Almagro – Parte 2

O primeiro monumento que conheci em Almagro, pela proximidade do hotel onde me hospedei, foi a Igreja de San Bartolomé, construída com tijolo e pedra. Antiga igreja da Ordem dos Jesuítas, sua construção iniciou-se em 1625, mas as obras somente prosseguiram, por motivos econômicos, em 1733, sendo concluída na segunda metade do século XVIII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASeu interior possui a típica planta das igrejas jesuítas, com apenas uma nave e compostas por capelas comunicadas entre si a ambos lados da nave.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANas laterais, vemos tribunas entre pilastras com balcões decorados no estilo rococó a base de elementos vegetais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA titularidade do templo foi dada ao santo padroeiro da cidade, San Bartolomé (São Bartolomeu, em português), um dos 12 apóstolos de Jesus Cristo. Apesar de ter sido um dos testemunhos da Ascensão de Cristo, não desempenhou um papel destacado nos evangelhos. Divulgou o evangelho na Índia e foi o fundador do Cristianismo na Armênia, sendo considerado o santo padroeiro da Igreja Apostólica deste país, junto com São Judas Tadeu. Sua representação mais habitual é a de seu martírio por esfolamento, a remoção da pele do corpo. São Bartolomeu foi martirizado por Astiages, Rei da Armênia. Na época barroca, é comum vê-lo representado como apóstolo com a escritura sagrada e mostrando uma navalha, como vemos nesta escultura situada no interior da igreja.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAE também na fachada da igreja…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo altar maior, vemos uma reprodução do famoso quadro do pintor espanhol José de Ribera (1591/1652), intitulado “O Martírio de San Felipe“, cujo original se encontra no Museu do Prado de Madrid. Durante muito tempo se pensou que se tratava do Martírio de San Bartolomé, mas São Felipe foi crucificado, e não esfolado…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos a cúpula da igreja…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlém da igreja, a Ordem Jesuíta construiu um grande colégio, situado ao seu lado…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlmagro é uma cidade em que os chamados Ofícios Tradicionais ainda sobrevivem, como os belíssimos objetos feitos de metal, que eram expostos próximos à Plaza Mayor numa interessante feira de final de semana.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro ofício de grande destaque, pela qualidade de suas peças, é o Encaje, parecido ao bordado..

OLYMPUS DIGITAL CAMERA A tradição em sua fabricação pode ser vista no Museu do Encaje, situado junto à Plaza Mayor

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs Encajeras, as mulheres responsáveis por sua elaboração, foram homenageadas com uma merecida estátua.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlmagro também demonstra sua riqueza cultural na gastronomia. Seu prato mais famoso são as berinjelas fritas (berenjenas, em espanhol), cuja origem está relacionada à cozinha árabe.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATive a oportunidade de saborear as delícias gastronômicas da cidade num edifício de finais do século XVI, a Posada de Almagro, antigamente conhecida como Posada de San Bartolomé. O ambiente rústico do local com sua galerias de madeira constituem o ambiente perfeito para saborear os pratos da gastronomia da Comunidade de Castilla La Mancha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAproveitei para provar um Menu de fim de semana que custou 18 euros. De primeiro prato, comi um delicioso Calabacín relleno de carne picada (Abobrinha recheada com carne moida).

OLYMPUS DIGITAL CAMERADe segundo prato, bacalhau

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPara completar, vinho tinto e melão, de sobremesa…

Maderuelo – Província de Segóvia

Depois de deixar Ayllón, nosso próximo destino foi outro povoado encantador, a vila de Maderuelo, localizada a poucos quilometros de Ayllón. Tal como esta, Maderuelo também figura entre os Pueblos Mais Belos da Espanha, e foi declarado Conjunto Histórico-Artístico.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO mais impressionante da vila é sua localização geográfica, no alto de uma colina e rodeada pelo Embalse de Linares, um lago artificial com 690 hectares que foi declarado Reserva Natural.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMaderuelo foi construída num cerro rochoso com um recinto de muralhas que se adapta perfeitamente à forma do relevo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADo alto de seu centro histórico, as vistas do lago impressionam…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAApesar das poucas informações sobre sua história, se sabe que foi repovoada pelo Conde castelhano Fernán González no século X e posteriormente saqueada pelo exército do comandante árabe Almanzor. No século seguinte se construiu a muralha junto com o castelo e no século XII foi anexionada ao Bispado de Segóvia. Posteriormente, tornou-se um senhorio pertencente à família dos Luna e depois aos Marqueses de Villena (a partir do século XVI), como sucedeu com Ayllón.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA muralha defensiva estava constituída por 4 portas e um castelo integrado, que infelizmente desapareceu. A única porta sobrevivente é o chamado Arco da Vila.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMaderuelo possui somente 120 habitantes. A estrutura de suas casas se caracterizam pela irregularidade, predominantemente estreitas e com quarteirões alargados, adossados à muralha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm seu período de máximo esplendor, na Idade Média, Maderuelo chegou a ter 10 paróquias.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAtualmente, se conservam duas, ambas envoltas em mistério, pois se acredita que faziam parte de uma estrutura defensiva mais antiga. A Igreja de San Miguel é de origem românica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAJá a Igreja de Santa María del Castillo destaca-se pela diversidade de estilos que apresenta. Preserva elementos da arquitetura califal, algo único na Província de Segóvia, pois parece que foi construída sobre a mesquita local. Parcialmente destruída por um incêndio no século XVI, foi reconstruída com materiais de outras construções da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAJunto ao Embalse de Linares, situa-se a Ermita de Vera Cruz, catalogada como Monumento Nacional em 1924.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta singela, mas famosa construção, foi erguida pelos templários sobre uma outra ermita de época visigoda. Seu interior estava totalmente decorado com Pinturas Românicas. Com a construção do Embalse, as pinturas foram levadas ao Museu do Prado, e hoje podem ser vistas na seção dedicada às pinturas de Estilo Românico do museu. Em seu local original,  as pinturas foram substituídas por cópias. Uma pena que a ermita estava fechada…

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Esculturas do Museu do Prado

Apesar de ser reconhecido internacionalmente como uma Pinacoteca, ou Museu de Pinturas, o Museu do Prado possui cerca de 900 esculturas em seu acervo artístico. Como no caso das pinturas, as esculturas formavam parte das coleções dos Reis da Espanha. Algumas das obras mais importantes estão situadas no claustro do desaparecido Monastério de San Jerónimo, que foi restaurado e colocado dentro do novo edifício projetado por Rafael Moneo durante as obras de ampliação do museu, finalizadas em 2007.

DSC09089O núcleo central da coleção de escultura formou-se na primeira metade do século XVI, durante o reinado de Carlos I. A ele se deve um excepcional conjunto  de obras, os retratos familiares de corpo inteiro que o monarca encarregou aos escultores italianos Leone Leoni (1509/1590) em 1549, e que foram finalizados por seu filho Pompeo Leoni (1530/1608). Consideradas obras primas da Escultura Renascentista, foram realizadas em bronze e Mármore de Carrara, materias perfeitos para exprimir os valores de nobreza e eternidade. Representam o próprio imperador e os membros mais próximos de sua família. Abaixo, vemos o monarca Carlos I (1500/1558), uma escultura realizada em mármore em 1553, na qual o rei aparece vestido com uma armadura e um medalhão que representa a Marte, Deus da Guerra. Carlos I foi o único Rei Espanhol proclamado Imperador, por ter sido Rei da Espanha e também do Sacro Império Germânico.

DSC09085Carlos I casou-se com sua prima Isabel de Portugal (1503/1539) em 1526. Foi a primeira e única esposa do rei, que sentiu por ela um profundo amor. Faleceu em Toledo no ano de 1539, com apenas 36 anos. Para recriar sua imagem, Leone Leoni recorreu a um retrato da imperatriz pintado por Ticiano, que se conserva no Museu do Prado.

DSC09075A seguir vemos um relevo do casal real, encarregado a Leone Leoni em 1549, e terminado em Milão 6 anos depois. Feitos de mármore e decorados com motivos da Mitologia Clássica.

DSC09077 Maria de Hungria (1505/1558), irma de Carlos I, casou-se em 1521 com Luis II, Rei da Hungria, que veio a falecer 5 anos depois. Entre 1531 e 1556 foi a regente dos Países Baixos. Na escultura, aparece vestida como viúva. Encarregada a Leone Leoni em 1548, foi realizada em bronze.

DSC09080Um dos filhos que Carlos I teve com Isabel de Portugal, Felipe II (1527/1598) foi o responsável por trazer de forma permanente a capital do Império Espanhol para Madrid, em 1561. Entre 1554 e 1558 foi também Rei da Inglaterra, graças ao seu casamento com Maria Tudor. Abaixo vemos sua escultura, realizada em bronze e fundida em 1551.

DSC09073Felipe II também aparece num busto feito de alabastro e atribuído a Pompeo leoni (1560).

DSC09083Os dois escultores, pai e filho, foram também os responsáveis de outras obras primas do Renascimento Espanhol, os mausoléus do Imperador Carlos I e Felipe II, que podemos ver no Monastério de El Escorial. Finalizo a matéria comentando que o claustro é o único local do Museu do Prado onde as fotos estão permitidas…

 

Ampliação do Museu do Prado: Madrid

O Museu do Prado (post publicado em 17/5/2012) foi alvo de diversas obras de reformas ao longo de sua história. A mais importante delas finalizou em 2007, segundo um elogiado projeto do renomado arquiteto Rafael Moneo (1937). O plano levou em consideração os edifícios colidantes ao museu, como a Igreja de San Jerónimo La Real (matéria publicada em 7/7/2013). Dois edifícios emblemáticos de Madrid, um no plano artístico, e outro no religioso, foram integrados ao novo desenho de ampliação realizado.

DSC09098O edifício sede do Museu do Prado, um dos referentes da arquitetura neoclássica da Espanha, foi projetado pelo arquiteto Juan de Villanueva a partir de 1785, durante o reinado de Carlos III, com a função de acolher o Gabinete de História Natural. A Guerra da Independência contra os franceses no início do século XIX fez com que o edifício fosse duramente castigado em sua estrutura. Com o término da guerra, o edifício foi restaurado no reinado de Fernando VII e reinaugurado em 1819 como um Museu de Pinturas. Para tanto, contou com o esforço e dedicação da segunda esposa do rei, Maria Isabel de Bragança.

DSC03524DSC01970Já a Igreja de San Jerónimo La Real é uma das poucas construções de origem gótica existentes em Madrid. Formava parte do antigo Monastério de San Jerónimo, fundado pelo Rei Enrique IV no século XV. Originalmente, estava situado às margens do Rio Manzanares, mas as péssimas condições higiênicas do local fez com que os Reis Católicos ordenassem a construção de um novo edifício, situado em sua localização atual. Em 1502 se edificou a nova igreja no período final do gótico, que contava também com um quarto real situado junto ao presbitério, utilizado pelos reis durante sua estadia em Madrid. Dessa forma, os Reis Católicos podiam assistir a missa desde seu próprio aposento.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA igreja, desde suas origens, sempre esteve ligada à monarquia, pois em seu interior se celebram casamentos reais e os juramentos dos Príncipes de Asturias. As várias reformas realizadas ao longo de sua secular história eliminaram a maior parte de sua fábrica gótica. Também danificada durante a Guerra da Independência, seu aspecto atual se deve às reformas realizadas pelo arquiteto Enrique María Repullés em 1883.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO monastério, que já não existe mais, chegou a ter dois claustros de épocas distintas. O primeiro, de estilo renascentista, foi destruído e substituido por um barroco, construído entre 1672 e 1681. Devido às guerras e sua própria antiguidade, o claustro permaneceu abandonado no século XX, e abaixo podemos observar seu estado numa foto do século passado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos aspectos mais importantes da proposta de ampliação do Museu do Prado realizada por Rafael Moneo consistiu na recuperação do claustro e sua restauração. O claustro foi desmontado e recolocado dentro de um novo edifício, o chamado Cubo de Moneo.

DSC09095Feito de tijolo vermelho, o Cubo de Moneo acolhe hoje em dia o antigo claustro restaurado, e no novo espaço podemos contemplar uma série de esculturas históricas dos monarcas espanhóis, que será o tema do próximo post.

DSC09089O trabalho de Rafael Moneo incluiu também um novo vestíbulo situado na parte traseira do edifício histórico de Juan de Villanueva, que serve de entrada ao museu, denominado Puerta de los Jerónimos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO vestíbulo compreende vários espaços complementares ao museu, como cafeteria, loja, o acesso ao claustro e também salas onde se organizam exposições temporais de grande qualidade artística. Na parte superior do vestíbulo, Moneo projetou um belo jardim de formato geométrico.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro destaque do Cubo de Moneo, a belíssima porta de acesso foi realizada pela artista Cristina Iglesias (1956). Realizada em bronze, possui 6m de altura e 22 toneladas de peso.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizamos a matéria com uma foto do Cubo de Moneo e, ao lado, a Igreja de San Jerónimo

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Os Gravados de Goya: Desastres da Guerra

Um dos fatos mais marcantes da Espanha no séc.XIX, vivido intensamente por Goya, foi a invasão das tropas de Napoleão, que desencadeou a Guerra da Independência, entre os anos de 1808 e 1814. Neste período, o poder da nação esteve nas mãos de José I, irmão do imperador francês. Muitas cidades foram destruídas e o patrimônio artístico e histórico do país, saqueado. Alguns dos episódios mais relevantes do período foram retratados por Goya em seus quadros, como os famosos ” El Dos de Mayo” e  “El Tres de Mayo“, datas dos célebres acontecimentos ocorridos em Madrid, quando a população se rebelou contra as tropas francesas, e cuja consequência foi o fuzilamento dos cabeças desta revolta popular. Ambas obras podem ser admiradas hoje em dia no Museu do Prado. Goya realizou também uma série de gravados sobre a guerra, composta por 85 lâminas e que foram realizadas entre 1810 e 1814. No entanto, somente foram publicadas em 1863, ou seja, 35 anos depois da morte do pintor.

20150816_112833Nesta série, Goya retrata o horror da guerra e suas fatais consequências. Não enaltece as vitórias, mas as cenas de bandidagem das tropas francesas, o patriotismo das guerrilhas e a crueldade perpetuada pelos dois bandos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta impressionante série foi provavelmente criada depois de sua visita à Zaragoza, cidade que foi bombardeada e sitiada pelo inimigo. Goya recolheu inúmeras testemunhas do massacre, sendo que representam fatos verídicos. Depois de uma brava resistência, Zaragoza caiu em 1809 e sua população esteve à beira do colapso devido a uma epidemia de tifo, provocada pelos incontáveis cadáveres putrefatos que se amontoavam pelas ruas da cidade. Todas as lâminas das 4 séries dos Gravados de Goya estão numeradas e com um título. A de abaixo denomina-se “Al cementério“…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta outra, simplesmente “Por Quê ?”…

20150816_112846Nestas cruéis cenas, observamos a miséria humana como decorrência da guerra.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA vivência das histórias que viu e ouviu deixaram a Goya fortemente sensibilizado, e de forma permanente. O gravado a seguir chama-se “Yo lo vi…”

20150816_112805Em muitos locais do interior do país a população rural, pobre e insuficientemente armada, utilizou as técnicas da guerrilha, que foram combatidas de maneira terrível pelo exército de Napoleão.

20150816_112824Em algumas lâminas, Goya homenageia o heroísmo popular, caso de de Agustina de Aragón, uma mulher de Zaragoza que vendo os artilheiros mortos não hesitou em pegar o canhão e disparar contra o inimigo. Ainda hoje, é considerada um dos símbolos da resistência de Zaragoza contra o invasor. O gravado se chama “Que valor…”

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As Cercas de Madrid

Em 6/5/2013, publiquei uma matéria sobre as Muralhas de Madrid. Na ocasião, vimos que Madrid teve, ao longo de sua história, duas muralhas. Na época de sua fundação, no séc. IX, foi erguida a muralha árabe. Depois de reconquistada no séc. XI, levantou-se a muralha crista, uma ampliação do primitivo recinto muçulmano. Além destas construções de caráter militar e defensivo, Madrid contou também com várias Cercas, verdadeiros muros que rodeavam a cidade. Ao contrário das muralhas feitas de pedra, as cercas foram construídas com tijolos. Como o território já estava consolidado ante a ameaça árabe, as cercas possuíam uma função de controle urbano e tributário, ou seja, exerciam a vigilância das pessoas que entravam e saiam da cidade, bem como o pago de imposto, sempre e quando as pessoas entravam com alguma mercadoria. As cercas tinham também um controle sanitário, no caso da ocorrência de alguma epidemia ou peste. A primeira cerca construída foi no séc. XV, durante o reinado de Enrique IV, provavelmente em torno ao ano 1438. A denominada Cerca del Arrabal, foi edificada para controlar uma peste que assolou a cidade, quando também se construiu o Hospital del Buen Suceso, ao lado da Puerta del Sol, nela permanecendo até que foi derrubado em 1854. A cerca tinha 70 hectares e contava com 8 portas de acesso, entre as quais a chamada Puerta del Sol, que acabou dando o nome à praça, desaparecida em 1570. Outra porta de importância foi a Puerta de la Latina, situada na Calle Toledo. Seu nome era uma referência ao antigo Hospital de la Latina, localizado ao lado da porta, e que foi fundado por Beatriz Galindo. Essa mulher, uma das mais cultas da época, ficou conhecida como La Latina, por seu amplo domínio do Latim. Professora dos filhos dos Reis Católicos, seu trabalho assistencial em prol dos habitantes do bairro onde viveu fez com que atualmente o famoso Bairro de La Latina seja uma homenagem ao seu apelido.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante o reinado de Felipe II, foi levantada uma nova cerca em 1566. Também possuía 8 portas, algumas das quais foram aproveitadas da anterior Cerca del Arrabal. Abaixo, vemos a escultura em bronze do monarca, realizado em 1564 pelos irmãos Pompeo e Leone Leoni, que pode ser visto no Museu do Prado.

DSC09073Com aproximadamente 125 hectares de extensão, os poucos restos conservados da Cerca de Felipe II foram descobertos em 1991 na Calle Bailén, durante umas obras de reforma e ampliação do edifício do Senado, situado ao lado. Exerciam um controle fiscal e sanitário, como a anterior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAÀ medida que a população ia aumentando, a Cerca de Felipe II tornou-se pequena, sendo necessária a construção de uma outra maior, que finalmente foi erguida durante o reinado de seu neto, Felipe IV, em 1625. Sua superfície já era de 500 hectares, o que demonstra o grande crescimento verificado na cidade a partir do momento em que Madrid tornou-se capital da Espanha com Felipe II, e que prosseguiu durante os governos de Felipe III e Felipe IV. Abaixo, vemos o retrato deste último, realizado entre 1630/1635 por discípulos do pintor Diego Velázquez.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADe fato, a população de Madrid havia aumentado 200% no período entre os governos de Felipe II e Felipe IV. A construção da nova cerca foi paga mediante um imposto sobre os produtos alimentícios, principalmente o vinho. O único resto conservado da Cerca de Felipe IV encontra-se na Ronda de Segóvia, no centro da capital espanhola.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAPossuía 5 portas principais, das quais a mais conhecida é a famosa Puerta del Alcalá, construída para celebrar a chegada do rei Carlos III e projetada pelo arquiteto real Francisco Sabatini em 1778. Abaixo, vemos a porta e a estátua equestre de Carlos III, localizada na Puerta del Sol.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAs portas permaneciam abertas até as 22hs no inverno e uma hora mais no verão. Além dos acessos principais , a Cerca de Felipe IV contava também com pequenas portas secundárias denominadas Postigos. Do ponto de vista monumental, careciam de importância, exceção feita ao Postigo de San Vicente, construído em 1726 com uma imagem de San Vicente Ferrer em sua parte superior. Devido à sua deterioração, Carlos III ordenou que fosse derrubado em 1775, encarregando a Francisco Sabatini uma nova porta. Esta, por sua vez, foi demolida em 1890 e em 1995 se construiu uma réplica exata, baseada nos planos conservados e fotos antigas. No entanto, foi levantada ao contrário….

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs Postigos fechavam quando o sol se punha e voltavam a abrir somente ao amanhecer. O maior inconveniente da Cerca de Felipe IV foi que impediu o crescimento da cidade, e seus habitantes ficaram nela enclausurados cerca de 200 anos, apesar do crescimento populacional verificado no período, com todas as consequências nefastas que podemos imaginar. Finalmente, a última cerca que teve Madrid foi derrubada em 1868. A partir de então, iniciou-se o planejamento de seu Ensanche (ampliação ordenada da cidade), algo que já havia ocorrido em Paris e em Barcelona. Mas esta será a matéria do próximo post….

Patrimônio Histórico de Lavapiés

No post de hoje veremos algumas das construçoes históricas do Bairro de Lavapiés, regiao de Madrid que lamentavelmente perdeu muito de seu patrimônio depois da Guerra Civil do séc. XX. Um exemplo desta destruiçao encontramos nas ruínas das antigas Escolas Pías de San Fernando.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA igreja desta instituiçao de caráter benéfico foi construída em 1734 pelo arquiteto Francisco Ruiz, contando com o patrocínio dos monarcas Carlos III e Carlos IV. O colégio tinha como missao a educaçao de crianças pobres, chegando a ter 2 mil alunos. A eficácia educativa dos escolápios através de seu inovador sistema pedagógico tornou-se famosa, e a instituiçao passou a receber apoio da nobreza, como o Duque de Alba, por exemplo. Em suas dependências foram incluídas as primeiras classes para surdo e mudo do país.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1936, no começo da Guerra Civil, um grupo de fanáticos incendiou a igreja e assassinou os religiosos. O templo ficou em ruínas e abandonado a sua própria sorte.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFelizmente, em 1999, as ruínas foram adaptadas a um novo uso, como espaço para a Biblioteca da Universidade de Ensino à Distância (UNED), e onde haviam imagens religiosas, retábulos e obras artísticas, atualmente vemos uma grande coleçao de livros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos a grande cúpula do templo, reformada para o fim educativo que permanece atualmente.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO projeto arquitetônico incorporou novos espaços à biblioteca, outorgando um aspecto contemporâneo ao conjunto.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra instituiçao de renome que desapareceu da paisagem urbana de Lavapiés foi o antigo Convento de la Trinidad. Fundado por Felipe II em 1562, era um dos mais importantes de Madrid. A Ordem Trinitária foi criada no séc. XII para promover a liberaçao de cativos cristaos no norte da África, entre os quais o mais famoso foi Miguel de Cervantes. O Convento era uma construçao renascentista com um magnífico claustro, mas foi fechado depois da Desamortizaçao de Mendizábal em 1836.  Em 1847 foi destinado como Museu Nacional de Pintura e Escultura, sendo conhecido entao como Museu de la Trinidad. Acolheu uma grande quantidade de obras religiosas depois que passou a ser propriedade estatal. Em 1897, foi infelizmente derrubado, mas seu acervo se salvou, fazendo parte atualmente do Museu do Prado. Em seu lugar foi erguido em 1915 o Teatro Calderón, um dos mais conhecidos da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERABem em frente à parte lateral do teatro, que vemos acima, situa-se uma pequena capela, único resto sobrevivente do antigo Convento de la Trinidad.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAConhecida como Capela de Ave Maria, esta bela e singela construçao barroca foi erguida em 1728. A Real Congregaçao de Ave Maria foi fundada em 1611 por Simón de Rojas, confessor e conselheiro do rei Felipe III e da rainha Mariana de Áustria, que ofereceu todo o apoio para sua construçao. Na parte superior da fachada, vemos suas iniciais (MA) e a cruz vermelha e azul da Ordem dos Trinitários.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA instituiçao permanece ainda hoje com seu trabalho de beneficência social, oferecendo diariamente 350 cafés da manha para os necessitados, além assistência jurídica e psicológica.