Museu de Belas Artes – Última Parte

Nesta última matéria sobre o Museu de Belas Artes de Valencia, veremos algumas das obras de seu acervo permanente relacionadas com a Pintura Neoclássica e outros artistas fundamentais do panorama espanhol dos séculos XIX e XX. O século XVIII ficou conhecido como o Século das Luzes, quando o racionalismo exerceu o princípio básico nas manifestações humanas. Como reação aos excessos barrocos, surge o movimento neoclássico, que se desenvolve em todos os campos artísticos. Surgido na França na primeira metade do século XVIII, transforma-se na estética da Ilustração, recuperando os valores da cultura greco-romana, especialmente nos aspectos relacionados à simplicidade, simetria e elegância. Na pintura, o neoclassicismo exalta a claridade compositiva e o predomínio do desenho sobre a cor. Devido a que os restos pictóricos da antiguidade não estavam disponíveis, a Pintura Neoclássica se inspira na escultura. Os principais temas abordados incluem os retratos, fatos históricos e a mitologia. Da mesma forma que sucedeu na arquitetura, os monarcas espanhóis da Dinastia dos Bourbons trouxeram artistas estrangeiros para que realizassem a decoração do Palácio Real. Um deles, o pintor de origem alemã Anton Raphael Mengs (1728/1779) foi o responsável pela difusão do neoclassicismo na Pintura Espanhola, principalmente depois que ocupou a direção da Real Academia de Bellas Artes de San Fernando de Madrid, instituição acadêmica que impôs as regras do novo estilo, exercendo uma grande influência na formação de muitos artistas, entre os quais o pintor valenciano Mariano Salvador Maella (1739/1819). Abaixo, vemos o quadro de Maella intitulado “Sueño de San José“, que podemos contemplar no Museu de Belas Artes de Valencia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Mariano Salvador Maella tornou-se pintor de câmara durante o reinado de Carlos III, que reconheceu seu grande talento como retratista. Em 1799, alcançou o apogeu como pintor real, junto com Goya. Com a queda do Rei Carlos IV e a chegada ao trono do francês José I, irmão de Napoleão Bonaparte, o pintor prestou seus serviços ao monarca francês, fato que lhe acabou causando sua decadência, pois foi considerado afrancesado. Abaixo, vemos a obra”Exequias do Beato Gaspar Bono“, uma das quatro obras que realizou para a capela do beato, situada no Convento de San Sebastián de Valencia. Gaspar de Bono (1530/1604) foi um beato pertencente à Ordem dos Mínimos que destacou-se por sua caridade, sendo beatificado em 1786.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACom o final da Guerra da Independência e o retorno do rei espanhol Fernando VII ao trono, Mariano Salvador Maella foi afastado do cargo, sendo substituído pelo também valenciano Vicente López Portaña (1772/1850) como pintor de câmara a partir de 1815. Este pintor é considerado um dos maiores retratistas da pintura espanhola. Seu pessoal sentido realista dos personagens retratados foi herdado da tradição naturalista da escola valenciana, principalmente de Francisco Ribalta e José de Ribera. Além do mais, possuía uma excepcional capacidade para a reprodução dos tecidos e objetos de adorno. Durante uma visita do Rei Carlos IV à Valencia em 1802, Vicente López realizou um belo retrato do monarca, que vemos a seguir.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos grandes mestres da História da Pintura, Francisco de Goya y Lucientes (1746/1828) também cultivou a pintura neoclássica, apesar de que o grande pintor aragonês não pode ser classificado dentro de um estilo determinado, devido a sua variedade e personalidade artística. Com ele se inicia a pintura contemporânea, sendo considerado o precursor das vanguardas artísticas do século XX. Como retratista foi excepcional, recebendo inúmeros encargos reais e da aristocracia espanhola. Um exemplo é o “Retrato de Mariano Ferrer y Aulet“, datado entre 1780 e 1783. Este personagem foi secretário da prestigiosa Real Academia de San Carlos de Valencia, origem do atual Museu de Belas Artes. O fundo negro do quadro ressalta seu rosto, que se mostra sereno e relaxado diante do pintor.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro quadro de Goya que representa sua enorme qualidade como retratista é o “Retrato de Joaquina Candado Ricarte“, pintado durante uma visita do pintor aragonês à Valencia. Realizado com grande desenvoltura técnica, existem controvérsias a respeito da verdadeira identidade desta personagem. Alguns afirmam que se trata da modelo utilizada por Goya nos famosos quadros “Maja Desnuda” e “Maja Vestida“, que podem ser vistos no Museu do Prado. Nesta obra, a retratada aparece de corpo inteiro e ricamente vestida, denotando sua elevada posição social. O retrato foi ambientado num espaço aberto, campestre. A dourada luz que inunda a personagem provoca um efeito de luz que anuncia o Impressionismo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalmente, algumas salas do Museu de Belas Artes de Valencia foram dedicadas exclusivamente a artistas valencianos de grande prestígio no final do século XIX e na primeira metade do XX. O primeiro deles é o pintor Joaquín Sorolla (1863/1923), a quem foi organizada uma excepcional exposição.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAArtista prolífico, Joaquín Sorolla deixou mais de 2200 obras catalogadas. Desde jovem mostrou interesse pela pintura ao ar livre, captando a luminosidade mediterrânea e o ambiente costeiro. Durante a fase final de sua vida, viveu em Madrid e sua casa foi transformado num museu cuja visita recomendo (ver post publicado em 8/11/2012).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizamos a matéria com Mariano Benlliure Gil (1862/1947), notável escultor valenciano, que possui um excepcional conjunto de obras no Museu de Belas Artes. Sua formação com o pintor Francisco Domingo Marqués lhe permitiu adaptar o realismo pictórico à escultura. Sua projeção internacional como escultor se consolidou com a Exposição Universal de Paris de 1900, quando obteve o Prêmio de Honra, a mesma distinção outorgada a Joaquín Sorolla. A grande coleçao de obras de Mariano Benlliure no museu se deve à generosidade do próprio artista, pois a maior parte das obras expostas foram doadas pelo escultor em 1940. Abaixo, vemos um “Autorretrato”, realizado em bronze para a Academia de Belas Artes de San Lucas, de Roma.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos artistas mais influentes de sua época, Mariano Benlliure dedicou-se aos temas populares, monumentos comemorativos e retratos, tanto de personagens da sociedade quanto da família real, como o “Busto de Alfonso XIII“, um encargo do monarca para o casamento com Victoria Eugenia de Battenberg, que também foi representado numa escultura equestre.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAMariano Benlliure foi o tema de duas matérias realizadas em 19/11 e 20/11/2015, pois muitas das esculturas mais famosas de Madrid foram esculpidas por ele. Existe inclusive um trajeto pela cidade em que é possível admirar muitas de suas obras mais conhecidas.

Igreja das Calatravas – Madrid

Num segundo momento, o Barroco em Madrid entra numa fase mais ornamental. As linhas curvas se destacam e o interior dos templos é invadido por retábulos de grande complexidade. Inicia-se por volta de 1660 e entra em decadência na década de 40 do século XVIII. Um exemplo deste tipo de barroco é a Igreja das Calatravas, situada na Calle de Alcalá.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste templo foi mandado construir pelo rei Felipe IV para a Ordem Militar de Calatrava, onde se ordenavam os cavalheiros de dita organização. A igreja integrava o convento, que foi destruído durante o século XIX devido à Desamortizaçao de Mendizábal. Graças à intervenção de personalidades influentes, a igreja escapou de ser derrubada. No mesmo local onde se levantou o convento, existia um palácio de uma família nobre cuja filha foi amante de Felipe IV, como muitas outras damas de Madrid

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO nome completo do templo era Convento de la Concepción Real de la Orden de las Comendadoras de Calatrava, e durante séculos sua cúpula dominou o horizonte da Calle de Alcalá, antes que modernos edifícios nas proximidades fossem construídos, ocultando seu perfil na modernidade. Abaixo, vemos uma foto antiga da Calle de Alcalá, onde podemos observar a cúpula no lado esquerdo da imagem.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO conjunto convento-igreja foi projetado pelo arquiteto Fray Lorenzo de San Nicolás entre 1670 e 1678. A fachada que estamos vendo foi, no entanto, reformada em 1858 no estilo neo-renascentista por Juan de Madrazo y Kuntz, onde destaca sua cor avermelhada e a cruz da Ordem de Calatrava em seu rosetón (roseta, em português).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta ordem foi fundada em 1158 durante o período da reconquista para defender a cidade e o castelo de Calatrava, situados na atual Província de Ciudad Real, Comunidade de Castilla La Mancha, constantemente atacados pelas tropas árabes. Logo se fundaram conventos femininos para acolher as mulheres e filhas daqueles que partiram à guerra, cuja missão era orar por seu triunfo. Com o tempo, estes conventos se transformaram em centros educacionais de prestígio para a nobreza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA história da Ordem de Calatrava, a diferença de outras ordens militares, é bem conhecida graças aos relatos do Bispo de Toledo Rodrigo Jiménez de Rada (1170/1247), promotor da construção da Catedral de Toledo. A ordem foi fundada pelo abade Don Raimundo, pertencente ao Monastério de Fitero de Navarra, sendo regida pelos ditames da Regra de San Benito e da Ordem Religiosa dos Cistercenses.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Cruz da Ordem de Calatrava pode ser vista como elemento decorativo em vários lugares da igreja, como em uma de suas portas de acesso.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos as distintas Ordens Militares existentes ao longo da história espanhola e os escudos a elas relacionadas…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa fachada exterior da igreja, vemos uma escultura da Imaculada Conceição que preside o templo, realizada por Sabino Medina.

dsc01993A riqueza decorativa de seu interior originou a frase que diz ” Na Igreja de Calatrava se encontram todos os santos…”. Abaixo, vemos a Virgem Negra de Montserrat, Padroeira da Catalunha e a Virgem do Pilar, Padroeira da Espanha e do Mundo Hispano.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta segunda fase do barroco é conhecida como Estilo Churrigueresco, uma referência a José Benito de Churriguera (Madrid: 1665/1725), que realizou retábulos maravilhosos, caracterizados por sua suntuosa decoração. O artista realizou sua única obra na cidade justamente para a Igreja das Calatravas em 1720, dedicada a San Raimundo de Fitero, fundador da ordem. Uma pena que, quando estava tirando as fotos do interior, fui avisado que elas não estavam permitidas, e pude tirar apenas uma do retábulo, que não ficou grande coisa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste barroco intenso e expressivo foi posteriormente desprezado pelo estilo neoclássico por seu exagero decorativo, sendo contrário aos princípios elaborados pela instituição reguladora do novo estilo que se impôs, a Real Academia de Belas Artes de San Fernando, também situada na Calle de Alcalá (ver matéria publicada entre 31/5/2014 e 6/6/2014). Apesar disso, o Estilo Churrigueresco tornou.se muito popular e expandiu-se pelo país e, inclusive, pela América latina. No início do século XXI, a Igreja das Calatravas foi novamente restaurada, depois de décadas abandonada…

 

Os Gravados de Goya: Disparates

A última série de gravados realizada por Goya recebeu o nome de “Disparates“. Sua datação é incerta, mas provavelmente pertence ao período compreendido ente 1816 e 1817. Mas como sucedeu com outras séries, somente apareceu ao público numa edição póstuma, publicada em 1864. Então, a Real Academia de Belas Artes de San Fernando de Madrid propôs a denominação de “Provérbios” para o conjunto de gravados.

20150816_112627A palavra disparate significa absurdo, despropósito. Composta por 22 gravados, em 14 deles Goya deu a denominação de “Disparates de…” seguido de um adjetivo. Esta série está mal documentada, sendo de complicada interpretação, pois suas imagens obsessivas se referem ao mundo onírico e irreal do próprio inconsciente do artista. Abaixo, por exemplo, vemos o gravado intitulado  “Disparate Feminino“, onde aparecem várias mulheres brincando com um boneco de pano. Provavelmente são uma referência a facilidade com que os homens caem nas redes femininas e ao prazer fácil, sucumbindo aos prazeres da prostituição.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo gravado “Disparate do medo“, os fantasmas da guerra voltam a aparecer, transformando-se num gigante que aterroriza os soldados…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANesta série, Goya busca o poder expressivo dos primeiros planos e os efeitos de claro-escuro para criar imagens tenebrosas. No gravado “Disparate do Cavalo Raptor“, o artista  alude à lenda do homem que se transforma num cavalo e assassina o esposo da mulher, para poder raptá-la e conviver com ela.

20150816_112643A cena  “Disparate pobre” se interpreta em relação à passagem do tempo, o caminho do ser humano desde a juventude até a velhice. No entanto,devido ao título, pode ser também uma referência à pobreza e a ignorância, com a presença de uma jovem induzida à prostituição por duas figuras sinistras.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA dramática situação do país também integra o conjunto de imagens desta série. No gravado “Disparate puntual“, a instabilidade política existente na Espanha quando Goya realizou os “Disparates” pode  ser uma interpretação adequada para esta lâmina, através do dito popular “dançando na corda bamba”, quando um cavaleiro tenta manter o delicado equilíbrio sobre uma corda.

20150816_112710A arte gráfica de Goya alcança nesta série a culminação de sua técnica, tanto no plano formal, quanto no representativo. As imagens contêm, provavelmente, denúncias contra os abusos cometidos pelo regime absolutista do rei Fernando VII. No “Disparate alegre“, vemos figuras velhas e grotescas dançando com umas estranhas damas.

20150816_112652Para a execução das 4 séries de gravados, Goya utilizou as técnicas denominadas aguafuerte e aguatinta, esta última uma técnica recente na Espanha, pois foi inventada em 1760, na França. Permitiu o pintor realçar as sombras, contribuindo para o dramatismo das cenas. Depois do término desta última série, com 78 anos Goya deixa a disparatada Espanha de Fernando VII e se marcha ao exílio em terras francesas, onde falece em 1828. Os Gravados de Goya constituem o testemunho de uma época fundamental na história do país, uma crítica social à sociedade de seu tempo, assim como o registro criativo de um artista precursor da modernidade artística.

Os Gravados de Goya: Caprichos

Iniciamos uma série de posts sobre os chamados Gravados de Goya, uma faceta menos conhecida deste genial pintor aragonês, mas indispensável para ilustrar seu modo de pensar e os acontecimentos históricos que se vivia na Espanha do final do séc. XVIII e começo do XIX. A obra de Francisco de Goya y Lucientes (Fuendetodos-Província de Zaragoza-1746/Burdéus-França-1828) constitui uma referência fundamental para a compreensão da Arte Moderna e Contemporânea. Os acontecimentos históricos de que foi testemunha e seus conflitos pessoais, resultados de vários períodos de crise, tiveram um amplo reflexo em sua produção artística.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA obra gráfica de Goya é considerada uma das mais importantes da História da Arte, no mesmo patamar dos gravados do holandês Rembrandt e do pintor alemão Alberto Durero. Além da capacidade técnica dos gravados, sua grande contribuição para o mundo artístico foi utilizar suas possibilidades como vínculo de expressão de seu mundo interior sobre a sociedade da época em que viveu. Os Gravados de Goya representam o testemunho de um artista que se interrogou sobre a condição humana e os processos históricos, sendo capaz de sintetizar a realidade de seu íntimo com o mundo objetivo. Abaixo, vemos um monumento em homenagem ao pintor, situado na Plaza del Pilar de Zaragoza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAGoya iniciou sua atividade como gravador em 1788, quando reproduziu muitas das pinturas de Velázquez, uma de suas maiores influências. Depois, publicou uma série de gravados, que hoje em dia causam assombro e admiração pela qualidade e o conteúdo simbólico das imagens. A primeira delas foi publicada em 1799, denominada Los Caprichos. Dois acontecimentos de sua vida podem explicar a origem destes gravados. Em primeiro lugar, a doença que o vitimou a partir de 1794, cuja consequência foi a perda da audição. O segundo, sua complicada relação com a Duquesa de Alba, que o levou a um processo de introspecção e de perda da confiança no ser humano. Los Caprichos constam de uma série composta por 80 gravados, que foram postos à venda numa loja de perfumes de Madrid em 1799. Dotados de um indiscutível componente crítico, resultado de sua reflexão sobre os males que afetavam a sociedade do final do séc. XVIII, se dividem em três temáticas principais. Na primeira delas, Goya critica os falsos e detestáveis modelos educativos e a prostituição.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAGoya enfatizava nesta série o conceito educativo através da racionalidade, e empregou em vários gravados o símbolo do asno, representante da insensatez do ser humano. Ao mesmo tempo ridicularizava a incapacidade e vulgaridade da classe elitista da época, atacando tanto aos “intelectuais” burgueses, quanto a nobreza.

20150816_113153OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs gravados se consideram uma contribuição pessoal do pintor contra a situação social da velha Espanha, seu fanatismo e suas superstições, e favorável aos novos rumos propostos pela Ilustração, corrente racionalista europeia que ganhava terreno na época. Um dos gravados mais conhecidos da série fala justamente destes aspectos. “El sueño de la razón produce monstruos” representa o próprio artista dormindo sobre uma mesa de desenho, acompanhado por vários animais, entre os quais uma coruja, símbolo da escuridão, do atraso e da ignorância da Espanha do séc. XVIII. O pintor adverte que quando a fantasia é abandonada pelo raciocínio, surgem monstros.Quando, porém, estão unidas e equilibradas, tornam-se as maravilhas de todas as artes….

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAtravés das figuras de monstros e bruxas, denunciava também as anomalias sociais, os abusos e preconceitos perpetuados pela igreja.

20150816_113351Los Caprichos foram realizados num momento de grande repressão social, como consequência direta da Revolução Francesa. No ano de sua publicação, Goya contava com 53 anos e tinha sido admitido como primeiro pintor da corte. O artista declarou a respeito da série, que os erros e vícios humanos, normalmente reservados à literatura, também podiam fazer parte dos temas das pinturas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs 80 lâminas da série Los Caprichos foram cedidas ao rei Carlos IV em 1803 em troca de uma pensão para seu filho, e foram depositadas na Real Academia de Belas Artes de San Fernando, em Madrid. Apesar disso, um dos melhores lugares para admirar a obra gráfica de Goya situa-se em Zaragoza. O Museu Goya (Coleção Ibercaja) situado na capital aragonesa, é o único que expõe de forma permanente todas as séries de gravados realizados pelo pintor.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO edifício sede do museu foi construído na primeira metade do séc. XVI e complementa a visita por seu importante valor histórico e artístico. O museu nos mostra o legado do pintor, os antecedentes de sua obra e sua repercussão nos demais artistas espanhóis dos séculos XIX e XX.

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Calle de Alcalá – Madrid

Antes de iniciar o primeiro post de 2016, gostaria de desejar a todos (as) leitores (as)  um feliz 2016, repleto de realizações e felicidades. Aproveito também para agradecer  a visualização do meu blog, esperando que seu conteúdo seja do agrado de vocês. Inicio o ano com uma matéria sobre uma das mais importantes ruas de Madrid, a Calle de Alcalá.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das ruas mais antigas e compridas da cidade, a Calle de Alcalá cruza a capital da Espanha de leste a este, num traçado de cerca de 10 km. Historicamente, representou o eixo de crescimento da cidade, até o período em que foi derrubada a antiga cerca de Felipe IV e o posterior alargamento urbano no processo conhecido como Ensanche de Madrid (segunda metade do séc. XIX), que possibilitou a abertura de grandes avenidas, como o Paseo de la Castellana. A partir de então, a cidade começou a expandir-se no sentido sul-norte. O primeiro trecho da Calle de Alcalá compreende o espaço entre a Puerta del Sol e a Plaza de Cibeles, que concentra uma grande quantidade dos edifícios mais emblemáticos da cidade. Muitos deles já apareceram nas matérias do blog. Colocarei a data de sua publicação quando forem mencionados na presente matéria. Alternarei fotos antigas com imagens atuais, para que tenham uma ideia das transformações ocorridas nesta que é uma das vias urbanas mais importantes da cidade. Abaixo, vemos uma foto do Palácio das Comunicações, antiga sede central dos Correios da Espanha, situado na Plaza de Cibeles, e construído pelo arquiteto Antonio Palácios (publicado em 13/9/2012).

DSC09435Antigamente, este primeiro trecho da Calle de Acalá denominava-se Calle de los Olivares, devido a existência de oliveiras, que serviam de “abrigo” para os bandidos que se multiplicavam pela cidade em séculos passados. Por este motivo, as árvores foram derrubadas por ordem da rainha Isabel La Católica. O traçado da rua surgiu no século XV, seguindo o antigo caminho que levava à cidade de Alcalá de Henares, daí a explicação de seu nome. A seguir, vemos a foto de um quadro do pintor italiano Antonio Joli (Módena-1770/Nápoles-1777) intitulado “Vista de Madrid“, realizado em 1750, que oferece uma das imagens antigas mais célebres da Calle de Alcalá do séc. XVIII. O artista pintou o quadro durante sua estadia na capital, no período compreendido entre 1749 e 1754.

DSC08546No quadro podemos ver, na parte esquerda, a Igreja de San José, que ainda existe (matéria publicada em 10 e 11/4/2014). No centro, a primitiva Porta de Alcalá, que foi derrubada para a construção da atual na segunda metade do séc. XVIII. Ao seu lado, a antiga Praça de Touros, feita de madeira e com capacidade para 10 mil espectadores. Inaugurada em 1743, funcionou até 1874, quando desapareceu em virtude da construção do Bairro de Salamanca. Também do séc. XVIII é a Real Casa da Aduana que, apesar das reformas realizadas, conserva atualmente o seu aspecto original.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAConsiderada uma das obras de caráter civil mais importante deste século em Madrid, a Real Casa da Aduana foi erguida entre 1761 e 1769, e foi a primeira construção realizada na cidade pelo arquiteto real de Carlos III, Francisco Sabatini, autor também da Porta de Alcalá. Inspirada nos palácios italianos do séc. XVI, foi declarada Bem de Interesse Cultural em 1998 e atualmente é a sede do Ministério da Fazenda.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO arquiteto empregou no edifício os principais critérios adotados pelo Renascimento Italiano, como a horizontalidade e o sentido de proporção e harmonia, com poucos elementos decorativos. Ao lado, vemos um dos principais museus de Madrid, a Real Academia de Belas Artes de San Fernando, construído em 1725 (para maiores informações, ver a série de posts publicados entre 31/5 e 6/6/2014).

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois de tornar-se Capital da Espanha em 1561, o crescimento de Madrid foi enorme, e na Calle de Alcalá começaram a aparecer conventos e mansões aristocráticas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo séc. XIX, transformou-se no centro financeiro da cidade, e ficou conhecida como a rua dos banqueiros, graças a grande quantidade de instituições econômicas que surgiram a partir de então. Um exemplo é a antiga sede do BBVA, construído em 1923 e que ficou famoso pelas esculturas de quadrigas que servem de ornamentação para a parte mais alta do edifício.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro exemplo é o edifício do atual Banco Espanhol de Crédito, construído em 1891 pelo arquiteto José Grases Riera, inicialmente como sede da empresa americana de seguros Equitativa. De fato, este belo edifício também é conhecido como Palácio Equitativa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAmbos edifícios apareceram na série Belos Edifícios de Madrid, publicado em 22/11/2012. A Calle de Alcalá somente foi pavimentada em 1900. Abaixo, vemos uma foto das obras.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo séc. XX, a rua também tornou-se um local de entretenimento e muitos teatros surgiram, como o Alcázar, que fez parte de uma série sobre o Teatro Espanhol publicado em 25/6/2012. Abaixo, vemos no lado direito o famoso teatro, numa foto de 1930.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Calle de Alcalá foi sempre uma das mais movimentadas ruas de Madrid, tanto em relação à atividade comercial, quanto ao tráfico de veículos. Finalizamos a matéria com uma imagem de princípio do séc. XX, quando os bondes, aqui chamados de Tranvía,  ainda circulavam pela rua.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post, continuaremos conhecendo mais sobre a Calle de Alcalá

O Modernismo em Madrid

Quando pensamos no Estilo Modernista em Espanha, imediatamente recordamos, e de forma merecida, o Modernismo Catalao e os grandes arquitetos Gaudi, Luis Domenéch i Montaner, Puig i Cadafalch, etc, que deixaram um legado arquitetônico impressionante, principalmente em Barcelona. No entanto, outras cidades espanholas possuem belos exemplos da arte modernista, como Teruel e Melilla. Na capital, Madrid, também o modernismo desenvolveu-se, apesar de que existe a crença equivocada de que este movimento artístico teve pouco protagonismo na cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEvidentemente, existem aspectos que precisam ser considerados em relaçao ao modernismo madrilenho. O primeiro, que o Modernismo em Madrid nao pode ser comparado aos grandes centros criadores do estilo no continente europeu, como Viena, Bruxelas, Glasgow e Barcelona. Nao se pode afirmar que a originalidade e criatividade que o modernismo alcançou nas cidades acima citadas tivesse o mesmo nível na capital espanhola. Os edifícios catalogados como modernistas em Madrid se inserem dentro do contexto da denominada Arquitetura Eclética.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste fato se explica porque no final do séc. XIX e princípio do XX, época em que aparece o modernismo, a cidade de Madrid ainda nao havia alcançado um grau de desenvolvimento social, econômico e industrial que possibilitasse o aparecimento de uma burquesia o bastante numerosa para patrocinar construçoes deste estilo, como ocorreu em Barcelona. Outro fator limitante foi a grande influência da Real Academia de Belas Artes de San Fernando, que seguia ditando as normas arquitetônicas na cidade, com importantes efeitos sobre a Escola Superior de Arquitetura.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAPor estes motivos, a arquitetura madrilenha estava apegada à tradiçao eclética, consolidada desde o séc. XIX. Naquele período, o modernismo, um movimento surgido à margem e contra os critérios oficiais, por ser transgressor e ornamentalista, foi considerado um estilo inapropriado para representar a imagem arquitetônica da capital. Apesar disso, Madrid aspirava transformar-se num grande centro urbano, seguindo o exemplo de outras capitais européias. Este desejo cosmopolita impediu, de fato, o desprezo absoluto pela corrente modernista.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA crise sofrida pela Arquitetura Eclética, “cansada” pela falta de originalidade decorrente da imitaçao de estilos do passado, colaborou para a implantaçao do Modernismo em Madrid. Assim, muitos arquitetos incorporaram elementos decorativos derivados da estética modernista, como uma tentativa de renovaçao do próprio Ecleticismo. Deste modo, o modernismo converteu-se em Madrid numa opçao decorativa integrada ao estilo eclético, nao afetando a concepçao espacial e estrutural dos edifícios, como ocorreu em Barcelona, onde o Modernismo virou sinônimo de Arte Total.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAArquitetos de diversas tendências incorporaram elementos modernistas nos âmbitos doméstico, industrial, religioso, funerário e comercial. No Modernismo em Madrid, encontramos influências do Art Nouveau francês e belga, do Modernismo Vienense, italiano e também do catalao. Um dos arquitetos que mais fielmente seguiu as pautas modernistas em Madrid, mas nao o único, como veremos nos próximos posts, foi Felipe Mario López Blanco, que construiu o edifício abaixo, situado na Calle de Almagro, repleta de belas construçoes.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAConstruído entre 1905/1907, neste edifício podemos visualizar os vários elementos modernistas utilizados em sua decoraçao. Ao mesmo tempo, o arquiteto edificava esta outra construçao, nos mesmos moldes decorativos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANos próximos posts, veremos os principais exemplos de edifícios e construçoes associados à estética modernista de Madrid, bem como o desenvolvimento do estilo ao longo do séc.XX, além de conhecer outros arquitetos que possibilitaram a criaçao de um Modernismo, ainda que superficial e muitas vezes discreto, ao mesmo tempo elegante e que vale a pena ser conhecido.

obs: a maior parte das informaçoes desta série de posts foi tirada do livro “Madrid Modernista: Guia de Arquietura”, uma obra de referência no tema, escrita pelos arquitetos Óscar da Rocha Aranda e Ricardo Muñoz Fajardo. Tive o privilégio de conhecer a Óscar pessoalmente, assistir a muitas de suas excelentes conferências, e realizar instrutivas visitas guiadas por Madrid organizadas por ele, sob uma variada perspectiva arquitetônica, que me inspirou na realizaçao desta matéria. Gracias, Óscar !!!

Pedro de Ribera – Parte 2

A cidade de Madrid nao seria a mesma sem a colaboraçao do arquiteto Pedro de Ribera, que no período barroco realizou desde igrejas a palácios, edifícios públicos e fontes, transformando a capital espanhola numa referente deste estilo artístico a nível europeu. Neste último post em sua homenagem, veremos outras obras executadas pelo grande arquiteto. Algumas delas pertenceram à classe aristocrática, que encarregaram a Ribera a edificaçao de suas residências, como o Palácio de Miraflores, construído entre 1730 e 1735.

DSC08681Uma de suas obras mais conhecidas é o Palácio do Marquês de Perales, atual sede da Filmoteca Nacional. A construçao ocupa boa parte do quarteirao onde está situada, e sua portada é uma das mais belas que realizou, com detalhes que revelam sua capacidade criadora.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra jóia do barroco madrilenho realizada por Ribera é o Real Hospício de Ave Maria e San Fernando, edificado entre !721 e 1726.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANesta obra fica patente a influência de José Benito de Churriguera na cosntruçao de sua decorada fachada, organizada em dois níveis como se fosse um grande retábulo feito de pedra. O hospício deixou de exercer sua funçao como tal em 1922 e alguns anos antes foi declarado Monumento Histórico-Artístico. Graças a intervençao da Real Academia de Belas Artes de San Fernando, escapou da destruiçao e hoje é a sede do imperdível Museu de História de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANos jardins do museu encontramos outra realizaçao do arquiteto, a magistral Fonte da Fama. Sua construçao foi ordenada pelo rei Felipe V para embelezar a cidade, bem como proporcionar água à populaçao. O projeto foi financiado pelo povo madrilenho, e no dia de sua inauguraçao, foi colocado um cartaz que dizia: “Deus quis, o rei mandou e o povo pagou”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo bairro onde nasceu e viveu, Lavapiés, Pedro de Ribera colaborou na construçao da Igreja de San Cayetano e San Millán, uma das “belas desconhecidas de Madrid”, principalmente em sua fachada. A igreja formava parte do Convento dos Teatinos, desaparecido depois da Desamortizaçao de Mendizábal em 1836.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAIncendiada durante a Guerra Civil do séc. XX, o templo foi salvo graças a eficiente obra de restauraçao promovida pelo arquiteto Chueca Goitia. Em 1962 foi reaberta ao culto e declarada Monumento Histórico-Artístico. A igreja possui uma planta de cruz grega e seu interior é belíssimo. Suas grandes pilastras impressionam a todos que a visitam.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAPedro de Ribera faleceu em 1742 e foi sepultado na igreja que ajudou a construir. Abaixo, vemos uma placa comemorativa que vemos no interior do templo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA importância deste arquiteto fundamental foi reconhecida posteriormente, em pleno séc.XX, num dos edifícios mais emblemáticos da cidade, situado em plena Gran Vía. Trata-se da sede da Telefônica, uma das principais multinacionais espanholas. O autor do projeto construtivo rendeu uma homenagem ao grande arquiteto barroco, combinando a influência norte-americana de sua arquitetura com uma fachada que enaltece sua verticalidade, relembrando as notáveis fachadas de Pedro de Ribera.

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