Igreja das Calatravas – Madrid

Num segundo momento, o Barroco em Madrid entra numa fase mais ornamental. As linhas curvas se destacam e o interior dos templos é invadido por retábulos de grande complexidade. Inicia-se por volta de 1660 e entra em decadência na década de 40 do século XVIII. Um exemplo deste tipo de barroco é a Igreja das Calatravas, situada na Calle de Alcalá.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste templo foi mandado construir pelo rei Felipe IV para a Ordem Militar de Calatrava, onde se ordenavam os cavalheiros de dita organização. A igreja integrava o convento, que foi destruído durante o século XIX devido à Desamortizaçao de Mendizábal. Graças à intervenção de personalidades influentes, a igreja escapou de ser derrubada. No mesmo local onde se levantou o convento, existia um palácio de uma família nobre cuja filha foi amante de Felipe IV, como muitas outras damas de Madrid

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO nome completo do templo era Convento de la Concepción Real de la Orden de las Comendadoras de Calatrava, e durante séculos sua cúpula dominou o horizonte da Calle de Alcalá, antes que modernos edifícios nas proximidades fossem construídos, ocultando seu perfil na modernidade. Abaixo, vemos uma foto antiga da Calle de Alcalá, onde podemos observar a cúpula no lado esquerdo da imagem.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO conjunto convento-igreja foi projetado pelo arquiteto Fray Lorenzo de San Nicolás entre 1670 e 1678. A fachada que estamos vendo foi, no entanto, reformada em 1858 no estilo neo-renascentista por Juan de Madrazo y Kuntz, onde destaca sua cor avermelhada e a cruz da Ordem de Calatrava em seu rosetón (roseta, em português).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta ordem foi fundada em 1158 durante o período da reconquista para defender a cidade e o castelo de Calatrava, situados na atual Província de Ciudad Real, Comunidade de Castilla La Mancha, constantemente atacados pelas tropas árabes. Logo se fundaram conventos femininos para acolher as mulheres e filhas daqueles que partiram à guerra, cuja missão era orar por seu triunfo. Com o tempo, estes conventos se transformaram em centros educacionais de prestígio para a nobreza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA história da Ordem de Calatrava, a diferença de outras ordens militares, é bem conhecida graças aos relatos do Bispo de Toledo Rodrigo Jiménez de Rada (1170/1247), promotor da construção da Catedral de Toledo. A ordem foi fundada pelo abade Don Raimundo, pertencente ao Monastério de Fitero de Navarra, sendo regida pelos ditames da Regra de San Benito e da Ordem Religiosa dos Cistercenses.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Cruz da Ordem de Calatrava pode ser vista como elemento decorativo em vários lugares da igreja, como em uma de suas portas de acesso.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos as distintas Ordens Militares existentes ao longo da história espanhola e os escudos a elas relacionadas…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa fachada exterior da igreja, vemos uma escultura da Imaculada Conceição que preside o templo, realizada por Sabino Medina.

dsc01993A riqueza decorativa de seu interior originou a frase que diz ” Na Igreja de Calatrava se encontram todos os santos…”. Abaixo, vemos a Virgem Negra de Montserrat, Padroeira da Catalunha e a Virgem do Pilar, Padroeira da Espanha e do Mundo Hispano.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta segunda fase do barroco é conhecida como Estilo Churrigueresco, uma referência a José Benito de Churriguera (Madrid: 1665/1725), que realizou retábulos maravilhosos, caracterizados por sua suntuosa decoração. O artista realizou sua única obra na cidade justamente para a Igreja das Calatravas em 1720, dedicada a San Raimundo de Fitero, fundador da ordem. Uma pena que, quando estava tirando as fotos do interior, fui avisado que elas não estavam permitidas, e pude tirar apenas uma do retábulo, que não ficou grande coisa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste barroco intenso e expressivo foi posteriormente desprezado pelo estilo neoclássico por seu exagero decorativo, sendo contrário aos princípios elaborados pela instituição reguladora do novo estilo que se impôs, a Real Academia de Belas Artes de San Fernando, também situada na Calle de Alcalá (ver matéria publicada entre 31/5/2014 e 6/6/2014). Apesar disso, o Estilo Churrigueresco tornou.se muito popular e expandiu-se pelo país e, inclusive, pela América latina. No início do século XXI, a Igreja das Calatravas foi novamente restaurada, depois de décadas abandonada…

 

Monastério de Piedra – Parte 2

Durante os quase 650 anos que o Monastério de Piedra foi habitado, os monges tiveram que abandoná-lo em três ocasiões. A primeira delas ocorreu em 1809, durante o contexto da Guerra da Independência. Um decreto do irmão de Napoleao, José I, supôs a supressão da comunidade religiosa. Os monges foram expulsos e o monastério foi saqueado pelo exército do imperador francês, transformando-se num hospital. Terminada a guerra em 184, o rei espanhol Fernando VII autorizou os monges sobreviventes a recompor a comunidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1820, durante o processo político conhecido como Triênio Liberal, a comunidade voltou a ser suprimida e os bens religiosos foram nacionalizados, sendo que alguns deles acabaram leiloados. Três anos depois, os monges novamente retornaram ao monastério.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalmente, em 1835, a rainha regente Maria Cristina de Borbón decretou a promulgação da lei de dissolução das ordens religiosas masculinas e a desamortização dos bens eclesiásticos, provocando o fim definitivo do Monastério de Piedra. Durante a visita que se realiza por suas dependências, observamos a grande quantidade de imagens que foram mutiladas durante o século XIX.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA igreja do século XII, edificada na fase final do estilo românico, foi destruída durante o início do século XIX. Acima e abaixo, podemos observar algumas imagens do templo que atualmente se conserva.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO claustro, um dos pilares da vida monacal, é robusto e austero, seguindo os ditames prescritos pela Ordem Cistercense. Recentemente foi restaurado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAo seu redor, se organizam as várias dependências do monastério. A Sala Capitular, por exemplo, constituía um local de reuniões em que se tomavam as principais decisões a respeito da vida na abadia, como seu planejamento econômico, a admissão de novos integrantes e a confissão pública de faltas cometidas. Nela eram lidos os capítulos da Regra de San Benito. Este emblemático espaço do século XII se conserva, felizmente, em boas condições.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm lugar impressionante dentro do monastério é o denominado “Passadizo de los Conversos“, uma espécie de túnel utilizado pela comunidade de conversos, formada por indivíduos que auxiliavam os monges nas tarefas diárias. Trata-se do único existente no país construído dentro do estilo românico que ainda se conserva.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO monastério possuía um local que servia como depósito de provisões e onde se guardava o vinho elaborado pelos monges.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAtualmente o local acolhe uma exposição de aparatos agrícolas e o Museu do Vinho da Denominação de Origem Calatayud.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm outra de suas dependências podemos admirar uma exposição de carruagens antigas…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos fatos mais curiosos do monastério sucedeu  na cozinha, pois foi nela que se produziu por primeira vez o chocolate na Europa, quando um monge que pertencia ao monastério trouxe, em 1531, o cacau do continente americano e a receita do delicioso produto.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1840, cinco anos depois do processo de desamortização, o monastério passou a ser uma propriedade privada, cujo dono se chamava D. Pablo Muntadas Campeny. Seu filho, Juan Federico Muntadas, transformou a horta do monastério num excepcional parque natural, que veremos no próximo post. Além do mais, converteu parte das instalações conventuais num hotel com funções hidroterápicas. Hoje em dia, podemos visitar o parque e o monastério e passar alguns dias na própria hospedaria do monastério, com conforto, excelente gastronomia, num ambiente perfeito que reúne  beleza natural e história.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA20160912_180846Em 1983, o Monastério de Piedra foi declarado Monumento Nacional.

Monastério de Piedra – Comunidade de Aragón

Um dos passeios mais interessantes que podemos fazer na bela Comunidade de Aragón, o Monastério de Piedra se destaca tanto por sua história secular quanto pela beleza espetacular da paisagem que o rodeia. Situa-se na Província de Zaragoza, a cerca de 20 km da cidade de Calatayud.

20160912_20030220160912_193852O Real Monastério de Santa María de Piedra, seu nome completo, foi fundado em 1195 dentro da política de repovoamento territorial promovida pelo Rei Alfonso II “El Casto”. Ele e sua esposa, a Rainha Sancha, solicitaram ao abade do Monastério de Poblet, situado  na Catalunha, a criação de um monastério no Reino de Aragón (para maiores informações deste impressionante monastério, ver as matérias publicadas entre 4/4 e 6/4/2013). Para tanto, doaram uma região chamada Castillo de Piedra, assim denominada por encontra-se às margens do Rio Piedra.

20160912_19313420160912_195400Ambas instituições religiosas, os Monastérios de Poblet e Piedra, pertenciam à Ordem Cistercense e sua vida comunitária seguia a Regra de San Benito (São Bento, em português). Depois da lei real para sua fundação, 12 monges saíram de Poblet para a construção do novo monastério, dirigidos por Gaufredo de Rocaberti, que se converteria no primeiro abade do Monastério de Piedra. Passados 23 anos, a igreja do convento foi consagrada (1218). Outras dependências, como o claustro, seriam finalizadas somente no século XV.

20160912_19330520160912_194744Todo o perímetro do monastério estava protegido por uma muralha

20160912_194903A denominada Torre de Homenagem constituía um dos principais pontos de sua defesa.

20160912_195923Os monges habitaram o monastério durante aproximadamente 650 anos, de 1195 a 1835. A construção monacal se desenvolveu ao longo de três etapas distintas: a primitiva românico-gótica (século XIII), a fase renascentista (XVI) e o período barroco (XVIII).

20160912_195102Com sua construção, os monges do monastério, graças às doações reais, detiveram o domínio e a jurisdição sobre um amplo território. Viviam segundo o lema principal da Ordem Cistercense e da Regra de San Benito, “Ora et Labora”, isto é, Reza e Trabalha.

20160912_194559No próximo post, veremos algumas das principais dependências conservadas deste importante monastério aragonês, e um pouco mais sobre sua complicada história…