, para que o senhor que dava as notícias pudesse vê-la esbelta, da mesma forma que ela via o senhor…Na hora da novela, a Corrala ficava lotada, pois a grande maioria nao tinha um televisor. Os carteiros entravam na Corrala pelo pátio e com um apito anunciava sua chegada, gritando o nome das pessoas com as cartas a elas endereçadas. Também por ele chegavam vendedores, afiadores e aqueles que, com um saco, vinham  recolher as roupas e trapos velhos. As crianças corriam de medo, pois eram advertidas pelos pais que se comportassem mal, chamariam o “Homem do saco”. É curioso que algumas histórias se repetem em várias partes do mundo e  na minha infância em Sao Paulo, o home do saco  gozava da mesma hierearquia de terror que os fantasmas, drácula e o lobisomem…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAcima e abaixo vemos provavelmente a maior Corrala de Madrid, também localizada em Lavapiés.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANa Calle de la Cabeza vemos uma residência para idosos que guarda um antigo pátio de corrala em seu interior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAComo curiosidade, no subsolo da casa foram econtradas ruínas de uma medieval Prisao Eclesiástica. No passado, os sacerdotes que cometiam algum tipo de delito eram julgados por um Tribunal Eclesiástico. Como a expectativa de vida era muito reduzida  e as condiçoes carcerárias eram lastimáveis, receber uma pena de 5 anos numa destas prisoes era o mesmo que receber uma sentença de morte…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANa segunda metade do séc. XX, muitas das Corralas de Madrid apresentavam péssimas condiçoes de habitabilidade. Atualmente, as Corralas foram reabilitadas e reformadas, contando com todos os serviços básicos e sua sobrevivência colaborou para que Lavapiés se tornasse uma referência mundial quanto a integraçao de comunidades étnicas tao diferentes.

obs: A maior parte das informaçoes deste post foram obtidas lendo o excelente livro “Lavapiés y El Rastro“, escrito por Carlos Osorio, fundamental para se conhecer a história destes singulares lugares de Madrid.

Lavapiés em Festa

A pluralidade étnica e a riqueza cultural resultante de Lavapiés se manifesta de várias maneiras, com o colorido de suas ruas, a música diversa e alegre, as comidas típicas, mas principalmente nas festas populares do bairro. Nestas ocasioes, bandeiras de vários países do mundo sao colocadas nas ruas, como símbolo da convivência racial da zona.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo verao sao realizadas algumas das festas mais populares da cidade justamente em Lavapiés. As de San Cayetano, San Lorenzo e da Paloma oferecem uma enorme quantidade de atividades culturais, procissoes, exposiçoes, concertos, etc.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das festas mais curiosas, onde a alegria e a espontaneidade rolam por todas as partes, ocorre durante a celebraçao do Monsoon Holi Madrid, também chamada Festa das Monçoes.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta festividade é uma versao madrilenha da festa hindu das cores, símbolo da igualdade entre as etnias e celebrada durante a chegada das chuvas e o final da estaçao seca na Índia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAForma parte das festas de San Cayetano, uma das mais importantes de Lavapiés, e o pó colorido, trazido diretamente da India, é misturado com água. O resultado é um carnaval de cores, ao som de música indiana e outros ritmos e, claro, muita diversao.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANos finais de semana normais, o clima relaxado do bairro, propício a um bate papo com os amigos num dos inúmeros bares da regiao, é cada vez mais comum e concorrido,  programa facilitado pela estaçao de metrô existente em Lavapiés.

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Pelas Ruas de Lavapiés

O Bairro de Lavapiés possui inúmeras histórias e lendas curiosas, que se preservaram sobretudo no nome de muitas de suas ruas. A Calle de Embajadores, por exemplo, que serve de linha divisória entre o bairro e a zona do Rastro, foi assim chamada porque no séc. XV houve uma epidemia de peste e os embaixadores de outros países presentes na cidade decidiram hospedar-se nos locais mais afastados, com medo do contágio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm estranho acontecimento deu origem ao nome da Calle Del Sombrerete. No séc. XVI, um pasteleiro da zona afirmou ser o rei Sebastiao de Portugal, desaparecido no norte da África. O monarca Felipe II nao se mostrou nada satisfeito que alguém representasse a coroa portuguesa, ou dizia sê-lo, devido aos seus interesses em anexionar o país vizinho. Como o dito homem permanecia afirmando o mesmo, foi preso e condenado à morte. O pobre delirante foi levado ao patíbulo num burro com um sombrero (espécie de chapéu). Depois de ser enforcado, o sombrero voou pelos ares, caindo no telhado de uma casa, cuja rua onde se situava passou a receber esta denominaçao. Na placa da rua, vemos que o músico Isaac Albeníz (1860/1909) se inspirou nesta zona para criar a composiçao “Lavapiés”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das ruas mais importantes do bairro é a Calle del Mesón de Paredes. Os denominados mesones eram estabelecimentos comerciais que serviam comida aos viajantes, sempre com esmero e qualidade, sendo por isso muito respeitados pela populaçao. Nesta rua situava-se o mais famoso da regiao, o “Mesón de la Fama“, documentado já em 1520. Um cartaz em sua fachada dizia:

“Passe caminhante, que aqui há de todo bastante”. Posteriormente, passou a chamar-se Mesón de Paredes, o nome de um de seus proprietários.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANesta rua nasceu um dos grandes arquitetos do Barroco Madrilenho, José Benito  Churriguera (1665/1725). Ele e seus irmaos, também arquitetos, criaram um estilo próprio, caracterizado pela ornamentaçao extremamente decorativa dos retábulos religiosos e das fachadas dos edifícios. O “Estilo Churrigueresco” exerceu uma enorme influência em todo o continente americano.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAChurriguera viveu em outra rua conhecida do bairro, a Calle del Oso (urso, em espanhol). Coincidentemente, nela nasceu outro dos arquitetos fundamentais da História de Madrid, e considerado discípulo de Churriguera, Pedro de Ribera. A rua recebeu este nome porque se conta que nela viveu um homem de circo, que guardava um urso numa jaula. Um dia, umas crianças se meteram dentro da jaula, mas felizmente nada aconteceu, fato que as pessoas da regiao atribuíram a um milagre da Virgem do Favor, que se venerava junto a casa do proprietário do urso.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo vemos uma imagem da Calle del Oso…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra história curiosa se refere à Calle de la Cabeza. Diz a lenda que nela vivia um sacerdote, que certo dia contratou um jovem como criado. Semanas depois, o padre desapareceu, sendo finalmente encontrado morto em sua cama, com a cabeça cortada. Todos suspeitaram do criado, que também desapereceu. Um belo dia, este foi ao mercado  e comprou a cabeça de um carneiro. Enrolou a cabeça num papel e a colocou debaixo de sua capa. Com o rastro de sangue que deixava por onde caminhava, foi abordado por policiais, que lhe perguntaram que tinha debaixo da capa. Respondeu que levava uma cabeça de carneiro, mas quando abriu a capa, viu atônito que se tratava da cabeça do sacerdote….Depois de confessar o crime, o jovem foi condenado à morte por garrote vil.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA fabricaçao de chapéus, ou sombreros, também se relaciona com o bairro porque nele se situava o promissor negócio de sua produçao e venda em várias lojas que se instalaram em Lavapiés a partir do final do séc. XIX. Esta é a explicaçao do nome da Calle de la Sombrerería.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro personagem fundamental que viveu em Lavapiés, ainda que por pouco tempo, foi Pablo Picasso. Entre 1897 e 1898, o artista viveu na Calle de San Pedro Mártir, esquina com a Calle de la Cabeza, no edifício que vemos a seguir.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAFalando em pintura, recentemente o bairro foi alvo de várias intervençoes criativas nos muros de seus edifícios, realizadas por diversos artistas, que deixaram a zona ainda mais colorida.

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Lavapiés – Madrid

Hoje iniciamos uma série sobre uma das zonas mais interessantes sob o ponto de vista étnico e cultural de Madrid, o bairro de Lavapiés. A cidade está dividida em 21 distritos, e o denominado Distrito Centro está composto por vários bairros, entre os quais o de Embajadores se destaca por suas curiosas peculiaridades. Este bairro acolhe duas zonas de interesse, o Rastro e o mencionado Lavapiés.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta zona integra os chamados “bairros baixos” de Madrid, tanto no sentido geográfico, pois estao situados em terrenos que descem ao Rio Manzanares, quanto no aspecto econômico, devido ao escasso nível de renda da maioria de seus habitantes. A Plaza de Lavapiés é o centro do bairro e ponto de encontro de sua gente.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERALavapiés se originou depois que o rei Felipe II instala a capital do reino em Madrid (1561), sendo que foram os próprios moradores quem se encarregaram de sua construçao, fato que colaborou para seu urbanismo algo caótico que apreciamos hoje em dia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das lendas urbanas associadas ao bairro diz que nele se encontrava o bairro judeu de Madrid (juderia), algo totalmente sem fundamento, visto que a comunidade judaica da Espanha foi expulsa do país em 1492, época em que o bairro sequer existia. O nome Lavapiés se explica por sua própria conformaçao geográfica e o desnível entre suas principais ruas. Quando chovia, a água descia pelas inúmeras ladeiras existentes, molhando os pés daqueles que se encontravam em suas partes baixas. Hoje se sabe que a Juderia Madrilenha situava-se próxima a Catedral de Almudena.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANao era somente água da chuva que descia pelas ruas do bairro. No passado, a zona nao se caracterizava precisamente por sua higiene, e os moradores jogavam pelas janelas das casas o conteúdo dos urinais, ao grito de “Água vá”…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta foi a regiao onde se instalaram as primeiras indústrias de Madrid, como os antigos matadouros da cidade e, a partir do séc. XVIII, as denominadas Reais Fábricas, como a de Coches, Salitre, etc. Estas indústrias atraiam uma grande quantidade de campesinos a Madrid, que chegavam à cidade em busca de uma vida melhor. Uma das mais famosas, cuja estrutura ainda se conserva, foi a Real Fábrica de Tabacos, construída durante o governo de Carlos III. Sua construçao iniciou-se em 1781 e durou 10 anos. Inicialmente foi concebida como a Real Fábrica de Aguardentes e Naipes, e durante um breve período nela se fabricavam os licores e cartas de baralho.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1808, transformou-se em quartel para os soldados franceses. Naquela época, as mulheres da zona fabricavam tabacos em locais clandestinos e foi o próprio José Bonaparte quem regulou  sua fabricaçao, destinando a antiga fábrica para tal.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo final do séc. XIX, o número de funcionários da Real Fábrica de Tabacos chegou a 6.300, formado quase que exclusivamente por mulheres. Os salários eram baixos, ainda que superiores a outros trabalhos femininos. Além de sustentar suas famílias, se encarregavam da educaçao infantil na própria fábrica, possuindo uma notável conciência social para a época. No ano 2000, a fábrica foi fechada, e converteu-se num Centro Cultural do bairro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERACom o desenvolvimento industrial verificado a partir do séc. XVIII, Lavapiés transforma-se num dos bairros mais povoados de Madrid. Os primeiros imigrantes a viverem no bairro eram do próprio país, principalmentes andaluzes, aragoneses e manchegos (originários de Castilla-La Mancha). No final do séc. XX, começaram a povoar o bairro imigrantes de outros países, produzindo uma enorme variedade étnica-cultural, uma das principais características do bairro. Observamos esta mistura de raças nos comércios da zona, onde se vendem artigos de todo o mundo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADizem que nao existe uma variedade de raças tao ampla num centro histórico de uma cidade em todo o mundo, e o grande mérito do bairro é que esta combinaçao étnica e a convivência resultante se produziu sem conflitos. No séc. XIX, foram construídos a maioria de seus edifícios, que nao superam os 5 andares, obrigaçao imposta por lei. Lavapiés perde boa parte de seu patrimônio histórico durante a Guerra Civil do séc. XX, e a tristeza e a fome se apoderam do bairro. A maior parte das famílias viviam de aluguel, em apartamentos de 30 a 45 metros quadrados. A insuficiente renda dos moradores impediam as reformas necessárias para a conservaçao das residências. Durante o governo do prefeito Tierno Galván, a princípios da década de 80, os edifícios foram recuperados com cores alegres.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAtualmente, Lavapiés está de moda e circular por suas ruas, bares e centros culturais nos permite conhecer suas singularidades e imensos atrativos. Nosso passeio pelo bairro está apenas começando…

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Caños de Vecindad – Madrid

Em Madrid existem pequenas e modestas fontes espalhadas pelo seu perímetro, utilizadas exclusivamente pelos habitantes que moram em sua proximidade.  Sao conhecidas pelo nome de Caños de Vecindad e que, traduzidas para o português, significaria algo como “Canos da Vizinhança”. Estas fontes se destacam por sua simplicidade funcional e foram construídas segundo ditames práticos,  praticamente ausentes de decoraçao. Os Caños de Vecindad foram úteis até o momento em que os cidadaos puderam desfrutar de água domiciliar. Possuiam um mecanismo engenhoso que permitia controlar a vazao da água, através de uma leve pressao sobre a abertura do cano, fato que surpreendeu a muitos, acostumados a ver a água jorrando livremente…Neste último post sobre as Fontes Históricas de Madrid, conheceremos duas fontes que podem ser denominadas como Caños de Vecindad. A primeira situa-se na Cuesta de los Ciegos, uma empinada rua que, segundo a tradiçao, recebeu tal denominaçao graças a um milagre realizado por Sao Francisco de Assis, que curou a um grupo de cegos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta fonte foi instalada em 1932 e num de seus lados observamos o Escudo de Madrid em sua versao republicana.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das fontes de maior tradiçao popular localiza-se no Bairro de Lavapiés, denominada Fonte dos Cabestreros. Com este nome designava-se aqueles que comercializavam com o cânhamo, uma erva cujo caule é utilizado para a industria textil. A fonte foi construída para o abastecimento de água da populaçao do bairro em 1934. Os materiais utilizados foram o granito para a estutura da fonte e a pedra branca de Colmenar para os adornos, a base de inscriçoes relativas a certos dados de sua cronologia e história.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm Lavapiés, a Fonte de Cabestreros é conhecida pelo nome de Fonte dos Machos, devido as supostas propriedades afrodisíacas de suas águas. O aumento da virilidade masculina para aqueles que bebem da fonte possui uma larga tradiçao no bairro. Inclusive, existe um dito popular que faz uma referência ao tema, que diz:

“É muito macho porque bebe água de Cabestreros”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta série de posts teve como objetivo a divulgaçao destes belos monumentos urbanos, nem sempre valorizados como merecem, pois algumas das fontes existentes constituem verdadeiras obras de arte, mas todas, sem distinçao, fazem parte da evoluçao histórica da cultura e do urbanismo das cidades. Por isso, reservemos, durante nossas andanças pelas cidades, um breve olhar de contemplaçao às suas fontes. Como vocês viram, Madrid é uma cidade privilegiada neste quesito, e aonde quer que estejamos, sempre haverá uma bela fonte por perto…

Cines Históricos – Madrid

Além da Gran Vía, em muitos outros lugares da cidade existiam locais de projeçoes cinematográficas, pois houve uma época em que qualquer local era idôneo para a instalação de um cinematógrafo. Em alguns casos, antigos armazéns se transformavam em salas de filmes. A partir dos anos 40, os grandes cines instalados em edifícios estavam situados no térreo, possibilitando a utilização do imóvel para o aluguel residencial. Algumas pequenas ruas possuíam vários estabelecimentos, como a Calle Doctor Cortezo, próxima à Porta do Sol. Nela conviveram, a partir do primeiro terço do séc. XX, o Cine Ideal, o Teatro Calderón, o teatro-cine Fígaro e o grande Frontón de Madrid, lamentavelmente desaparecido. Veremos nest post, e no próximo, alguns dos cines históricos da capital espanhola.

O Cine Doré é considerado o mais antigo da cidade, ainda em funcionamento. Recebeu este nome de Gustav Doré, um desenhista que se tornou famoso por ter ilustrado a bíblia. Outra explicação para o nome, é que em muitas ocasiões o local era conhecido como Cine Do-Ré, em referência às notas musicais.

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O primeiro cine com tal nome foi levantado em 1912. Anos depois, foi reforçado o salão existente e dotado de melhores medidas de segurança, além da original fachada de inspiração Art Noveau. Já o interior foi decorado com elementos modernistas. Nos anos 30, era conhecido como o “cine dos melhores programas”, e logo depois foi colocada a palavra sonoro, ao término da frase…

Com a Guerra Civil, o bairro de Lavapiés, onde situa-se o cine, foi duramente castigado, e o cine entrou em decadência. Outros cines próximos, como o Monumental, constituíram, também, uma complicada concorrência para o Doré. Durante uma época, ganhou apelidos depreciativos, e transformou-se num local de segunda categoria.

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Dessa forma, fechou em 1963, depois de meio século de projeções. Em 1978, foi adquirido pela prefeitura, que quis construir uma zona verde no local, projeto que foi abandonado devido à histórica arquitetura do edifício. Um grupo de artistas, jornalistas, políticos e a própria opinião pública exigiram a reabilitação do cine, que finalmente foi transformado na sede da Filmoteca Nacional, tarefa que coube ao Ministério da Cultura. Uma grande reforma foi realizada devido aos 20 anos de abandono do edifício, reabrindo em 1989, com suas alegres pinturas e sua fachada original. Longa vida para o Cine Doré…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInaugurado em 1923, o Cine Monumental era um dos maiores e modernos da capital,e também um dos mais freqüentados. Foi construído por Teodoro Anasagasti que, junto com Luis Gutiérrez Soto, são considerados os arquitetos mais importantes dos cines madrilenhos.

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No início, funcionou apenas como cinema, e depois foi adaptado para representações teatrais. A partir dos anos 80, dedicou-se somente ao teatro, e atualmente se conhece como Teatro Monumental, sendo também a sede da Orquestra e Coro da Rádio e Televisão Espanhola. Abaixo, vemos uma de suas entradas laterais, e uma placa comemorativa, da época auge do estabelecimento.

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Construído como local teatral e cinematográfico, o Fígaro é um representante da denominada arquitetura racionalista, por sua simplicidade e funcionalidade. Inaugurado em 1931 como teatro, a partir do ano seguinte passou a projetar filmes, função que desempenhou até 1969. Em 2009, foi reformado, devolvendo-lhe boa parte de sua fachada original.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro representante de edifício racionalista, o antigo Cine Salamanca exemplifica também a triste realidade dos cinemas que deixaram de existir e transformaram-se em lojas de roupas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInaugurado em 1935 e fechado em 1987, menos mal que o exterior se conserva, apesar de que o interior foi adaptado à sua nova função.

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O caso do Cine Madrid revela uma situação igualmente desalentadora. Localizado num edifício construído em 1898, fechou as portas em 2002 e, desde então, permanece esquecido e abandonado. Suas laterais conservam a decoração, reminiscências de glórias passadas…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO antigo Cine Bilbao, situado na Calle Fuencarral, também foi golpeado por um trágico destino. Em 1993, sua cobertura externa, em mau estado, não suportou o peso excessivo do cartaz publicitário de um filme, e caiu sobre as pessoas que formavam uma fila para entrar no cine, causando várias vítimas mortais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO cinema foi fechado e no ano seguinte foi objeto de reformas, entre as quais uma sólida cobertura. Em 1995 foi reaberto com o nome de Cine Bristol, mas o estrago causado deixou sua marca, e o cinema foi fechado definitivamente anos depois. Neste caso, não foi suficiente a desesperada situação dos cines históricos urbanos para fechar mais um estabelecimento. A negligência humana se encarregou de realizá-lo, com conseqüências ainda mais graves.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post conheceremos outros cines históricos, e como vimos neste, o abandono e a esperança caminham lado a lado…