As Viagens do “Guernica”

Antes de abandonar Salamanca, tive a oportunidade de ver uma interessantíssima exposição sobre o quadro “Guernica“, a obra prima do mais influente artista do século XX, Pablo Ruiz Picasso (1881/1973). A exposição foi montada na Plaza de Anaya, situada ao lado das Catedrais de Salamanca, e foi organizada pelo Centro Cultural Caixa Forum, que está percorrendo várias cidades da Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA O “Guernica” já foi o tema de um post publicado em 17/5/2012, junto com o museu onde se encontra exposto, o Museu Reina Sofía de Madrid, que vemos abaixo…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlguns anos atrás, pude fotografar o “Guernica“, algo impensável atualmente, mesmo porque está proibido captar imagens do quadro.

DSC03525A exposição de Salamanca discorre sobre as viagens que o quadro realizou depois de ter sido pintado por Picasso, participando de diversas exposições internacionais antes de seu retorno a Espanha. Considerado uma das obras mais conhecidas, reproduzidas, admiradas e reinterpretadas da História da Arte, o “Guernica” transformou-se num verdadeiro ícone do século XX.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO quadro foi realizado por Picasso entre maio e junho de 1937 e seu título é uma referência ao bombardeio da cidade basca de Guernica pela aviação alemã no dia 26 de abril deste ano, dentro do contexto da Guerra Civil Espanhola (1936/1939). Este ataque aéreo é considerado o primeiro realizado contra uma população civil da história das disputas bélicas. Na realidade, sua elaboração por parte de Picasso foi um encargo do governo republicano para ser exposto no Pavilhão Espanhol, montado durante a Exposição Internacional de Paris de 1937, com a finalidade de atrair a atenção pública à causa republicana. Abaixo, vemos uma foto do pavilhão, cujo projeto construtivo se deve aos arquitetos Josep Lluís Sert e Luis La Casa, e o quadro exposto no local.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERACom o final da Guerra Civil Espanhola em 1939 e o início do governo ditatorial do General Franco, Picasso manifestou o desejo que o quadro retornasse ao país somente depois que voltasse a ser uma nação democrática. Depois de sua exibição na Exposição Internacional de Paris, muitas outras foram realizadas no continente europeu, como a de 1938/1939 no Reino Unido, com grande êxito de público e organizada para arrecadar fundos para o Comitê de Ajuda aos Refugiados Espanhóis.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante décadas, o quadro viajou por boa parte do mundo, antes de ser custodiado pelo Museu de Arte Moderna de Nova York (MOMA) a partir de 1958, onde permaneceu exposto até 1981. Abaixo, vemos o itinerário do “Guernica“…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO processo de criação da obra foi plenamente documentado pelo pintor através de esboços preparatórios e também por fotografias realizadas por Dora Maar (1907/1997), uma artista plástica francesa que se tornou uma das mulheres da vida de Picasso. Este material constitui um dos melhores exemplos documentados do progresso de uma obra artística em toda a História da Arte Universal. Picasso realizou, num prazo de 6 meses, (antes, durante e depois da conclusão do quadro), uma série de 45 esboços que atualmente encontram-se expostos no Museu Reina Sofía de Madrid, junto com a famosa obra do artista de Málaga.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO “Guernica“, um exemplo memorável da Arte Cubista, além de sua importância histórica e indiscutível qualidade artística, impressiona por seu tamanho (7.76m de comprimento x 3.49m de altura). Foi pintado utilizando-se somente as cores branca, negra e várias tonalidades de cor cinza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAApesar do título da obra e suas circunstâncias históricas, não existe no quadro nenhuma referência explícita ao bombardeio da cidade de Guernica, pois trata-se de uma composição simbólica, e não narrativa, retratando o horror à guerra e os sofrimentos que infringe a todos os seres humanos. Por este motivo, o quadro converteu-se num símbolo de protesto antibélico, utilizado contra os vários confrontos do século passado…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlgo que desconhecia e que pude orgulhosamente constatar, é que durante as viagens do “Guernica” pelo mundo, o quadro esteve presente no Brasil em 1953, durante a realização da II Bienal de São Paulo, como vemos na foto abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO quadro serviu de motivo inspiratório a inúmeras obras em todo o mundo…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalmente, em 1981, o quadro retornou a Espanha, com uma ampla divulgação da imprensa, escrita e televisiva…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA chegada do “Guernica” no Aeroporto de Barajas

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInicialmente, o quadro permaneceu no Casón del Buen Retiro, uma das dependências que faziam parte do destruído Palácio del Buen Retiro, originalmente construído dentro do Parque do Retiro, de propriedade real na época de sua construção, que ainda podemos contemplar passeando pela cidade.

DSC08622OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1982, o “Guernica” passou a ser exposto permanentemente no Museu Reina Sofía, considerado um dos centros de Arte Contemporânea de maior prestígio de todo o mundo, cuja visita, evidentemente, recomendo !!!!!

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Os Touros na Arte

Devido a importância que os touros e os espetáculos taurinos exerceram na cultura espanhola, foram retratados nas mais variadas expressões artísticas, como a pintura, escultura, artes decorativas, e também na literatura, na música e no cinema. Nesta série que estou realizando sobre o mundo dos touros na Espanha já publiquei diversas imagens em que os touros aparecem como objeto temático no mundo da arte. Neste post veremos algumas obras em que foram representados nos mais variados estilos e técnicas pictóricas, por diversos e reconhecidos artistas ao longo da história, e também por artistas anônimos. Um exemplo é o pintor e gravador espanhol Antonio Carnicero (1748/1814), que em 1790 realizou uma série de gravados sobre tauromaquia, alguns dos quais encontram-se expostos no Museu de História de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos outro gravado em que se representa uma corrida de touros na Plaza Mayor de Madrid, realizado em 1791.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA O genial pintor Francisco de Goya realizou diversas séries de gravados sobre uma ampla variedade temática, que inclui os desastres da Guerra da Independência Espanhola, crítica social e inclusive sobre tauromaquia, já que foi um apaixonado pelas touradas (post publicado em 3/2/2016).

20150816_112346OLYMPUS DIGITAL CAMERAArtistas anônimos deixaram seu registro sobre o mundo dos touros, como no quadro abaixo, intitulado “Corrida de Touros em Cuenca“, realizado em 1661…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA temática taurina aparece também em cenas cotidianas, como neste quadro realizado pelo pintor e escultor Enrique Mélida y Alinari (1838/1892), intitulado “Jugando al toro“.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro grande pintor espanhol, Pablo Picasso, explorou o forte simbolismo taurino para representar o horror da Guerra Civil Espanhola no seu famoso “Guernica“, uma das obras de arte fundamentais do século XX, que pode e deve ser contemplado no Museu Reina Sofia de Madrid.

DSC03525Quando estive na cidade de Jaén (Andaluzia) tive a oportunidade de visitar uma exposição sobre Arte Naif, em que os artistas retrataram o mundo taurino, como María Cruz Gutiérrez Segovia, em sua obra “Corrida de Touros“, realizada em 1987.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlguns artistas retrataram as festividades taurinas que se realizam nos povoados espanhóis, como Marta Rodríguez Salmones, em sua obra “Touros em Turégano“, de 1977…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOu Catalina López Sevilla, em sua obra “Touros em Santisteban del Puerto“, de 1984…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo campo da escultura, muitos e renomados artistas como Mariano Benlliure, por exemplo, deixaram seu legado relacionado com a tauromaquia. O artista valenciano realizou o monumento funerário ao grande toureiro Joselito situado no cemitério de Sevilha. Vários outros toureiros foram homenageados com esculturas que foram colocadas em diversas praças de touros espalhadas pelo país, assim como os espetáculos que se organizam em todo o território espanhol. A seguir, vemos uma escultura que representa a tradicional festa da “Vaquilla del Ángel“, organizada na cidade de Teruel (Aragón), cujo início se remonta ao ano 1679.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO ambiente taurino também foi abundantemente recriado na tradicional música espanhola, como na Zarzuela e no Flamenco. Na literatura, em obras de escritores consagrados como Lope de Vega, Cervantes, Rafael Alberti, Vicente Blasco Ibáñez, somente para citar alguns. Nas denominadas Artes Decorativas, os touros aparecem como elementos que embelezam espaços vinculados à tauromaquia, como nas Tabernas, como tivemos oportunidade de salientar…

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Centro Histórico de La Coruña

Depois de visitar a Torre de Hércules, fomos passear pelo Centro Histórico de La Coruña, que guarda excelentes amostras de seu passado medieval, principalmente em suas igrejas. Uma das mais importantes é a Colegiata de Santa María, que se insere dentro da fase final do Estilo Românico. Foi declarada Bem de Interesse Cultural em 1931.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua construção prolongou-se desde o século XII até o XIV, sendo que foi finalizada em 1302, segundo uma inscrição conservada. Em 1441 recebeu o título de Colegiata. É conhecida também como Igreja de Santa María de Campo, pois originalmente se situava fora das muralhas que cercavam a parte velha da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO templo foi construído por um dos grêmios mais poderosos da época, o dos marinheiros. Durante muito tempo se manteve o costume entre os navegantes de visitar a igreja, em agradecimento por regressarem são e salvos do mar. A fachada principal foi modificada em 1880, mas preserva o pórtico primitivo românico.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo vemos a roseta que preside a fachada principal, do século XIV.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma pena que quando chegamos à igreja, ela tinha acabado de fechar, motivo pelo qual nao pudemos visitar seu interior. Prosseguimos o passeio percorrendo as ruas do centro histórico, e alguns dos edifícios foram decorados com elementos da vida marinheira, de longa tradição na cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERALa Coruña tem muito a oferecer ao turista, e recomendo uma visita mais prolongada à cidade. Em uma dos edifícios do centro histórico viveu Pablo Picasso (1881/1973), artista fundamental do século XX, que nasceu em Málaga, mas que ainda criança se mudou com sua família à La Coruña. Com apenas 13 anos realizou sua primeira exposição, como demonstra a placa comemorativa que vemos a seguir.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro aspecto a salientar em relação à Lei de Memória Histórica da Espanha, vinculada com a época da Guerra Civil e a posterior ditadura de Franco, foi a mudança de nomes das ruas. A que vemos abaixo chamava-se General Mola, um militar espanhol que desempenhou um importante papel durante a ditadura de Primo de Rivera, além de ser um dos responsáveis pelo golpe de estado em 1936, cujo fracasso ocasionou a guerra civil que assolou o país durante os três anos subsequentes. Atualmente, a rua homenageia a Álvaro Cebreiro (1903/1956),um ilustrador e caricaturista natural da cidade.

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Les 4 Cats – Barcelona

No post de hoje, veremos um dos cafés históricos mais conhecidos de Barcelona, o chamado Les 4 Cats, um de meus principais objetivos em minha recente visita à cidade condal, que uma amiga gentilmente me mostrou num passeio pelo centro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAntes de falar a respeito do café, convêm comentar um pouco sobre o edifício onde está situado, a Casa Francesc Martí, projetada em 1896 pelo famoso arquiteto modernista Puig i Cadafalch.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste edifício representou o primeiro projeto deste relevante arquiteto, empregando o tijolo e a pedra na construção deste imóvel para o proprietário Francesc Martí, que passou a viver no andar principal. Puig i Cadafalch se inspirou no passado gótico de Barcelona, criando elementos associados ao estilo, como os arcos e os motivos heráldicos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAPodemos ver, inclusive, uma gárgola

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro elemento importante é a representação da figura de São Jorge (Sant Jordi, em catalão), Padroeiro da Catalunha e relacionado ao Nacionalismo Catalão, do qual Puig i Cadafalch era partidário.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA ornamentação da fachada do edifício se deve escultor Eusebi Arnau, fiel colaborador do arquiteto a partir deste momento. O trabalho de ferro dos balcões se deve ao artesão Manuel Ballarín.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAlém de sua esbelta arquitetura, este edifício estava destinado a obter notoriedade, principalmente a partir de 1897, quando se inaugurou no andar térreo o famoso café literário Les 4 Cats.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMuitos dos principais artistas da época participaram no projeto de sua inauguração, como os pintores Santiago Rusiñol, Ramon Casas e Miguel Utrillo. Este último e Pere Romeu foram os fundadores do local, patrocinado pelo banqueiro Manuel Girona.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua inspiração direta foi o cabaret “Le Chat Noir” (O Gato Negro) de Paris, cujo cartaz vemos no interior do café.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA denominação “Os Quatro Gatos” parafraseia uma expressão do espanhol, relacionada a um escasso público. Por exemplo, quando queremos dizer que num determinado lugar havia poucas pessoas, dizemos “Haviam quatro gatos”…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos principais elementos de sua decoração é o quadro do Ciclista, realizado pelos pintores Arranz Bravo e Bartolozzi. Trata-se de uma cópia, pois o original se encontra no Museu de Arte Moderna de Barcelona.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADesde  sua fundação, tornou-se um ponto de encontro de personalidades relacionadas ao Modernismo Catalão, como Antoni Gaudí, por exemplo. Jovens artistas como o músico Isaac Albéniz e o pintor Pablo Picasso também frequentavam o local. O pintor  de Málaga realizou em 1900 sua primeira exposição justamente no Les 4 Cats.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante os 6 anos em que esteve ativo, de 1897 a 1903, o café tornou-se uma referência da vida artística e intelectual de Barcelona. Aproveitei minha visita ao lugar para tomar um copo de vinho e saborear sua comida, sentindo o ambiente nostálgico que emana.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1970, o café foi reinaugurado com o mesmo nome. O diretor Woody Allen aproveitou o caráter histórico do café para rodar algumas cenas de seu filme “Vicky Cristina Barcelona“. Um lugar mágico, para uma cidade de cine…

Picasso no Museu Reina Sofia

Pablo Picasso (Málaga-1881/Mougins,França-1973) é considerado de forma quase unânime pelos estudiosos e críticos de arte como o personagem mais importante do século XX. Além de ter sido um dos fundadores do Cubismo, participou da grande maioria das correntes artísticas do século passado, realizando em todas elas obras fundamentais de grande maestria e repercussão, tanto na pintura, quanto na escultura. O acervo permanente do Museu Reina Sofia exibe várias de suas obras, que veremos hoje no blog. De sua fase inicial veremos 3 quadros. Começamos pela obra intitulada La Bebedora de Absinto (1901). Pertencente à chamada fase azul do pintor, apresentando uma mulher amargada num espaço opressivo, que realça a sensação de abandono da personagem.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATambém de 1901 é o quadro Busto de Mujer Sonriente, no qual Picasso retrata uma das mais belas figuras femininas parisienses que realizou durante sua vida na capital francesa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERARealizado entre 1901 e 1904, Mujer en Azul é um dos quadros mais importantes e conhecidos do museu. Picasso pintava de memória mulheres de Paris. Este quadro  também pertence, como o próprio nome indica, a sua fase azul, em que predomina esta cor em suas obras. Foi realizado durante uma temporada em que permaneceu em Madrid, depois de uns dias passados na Cidade da Luz.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA natureza morta é um dos temas mais recorrentes do pintor em sua fase cubista. Abaixo vemos El Frutero (1910), uma das poucas peças deste estilo realizadas por Picasso na Espanha. Pertence ao denominado período analítico, desenvolvido pelo artista entre 1910 e 1912.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADe 1939 é o quadro Mujer sentada en un sillón gris. O dramatismo desta obra se explica pelos acontecimentos ocorridos pouco antes de pintar o quadro, como a invasão de Praga pelo exército de Hitler e a conquista de Madrid pelo General Franco. Também está associado à dor pela perda recente de sua mãe, junto com as angustiosas sensações provocadas pela situação política do momento. Além do mais, Picasso parece refletir no quadro as duas mulheres que coexistiram em sua vida naquele período, Dora Marr e Thérese Walter. Este quadro de composição cubista recorda alguns elementos utilizados no famoso Guernica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizamos a matéria com a escultura intitulada El Hombre del Cordero, realizada em 1943 na capital francesa, então ocupada pelo exército nazista. Nesta obra de grandes dimensões, Picasso esculpe um tema clássico relacionado à iconografia crista, o Bom Pastor. Realizada num só dia, é interpretada como uma reação ao ambiente da França ocupada e como materialização e personificação alegórica da paz e da liberdade.

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Pelas Ruas de Lavapiés

O Bairro de Lavapiés possui inúmeras histórias e lendas curiosas, que se preservaram sobretudo no nome de muitas de suas ruas. A Calle de Embajadores, por exemplo, que serve de linha divisória entre o bairro e a zona do Rastro, foi assim chamada porque no séc. XV houve uma epidemia de peste e os embaixadores de outros países presentes na cidade decidiram hospedar-se nos locais mais afastados, com medo do contágio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm estranho acontecimento deu origem ao nome da Calle Del Sombrerete. No séc. XVI, um pasteleiro da zona afirmou ser o rei Sebastiao de Portugal, desaparecido no norte da África. O monarca Felipe II nao se mostrou nada satisfeito que alguém representasse a coroa portuguesa, ou dizia sê-lo, devido aos seus interesses em anexionar o país vizinho. Como o dito homem permanecia afirmando o mesmo, foi preso e condenado à morte. O pobre delirante foi levado ao patíbulo num burro com um sombrero (espécie de chapéu). Depois de ser enforcado, o sombrero voou pelos ares, caindo no telhado de uma casa, cuja rua onde se situava passou a receber esta denominaçao. Na placa da rua, vemos que o músico Isaac Albeníz (1860/1909) se inspirou nesta zona para criar a composiçao “Lavapiés”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das ruas mais importantes do bairro é a Calle del Mesón de Paredes. Os denominados mesones eram estabelecimentos comerciais que serviam comida aos viajantes, sempre com esmero e qualidade, sendo por isso muito respeitados pela populaçao. Nesta rua situava-se o mais famoso da regiao, o “Mesón de la Fama“, documentado já em 1520. Um cartaz em sua fachada dizia:

“Passe caminhante, que aqui há de todo bastante”. Posteriormente, passou a chamar-se Mesón de Paredes, o nome de um de seus proprietários.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANesta rua nasceu um dos grandes arquitetos do Barroco Madrilenho, José Benito  Churriguera (1665/1725). Ele e seus irmaos, também arquitetos, criaram um estilo próprio, caracterizado pela ornamentaçao extremamente decorativa dos retábulos religiosos e das fachadas dos edifícios. O “Estilo Churrigueresco” exerceu uma enorme influência em todo o continente americano.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAChurriguera viveu em outra rua conhecida do bairro, a Calle del Oso (urso, em espanhol). Coincidentemente, nela nasceu outro dos arquitetos fundamentais da História de Madrid, e considerado discípulo de Churriguera, Pedro de Ribera. A rua recebeu este nome porque se conta que nela viveu um homem de circo, que guardava um urso numa jaula. Um dia, umas crianças se meteram dentro da jaula, mas felizmente nada aconteceu, fato que as pessoas da regiao atribuíram a um milagre da Virgem do Favor, que se venerava junto a casa do proprietário do urso.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo vemos uma imagem da Calle del Oso…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra história curiosa se refere à Calle de la Cabeza. Diz a lenda que nela vivia um sacerdote, que certo dia contratou um jovem como criado. Semanas depois, o padre desapareceu, sendo finalmente encontrado morto em sua cama, com a cabeça cortada. Todos suspeitaram do criado, que também desapereceu. Um belo dia, este foi ao mercado  e comprou a cabeça de um carneiro. Enrolou a cabeça num papel e a colocou debaixo de sua capa. Com o rastro de sangue que deixava por onde caminhava, foi abordado por policiais, que lhe perguntaram que tinha debaixo da capa. Respondeu que levava uma cabeça de carneiro, mas quando abriu a capa, viu atônito que se tratava da cabeça do sacerdote….Depois de confessar o crime, o jovem foi condenado à morte por garrote vil.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA fabricaçao de chapéus, ou sombreros, também se relaciona com o bairro porque nele se situava o promissor negócio de sua produçao e venda em várias lojas que se instalaram em Lavapiés a partir do final do séc. XIX. Esta é a explicaçao do nome da Calle de la Sombrerería.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro personagem fundamental que viveu em Lavapiés, ainda que por pouco tempo, foi Pablo Picasso. Entre 1897 e 1898, o artista viveu na Calle de San Pedro Mártir, esquina com a Calle de la Cabeza, no edifício que vemos a seguir.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAFalando em pintura, recentemente o bairro foi alvo de várias intervençoes criativas nos muros de seus edifícios, realizadas por diversos artistas, que deixaram a zona ainda mais colorida.

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Museu do Traje – Parte 2

Através dos vestidos, tecidos e acessórios do Museu do Traje é possível conhecer a evoluçao histórica da moda espanhola, desde a Idade Média até os dias atuais. A exposiçao permanente do museu nos permite observar como os árabes estabelecidos na Península Ibérica trouxeram consigo a tradiçao da arte textil, aprendida com os persas. Os tecidos foram eleborados com elementos figurativos e desenhos geométricos, destacando-se durante toda o período medieval.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante o Renascimento, os desenhos italianos se transformam no modelo universal da Arte Textil, influenciando de forma decisiva na elaboraçao dos tecidos espanhóis.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Museu do Traje conta com algumas peças dos séc. XVI e XVII, como a que vemos a seguir.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo séc. XVIII, com a chegada da dinastia borbônica no país, o típico traje negro espanhol passa a conviver com o traje francês, mais colorido. A corte e a nobreza seguem os ditados  de Paris, capital da moda européia na época. Enquanto isso, o povo continua mantendo o estilo espanhol, composto pela capa e o sombrero para o homem e uma espécie de manta para as mulheres.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante o reinado de Felipe V, o primeiro monarca da dinastia francesa, os principais centros de fabricaçao textil eram Toledo (principalmente tecidos litúrgicos) e Talavera de la Reina (finos tecidos de seda para a família real). Os tecidos do início do século possuem cores vibrantes decorados com motivos florais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACom Carlos III, o atual Paseo do Prado se transforma no local onde todos queriam ver a última moda na arte de vestir. Homens e mulheres passeavam a pé ou em suas carruagens vestidos à moda francesa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo séc. XIX, o triunfo social e político da burguesia a converte na protagonista da moda em várias cidades européias. Os trajes dos trabalhadores comerciais e industriais possuem um caráter sóbrio e escuro, ao contrário da vistosidade, elegância e diversidade da moda feminina.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO âmbito doméstico representava o centro do universo feminino. No entanto, as mulheres procuravam estar sempre atentas e abertas à moda da época.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA silueta dos vestidos de mediados do séc. XIX se caracterizavam pelo grande tamanho, graças a uma estrutura interior feita de metal que alargavam os vestidos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs acessórios de cor negra associados ao luto e a perda de algum ser querido é fruto desta época romântica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm elemento que nao podia faltar na idumentária feminina eram as sombrinhas. Cada vestido exigia uma sombrinha que combinasse com a cor e o tecido. Ao redor de 1920, o acessório desaparece de cena.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA chegada do séc. XX transformou radicalmente os costumes sociais. Os trajes femininos passaram a ter um volume menor, com um perfil mais linear, que eliminava os “recheios” interiores, destacando as formas naturais do corpo. A moda se difunde nas classes médias através dos armazéns que comercializavam roupas confeccionadas que imitavam a moda dos grandes criadores. As revistas de moda propiciavam o conhecimento sobre as novidades da indústria textil.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA partir da Revoluçao Industria Textil, os tecidos artísticos se reduzem ante a invasao dos tecidos industrializados e das novas tintas sintéticas. No entanto, uma corrente contrária de revalorizaçao artística dos tecidos surge, e um dos expoentes desta recuperaçao da arte textil na Espanha foi Mariano Fortuny, já em pleno séc. XX.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANos anos 20, a moda se relaciona com a Arte Decô e as denominadas vanguardas artísticas. Pintores como Dalí e Picasso colaboram com o mundo da moda, criando desenhos e vestuários originais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizada a Guerra Civil, surge no mercado espanhol uma boneca “que se veste de verdade”, como entao se anunciava o produto comercialmente. Chamava-se Mariquita Pérez, mas a maioria da populaçao nao podia comprá-la…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANos anos 50, a moda era ditada pelas grandes estrelas do cine americano, principalmente. A denominada Alta Costura nasceu na França  no séc. XIX  e durante mais de 100 anos o país ditou a moda exclusiva e personalizada dos grandes criadores. Entre 1930 e 1970, Espanha conta com nomes de prestígio internacional e cada vez mais se torna algo comum os grandes desfiles em passarelas e saloes, sempre para um público seleto.

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