Na Torre da Catedral de Ávila

A Catedral de Ávila é outra das atrações históricas da cidade, e foi tema de uma série de 3 posts, publicados nos dias 21, 22 e 23/01/2017. Considerada a primeira catedral de estilo gótico na Espanha, foi edificada como templo e como fortaleza, já que o ábside da construção constitui um dos cubos da própria muralha de Ávila, algo inédito nos edifícios catedralícios, como vemos abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANão se sabe com precisão quando começou a ser levantada. A teoria mais aceita diz que data de mediados do século XII, cujo projeto foi realizado por um mestre francês chamado Fruchel, coincidindo com o processo de repovoamento de terras castelhanas por Raimundo de Borgoña, genro do Rei Alfonso VI. A parte construída por Fruchel, correspondente ao altar maior da catedral, se insere no estilo românico de transiçao ao gótico. Posteriormente, outros mestres finalizaram as obras da catedral (naves, capelas e o remate das torres) já no estilo gótico. Abaixo, vemos a fachada principal da Catedral de Ávila e seu impressionante aspecto de fortaleza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAComo vemos na imagem acima, se construiu apenas uma torre, a outra permaneceu inacabada. O primeiro corpo da torre campanário data do século XIII, assim como as naves da igreja. As bôvedas (teto) e o segundo corpo da torre campanário datam do século XIV. No século XV, finalmente se finaliza todas as obras da catedral. Abaixo, vemos uma foto de seu interior, destacando sua bôveda de crucería, característica da arquitetura gótica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADesta última vez que estive em Ávila com o Marcelo, a Cristina e o Ernesto, tivemos a oportunidade de subir no alto da torre campanário, um passeio imperdível que proporciona visitar lugares de uma catedral que normalmente estão fechados ao público. Antes de chegar na parte mais elevada da torre, pudemos contemplar umas excelentes vistas da nave central da catedral.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA torre campanário possui 7 sinos (campanas, em espanhol), cada qual com seu nome de batismo, como “Maria Teresa”, “Platera”, devido à presença de prata em sua fabricação, ou “San Segundo”, em homenagem ao Santo Padroeiro de Ávila. Abaixo, vemos algumas delas…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA seguir, uma foto da torre inacabada, que foi fechada com tijolos, mas que deixa à vista uma parte da construção de pedra…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA visita inclui um elemento que normalmente os visitantes não têm acesso, a estrutura de madeira construída como sustentação do telhado ou cobertura da catedral.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro aspecto curioso foi observar as diversas marcas de canteiros ao longo da construção. Estas marcas talhadas na pedra constituem uma espécie de assinatura dos trabalhadores que colaboraram na edificação da catedral. Cada um deles possuía uma marca diferente e, desta forma, podiam cobrar pelo trabalho realizado. As marcas de canteiros são habituais nas catedrais românicas e góticas. Abaixo, vemos algumas das que descobrimos no passeio…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro aspecto que me surpreendeu está relacionado com o antigo ofício dos campaneiros. Na realidade, este termo se refere a dois ofícios tradicionais, designando aqueles responsáveis pela fabricação dos sinos (elaboração do molde e posterior fundição do metal) e também às pessoas que realizavam os toques das campanas. Sempre pensei de como seria a vida destes trabalhadores que executavam este trabalho de tocar os sinos e, na visita à torre, muitas perguntas foram respondidas. A primeira questionava onde viviam e o mais curioso, é que residiam na própria torre, ao nível dos próprios sinos. A torre da Catedral de Ávila conserva maravilhosamente a casa do campaneiro. De estilo castelhano humilde, parece incrível que se manteve intacta. Os campaneiros nela viveram até os anos 50 do século XX. A residência possuía sala, alcobas, cozinha com chaminé, banheiro, etc…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA casa dos campaneiros foi construída aos pés da catedral, sobre a bôveda gótica. Para visitá-la, subimos os 113 degraus de uma escada em espiral, que salva a diferença entre o solo da catedral e sua cobertura. Nela se desenvolvia  a vida familiar dos campaneiros, sendo praticamente tarefa de todos seus membros realizar o toque das campanas, durante todo o dia. Frequentemente, o ofício passava de pai para filho, e as condições de vida eram extremamente duras, como nos explicou o guia que conduziu a visita. Em primeiro lugar, tinham que suportar um frio aterrador, numa cidade na qual as temperaturas normalmente atingem mínimas negativas, e muitos padeciam de doenças respiratórias. Além do mais, muitos campaneiros, depois de uma longa vida dedicada ao ofício, ficavam surdos com o forte som decorrente dos sinos. Em seus momentos de ócio, construíram pequenos jogos talhados nas pedras da torre (algo parecido com o atual jogo de damas), como vemos abaixo…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs dificuldades de acesso a esta peculiar residência fizeram com que fossem criados mecanismos de abastecimento e comunicação com o mundo exterior. O sistema implantado na Catedral de Ávila se resume a uma corda atada a uma polea que se utilizava para para subir alimentos e água, além de outros objetos essenciais à vida, e para baixar tudo aquilo que já não servia. Abaixo, vemos o sistema desde o solo da catedral e em sua parte superior, junto à casa dos campaneiros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADurante séculos as campanas funcionaram como uma forma de comunicação social, anunciando festas, falecimentos e os atos litúrgicos, entre outros. O ofício de campaneiros data do período medieval em sua concepção atual. Atualmente, está em perigo de extinção com o desenvolvimento de métodos eletromecânicos para os toques de sinos e muitos aspiram que o toque manual seja declarado Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. As campanas e seus variados sons constituem um maravilhoso universo, e seu estudo denomina-se Campanologia. Para saber mais sobre elas, ver as matérias publicadas em 6 e 7/3/2018, cujo tema foi o Museu das Campanas da belíssima cidade de Urueña, também situada na Comunidade de Castilla y León.

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Caminhando pela Muralha de Ávila

Qualquer pessoa que tenha a oportunidade de conhecer a cidade de Ávila se impressiona por sua muralha, uma das estruturas de caráter defensivo de maior relevância em todo o continente europeu. A Muralha de Ávila foi o tema de dois posts publicados em 17 e 19/1/2017, e em minha recente visita com meus amigos brasileiros tivemos o privilégio de conhecer outra parte da estrutura que eu ainda não tinha visitado. Abaixo, vemos uma panorâmica da muralha, cuja foto foi tirada desde o chamado mirante dos Quatro Postes.

20160612_124733Esta incrível estrutura militar data do período românico, e segundo numerosos estudiosos é considerada a maior e mais conservada muralha desta época, sendo construída no final do século XI. De fato, trata-se da única construção defensiva da Europa Cristã que se conserva tal e como foi edificada originalmente.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua construção foi realizada logo depois que a cidade foi reconquistada pelo Rei Alfonso VI de Castilla, que encarregou seu genro Raimundo de Borgoña (casado com a Infanta D.Urraca, filha do monarca) que repovoasse a cidade e construísse a muralha. A construçao durou apenas 9 anos, de 1090 a 1099, e segundo a tradição o projeto foi realizado por dois mestres da geometria, o romano Casandro e o francês Florín de Pituenga.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Muralha de Ávila possui 2516 metros de perímetro, estando composta por 87 torres e 9 portas de acesso. Seus muros possuem cerca de 3m de grossura e sua altura alcança os 12m. Seu perímetro exterior pode ser percorrido à pé, algo que recomendo, pois o passeio nos permite observá-la de vários ângulos diferentes e compreender sua real dimensão. O mais interessante é que se pode percorrer a parte mais elevada da estrutura, num percurso de cerca de 1700 metros (entrada de 5 euros). Abaixo vemos uma grande maquete da muralha…

20161120_125219A parte superior de uma muralha se conhece como Adarve, uma estreita passagem onde os guardas que a protegiam realizavam o denominado caminho de ronda. O trecho principal que se pode caminhar possui 1400m, e já tinha realizado diversas vezes. O trecho menor, de 300 metros, percorri por primeira vez com meus amigos. O caminho não é contínuo devido à presença da Catedral de Ávila, cujo ábside faz parte da própria muralha, algo realmente insólito.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO passeio pelo Adarve proporciona belíssimas vistas da cidade intramuros…

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OLYMPUS DIGITAL CAMERAPara que fosse construída se utilizou pedra de granito de cores negra e cinza, e alguns materiais procedem de uma antiga necrópole romana, além de edifícios civis e das anteriores muralhas romana e do período visigodo. Podemos admirar também as vistas exteriores da cidade, com muitas das igrejas românicas que integram o excepcional patrimônio histórico desta cidade castelhana, declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos elementos de maior destaque da Muralha de Ávila é a Porta do Alcázar, formada por duas grandes torres semicirculares unidas por uma ponte, singular e única entre as muralhas européias.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATanto esta porta, quanto a similar Porta de San Vicente, encontram-se situadas num terreno plano. Por este motivo, estavam mais expostas ao ataque inimigo, de forma que foram melhor fortificadas. Abaixo e acima,vemos fotos da Igreja de San Pedro, de estilo românico e situada numa praça onde se celebram os grandes eventos festivos da cidade, além do mercado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs muralhas constituem um aspecto fundamental do urbanismo das cidades medievais e historicamente contribuíram de forma decisiva na distribuição do espaço urbano entre os diversos grupos sociais que nelas viviam. Representavam a separação do mundo civilizado, situado no interior da muralha, com o mundo selvagem. No campo viviam os camponeses, a classe social menos favorecida, e sobre eles recaiam 80% dos custos da infraestruturas urbanas, como a manutenção da própria muralha. Incrível, verdade ?

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A Muralha de Ávila – Parte 2

As dimensões da Muralha de Ávila são realmente incríveis. Seus muros possuem 3 m de grossura e alguns de seus cubos têm cerca de 20m de altura. No post de hoje veremos as 9 portas de acesso que  permitem a entrada ao recinto intramuros da cidade. Uma das principais é a Puerta do Alcázar, também chamada do Mercado Grande, por estar situada em frente à praça onde se realiza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPossui um aspecto imponente e um forte caráter defensivo, com suas imensas torres que se comunicam por uma ponte. Junto a ela se situava o antigo e desaparecido Alcázar. Seu aspecto atual se deve às reformas realizadas durante o reinado de Felipe II no século XVI.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERASemelhante a ela é a Puerta de San Vicente, cujo nome se deve à Basílica de San Vicente, situada quase em frente. Esta impressionante igreja românica foi tema do post publicado em 22/7/2012.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEntre estas duas portas monumentais situa-se a denominada Puerta del Peso de la Harina (peso da farinha, em português). Seu aspecto atual também se deve às reformas realizadas no século XVI. Adossada à muralha, seu objetivo inicial era servir de depósito de vinho, grãos e farinha que entravam pela cidade, função que cumpriu até o século XIX. Ao lado, vemos a antiga carnicería (uma espécie de açougue), atualmente ocupada pelas modernas dependências da Oficina de Turismo de Ávila,  um dos acessos à parte superior da muralha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Puerta del Mariscal recebeu seu nome em homenagem a D.Álvaro Dávila, mariscal do Reino de Castilla durante o reinado de Juan II, que custeou sua construção.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Puerta del Carmen permitia o acesso ao desaparecido Convento Carmelita de Ávila. A única lembrança do mesmo é a Espaldaña que vemos atualmente. Esta porta foi muito reformada ao longo dos anos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA Puerta del Puente (da ponte, em português), reformada em 1500 e no século XVII, recebia os visitantes que chegavam à cidade desde o oeste.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Puerta de la Malaventura permitia o acesso à antiga juderia, ou seja, ao bairro onde vivia a comunidade judaica da cidade. É a única das portas do recinto amurralhado exclusiva para pedestres.

P6200095.JPGOLYMPUS DIGITAL CAMERAA Puerta de la Santa, reformada totalmente no século XVI, é o principal acesso da muralha ao Convento de Santa Teresa, fundado no mesmo local da casa de nascimento da santa (que em breve veremos no blog).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalmente, a Puerta del Rastro, em cujos muros foram colocados  restos reaproveitados de época romana.

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A Muralha de Ávila

Na Espanha, quando nos referimos às muralhas que circundavam as cidades em tempos antigos, existem duas referências obrigatórias: a Muralha de Lugo, construída em época romana, e a Muralha de Ávila. Digo isso em função do seu grau de conservação e de seu  extenso perímetro, constituindo os exemplos perfeitos do sistema defensivo básico existente desde o período romano, que atingiu seu ápice na Idade Média. A Muralha de Lugo ainda nao tive a oportunidade de conhecer, mas pude contemplar inúmeras vezes a Muralha de Ávila

20160612_124733Existem várias teorias a respeito de sua construção, e a mais aceita diz que foi levantada no século XII, durante a reconquista da cidade e seu posterior repovoamento. Este dado lhe confere a designação de um cerco defensivo pertencente à arquitetura militar do período românico.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Muralha de Ávila é monumental por sua data construtiva, tamanho e grau de conservação. Ao contrário da maioria das cidades, que perderam suas muralhas medievais em função do processo de ampliação urbana que sucedeu em toda a Europa a partir do século XVIII, a Muralha de Ávila pôde sobreviver graças ao título de Monumento Nacional que recebeu em 1884.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAFoi levantada, provavelmente, sobre os restos de muralhas anteriores. Inclusive, foram utilizadas peças procedentes de outras épocas, como estelas funerárias provenientes de um antigo cemitério, que incluíam inscrições com o nome do defunto, sua origem e profissão. Podemos observar em seus grossos muros tumbas datadas de época romana, denominadas Cistas, onde eram depositadas as cinzas dos corpos incinerados. Algumas delas eram talhadas em cerâmica, outras em pedra, como as que vemos a seguir.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPossui um perímetro de 2545m, estando composta por 87 cubos (torres defensivas) e 9 portas de acesso, que veremos na próxima matéria.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAÉ possível percorrer todo seu perímetro pelo lado exterior, algo que recomendo num passeio pela cidade. Algumas zonas habilitadas como O Paseo del Rastro, por exemplo, se tornaram um local de ócio para a população local, e um bom ponto para contemplar sua grandeza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA parte superior da muralha está formada por um passeio de ronda denominado Adarve. Trata-se de um corredor situado sobre o conjunto defensivo que permitia o rápido deslocamento das tropas em seus trabalhos de vigilância ou durante os combates frente ao inimigo. Mediante uma pequena entrada, foi habilitada uma zona de cerca de 1700m, onde podemos percorrer a muralha desde o adarve e vê-la sob uma perspectiva diferente.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADepois de sua declaração como Monumento Nacional em 1884, a Muralha de Ávila recebeu outros títulos que reafirmaram sua importância, como Conjunto Histórico-Artístico em 1982 e Patrimônio da Humanidade em 1985, junto com o centro histórico da cidade.

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