Explorando a Universidade de Salamanca: Parte 3

No final do século XVI chegavam à Universidade de Salamanca 6500 alunos novos cada ano, cifra que demonstra o prestígio que a instituição alcançou nesta época. No século XVII o caráter humanista foi abandonado, produzindo-se uma relativa decadência, pois os filhos da nobreza começaram a dominar os Colégios Maiores, menosprezando sua função original de ensino aos jovens, independente de sua condição social. Neste período estudou na Universidade de Salamanca um dos maiores expoentes literários do Século de Ouro Espanhol, o poeta e dramaturgo Luis de Góngora (1561/1627), que chamou a atenção por seu talento poético. A cidade de Salamanca homenageou a Góngora com um monumento…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo final do século XVII, 65% dos salários da universidade estavam destinados aos professores de direito e teologia. As disciplinas piores remuneradas eram Matemática, Astrología e Música. No século XVIII, a Universidade de Salamanca transformou-se num dos principais focos da Ilustração Espanhola, momento em que desenvolveram-se as ciências científicas, além das letras clássicas. Muitos dos intelectuais da universidade desempenharam um papel preponderante na elaboração da Constituição de 1812, a primeira em ser promulgada em Espanha e uma das mais liberais da época, além de incentivar o pensamento progressista. Abaixo, vemos o Palácio de Anaya, um dos poucos edifícios neoclássicos da cidade, que se destaca por seu belo pórtico com 4 grandes colunas rematadas por uma estrutura triangular (em espanhol, frontón).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO edifício começou a construir-se em 1760, substituindo o Colégio Maior de San Bartolomé, cuja estrutura foi severamente prejudicada pelo Terremoto de Lisboa de 1755. Atualmente é a sede da Faculdade de Filologia da Universidade de Salamanca.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA partir do século XIX, a universidade adotou um planejamento centrado mais nas disciplinas naturais e sociais, em detrimento do direito canônico e da teologia. Durante a Invasão Francesa, muitos edifícios universitários foram destruídos. Em 1852, perde sua condição de Instituição Pontifícia, suprimindo as disciplinas de direito canônico e teologia pelos governos liberais da época. Em 1940, o Papa Pio XII cria a Universidade Pontifícia, uma universidade católica de caráter privado, com a finalidade de restaurar estas disciplinas na cidade em outro edifício e dar prosseguimento às antigas carreiras eclesiásticas, que tiveram um grande papel nos séculos XVI e XVII. Como sede, foi escolhido o Real Colégio do Espírito Santo, mais conhecido como La Clerecía. Historicamente pertencente aos jesuítas, o edifício foi construído no estilo barroco entre os séculos XVII e XVIII pelo arquiteto Juan Gómez de Mora. Atualmente conta também com cursos nas áreas filosóficas, Ciências Políticas, Psicologia, Enfermagem, Informática etc.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XX, o prestígio da Universidade de Salamanca se recupera. O escritor e filósofo espanhol Miguel de Unamuno (1864/1936) foi reitor da instituição três vezes, a primeira com apenas 36 anos. Considerado um dos maiores expoentes da chamada Geração de 98, em sua obra cultivou uma grande variedade de gêneros literários, entre ensaios, teatro, novela e poesia. Abaixo, vemos um monumento em sua homenagem erguido no Centro Histórico de Salamanca, realizado pelo escultor Pablo Serrano.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATambém é possível visitar a Casa de Unamuno, onde viveu o escritor, um dos edifícios utilizados como museu pela Universidade de Salamanca.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEntre 1955 e 1970, a Universidade de Salamanca aumentou seu prestígio internacional, somente equiparado na Espanha pelas Universidades de Madrid e Barcelona. Abaixo, vemos o Colégio Maior Fray Luís de León, criado em 1954 para proporcionar alojamentos e estadias curtas para alunos e professores, além de fomentar atividades formativas e de orientação profissional.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAtualmente, a Universidade de Salamanca conta com 16 faculdades nas áreas de exatas, humanas e biológicas, além de vários centros de investigação. É considerada a melhor universidade pública espanhola em relação ao corpo docente e grande referência mundial no ensino do idioma espanhol, concentrando 80% da oferta existente na Comunidade de Castilla y León para seu aprendizado. Finalizamos a matéria com uma foto da Faculdade de Tradução e Documentação

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Igreja de las Góngoras – Madrid

Madrid é considerada uma das capitais mundiais da Arte Barroca, graças a grande quantidade de igrejas existentes na capital construídas neste estilo. Um exemplo é a Igreja de las Góngoras, apelido popular com a qual se conhece a Iglesia de las Mercedarias Descalzas de la Purísima Concepción (original em espanhol), uma das mais belas e também desconhecidas da cidade.

20171203_125343Este templo está localizado no Centro Histórico de Madrid, em pleno Bairro de Chueca. Integra o convento fundado por D.Juan Jiménez de Góngora (Ministro do Conselho de Castilla e representante do Rei Felipe IV) em 1663. O Rei Felipe IV, depois de uma fase dissoluta de sua vida (o monarca ficou conhecido por sua intensa vida amorosa, dentro e fora do matrimônio…), passou a “cultivar” o espírito, patrocinando a construção de várias igrejas em Madrid, como esta. Curiosamente, a igreja está situada na Calle Luís de Góngora (1561/1627), em homenagem ao grande poeta do século XVII, fato que originou a denominação popular da igreja e uma certa confusão.

20171203_125605A igreja foi entregue a Ordem de la Merced, instituição religiosa fundada no século XIII por San Pedro Nolasco e San Raimundo Peñafort com o objetivo principal de resgatar os reféns cristãos em poder dos muçulmanos. Abaixo, vemos o escudo da ordem colocado no muro exterior da igreja e uma imagem da rua onde se situa o templo…

20171203_12530420171203_125435A igreja foi projetada pelo arquiteto Fray Manuel de San Juan Bautista y Villarreal e finalizada por Manuel de Olmo. Este último arquiteto foi o responsável pela construção da cúpula e de boa parte do interior. Nada no exterior da igreja, simples e austero, nos faz pensar que no interior da igreja encontremos uma das amostras mais significativas do Barroco Madrilenho.

20171203_124042Na foto acima, vemos uma parte da cúpula da igreja, um exemplo deste tipo de estrutura arquitetônica denominada Cúpula Encamonada, isto é, construída por uma armaçao de madeira e revestida com gesso. Esta forma de construir tinha como finalidade baratear os custos construtivos, numa época de grande crise econômica como no século XVII. A seguir, vemos uma foto tirada debaixo da cúpula.

20171203_124649A decoração interior é belíssima, com destaque para o Retábulo Maior, realizado por Diego Martínez de Arce em 1762 e presidido pela imagem central da Imaculada Conceição, feita pelo grande escultor Juan Pascual de Mena. Na parte superior, vemos a Deus Pai rodeado de anjos e, nas laterais, duas esculturas de religiosas mercedárias, Santa María de Cervelló e da Beata Mariana de Jesús, também de Pascual de Mena. Quatro colunas jônicas rematadas com capitéis dourados, feitos de madeira policromada imitando o mármore, completam o conjunto.

20171203_124620Juan Pascual de Mena (1717/1784) foi diretor da Real Academia de Belas Artes de San Fernando, e responsável pelo projeto de uma das fontes mais conhecidas de Madrid, a Fonte de Netuno. A nave transversal foi decorada com dois grandes tapetes, algo que eu nunca tinha visto na decoração de uma igreja.

20171203_12474320171203_124632A Igreja de las Góngoras chegou aos dias atuais em perfeito estado de conservação, com inúmeras obras de arte que podem ser admiradas. Abaixo, vemos o retábulo de N.Sra de la Soledad de la Victoria (século XVIII), com um quadro representativo da virgem do século XVII.

20171203_124550Outro grande escultor barroco espanhol, Luis Salvador Carmona (1708/1767), deixou sua maestria nesta imagem de São José.

20171203_124116Uma das conhecidas Virgens Negras da Espanha, Nossa Senhora de Montserrat, foi representada neste quadro do século XVII…

20171203_124603Belíssimas esculturas de Cristo integram a ornamentação da igreja, como esta do denominado Cristo da Boa Morte, do século XVII.

20171203_124307Abaixo, vemos outra foto do interior da igreja, onde observamos espaços dedicados à clausura das freiras.

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Bairro das Letras – Madrid (Parte 2)

Continuando nosso passeio pelo Bairro das Letras de Madrid, o escritor mais universalmente conhecido da Literatura Espanhola, Miguel de Cervantes, não só viveu, como também foi enterrado no bairro. Abaixo, vemos sua residência, da época em que viveu na cidade.

Na calle de Atocha, encontra-se a editora responsável pela primeira edição de sua obra máxima, O Fidalgo Don Quixote de La Mancha, em 1604.

O escritor está sepultado no Convento das Trinitárias Descalças, fundado pelo rei Felipe II em 1612. O atual edifício data de 1673 e foi declarado Monumento Nacional em 1921.

Nas ruas que compõem o bairro, foram travadas famosas disputas entre alguns de seus mais afamados literatos. Uma das mais célebres foi a de Francisco de Quevedo (1580-1645) e Luis de Góngora (1561-1627). Situada em frente ao Convento das Trinitárias, está a casa onde viveu Quevedo. A placa que alude ao fato, no entanto, não explica que havia sido anteriormente o lar de Góngora.

Os ilustres personagens tinham personalidades opostas. Enquanto Quevedo caracterizava-se por seu forte temperamento, assíduo dos prostíbulos e dos ambientes marginais da época, além de querido por sua proximidade às pessoas mais humildes, Góngora, por sua vez, gerava antipatia por sua forma de ser. A rivalidade entre ambos era tal que Quevedo decidiu comprar a casa que pertencia a seu inimigo, para depois botá-lo para fora, pobre e sem apoio. Outra fonte de conflitos foi entre Cervantes e Lope de Vega, e o fato curioso é que a rua onde morou Lope de Vega chama-se Calle Cervantes, enquanto que o Convento onde está sepultado Cervantes, se chama Calle Lope de Vega. É como se a rivalidade entre ambos perdurasse mesmo depois de suas mortes…

No século XIX, o bairro continuou sendo o centro intelectual da cidade, como comprova o Ateneo, instituição cultural privada inaugurada em 1835. Seu objetivo era a divulgação do saber, e para tanto possui uma das melhores bibliotecas do país, no que se refere aos séculos XIX e XX. Muitos dos maiores literatos do país pertenceram à instituiçao. Abaixo, vemos a foto da fachada e do teatro que alberga no interior.

Outro dos locais de convivência que se tornaram famosos no Bairro das Letras eram os denominados mentideros, onde poetas, dramaturgos, atores de teatro, etc, se reuniam para conversar, extender rumores ou compartilhar experiências. Um deles situava-se na Calle León, cujos relevos abaixo recordam o nome do lugar.

O Corral de Comédias de la Cruz, hoje desaparecido, tornou-se na época do século de ouro um local obrigatório para ver as  obras teatrais dos grandes dramaturgos, que nele estreavam suas peças. Uma placa e um mural pintado com cenas da época recordam sua localização exata.

Os palácios nobres também podem ser vistos, como o de abaixo, denominado Palácio de Santoña , cujo marquês foi um de seus proprietários. O edifício pertence ao séc. XVII, e em 1953 foi comprado pela Câmara de Comércio e Indústria de Madrid, sua proprietária atual. Como destaque exterior, a bela fachada, criada pelo arquiteto barroco Pedro de Ribera.

Outros edifícios chamam a atenção pela beleza de suas linhas e decoração escultórica.

A Basílica de Jesus de Medinaceli é uma das que provocam o maior fervor religioso de toda a capital. Isso porque é depositária da imagem mais venerada pelos madrilenhos.

Na primeira sexta feira de março, milhares de fiéis aguardam para beijar os pés do Cristo de Medinaceli e pedir 3 desejos, dos quais é concedido apenas um. O porquê, é realmente um mistério…A igreja, na época dourada do bairro, era assiduamente visitada por Lope de Vega, Calderón de la Barca e Tirso de Molina, escritores que haviam sido ordenados sacerdotes.

Hoje em dia, o Bairro das letras não é somente percorrido para melhor conhecer a história de Madrid, mas também para desfrute da noite, embalada por bares com música ao vivo e restaurantes para todos os bolsos. O Villa Rosa, por ex., é um clássico da noite da cidade. Inaugurado em 1915, desde sua fundação esteve ligado ao mundo taurino e ao flamenco. Sua época de maior esplendor foi nos anos 20, quando personagens como o novelista Ernest Hemingway e a aristocracia local se reuniam para conversar e ouvir uma boa música. O bar está decorado com cerâmicas que representam monumentos típicos de várias cidades espanholas.

Opções para curtir não faltam no bairro, e a oferta musical é ampla, para todos os gostos.

Bem, com estas fotos encerramos os posts pelo Bairro das Letras, este interessante local do centro de Madrid, que combina o agito noturno com a história e a cultura da cidade.