O Urso e o Madroño – Madrid

Na Porta do Sol situa-se um dos locais mais fotografados de Madrid, a estátua de um Urso apoiando-se numa árvore conhecida como Madroño. Não é uma estátua qualquer, pois representa o símbolo da cidade, formando parte do escudo de armas oficial da capital espanhola. A estátua foi inaugurada em 1967, obra do escultor Antonio Navarro Santafé (1906/1983). Feita de pedra e bronze, está apoiada num pedestal de granito. Com 4 m de altura e 20 toneladas de peso, esta emblemática estátua esteve sempre situada na Porta do Sol, embora mudasse de local 3 vezes.

DSC01998Como a maioria dos símbolos heráldicos em geral, suas origens são um pouco confusas, mas se sabe que sua primeira aparição no escudo da cidade data do séc. XIII. Antes, as armas estavam representadas somente por um urso pastando no campo. Os historiadores concordam que a presença do urso significa simplesmente que antigamente era um animal abundante ao redor da cidade, quando então estava coberta por bosques. Outros aponta que na realidade, trata-se de uma ursa, normalmente representadas nos escudos como símbolo de abundância e fertilidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs 7 estrelas ao redor do escudo estão vinculadas à Constelação da Ursa Menor, que contém a Estrela Polar, ou então como representação das sete escolas de astronomia existentes em Madrid no séc. X. Outra versão sugere que estão associadas ao céu madrilenho, famoso por sua claridade e pureza. Desde que Alfonso VIII concedeu  um foro de privilégios a cidade em 1202, iniciou-se uma disputa entre a Igreja e o Estado sobre a soberania dos bosques (incluindo a produção de madeira e as terras de caça), e os terrenos de pasto. Depois de 20 anos de disputa, chegou-se a um acordo. A Igreja estaria responsável pela jurisdição das terras de pasto e o Estado, pelos bosques. Neste acontecimento, surge o verdadeiro significado do escudo, aceito pelos historiadores. O urso simboliza o domínio da Igreja sobre os pastos e a árvore, a propriedade dos bosques pelo Estado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAE porquê escolheu-se o Madroño propriamente para ser incluído no emblema? Provavelmente, quando foi desenhado o escudo, este arbusto deveria representar uma espécie genérica, ou seja, uma árvore qualquer, cujo significado pictórico era simbolizar a conciliação entre Igreja e Estado. Outra explicação dada é como forma de agradecimento do poder curativo de suas folhas, que inclusive curou o rei Carlos V  e um grande número de habitantes de uma praga que assolou a cidade, quando ainda não era capital.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Madroño (Arbustus Unedo) é utilizado como planta ornamental para parques e jardins. Sua altura média, quando adulta, varia entre 15 e 20m, e produz um fruto vermelho, utilizado na fabricação de conservas e marmeladas. Abaixo, vemos um exemplar jovem situado no Parque do Retiro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAApesar das diversas teorias existentes, ninguém sabe com absoluta certeza porque foram colocados o Urso e o Madroño no escudo da cidade. No entanto, apesar das mudanças sofridas no escudo ao longo dos séculos, ambos estiveram permanentemente representados.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1554, o Parlamento de Valladolid concedeu a Madrid uma permissão para incluir a Coroa Real no escudo. Assim, a cidade passou a ser reconhecida oficialmente como vila. Este novo status foi considerado de grande importância, pois Madrid era, na época, um núcleo pequeno e de pouca influência.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1842 foi colocado um novo elemento, certamente estranho e cuja razão se desconhece, um dragão. Permaneceu no escudo até 1967, quando finalmente foi abolido.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADe tudo o que foi dito, a única certeza é a onipresença do escudo pela cidade. Como vocês puderam observar, está em todos os lugares, nas fontes, monumentos, serviços públicos, nas calçadas, etc, etc.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa Taberna “El Madroño”, situada na Porta Cerrada, vemos o Urso e o Madroño pintados num belo mural de azulejos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo interior da taberna, podemos observar a evolução do escudo ao longo do tempo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEnquanto o contemplamos, podemos aproveitar e pedir um Licor de Madroño…

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As Muralhas de Madrid

Como toda cidade européia de origem medieval, Madrid estava cercada por um recinto de muralhas. Na verdade, nao apenas por uma delas, e sim por várias, ao longo de sua história. No post publicado em 27/02/2013, referente às “Portas Monumentais de Madrid”, comentamos um pouco a respeito delas. Vimos que Madrid já possuía um sistema defensivo em sua época fundacional, entao sob ocupaçao árabe, no séc. IX, quando se chamava Mayrit. Durante o período cristao, foi construída uma nova muralha, no séc. XII, sobre a primitiva base da muralha árabe. Já no séc. XV, para conter a peste que assolou a cidade, foi erguida a denominada Cerca del Arrabal, e nos séculos subsequentes, os reis Felipe II e Felipe IV ordenaram construir novas cercas ao redor da capital.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa foto acima, vemos uma maquete que reproduz a primitiva muralha árabe, no núcleo central, e as ampliaçoes realizadas pelos reis cristaos. Poucos sao os restos das muralhas sobreviventes que se podem contemplar atualmente pela cidade, a maioria em um estado degradado, e sem soluçao de continuidade. No entanto, existem partes das muralhas que se podem ver nos locais mais curiosos possíveis. Por exemplo, durante a remodelaçao da Praça do Oriente, no final do séc. XX, foram descobertas as ruínas de uma atalaia árabe, do séc. IX. Denominada de Torre dos Ossos, por sua proximidade com um antigo cemitério islâmico chamado de Huesa del Raf, pode ser contemplada no subsolo do estacionamento existente na mencionada praça.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA torre possuía uma funçao de vigilância, e com a conquista de Madrid por Alfonso VI de Castilla em 1083, foi incorporada à muralha crista, que os castelhanos levantaram como uma ampliaçao da primeira construçao defensiva árabe, já durante o reinado de Alfonso VII, no séc. XII. Esta muralha tinha um perímetro tres vezes maior que a muralha árabe, estando composta por 4 portas de acesso, uma das quais denominada Porta Cerrada, cuja placa comemorativa vemos abaixo, situada em sua localizaçao original.

OLYMPUS DIGITAL CAMERABem próximo à Porta Cerrada, na Calle de los Mancebos, se conserva uma parte bastante deteriorada da muralha crista, protegida por um portao de ferro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa Praça de Isabel II, no subsolo de uma rede de restaurantes, vemos outra parte da antiga muralha crista, curiosamente situada ao lado dos banheiros do estabelecimento comercial.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO Bairro da Latina, uma das zonas mais antigas da cidade, fazia parte da linha defensiva da muralha crista, e nele encontramos alguns restos. Na conhecida Calle da Cava Baja, uma das principais no que se refere à oferta gastronômica da cidade, estao preservadas um conjunto de 12m da muralha, protegida por um solo de cristal que atualmente serve como uma bodega de vinhos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO local é um restaurante histórico do bairro, chamado de Posada León de Oro, e nao deixa de ser peculiar fazer uma refeiçao sob os restos de uma muralha medieval.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAo lado, outro restaurante, denominado Posada del Dragón, também conserva ruínas da muralha, em condiçoes similares. Convém relembrar que as posadas (em português, pousadas), acolhiam os antigos mercadeiros que chegavam a Madrid para vender seus produtos no mercado, durante a Idade Média (ver post sobre o bairro, publicado em 18/04/2013).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAo lado da Igreja de San Andrés, situa-se a Praça dos Carros, onde antigamente se alugavam carroças para o transporte de pessoas e mercadorias. Nela, localiza-se o bar Aroca Siglo XI, que conserva uma parte da muralha de 6.40m de extensao.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAExistem na cidade outros locais onde se conservam restos das muralhas. No entanto, sao edifícios residenciais privados, nao estando abertos à visitaçao pública.