A Judería de Toledo: Parte 3

Depois que a cidade de Toledo foi reconquistada pelo monarca Alfonso VI em 1086, a boa convivência entre cristãos, árabes e judeus prosseguiu. Muitos dos muçulmanos mais ricos preferiram, no entanto, mudarem-se para a Andalucia, zona que ainda era governada por dirigentes árabes. Os que permaneceram na cidade passaram a ser denominados Mudéjares, que realizaram diversas construçoes para os reis castelhanos, contribuindo para o desenvolvimento do estilo mudéjar na cidade, uma de suas principais características e o estilo por excelência encontrado em Toledo. Abaixo, vemos um exemplo deste tipo de arquitetura encontrado na Judería de Toledo, a Igreja de Santo Tomé, famosa por acolher em seu interior o famoso quadro de El Greco, “O Enterro do Senhor de Orgaz”, tema de matérias publicadas em 28/1 e 29/1/2015. 

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA comunidade judaica prosperou porque alguns de seus membros foram nomeados para cargos de relevância dentro da corte, como conselheiros, médicos, astrólogos, financiadores etc, concedendo importantes benefícios para a sociedade judaica. Uma das personalidades mais famosas da Judería de Toledo foi Samuel Leví, tesoureiro maior do Rei Pedro I de Castilla.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERASamuel Leví foi o responsável pela construção de uma das sinagogas mais importantes de Toledo no século XIV (1357), denominada Sinagoga do Trânsito. Em 1971 passou a ser sede do Museu Sefardí, e representa um exemplo vivo da passagem da comunidade judaica pela Espanha e outra amostra do Mudéjar Toledano. Abaixo, vemos uma foto exterior deste templo de visita obrigatória…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos uma imagem do interior da Sinagoga do Trânsito.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Judería de Toledo chegou a contar com 12 sinagogas e 5 centros de estudo, dados que refletem a importância da comunidade na cidade castelhana. A outra sinagoga que se conservou, construída no final do século XII e declarada Monumento Nacional, é a Sinagoga de Santa María La Blanca, considerada a Sinagoga Maior de Toledo (matéria publicada em 27/6/2012).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Sinagoga de Sofer constituiu outro dos templos judaicos de importância, segundo as fontes documentais. No entanto, desta sinagoga se conservam apenas ruínas, que podem ser vistas em frente à Escola de Artes e Ofícios (publicado recentemente, em 22/7/2017), junto com restos arqueológicos referentes ao sistema hidráulico de época romana. Um pequena fonte de água identifica os restos conservados e na parte subterrânea podemos ver as ruínas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAlém das comunidades árabes e judia, a comunidade cristã se incrementou de forma notável depois da reconquista de Toledo. Num primeiro momento, os antigos mozárabes (católicos que viveram sob o poder muçulmano) conservaram suas tradições e continuaram utilizando o idioma árabe para a escritura de documentos. Numerosos grupos chegaram à cidade oriundos do norte da península, Portugal, França e da Europa Central. Este conjunto de culturas distintas estabeleceram laços de convivência, mas eram regidos por suas próprias leis. A sexta feira, por exemplo, era o dia sagrado para os muçulmanos, o sábado para os judeus e o domingo para os católicos. Seus rituais eram diferentes, e sua forma de vestir e de se alimentar também. Apesar disso, os membros das três culturas passeavam pelas mesmas ruas, compravam nos mesmos estabelecimentos comerciais, existindo relações de amizade e amor entre eles. É neste período em que se manifesta o auge cultural da cidade, culminando na fundação da famosa Escola de Tradutores de Toledo pelo Rei Alfonso X “El Sábio” (reinou entre 1241 e 1264), uma instituição na qual se reunia os grandes sábios das três comunidades. Foram eles que realizaram a tradução do árabe e do hebreu para o latim das grandes obras filosóficas e científicas da antiguidade clássica. Também nesta época se completa a configuração urbana herdada dos árabes, formada por um labirinto de ruas com construções mudéjares que propiciaram uma certa uniformidade à paisagem de Toledo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos a Porta del Cambrón, considerada a porta de acesso à Judería de Toledo. De origem muçulmana (séculos X e XI), seu nome se deve à presença no local de plantas espinhosas denominadas cambroneras, mas sempre foi conhecida como a Porta dos Judeus.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASeu aspecto atual é o resultado de reformas realizadas entre 1572 e 1577 durante o reinado de Felipe II, quando foi rebatizada como Porta de Santa Leocádia, padroeira da cidade, cuja imagem preside a porta, debaixo do escudo de Felipe II.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA seguir vemos uma foto da parte externa da Porta del Cambrón

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A Judería de Toledo: Parte 2

Na matéria de hoje, veremos um pouco da histórica presença da comunidade judaica na Espanha, durante as várias etapas por qual passou o país, e as relações travadas com os diversos povos que governaram o território durante mais de mil anos. As fotos publicadas foram tiradas na Judería de Toledo. Parece que os judeus se assentaram em grande número na Europa Ocidental a partir do século III dC. Os primeiros textos que comentam a presença da comunidade judaica na Península Ibérica datam do século II aproximadamente, quando muitos judeus foram vendidos como escravos a famílias romanas assentadas em Hispania. Muitos outros chegaram à Europa depois da expulsão dos judeus de Jerusalém por parte do Imperador Vespasiano e de seu filho Tito, ocorrida logo após a destruição do Templo de Salomão em 70 dC. Em território espanhol, a sinagoga mais antiga, encontrada em Elche, data do século IV dC. Também desta época é o testemunho mais antigo da presença judaica em Toledo, uma lâmpada decorada com um Menorah.

DSC09446Toledo é uma cidade historicamente conhecida pela tolerância em relação a povos de outras culturas. Sua origem se remonta ao período visigodo, entre os séculos VI e VII, quando foi a capital do Reino, na qual coexistiram três sociedades culturalmente distintas: a Visigoda, cujos reis eram adeptos do Arrianismo, a comunidade Hispano-Romana, que representava a maior parte da população, que eram católicos, e a judaica, que viviam num bairro próprio, embrião do que mais tarde seria a Judería de Toledo. Apesar de ocuparem o mesmo espaço urbano, cada um destes grupos eram regidos por suas próprias leis, que proibiam inclusive os casamentos mixtos.

DSC09277OLYMPUS DIGITAL CAMERAApesar das diferenças culturais, estes grupos conviveram durante um tempo sem grandes conflitos. A situação mudou quando os visigodos abandonaram o Arrianismo (doutrina considerada herética pela igreja católica oficial, pois negava o dogma da Santíssima Trindade) e o Rei Recaredo se converteu ao Catolicismo no III Concílio de Toledo, realizado em 589 dC. A partir deste momento, a religiao católica passa a ser oficialmente a religião estatal, produzindo uma maior união entre os visigodos e a antiga população hispano romana, em detrimento da comunidade judaica. Severas limitações foram impostas aos judeus, como a obrigação de educar seus filhos como se fossem cristãos e a proibição de realizarem seus ritos ancestrais. Em 694 dC, durante o IV Concílio de Toledo, o Rei Égica ordenou submeter a comunidade judaica à escravidão, requisitando todos seus bens, dando-lhes apenas a alternativa à conversão ao catolicismo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADevido a esta repressão imposta pelos governantes visigodos, algumas teorias afirmam que a comunidade judaica facilitou a conquista muçulmana a partir do século VIII, vendo estes povos como aliados diante de sua precária situação. Devido a tolerância dos muçulmanos, tanto cristãos quanto judeus puderam conservar seus costumes e tradições, pois da mesma forma que o Islamismo, o Catolicismo e o Judaísmo eram credos monoteístas e se baseavam na Bíblia, livro sagrado respeitado pelo Islã. Evidentemente, as práticas religiosas foram toleradas desde que aceitassem as leis estabelecidas pelo poder muçulmano, como a obrigação de pagar impostos e de viverem em locais separados, além da impossibilidade de ocuparem cargos de importância.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERASe pode afirmar que enquanto durou o domínio muçulmano, as três religiões conviveram de forma pacífica, originando o título de Toledo como Cidade das Três Culturas. Os cristaos passaram ser chamados de Mozárabes e seguiram praticando seus rituais nas 6 paróquias para o culto católico espalhadas por Toledo. Os judeus aumentaram sua riqueza e ampliaram o perímetro de seu bairro. Graças a esta prosperidade, muitos judeus imigraram à cidade desde vários lugares da península e mesmo da Europa.

DSC09459Abaixo, vemos uma típica rua da Judería de Toledo….

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMuitos nomes das ruas pertencentes à Judería de Toledo recordam a presença judaica na cidade…

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