Antonio Mingote – Madrid

Além do patrimônio histórico e cultural da Espanha, sempre que possível publico matérias sobre os personagens que colaboraram para seu desenvolvimento, muitos dos quais desconhecidos além da fronteira espanhola. Fazia tempo que almejava publicar um post em homenagem a Antonio Mingote (1919/2012), que com seus desenhos transformou a paisagem urbana de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMeu desejo concretizou-se com uma exposição a ele dedicado, no ano do centenário de seu nascimento, realizada no Museu de História de Madrid, denominada “Madrid se escreve com M de Mingote“. Abaixo, vemos este imprescindível museu da cidade e o cartaz publicitário da exposição…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAntonio Mingote, membro da Real Academia Espanhola, foi um cartunista, escritor e jornalista espanhol. Apesar de ter nascido em Sitges, na Província de Barcelona, deixou um legado artístico relacionado com a cidade de Madrid, onde faleceu em 2012, com 93 anos de idade. Aprendeu a desenhar de forma autodidata, iniciando sua carreira de humorista gráfico em 1946. Devido a sua intensa atividade neste campo e a qualidade artística dos desenhos, foi reconhecido não somente na Espanha, como também em diversas partes do mundo. Suas ilustrações foram reproduzidas em meios de comunicação de prestígio internacional, como o New York Times, entre outros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1948 publicou sua primeira novela, “Las Palmeras de Cartón“, e em 1953 iniciou uma colaboração com o Diário ABC, que continuou até seu falecimento em 2012. Também escreveu roteiros para o cinema e séries de televisão. De grande interesse foram os livros de divulgação histórica que publicou, como “História de Madrid“, escrito em 1961.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa exposição podemos admirar a maior parte dos desenhos originais que ilustram o livro. De um total de 185 ilustrações, foram expostas no museu 125, constituindo uma maneira divertida para compreender a história da cidade, criadas com o humor característico do artista. Seu estilo está impregnado de sutilezas e ironia, além da sensibilidade social. Aproveito para publicar alguns deles, como o desenho em que arqueólogos tentam decifrar a origem da cidade de Madrid

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro desenho curioso revela o apelido como são conhecidos os nascidos em Madrid, “Gatos“. A origem deste nome se remonta a época da Reconquista de Madrid pelo Rei Alfonso VI no final do século XI. Fundada pelos muçulmanos no século IX, durante pouco mais de dois séculos Madrid foi uma cidade islâmica. Se diz que quando a cidade foi conquistada pelo monarca castelhano, um de seus soldados começou a escalar a muralha árabe de 12 m de altura com tamanha agilidade e destreza, que o rei afirmou que mais parecia a um “gato“. A partir de então, todos começaram a chamá-lo de gato, assim como a todos os membros de sua família. Inclusive, parece que mudou seu sobrenome, incluindo seu novo apelido, que com o passar do tempo tornou-se ilustre em Madrid. Sua família ostentou um escudo de armas no qual aparecia um punhal (utilizado pelo soldado para escalar a muralha) e um muro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO soldado tornou-se tão famoso que, com o tempo, o termo “gato” identificava a qualquer pessoa valente de Madrid. Posteriormente, passou a ser relacionada a qualquer pessoa nascida na cidade. Abaixo, vemos a antiga muralha islâmica de Madrid, situada aos pés de sua bela catedral…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra teoria diz que o apelido “gato” se refere ao hábito dos nascidos na cidade de sair à noite, como os pequenos felinos…Na realidade, atualmente se consideram “gatos” autênticos aquelas pessoas cujos pais e avós, tanto maternos quanto paternos, tenham nascido em Madrid. Ou seja, cada vez se torna mais difícil encontrar um gato genuíno pela cidade…Abaixo, vemos outro desenho, em que Mingote retrata o “jogo de domingo” na Idade Média

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMadrid no ano 1500, com vistas da muralha árabe, e o antigo Alcázar, a fortaleza de origem islâmica que se incendiou em 1734, sendo substituído pelo atual Palácio Real de Madrid

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO êxodo rural que multiplicou a população da cidade, depois de tornar-se capital da Espanha a partir de 1561…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMingote retratou também monumentos que ainda se conservam no Centro Histórico de Madrid, como o Real Monasterio de La Encarnación, fundado no início do séculoXVII…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo e último post sobre Antonio Mingote, veremos o legado deixado pelo artista pelas ruas da cidade…

A Reconquista de Madrid

Com a desaparição do Califato de Córdoba em 1031, devido a uma série de guerras civis motivadas pelo controle do poder, a Espanha Árabe se debilita com a formação dos fragmentados Reinos de Taifas, favorecendo o avance cristão. Deste modo, Madrid cai em poder do rei de Castilla y León Alfonso VI, provavelmente em 1083, um pouco antes da conquista de Toledo, efetuada dois anos depois.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASob domínio cristão, a cidade conserva seu caráter militar ao menos durante um século mais. Evidentemente, sofreu novos ataques árabes, que tentavam recuperá-la, como o acontecido em 1091, quando o mouro Ben Alí ergueu um acampamento aos pés da mítica fortaleza árabe, então transformado no Alcázar dos Reis Cristãos. Este local passaria à história como o Campo do Mouro, atualmente um jardim situado atrás do Palácio Real (matéria do post publicado em 26/2/2013).

OLYMPUS DIGITAL CAMERADevido a estas séries de ataques,  foi erguido um novo sistema de muralhas, cuja fábrica não era da mesma qualidade do anterior sistema defensivo árabe. No entanto, era robusta e estava composta por torres circulares, ao contrário da anterior, de torres quadradas. No mapa abaixo, vemos a ampliação desta nova muralha (em amarelo), e a antiga muralha árabe (na cor branca), que seguia existindo na época da reconquista.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste novo recinto de muralhas estava formado por várias portas, entre as quais mencionamos a de Guadalajara, situada onde atualmente se encontra a Calle Maior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOu então a denominada Porta dos Mouros, situada onde hoje se ergue a praça da Igreja de San Andrés.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADurante o ataque de Ben Alí, as muralhas sofreram danos, a cidade foi assediada, mas uma peste espalhou-se pelas tropas árabes, que se viram obrigadas a retirar-se e desistir do projeto de conquistar novamente Madrid. Com a vitória dos exércitos cristãos (formados por tropas castelhanas, navarras e aragonesas), na famosa Batalha de Las Navas de Tolosa em 1212 contra o invasor árabe, Madrid nunca mais  voltou a ser muçulmana. Graças ao eficiente sistema de irrigação e abastecimento de água criado pelos árabes, durante o período cristão se multiplicaram os espaços destinados ao cultivo de oliva e uva, principalmente. O mercado principal, onde se vendia gado, cereais, etc, situava-se na atual Plaza de la Paja.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAMadrid, depois de reconquistada, foi repovoada por habitantes originários do norte do país, que trouxeram seus costumes e crenças. Normalmente, os novos bairros (arrabales) surgiam ao redor de uma paróquia, que além do culto, eram utilizadas também como local de registro civil e também para representações teatrais. Uma parte da antiga população árabe permaneceu na cidade (os conhecidos mudéjares), e habitavam a denominada Moreria.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMuitos destes habitantes de origem árabe se dedicavam à construção, propiciando que durante muito tempo houvessem elementos árabes nos edifícios civis e religiosos, originando o estilo, adotado principalmente na arquitetura, denominado Mudéjar.  Esta simbiose entre as comunidades cristas e muçulmanas fez com que surgissem as primeiras paróquias de Madrid, realizadas no estilo mudéjar, que em breve veremos no blog…