As Viagens do “Guernica”

Antes de abandonar Salamanca, tive a oportunidade de ver uma interessantíssima exposição sobre o quadro “Guernica“, a obra prima do mais influente artista do século XX, Pablo Ruiz Picasso (1881/1973). A exposição foi montada na Plaza de Anaya, situada ao lado das Catedrais de Salamanca, e foi organizada pelo Centro Cultural Caixa Forum, que está percorrendo várias cidades da Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA O “Guernica” já foi o tema de um post publicado em 17/5/2012, junto com o museu onde se encontra exposto, o Museu Reina Sofía de Madrid, que vemos abaixo…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlguns anos atrás, pude fotografar o “Guernica“, algo impensável atualmente, mesmo porque está proibido captar imagens do quadro.

DSC03525A exposição de Salamanca discorre sobre as viagens que o quadro realizou depois de ter sido pintado por Picasso, participando de diversas exposições internacionais antes de seu retorno a Espanha. Considerado uma das obras mais conhecidas, reproduzidas, admiradas e reinterpretadas da História da Arte, o “Guernica” transformou-se num verdadeiro ícone do século XX.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO quadro foi realizado por Picasso entre maio e junho de 1937 e seu título é uma referência ao bombardeio da cidade basca de Guernica pela aviação alemã no dia 26 de abril deste ano, dentro do contexto da Guerra Civil Espanhola (1936/1939). Este ataque aéreo é considerado o primeiro realizado contra uma população civil da história das disputas bélicas. Na realidade, sua elaboração por parte de Picasso foi um encargo do governo republicano para ser exposto no Pavilhão Espanhol, montado durante a Exposição Internacional de Paris de 1937, com a finalidade de atrair a atenção pública à causa republicana. Abaixo, vemos uma foto do pavilhão, cujo projeto construtivo se deve aos arquitetos Josep Lluís Sert e Luis La Casa, e o quadro exposto no local.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERACom o final da Guerra Civil Espanhola em 1939 e o início do governo ditatorial do General Franco, Picasso manifestou o desejo que o quadro retornasse ao país somente depois que voltasse a ser uma nação democrática. Depois de sua exibição na Exposição Internacional de Paris, muitas outras foram realizadas no continente europeu, como a de 1938/1939 no Reino Unido, com grande êxito de público e organizada para arrecadar fundos para o Comitê de Ajuda aos Refugiados Espanhóis.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante décadas, o quadro viajou por boa parte do mundo, antes de ser custodiado pelo Museu de Arte Moderna de Nova York (MOMA) a partir de 1958, onde permaneceu exposto até 1981. Abaixo, vemos o itinerário do “Guernica“…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO processo de criação da obra foi plenamente documentado pelo pintor através de esboços preparatórios e também por fotografias realizadas por Dora Maar (1907/1997), uma artista plástica francesa que se tornou uma das mulheres da vida de Picasso. Este material constitui um dos melhores exemplos documentados do progresso de uma obra artística em toda a História da Arte Universal. Picasso realizou, num prazo de 6 meses, (antes, durante e depois da conclusão do quadro), uma série de 45 esboços que atualmente encontram-se expostos no Museu Reina Sofía de Madrid, junto com a famosa obra do artista de Málaga.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO “Guernica“, um exemplo memorável da Arte Cubista, além de sua importância histórica e indiscutível qualidade artística, impressiona por seu tamanho (7.76m de comprimento x 3.49m de altura). Foi pintado utilizando-se somente as cores branca, negra e várias tonalidades de cor cinza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAApesar do título da obra e suas circunstâncias históricas, não existe no quadro nenhuma referência explícita ao bombardeio da cidade de Guernica, pois trata-se de uma composição simbólica, e não narrativa, retratando o horror à guerra e os sofrimentos que infringe a todos os seres humanos. Por este motivo, o quadro converteu-se num símbolo de protesto antibélico, utilizado contra os vários confrontos do século passado…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlgo que desconhecia e que pude orgulhosamente constatar, é que durante as viagens do “Guernica” pelo mundo, o quadro esteve presente no Brasil em 1953, durante a realização da II Bienal de São Paulo, como vemos na foto abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO quadro serviu de motivo inspiratório a inúmeras obras em todo o mundo…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalmente, em 1981, o quadro retornou a Espanha, com uma ampla divulgação da imprensa, escrita e televisiva…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA chegada do “Guernica” no Aeroporto de Barajas

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInicialmente, o quadro permaneceu no Casón del Buen Retiro, uma das dependências que faziam parte do destruído Palácio del Buen Retiro, originalmente construído dentro do Parque do Retiro, de propriedade real na época de sua construção, que ainda podemos contemplar passeando pela cidade.

DSC08622OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1982, o “Guernica” passou a ser exposto permanentemente no Museu Reina Sofía, considerado um dos centros de Arte Contemporânea de maior prestígio de todo o mundo, cuja visita, evidentemente, recomendo !!!!!

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Museu de Cáceres

Para se conhecer as etapas históricas de Cáceres, bem como poder contemplar inúmeras peças artísticas, recomendo visitar o Museu da cidade, situado na Plaza de San Mateo. O museu encontra-se sediado no Palácio de los Veleta, um dos inúmeros palácios existentes no Centro Histórico da cidade, declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo local onde atualmente se ergue o edifício, no século XIII se levantava o antigo Alcázar Árabe. Na segunda metade do século XV, o Rei Enrique IV concedeu a Diego Gómez de Torres a possibilidade de construir sobre a fortaleza um novo palácio, com a condição que não tivesse elementos defensivos. No entanto, o edifício que vemos atualmente se deve a Lorenzo de Ulloa y Torres. Na fachada, vemos os escudos de ambas as linhagens, dos Ulloa e da família Torres.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das grandes atrações do museu é que se conserva o antigo Aljibe Árabe, um local utilizado como depósito de água. Excavado em parte na rocha, o espaço ocupado pelo Aljibe está formado por 5 naves separadas por arcos de ferradura. Suas colunas conservam elementos de épocas romana, que foram reutilizados.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Museu de Cáceres foi inaugurado em 1933, cuja origem se deve a sua importante coleção de peças arqueológicas, formada a partir do final do século XIX e que abrangem desde o Paleolítico até a Idade Média. Do período ibérico estão expostos vários Verracos, como se conhecem as esculturas zoomórficas feitas de granito, que representam touros, porcos ou javalis e utilizados como marcadores de territórios.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutras peças de grande interesse histórico constituem as Estelas, monumentos funerários onde guerreiros são representados de maneira heróica. O Museu de Cáceres possui uma das maiores coleções deste tipo de obras da Idade de Bronze. Os guerreiros aparecem junto às suas armas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERATambém relacionado à cultura ibérica, o denominado Tesouro de Aliseda foi descoberto em 1920, estando considerado uma importante façanha da Arqueologia Espanhola.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlém da seção de arqueologia, o Museu de Cáceres está composto pelo acervo de Etnografía e Belas Artes, esta com várias peças de interesse, tanto na pintura quanto na escultura. Abaixo, vemos um Cristo Crucificado de marfim, feito por um artista anônimo das Filipinas, no século XVII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste outro foi esculpido em madeira, no século XV, por um artista espanhol anônimo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos a representação da Santíssima Trindade, uma escultura feita de alabastro do século XVI (anônimo).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm relação à Pintura, vários quadros despertaram meu interesse, entre os quais um de El Greco (1541/1614), com a representação de Jesus Salvador.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, um belíssimo tríptico flamenco da Paixão de Cristo, anônimo do século XVI.

OLYMPUS DIGITAL CAMERALuca Giordano (1632/1705), um pintor italiano que realizou diversas obras em solo espanhol, realizou este quadro de Santo André

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPintura Contemporânea Espanhola também faz parte do acervo pictórico do museu. Um exemplo é o pintor Darío Villalba (1939/2018), que realizou esta obra intitulada “Noche 81” em 1981.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra obra interessante, o quadro feito de acrílico intitulado “Agressión” em 1976 foi realizado pelo artista valenciano Juan Genovés, nascido em 1930.

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Museu de Belas Artes – Última Parte

Nesta última matéria sobre o Museu de Belas Artes de Valencia, veremos algumas das obras de seu acervo permanente relacionadas com a Pintura Neoclássica e outros artistas fundamentais do panorama espanhol dos séculos XIX e XX. O século XVIII ficou conhecido como o Século das Luzes, quando o racionalismo exerceu o princípio básico nas manifestações humanas. Como reação aos excessos barrocos, surge o movimento neoclássico, que se desenvolve em todos os campos artísticos. Surgido na França na primeira metade do século XVIII, transforma-se na estética da Ilustração, recuperando os valores da cultura greco-romana, especialmente nos aspectos relacionados à simplicidade, simetria e elegância. Na pintura, o neoclassicismo exalta a claridade compositiva e o predomínio do desenho sobre a cor. Devido a que os restos pictóricos da antiguidade não estavam disponíveis, a Pintura Neoclássica se inspira na escultura. Os principais temas abordados incluem os retratos, fatos históricos e a mitologia. Da mesma forma que sucedeu na arquitetura, os monarcas espanhóis da Dinastia dos Bourbons trouxeram artistas estrangeiros para que realizassem a decoração do Palácio Real. Um deles, o pintor de origem alemã Anton Raphael Mengs (1728/1779) foi o responsável pela difusão do neoclassicismo na Pintura Espanhola, principalmente depois que ocupou a direção da Real Academia de Bellas Artes de San Fernando de Madrid, instituição acadêmica que impôs as regras do novo estilo, exercendo uma grande influência na formação de muitos artistas, entre os quais o pintor valenciano Mariano Salvador Maella (1739/1819). Abaixo, vemos o quadro de Maella intitulado “Sueño de San José“, que podemos contemplar no Museu de Belas Artes de Valencia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Mariano Salvador Maella tornou-se pintor de câmara durante o reinado de Carlos III, que reconheceu seu grande talento como retratista. Em 1799, alcançou o apogeu como pintor real, junto com Goya. Com a queda do Rei Carlos IV e a chegada ao trono do francês José I, irmão de Napoleão Bonaparte, o pintor prestou seus serviços ao monarca francês, fato que lhe acabou causando sua decadência, pois foi considerado afrancesado. Abaixo, vemos a obra”Exequias do Beato Gaspar Bono“, uma das quatro obras que realizou para a capela do beato, situada no Convento de San Sebastián de Valencia. Gaspar de Bono (1530/1604) foi um beato pertencente à Ordem dos Mínimos que destacou-se por sua caridade, sendo beatificado em 1786.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACom o final da Guerra da Independência e o retorno do rei espanhol Fernando VII ao trono, Mariano Salvador Maella foi afastado do cargo, sendo substituído pelo também valenciano Vicente López Portaña (1772/1850) como pintor de câmara a partir de 1815. Este pintor é considerado um dos maiores retratistas da pintura espanhola. Seu pessoal sentido realista dos personagens retratados foi herdado da tradição naturalista da escola valenciana, principalmente de Francisco Ribalta e José de Ribera. Além do mais, possuía uma excepcional capacidade para a reprodução dos tecidos e objetos de adorno. Durante uma visita do Rei Carlos IV à Valencia em 1802, Vicente López realizou um belo retrato do monarca, que vemos a seguir.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos grandes mestres da História da Pintura, Francisco de Goya y Lucientes (1746/1828) também cultivou a pintura neoclássica, apesar de que o grande pintor aragonês não pode ser classificado dentro de um estilo determinado, devido a sua variedade e personalidade artística. Com ele se inicia a pintura contemporânea, sendo considerado o precursor das vanguardas artísticas do século XX. Como retratista foi excepcional, recebendo inúmeros encargos reais e da aristocracia espanhola. Um exemplo é o “Retrato de Mariano Ferrer y Aulet“, datado entre 1780 e 1783. Este personagem foi secretário da prestigiosa Real Academia de San Carlos de Valencia, origem do atual Museu de Belas Artes. O fundo negro do quadro ressalta seu rosto, que se mostra sereno e relaxado diante do pintor.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro quadro de Goya que representa sua enorme qualidade como retratista é o “Retrato de Joaquina Candado Ricarte“, pintado durante uma visita do pintor aragonês à Valencia. Realizado com grande desenvoltura técnica, existem controvérsias a respeito da verdadeira identidade desta personagem. Alguns afirmam que se trata da modelo utilizada por Goya nos famosos quadros “Maja Desnuda” e “Maja Vestida“, que podem ser vistos no Museu do Prado. Nesta obra, a retratada aparece de corpo inteiro e ricamente vestida, denotando sua elevada posição social. O retrato foi ambientado num espaço aberto, campestre. A dourada luz que inunda a personagem provoca um efeito de luz que anuncia o Impressionismo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalmente, algumas salas do Museu de Belas Artes de Valencia foram dedicadas exclusivamente a artistas valencianos de grande prestígio no final do século XIX e na primeira metade do XX. O primeiro deles é o pintor Joaquín Sorolla (1863/1923), a quem foi organizada uma excepcional exposição.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAArtista prolífico, Joaquín Sorolla deixou mais de 2200 obras catalogadas. Desde jovem mostrou interesse pela pintura ao ar livre, captando a luminosidade mediterrânea e o ambiente costeiro. Durante a fase final de sua vida, viveu em Madrid e sua casa foi transformado num museu cuja visita recomendo (ver post publicado em 8/11/2012).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizamos a matéria com Mariano Benlliure Gil (1862/1947), notável escultor valenciano, que possui um excepcional conjunto de obras no Museu de Belas Artes. Sua formação com o pintor Francisco Domingo Marqués lhe permitiu adaptar o realismo pictórico à escultura. Sua projeção internacional como escultor se consolidou com a Exposição Universal de Paris de 1900, quando obteve o Prêmio de Honra, a mesma distinção outorgada a Joaquín Sorolla. A grande coleçao de obras de Mariano Benlliure no museu se deve à generosidade do próprio artista, pois a maior parte das obras expostas foram doadas pelo escultor em 1940. Abaixo, vemos um “Autorretrato”, realizado em bronze para a Academia de Belas Artes de San Lucas, de Roma.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos artistas mais influentes de sua época, Mariano Benlliure dedicou-se aos temas populares, monumentos comemorativos e retratos, tanto de personagens da sociedade quanto da família real, como o “Busto de Alfonso XIII“, um encargo do monarca para o casamento com Victoria Eugenia de Battenberg, que também foi representado numa escultura equestre.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAMariano Benlliure foi o tema de duas matérias realizadas em 19/11 e 20/11/2015, pois muitas das esculturas mais famosas de Madrid foram esculpidas por ele. Existe inclusive um trajeto pela cidade em que é possível admirar muitas de suas obras mais conhecidas.

Museu de Belas Artes – Parte 2

O acervo permanente do Museu de Belas Artes de Valencia inclui importantes obras de duas escolas fundamentais na evolução da História da Arte, o Renascimento e a Pintura Flamenca. A cidade foi uma das portas de entrada na Península Ibérica das novas idéias humanistas provenientes tanto da Itália, graças aos intensos contatos políticos com Sicília e Nápoles, então parte integrante do Império Espanhol, como também através da cidade francesa de Avigñon, na época sede pontifícia. Esta proximidade fez com que Valencia se tornasse um foco da cultura renascentista, que na Espanha tardou em implantar-se devido a persistência, principalmente religiosa, em relaçao à Arte Gótica. No século XVI, o Renascimento Italiano triunfa em todo o continente, e sua assimilação em território espanhol resulta inevitável. Abaixo, vemos um quadro intitulado “Virgen de las Fiebres“, pintado pelo italiano Bernardino di Benedetto Biagio (1454/1513), que representa os vínculos existentes entre Valencia e Roma nos finais do século XV graças à família dos Borgia. Francisco de Borgia, que aparece no lado direito do quadro, ocupou cargos importantes na corte pontifícia na época de seu parente, o Papa Alejandro VI. A Virgem, representada como Mãe da Sabedoria, ensina o filho a ler. Este quadro teve uma forte repercussão em Valencia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm relação à temática, escassos sao os quadros pintados por artistas espanhóis do Renascimento que tratam de temas mitológicos e de nus femininos, abundantes na Itália, devido ao predomínio dos temas religiosos que persistem no país. Um exemplo é o quadro da “Purísima Concepción” de Nicolás Falcó, artista ativo em Valencia no final do século XV e início do XVI. Pertencente à fase inicial do Renascimento Espanhol, a obra apresenta um marcado caráter eucarístico.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro artista que desenvolveu sua carreira em Valencia, já no período de maturidade do Renascimento no país (segundo quarto do século XVI), ficou conhecido como Mestre de Alzira. Este artista anônimo recebeu este nome devido a um retábulo dedicado à Virgem que realizou para uma igreja situada na cidade de Alzira, sendo considerado um dos personagens mais interessantes do panorama artístico valenciano da primeira metade do século XVI. Abaixo, vemos a obra por ele realizada “Cristo sobre o sepulcro com três anjos“.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAValencia possui uma grande tradição artística, que se reflete na importância de alguns de seus pintores mais famosos. Juan de Juanes (1523/1579) é um deles, um nome fundamental do Renascimento Espanhol. Foi um dos criadores de imagens religiosas de maior popularidade na época e o mais importante pintor valenciano de seu tempo. Influenciado por Rafael, suas obras destacam pelo intenso colorido e perfeito equilíbrio compositivo. A seguir vemos um “Ecce Homo“, pintado por ele.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma de suas obras mais conhecidas é este quadro da “Santa Ceia“, que retrata o momento em que Jesus anuncia que será traído por um de seus apóstolos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADocumentado em Valencia entre 1505 e 1525, o pintor Fernando Llanos é de origem castelhano e colaborou com Leonardo da Vinci em Florença. O Museu de Belas Artes possui uma bela obra sua, o quadro “Flagelación“, pintado em 1520.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos grandes impulsores da arte de sua época foi o Rei Felipe II, verdadeiro mecenas  que colaborou para a assimilação da arte clássica. O Monastério de El Escorial, construído em seu reinado, tornou-se o modelo arquitetônico do Renascimento Espanhol, influenciando notavelmente as construções posteriores. Abaixo, vemos um retrato do monarca realizado por um anônimo flamenco no século XVI, que segue as tendências dos retratos cortesanos impostos pelo pintor holandês Antonio Moro (1519/1579) e o valenciano Alonso Sánchez Coelho (1531/1588).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Pintura Flamenca foi uma das escolas preferidas pelos monarcas espanhóis, junto com a italiana. Abaixo, vemos um exemplo, o quadro de São Sebastião sendo atendida pela viúva Irene e sua criada, realizado por Matthias Storm (1600/1650), um discípulo de Caravaggio. O corpo do santo é iluminado por uma fonte de luz ausente do quadro, criando um ambiente melancólico e meditativo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post, veremos os grandes nomes da Pintura Espanhola presentes no acervo do Museu de Belas Artes de Valencia.

 

Um Passeio por Ciudad Real – Parte 2

Continuando nosso passeio por Ciudad Real, hoje veremos alguns monumentos dedicados a personagens ilustres da Espanha, que foram homenageados com estátuas pelas ruas e praças da cidade, como o monarca Juan II de Castilla (1405/1454), que concedeu o título de cidade a anteriormente denominada Villa Real.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 2015 se comemorou o quinto centenário do nascimento de Santa Teresa de Ávila, Doutora da Igreja Católica e reformadora da Ordem das Carmelitas. Abaixo, vemos uma estátua da Virgem do Carmen, colocada em frente ao Convento das Carmelitas Descalças, construído no século XVII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEnquanto Santa Teresa de Jesus se encarregou de fundar diversos conventos femininos para a Ordem das Carmelitas Descalças, seu companheiro San Juan de Ávila realizou o mesmo para os conventos masculinos. A seguir vemos um monumento em sua memória.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Ordem das Mercedárias também fundou um convento em Ciudad Real, no século XVII. Abaixo, vemos sua igreja do século XVIII, presidida por uma imagem da Imaculada, junto ao escudo da ordem e da família fundadora da instituição. Depois da Desamortização de Mendizábal, transformou-se num instituto educacional e atualmente foi convertido num centro de exposições.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAo lado da catedral situa-se a casa mais antiga conservada na cidade, do século XV. Nela nasceu em 1451 Hernán Pérez de Pulgar, capitão geral e historiador que prestou serviços aos Reis Católicos. Hoje em dia funciona como o Museu López Villaseñor, dedicado a este pintor considerado um dos maiores expoentes da Pintura Espanhola da segunda metade do século XIX.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACiudad Real conta com um dos maiores porcentagens de área verde por habitante do país. Uma das mais populares e histórica é o Jardim de Gasset, inaugurado em 1915.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO grande  destaque do parque é a Fonte Talaverana, ricamente decorada com cerâmicas de Talavera de la Reina (Comunidade de Castilla La Mancha), um dos mais tradicionais centros produtores de cerâmica do país. Para compreender a importância da cerâmica talaverana, vejam a matéria publicada sobre ela em 4/10/2013.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs bancos também foram ornamentados com belos painéis de azulejos, que retratam cenas da famosa novela de Cervantes

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEste parque, com cerca de 90 mil metros quadrados, é o mais antigo da cidade, e seu nome é uma referência a Rafael Gasset Chinchilla, que foi deputado por Ciudad Real. Um de seus maiores méritos foi trazer água para seus habitantes, e por este motivo recebeu uma justa homenagem com uma escultura realizada em 1933.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAinda tive tempo de ver a Praça de Touros da cidade, inaugurada em 1843. Com capacidade para quase 8 mil espectadores, seu projeto se deve ao  arquiteto Manuel Gómez, e foi várias vezes reformada. O destaque fica por conta de sua porta principal, composta por Arcos de Ferradura.

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Dalí no Museu Reina Sofia – Parte 2

A etapa surrealista de Salvador Dalí, a mais famosa do pintor, está muito bem representada no Museu Reina Sofia. Fazer comentários sobre seus quadros surrealistas é muito complicado, tal a complexidade simbólica dos mesmos. Por este motivo, veremos algumas das obras de este estilo, com algumas “pinceladas” que me parecem mais pertinentes. De 1928 é o quadro Los Esfuerzos Estériles, fruto da relação intelectual entre Dalí e Garcia Lorca, cuja cabeça é um dos motivos centrais da composição. Dalí busca na psicanálise freudiana uma explicação para suas obsessões. O emprego do método psicanalítico, unida às suas imagens simbólicas e oníricas, fizeram com que fosse aceito no grupo surrealista, comandado pelo pintor francês André Bretón.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm ano depois, Salvador Dalí realiza uma de suas obras mais conhecidas, El Gran Masturbador, um tema pouco habitual na história da pintura e símbolo por excelência de suas obsessões sexuais. Obra eminentemente autobiográfica, a cabeça do masturbador personifica o próprio artista, que aparece protagonizando várias cenas simultâneas, reflexo da transformação erótica e anímica que Dalí experimenta com a chegada da musa de sua vida, Gala.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATambém de 1929, no quadro La Memória de la Mujer-Niña, Dalí nos apresenta uma sucessão de seres e coisas descompostas, que se confundem. O pintor mostra uma fascinação pelo putrefato, símbolo da morte moral dos valores sociais da época para o artista.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo final da década de 20, Salvador Dalí descobre o método paranoico-crítico, sistema definido pelo próprio autor como um “método espontâneo de conhecimento irracional baseado na observação crítica e sistemática das associações e interpretações delirantes”. Uma obra emblemática deste método, El Hombre Invisible, pintado entre 1929 e 1932, ficou inacabada, e nela o pintor retrata imagens de duplo sentido.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADe 1933, Ángelus Arquitectónico de Millet é uma interpretação  que Dalí realizou do quadro El  Ángelus de Millet, pelo qual estava fascinado. As conotações eróticas da obra são quase explícitas…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO método paranoico-crítico manipula as imagens convencionais através da decomposição e pela utilização da putrefação, criando cenas paranoicas e ambíguas, que foram definidas pelo autor como a “representação de um objeto, que sem a menor modificação figurativa ou anatômica, se torna a representação simultânea de outro absolutamente diferente”. O artista deixa ao espectador a possibilidade de estabelecer diversas interpretações possíveis à cena. Abaixo, vemos El Enigma Sin Fin, de 1938…

OLYMPUS DIGITAL CAMERADesde o princípio, o grupo surrealista sentia um certo receio ante o descaso com que Dalí exibia publicamente suas obsessões sexuais. No quadro El Enigma de Hitler (1939), a representação simbólica do líder nazista ultrapassou o limite do aceitável, e o pintor catalão acabou sendo expulso do grupo liderado por Bretón. Dalí abandona a Europa e se instala nos Estados Unidos, onde começa a pintar quadros de temática místico-religiosa. O quadro acima mencionado é uma alusão alegórica à Conferência de Munique, realizada em 1937, na qual tanto a Inglaterra quanto a França permitem a Hitler invadir e incorporar a Checoslováquia ao Império Alemão. O telefone destruído no quadro simboliza o fracasso das negociações. A paisagem com o céu ameaçante é um presságio dos tempos que virão, constituindo uma obra premonitória do terror que assolaria o continente com a Segunda Guerra Mundial. O prato vazio anuncia a fome a a miséria decorrentes do conflito.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACom esta matéria, finalizo a série das Obras Primas do Museu Reina Sofia, um museu de visita obrigatória em Madrid, como um referente da Arte Contemporânea e da história e evolução da arte nos dois últimos séculos. A partir do próximo post, viajaremos á Comunidade de Extremadura, para que vocês possam conhecer um pouco da cidade de Badajoz e sua província.

Dalí no Museu Reina Sofia

Incontestavelmente, Salvador Dalí (Figueres, Província de Gerona, Catalunha: 1904/1989) foi um dos artistas mais originais e excêntricos do século XX. Mestre do Surrealismo, soube como nenhum outro autopromover-se, e a fama adquirida em sua vida foi imensa. No Museu Reina Sofia podemos conhecer várias etapas de sua genial criação artística, além de sua fase mais conhecida, a surrealista. No post de hoje veremos algumas das obras anteriores à época surrealista, igualmente realizadas com grande talento, sensibilidade e qualidade artística. Todas elas foram realizadas na década de 20 do século passado. De 1922 a 1928, Dalí desenvolveu sua fase cubista, e em 1923 realizou um Autoretrato neste estilo, situando sua cabeça no centro da composição, reconhecível entre as complicadas linhas abstratas que constituem o resto do corpo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm ano antes, em 1922, Salvador Dalí passa a residir em Madrid, mais precisamente na Residência dos Estudantes (matéria publicada em 26/8/2015), onde conhece e inicia sua amizade com o poeta Federico Garcia Lorca e o cineasta Luis Buñuel, entre outros. Estes personagens fundamentais da Arte Espanhola do século XX formaram um ativo grupo intelectual. Fruto do contato estabelecido entre o cineasta e o pintor foram os roteiros para dois filmes surrealistas fundamentais, Um Cão Andaluz (1929) e A Idade de Ouro (1930). Além do mais, Dalí realizou um retrato de Buñuel em 1924, quando abandona os critérios cubistas de suas obras anteriores, aproximando-se da estética clássica imperante na Europa naquele momento. No entanto, a estrutura do quadro recorda as formas cubistas, destacando a forte personalidade de Luis Buñuel.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInfluenciado pelo artista uruguaio Rafael Barradas, que havia introduzido em 1918 o Futurismo e o Cubismo nas correntes vanguardistas espanholas, o pintor catalão realiza o quadro Gitano de Figueres (1923). Para alguns historiadores, o interior do espaço onde está representado o personagem, um cigano, poderia ser uma das salas da Residência dos Estudantes, graças aos quadros situados detrás do personagem e a permanente desordem do local, como era habitual…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro quadro que mostra claramente as influências das correntes europeias na fase inicial do pintor, como o Cubismo e a denominada Pintura Metafísica Italiana, é esta Natureza Morta (1924), realizada para a famosa  Exposição da Sociedade de Artistas Ibéricos realizada em 1925 no Parque do Retiro de Madrid. Depois, presenteou a Garcia Lorca com este quadro, que o conservou até sua morte.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1925, a grande influência exercida por Garcia Lorca marca a produção artística de Dalí. Realiza o quadro intitulado Pierrot tocando la guitarra, onde confluem 4 elementos de distintas procedências, que afetaram a obra do artista nesta década: a estruturação cubista, o volume tomado da Pintura Metafísica, o gosto pela linha, próprio da produção pictórica de Lorca, e a herança clássica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATambém neste ano, Salvador Dalí pinta uma série de quadros em que retrata a sua irmã Anna María Dalí, como neste Retrato de mi hermana

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos a Muchacha de Espaldas

OLYMPUS DIGITAL CAMERADalí retratou a sua irmã ao menos em 12 obras, das quais se considera uma obra prima o quadro Muchacha en la ventana. Salvador Dalí tinha apenas 20 anos quando realizou esta obra de grande uniformidade cromática e simplicidade compositiva. Representa a sua irmã de costas na casa de férias que a família possuía no belíssimo povoado de Cadaqués (Província de Gerona, ver post publicado em 1/9/2013), onde a muchacha nos introduz na paisagem que ela contempla.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post, veremos alguns dos quadros surrealistas de Dalí, que podem ser contemplados numa visita ao Museu Reina Sofia de Madrid