Universidade de Alcalá de Henares

A matéria de hoje, que será extensiva aos próximos posts, está dedicada a uma das instituições educacionais mais importantes da história espanhola, monumento renascentista e responsável em boa parte pela declaração de Alcalá de Henares como cidade Patrimônio da Humanidade. Situada no centro histórico da cidade, a Universidade de Alcalá de Henares foi um dos primeiros monumentos históricos que conheci desde que cheguei à Espanha, e revê-la e aprofundar-me em sua história constitui uma grande satisfação para mim.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua história se inicia no século XIII, quando o rei Sancho IV de Castilla assinou em 1293 um real decreto permitindo que o Arcebispo de Toledo fundasse os chamados Estudios Generales em Alcalá de Henares, como na época eram conhecidos os cursos de nível superior ou universitários. No entanto, o estabelecimento de uma universidade ocorreu somente a partir de 1495, com a consagração do frade franciscano Francisco Jiménez de Cisneros (conhecido na história da Espanha como Cardeal Cisneros), como Arcebispo de Toledo. Confessor da rainha Isabel la Católica, Cisneros solicitou ao Papa Alejandro VI uma licença para a construção de uma universidade. A bula papal autorizando a fundação chegou em 1499, quando provavelmente as obras de cimentação já haviam iniciado. Abaixo, vemos uma cópia do documento.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Cardeal Cisneros  entrou em contato com o mundo universitário em Salamanca, uma das mais antigas e prestigiosas universidades do país, durante seus anos de juventude, quando cursou Direito Civil Eclesiástico e Teologia. Participou também na fundação de uma universidade em Siguenza, num momento em que havia grande entusiasmo no país por este tipo de iniciativas. A fundação da Universidade de Alcalá, também conhecida como Universidade Cisneriana ou Complutense, coincidiu com um período de estabilidade durante o reinado dos Reis Católicos, uma nova atmosfera cultural procedente do renascimento italiano e a necessidade de se criar um novo corpo de funcionários e religiosos capazes de administrar os cada vez maiores domínios do estado e da igreja. A criação da instituição foi concebida como um poderoso instrumento para a reforma cultural e espiritual do clero e do povo castelhano, e se inspirou nos modelos universitários de Salamanca e Paris. Da primeira, recebeu a organização e administração, e da segunda, seus métodos de ensino. Abaixo, vemos a estátua do Cardeal Cisneros, situado em frente ao Colégio Maior de San Ildefonso, o principal edifício da Universidade de Alcalá de Henares.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Universidade foi composta pelo Colégio Maior de San Ildefonso e os denominados Colégios Menores. Para a construção do primeiro, Cisneros utilizou partes do antigo Convento de Santa María de Jesús, localizado na parte lateral da Praça de San Diego, atualmente ocupado pelo edifício abaixo, um antigo quartel.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa realidade, a praça não existia na época da construção do Colégio Maior, estando originalmente ocupada pela chamada Calle de los Colégios, formada por casas pertencentes à universidade. No final do século XVI, devido à canonização de San Diego, as casas foram derrubadas, originando a praça que vemos atualmente.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA excepcional fachada renascentista do Colégio Maior de San Ildefonso foi realizada entre 1537 e 1553 pelo arquiteto Rodrigo Gil de Hontañón, que projetou uma fachada em forma de retábulo, algo frequente no século XVI. O espaço se divide horizontalmente em três partes e verticalmente em cinco, separados entre si por colunas e pilastras.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA ornamentação escultórica da fachada obedece a um profundo simbolismo teológico e universitário, combinando elementos mitológicos e cristãos. A bula papal de 1499 especificava que a instituição deveria potencializar a luta da luz contra as trevas utilizando o estudo e a ciência como caminho para a felicidade e a salvação. Um grosso cordão franciscano rodeia boa parte da fachada, manifestando a relação existente entre a Ordem Religiosa e a universidade, bem como entre o fundador e sua principal obra.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANas fotos acima, vemos o primeiro corpo, onde se situa a entrada ao Colégio Maior de San Ildefonso. O segundo está presidido pelo Balcão da Biblioteca e sobre ele aparece a representação de San Ildefonso, titular do Colégio Maior, franqueado pelos Escudo de Arma do Cardeal Cisneros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs 3 corpos da fachada se unem verticalmente por colunas sustentadas por Atlantes.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO terceiro corpo está representado pelo escudo do monarca Carlos I, rei da Espanha durante a construção da fachada. Em cima do escudo, um estrutura triangular com a escultura de Deus Pai com a bola do universo. Na parte mais alta da fachada, uma cruz representando a Santíssima Trindade. Nas partes laterais aparece Minerva, deusa da sabedoria.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA fundação da universidade foi acompanhada pela redação de sua constituição, promulgada pelo próprio Cardeal Cisneros em 1510, constituindo-se no documento supremo para qualquer assunto concernente à universidade. Abaixo, vemos uma imagem interior do Colégio Maior de San Ildefonso, que veremos com detalhes no próximo post.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante os dias festivos da cidade, grupos musicais se reúnem em frente à fachada do Colégio Maior com suas guitarras e instrumentos musicais, um verdadeiro espetáculo…

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

 

Catedral de Alcalá de Henares

Na matéria de hoje conheceremos um pouco da Catedral de Alcalá de Henares, sua longa história e sua importância para a cidade. Sede da Diocese de Alcalá, o templo foi objeto de várias reformas, destruições e reconstruções no decorrer dos séculos. O templo que hoje observamos data do século XVI e sua construção foi impulsionada por um dos personagens mais importantes associados, não só à cidade, mas a toda Espanha no final do século XV e princípio do XVI, Francisco Jiménez de Cisneros, mais conhecido como Cardeal Cisneros (1436-Torrelaguna/1517-Roa).

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua existência está relacionada com dois fatos históricos proeminentes da cidade, o martírio dos santos meninos Justo e Pastor, padroeiros da cidade, e a fundação da famosa Universidade de Alcalá de Henares, a principal obra do Cardeal Cisneros, a qual historicamente a catedral esteve vinculada (em breve realizarei um a matéria sobre esta instituição fundamental).  Somente assim podemos compreender o significado de seu nome, Catedral Magistral dos Santos Justo e Pastor. O termo magistral implicava que todos os seus membros deveriam obter o título de “Magistri”, mestres em teologia graduados pela universidade. Junto com a Igreja de São Pedro de Lovaina (Bélgica), é a única catedral do mundo que recebeu este título, concedido em 1519 durante a época de Cisneros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Sua história se remonta à época da Hispania Romana pois, segundo a tradição, o templo foi construído no local onde foram sepultados os meninos Justo e Pastor, decapitados durante a perseguição religiosa a que os cristãos foram submetidos no período de Diocleciano. Abaixo, vemos a reprodução dos mártires numa pintura mural que se encontra na Igreja de San Justo y Pastor de Segóvia, provavelmente a representação mais antiga que se conhece destes santos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA arqueologia comprova a antiguidade deste local sagrado, pois achados pertencentes ao período romano tardio, contemporâneos ao martírio, foram encontrados no interior da catedral. Uma pequena capela foi construída no ano 414 para acolher os restos dos santos. Durante o período visigodo, este templo inicial foi ampliado, recebendo o título de catedral. Depois que Alcalá de Henares foi reconquistada no século XII, na época sob domínio árabe, se ergueu uma nova igreja a partir de 1122.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra reforma importante foi realizada durante o governo do Arcebispo de Toledo Alfonso Carrillo de Acuna a partir de 1479. Dois anos antes, a igreja recebeu o título de Colegiata, através de uma bula papal. Quando o Cardeal Cisneros tornou-se Arcebispo de Toledo, a colegiata encontrava-se num péssimo estado, e ordenou reconstruí-la, processo que durou de 1497 a 1516. Ambos personagens se encontram sepultados na catedral.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO projeto do novo templo foi realizado inicialmente por Anton Egas e depois por seu irmão Enrique Egas, sob a supervisão do mestres de obras reais do Cardeal Cisneros, Pedro Gumiel. De estilo gótico flamígero, seu exterior se apresenta simples e austero, como podemos ver nas fotos acima. No entanto, na porta principal se combinam os estilos gótico, renascentista e mudéjar. No relevo central desgastado, se representa a imposição da vestimenta religiosa a San Ildefonso, e a ambos os lados, o escudo de armas do Cardeal Cisneros. Observamos também a presença do cordão franciscano, já que Cisneros pertencia à Ordem Franciscana, e os nós representam os votos de obediência, castidade e pobreza, próprios desta ordem religiosa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA imponente torre, de estilo renascentista, foi erguida segundo o projeto de Rodrigo Gil de Hontañón a partir de 1528, e somente foi concluída nas primeiras décadas do século XVII. O corpo dos sinos da torre se converteu num importante ninho de cegonhas brancas, algo habitual em todas as torres da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos imagens do interior da catedral…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO órgão acima substituiu os anteriores medievais, e atualmente se realizam concertos de música sacra no interior da catedral. A seguir vemos as belas rejas (portões que separam altar maior, coro e capelas nas catedrais espanholas) que se conservam, como a que fechava o coro, lamentavelmente desaparecido.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA reja de abaixo situa-se atrás do altar maior, e guarda restos do antigo coro, originalmente situado no centro da nave maior. Um bonito vitral com a representação da Ascensão da Virgem Maria completa o espaço.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post veremos a segunda parte da matéria sobre a Catedral de Alcalá de Henares

 

Granja de San Ildefonso

O Real Sítio de San Ildefonso, também conhecido como a Granja de San Ildefonso ou, simplesmente, a Granja, é um município localizado a 11km da cidade de Segóvia, na Comunidade de Castilla-León, situado na vertente norte da serra de Guadarrama.
Sua história está intimamente relacionada com o Palácio Real, que se pode visitar atualmente. Antes da existência deste palácio, houve outro, localizado na cidade próxima de Valsaín, e fundado pelo rei Enrique IV de Castilla, como uma área de caça.
Esta construção formou parte também das residências de Felipe II. Hoje em dia, contemplamos apenas suas ruínas, do que foi o primeiro dos chamados “Reais Sítios”.
Sofreu vários incêndios, dos quais o mais devastador ocorreu em 1697, que o destruiu quase que totalmente. Finalmente, foi abandonado para a construção de outro em suas imediações, mais ao gosto da nova dinastia dos Bourbons, que acabava de assumir o trono espanhol com o rei Felipe V.

Imagem

Seu nome se origina de uma antigo monastério dedicado a San Ildefonso, cujos monjes da ordem dos Jeronimos possuíam uma hospedaria, pomares e uma granja para sustento próprio. A ermita do monastério permanece ainda hoje dentro da área do palácio.

Imagem

Imagem

Através das ampliações que foram sendo realizadas, Felipe V conseguiu transformar o recinto num “Pequeno Versailles”, de estilo barroco, adornado com belos jardins e esculturas monumentais.
Imagem

Durante dois séculos, a Granja seria a residência de verão dos monarcas espanholes.
O conjunto é formado, além do palácio, por uma série de edifícios anexos, como por ex., a Real Colegiata de la Santísima Trinidad, antiga capela rel e local de sepultura do rei Felipe V e de sua segunda esposa Isabel de Farnesio.
Imagem

Imagem

Com uma extensa área verde, os jardins rodeiam o palácio, e são um dos melhores exemplos da jardinaria européia do séc. XVIII.

Imagem

Desenhado pelo francês René Carlier, que sabiamente utilizou o relevo da região como um suporte de perspectiva visual, e como uma alternativa fácil para o abastecimento de água, através das 26 fontes que embelezam o parque.

Imagem

Imagem

As esculturas estão inspiradas na mitologia clássica, e foram feitas de chumbo, para evitar a corrosão e pintadas simulando o bronze, como efeito estético.
Os trabalhos de canalização originais continuam funcionando normalmente e durante as festividades de San Fernando (30 de maio), Santiago (25 de Julho) e San Luís (25 de Agosto), podemos admirar todas as fontes em pleno funcionamento, num espetáculo imperdível.
Imagem

Imagem

Alguns fatos históricos de máxima importância se sucederam aqui, como a assinatura do Tratado de San Ildefonso, que estabeleceu as fronteiras sul-americanas entre Portugal e Espanha.
Imagem

Outro fator que ajudou no crescimento da cidade foi a criação da Real Fábrica de Vidros em 1727, com o objetivo de diminuir as importações de peças de cristais de luxo, tão requisitadas para a decoração das dependências reais e da nobreza castelhana.