Igreja de San Nicolás – Valência

Em pleno Centro Histórico de Valência situa-se um dos templos mais belos da cidade, a Igreja de San Nicolás e de San Pedro Mártir. Recentemente, quando estive na cidade, tive a oportunidade de conhecê-la por primeira vez e admirá-la tanto sua parte exterior, quanto seu magnífico espaço interno.

20181004_144531O local onde a igreja se situa sempre foi, ao longo dos séculos, um espaço sagrado. Já em época romana, havia um templo, que foi substituído por uma mesquita durante a dominação muçulmana. Com a reconquista efetuada pelo Rei Jaime I no século XIII, a mesquita foi consagrada como uma paróquia cristã e entregue a Ordem Dominicana, que batizou o templo em homenagem a San Nicolás de Bari. Anos depois, a ordem decidiu incorporar a titularidade da igreja a San Pedro Mártir, considerado o primeiro santo mártir dos dominicanos.

20181004_144658No século XV, chamado de Século de Ouro Valenciano, a igreja foi reconstruída e ampliada, adquirindo o aspecto gótico que possui atualmente. Desta época, se conserva a portada exterior, que vemos nas imagens acima. Esta reforma ocorreu durante o governo eclesiástico do Bispo Alfonso de Borja, que se tornaria cardeal e posteriormente Papa com o nome de Calixto II.

20181004_144603Durante o período da Contrarreforma, no final do século XVII (entre 1697 e 1700), a igreja foi reformada no estilo barroco.

20181004_143337Todo o interior do templo foi coberto por um excepcional conjunto de pinturas (quase 2 mil metros quadrados), realizado pelo pintor Dionís Vidal, discípulo do grande Antonio Palomino (1653/1726), considerado um dos maiores teóricos da arte na Espanha, além de ter sido nomeado pintor de câmara do Rei Carlos II.

20181004_143349As pinturas foram realizadas na própria estrutura gótica do templo, e representam episódios das vidas dos santos titulares, San Nicolás e San Pedro Mártir. Conhecida como a Capela Sixtina Valenciana, a Igreja de San Nicolás é considerada um dos melhores exemplos da combinação do estilo gótico com a decoração barroca.

20181004_14383520181004_144022O interior da igreja possui nave única e 6 capelas de cada lado…

20181004_14430620181004_143555San Nicolás viveu no século IV, e foi Bispo de Mira, na atual Turquia. Devido às invasões otomanas, seus restos foram levados à cidade italiana de Bari, onde se encontra seu sepulcro. Protetor da infância e da família, também é invocado em momentos de dificuldades financeiras. Abaixo, vemos seu busto, situado junto ao altar maior da igreja.

20181004_143733San Pedro Mártir viveu no século XIII. Pertencente à Ordem Dominicana, nasceu em Verona, Itália, e faleceu em 1252. Abaixo, vemos o órgão da igreja…

20181004_143720A igreja conserva importantes obras artísticas, como este retábulo que representa o Calvário de Cristo, realizado pelo pintor Rodrigo de Osona em 1476, um exemplo da transição do gótico ao renascimento.

20181004_144211No século XIX, foram realizadas algumas reformas na parte exterior da igreja, no estilo neogótico

20181004_144612Finalmente, em 1981, a Igreja de San Nicolás de Valência recebeu, merecidamente, o título de Monumento Histórico-Artístico.

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A Catedral Compostelana – Parte 2

A Catedral de Santiago de Compostela constitui um formidável exemplo do que se conhece como Igrejas de Peregrinação, que se desenvolveram ao longo do Caminho de Santiago no século XI, dentro do Estilo Românico. Uma outra igreja, que também faz parte da rota jacobea (como também se conhece o Caminho de Santiago) é a Basílica de Saint Sernin, situada na cidade francesa de Toulouse, construída na mesma época que a catedral compostelana (séculos XI e XII).

IMG_2321Estas grandes e monumentais construções possuem características comuns, que nos ajudam a compreender a arquitetura românica da Catedral de Santiago de Compostela. O interior possui uma planta de cruz latina, estando composta de 3 a 5 naves, sendo a central mais larga e alta que as laterais. A Catedral Compostelana possui 3 naves que alcançam os 100 m de comprimento e outra parte transversal, também com 3 naves, de 70 m de comprimento. Abaixo, vemos a planta da catedral, junto com o claustro de formato quadrado que complementa o conjunto, situado no lado direito.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEstas igrejas estão abovedadas, isto é, possuem uma estrutura arqueada que cobrem o espaço entre dois apoios, formando o teto do templo. A nave central está coberta por uma Bôveda de Cañón, frequentemente utilizada na Arquitetura Românica, que está formada por arcos de meio ponto ou semicirculares, como podemos ver abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAPor outro lado, as naves laterais estão formadas por Bôvedas de Arista, que se originam pelo cruzamento entre duas Bôvedas de Cañón, formando uma cruz que divide em 4 compartimentos a própria bôveda.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra característica das Igrejas de Peregrinação é a profusão decorativa através de um conjunto de esculturas de caráter religioso e simbólico, como vimos, por exemplo, na Fachada das Platerías, na matéria anterior. Os grossos muros da igreja possuem dois níveis. O formado pelas arquerias em sua parte inferior e a tribuna, em sua parte superior. Esta última estrutura permitia alojar uma grande quantidade de peregrinos, além de suportar as forças arquitetônicas transmitidas desde a bôveda da nave central, gerando uma maior estabilidade. Na Catedral de Santiago de Compostela, a tribuna rodeia todo o edifício.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAo redor da capela maior, encontramos um espaço denominado Girola, também conhecido como Deambulatório. No plano arquitetônico que inicia a matéria, podemos observar a girola como um alargamento das naves laterais. Esta solução construtiva possibilitou no período românico, o trânsito dos peregrinos pela igreja, sem prejudicar os cultos religiosos e para que pudessem contemplar as relíquias colocadas em suas várias capelas. Devido ao considerável peso das bôvedas, os muros são grossos, com poucas janelas para a iluminaçao interior, que se realiza principalmente através da cúpula da igreja.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO claustro atual foi edificado em época posterior. De enorme tamanho, foi construído a partir de 1521 por Juan de Álava e Juan Gil de Hontañón. Como foi dito, possui uma forma quadrada, com 34 m de cada lado. Nele foi colocado os sinos que originalmente se situavam na Torre do Relógio, também vista no post anterior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo claustro da Catedral de Santiago podemos observar uma de suas principais funções, como local de enterramento, tanto através de sarcófagos talhados com esmero, quanto em tumbas colocadas no próprio solo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAVárias capelas foram situadas junto ao claustro. Abaixo, vemos uma delas com seu belo retábulo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das portas do claustro conduz ao Arquivo da Catedral, um local de visita proibida, pois nele se guarda um dos principais tesouros da cidade, o famoso Códice Calixtino.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste manuscrito iluminado de mediados do século XII constitui o exemplar mais antigo e completo que se conhece da obra “Liber Sancti Iacobi” ou “Livro do Apóstolo Santiago“, do qual existe 200 cópias. Reúne hinos, textos litúrgicos, relatos de milagres e episódios relacionados com o santo. Consta de 5 livros e 2 apêndices, num total de 225 folhas feitas de pergaminho. O quinto livro constitui uma guia para os peregrinos (a mais antiga que se conhece), com descrições da rota do caminho, conselhos, etc. Sua autoria, um sacerdote francês chamado Aymeric Picaud, está atualmente posta em dúvida. O códice começa com um comentário do Papa Calixto II, no qual relata, através de uma carta dirigida à Ordem de Cluny e ao Arcebispo de Compostela Diego Gelmírez, os testemunhos dos milagres realizados pelo Apóstolo Santiago. Em 2011, o códice foi roubado por um eletricista que havia trabalhado na catedral, mas felizmente foi recuperado um ano depois. Finalizamos a matéria com um facsímil do Códice Calixtino, uma reprodução exata do livro original…

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