Pontes de Valencia

Valencia é atravessada pelo Rio Turia, que desemboca na cidade depois de um percurso de 280 km desde a Província de Teruel (Comunidade de Aragón), onde nasce. Tornou-se famoso graças às inúmeras enchentes que causou na cidade, alguma delas de grande repercussão por seus efeitos devastadores. Somente para citar algumas delas, a de 1519 foi terrível. Muitas das pontes que cruzavam seu leito foram destruídas ao longo dos séculos. Em meu passeio pela cidade, dei uma volta ao redor de suas pontes históricas e outras mais recentes, e percebi de imediato que o Rio Turia não se encontrava onde deveria estar, ou seja, por debaixo das mesmas. Intrigado, procurei alguma informação que esclarecesse o enigma, e finalmente me contaram que o rio foi desviado de seu curso normal, devido à trágica enchente ocorrida em 1957, que inundou a cidade , provocando a morte de mais de 100 pessoas. O projeto possibilitou a criação de um extenso parque urbano, denominado Jardim de Turia. De qualquer forma, as pontes foram conservadas para o tráfico de veículos e de pedestres. Atualmente, Valencia conta com 18 pontes, além de passarelas. Neste post e no próximo, veremos muitas delas. A mais antiga de todas é a Ponte de la Trinidad (Trindade, em português), cujo nome se deve à proximidade com o monastério de mesmo nome.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA ponte foi construída entre 1401 e 1407, substituindo uma anterior de madeira. Depois da enchente de 1517, foi reedificada. Está adornada com duas estátuas de santos espanhóis, realizadas pelo escultor italiano Jacobo Antonio Ponzanelli. Na foto acima, vemos no lado direito e também na foto abaixo, a San Luis Beltrán, pertencente à Ordem dos Dominicanos. Este santo nasceu em Valencia em 1526, e goza de uma grande devoção, sendo canonizado em 1691.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADo outro lado, aparece a estátua de Santo Tomás de Villanueva (1486/1555), que foi Arcebispo de Valencia. Canonizado em 1658, ficou famoso por sua austeridade e pelo exercício contínuo da caridade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAmbas estátuas foram realizadas no final do século XVII. A Ponte de la Trinidad possui 158m de comprimento, e está formada por 10 arcos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAConserva uma das escadas originais do século XV. Uma placa ao lado alerta os cidadãos de sua grande inclinação e dos degraus desgastados, recomendando o uso da barra instalada nas laterais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADo século XVI, se conservam três pontes. A Ponte de los Serranos foi construída entre 1518 e 1550, a segunda mais antiga existente. Seu nome se explica porque faz parte do caminho à Torre de los Serranos, que vimos recentemente, uma das portas monumentais preservadas da antiga muralha da cidade. Composta por 9 arcos, desde 2012 seu uso é exclusivo para pedestres.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAPossui uma estátua em homenagem às festas mais populares de Valencia, as Fallas, que vemos acima no lado esquerdo. A Ponte Real, também chamada de los Viveros, foi construída entre 1595 e 1598.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua construção coincidiu com o casamento celebrado na cidade do Rei Felipe III Mariana de Áustria. Também substituiu uma anterior ponte de madeira, e permitia o acesso ao Jardim de Viveros, onde antigamente se situava o Palácio Real, destruído durante a invasão de Napoleão.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEstá adornada pelas estátuas de San Vicente Ferrer e San Vicente Mártir. As estátuas originais foram realizadas em 1602 por Vicent Leonart Esteve, mas foram destruídas na Guerra Civil Espanhola de 1936, sendo substituídas pelas atuais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA última ponte pertencente ao século XVI é conhecida como Ponte del Mar, por fazer parte do caminho natural ao porto da cidade. Edificada entre 1592 e 1596, possui 10 arcos e desde 1935 é utilizada somente pelos pedestres.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAComo elemento decorativo, vemos a imagem da Virgem dos Desamparados, padroeira da cidade, e de San Pascual Bailón.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASan Pascual Bailón foi um frade franciscano, canonizado em 1690, e declarado padroeiro das obras, associações e congressos eucarísticos, além de ser também padroeiro das cozinheiras.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizamos com uma vista geral da Ponte del Mar

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Calle Mayor – Alcalá de Henares

Na matéria de hoje veremos uma das vias públicas mais importantes de Alcalá de Henares, a Cale Mayor. Em muitas cidades da Espanha, a Calle Mayor constituiu ao longo dos séculos sua via principal, e na cidade de Alcalá de Henares não foi uma exceção.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma de suas características mais destacadas é que a Calle Mayor de Alcalá de Henares está formada em sua grande parte por uma enorme extensão de soportales, como se denominam no país as residências sustentadas por colunas, criando um espaço público em seu nível inferior onde se desenvolvem uma intensa atividade comercial. Aliás, esta função comercial sempre representou um dos aspectos diferenciadores da rua, e na Idade Média a Calle Mayor transformou-se no eixo principal do bairro judeu, também chamado de Juderia. Abaixo, vemos o local onde antigamente se encontrava a Sinagoga Mayor da cidade, atualmente ocupada por um conjunto de prédios.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAs colunas de pedra que atualmente vemos por toda a rua antigamente eram de madeira, conhecidas como Pé Direito. No final do século XIV o arcebispo de Toledo Pedro Tenório ordenou a troca de materiais, pois os de madeira eram excelentes propagadores do fogo. Abaixo, vemos um detalhe dos encanamentos que descem pelas casas e desaguam na rua.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAIlustres personagens da história da cidade residiram na Calle Mayor, caso de Tomás de Villanueva, um dos primeiros estudantes do Colégio Mayor de San Ildefonso em ser canonizado santo, além de ocupar o cargo de Arcebispo de Valencia. Abaixo, vemos a casa onde morou durante sua estadia na cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das principais atrações turísticas da cidade, a Casa Museu de Cervantes, se encontra na Calle Mayor, e a conheceremos no próximo post. Outro local de grande importância histórica é o Hospital de Nossa Senhora de Misericórdia, uma instituição de caráter benéfico fundada em 1483.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste hospital foi fundado por um nobre da cidade e sua esposa, Luis de Antezana e Isabel de Guzmán, no palácio que lhes serviu de residência no século XV. Este dado converte esta instituição no hospital mais antigo da Europa em funcionamento ininterrupto, pois continua exercendo a função para o qual foi criado. A seguir vemos o pátio interior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO papel de hospital na idade média diferia do conceito atual, funcionando mais como um local de acolhida de pobres, órfãos e pessoas idosas. Parece que o pai de Miguel de Cervantes, Rodrigo de Cervantes, trabalhou na instituição como cirurgião, ou seja, aquele profissional que realizava sangrias. Outra personalidade histórica de renome que trabalhou no hospital foi San Ignácio de Loyola, fundador da Ordem dos Jesuítas. Durante sua estadia na cidade, época em que foi estudante de teologia na universidade, o jovem Ignácio não tinha dinheiro para pagar uma residência, e trabalhou na cozinha do hospital, em troca de alojamento. Na imagem abaixo vemos o aspecto atual da cozinha e a cadeira feita pelo próprio santo, no lado direito da foto.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo interior do hospital ainda vemos referências do casal fundador, como o antigo escudo de armas…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAo lado do hospital se construiu uma pequena ermita na qual foram sepultados os fundadores…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Calle Mayor, durante os dias festivos, é toda decorada com elementos medievais, ficando ainda mais bela…

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Universidade de Alcalá de Henares – Parte 2

O Colégio Maior de San Ildefonso se organizou em torno a três pátios, e todos eles podem ser vistos na excelente visita guiada que se realiza pelas dependências da Universidade de Alcalá de Henares. O primeiro é o Pátio Maior, edificado entre 1657 e 1652. De estilo herreriano, foi construído inteiramente em granito, estando composto por 3 níveis de arcos, os dois primeiros semicirculares (Arco de meio ponto), e o terceiro denominado Arcos Carpaneles (simétricos e um pouco mais rebaixado, proporcionando-lhe uma forma arredondada). Este espaço foi dedicado a Santo Tomás de Villanueva, em memória ao primeiro aluno da universidade que alcançou a santidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa parte superior das galerias de arcos, vemos o escudo de armas do Cardeal Cisneros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Pátio dos Filósofos ou dos Contínuos representava uma espécie de distribuidor central dos edifícios universitários, abrigando várias oficinas de serviços e da reitoria, além  de residência para os estudantes.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm seu perímetro foi construído dois espaços para as cátedras de Filosofia Moral e Natural, daí o seu nome. Restaurado na segunda metade do século XX, nele encontramos a chamada Porta dos Burros, por onde entravam ou saiam os alunos reprovados nos exames da universidade, entre as cruéis piadas de seus companheiros…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADo Pátio dos Filósofos existe um acesso ao último e mais antigo de todos, o denominado Pátio Trilíngue. Construído entre 1557 e 1570 no estilo renascentista, se conserva praticamente igual.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATambém é conhecido como Pátio do Teatro ou do Paraninfo, graças à antiga porta que permitia a entrada principal ao teatro da universidade, que veremos no próximo post.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANele esteve situado o Colégio Menor de San Jerónimo, fundado por uma disposição testamentária do Cardeal Cisneros em 1528, oferecendo cursos de retórica, grego e hebraico para uma comunidade formada por 30 jovens pobres.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADentro do recinto do Colégio Maior de San Ildefonso podemos observar outro símbolo associado ao Cardeal Cisneros, poços com a representação de cisnes, uma referência ao sobrenome do fundador da universidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante os séculos XVI e XVII, a Universidade Cisneriana se transformou num grande centro de excelência acadêmica. O prestígio de seus cursos, além da fama de seus mestres, logo se tornaram um modelo sobre a qual se constituíram as universidades na América Espanhola. Além do mais, representou o principal foco do Humanismo em toda a Espanha. Em suas classes se formaram missionários e santos como São Ignácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus (ou dos Jesuítas), San Juan de la Cruz, poeta místico e reformador da Ordem dos Carmelitas, junto com Santa Teresa de Ávila, etc. Entre os grandes nomes da literatura, destacam Lope de Vega, Quevedo, somente para citar alguns. Um dos pilares sobre o qual se desenvolveu foi a invenção da imprensa em 1450, fato que possibilitou a publicação da denominada Bíblia Poliglota Complutense. Financiada pelo próprio Cardeal Cisneros, trata-se da primeira edição poliglota de uma bíblia completa da história.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPara sua realização, Cisneros contratou os melhores teólogos da época, que iniciaram os trabalhos em 1502, sendo finalizada 15 anos mais tarde. Contava com as melhores traduções da bíblia em grego, hebraico e latim, incluídas algumas partes em aramaico. Publicada em 6 volumes, os quatro primeiros estão relacionados ao Antigo Testamento. Cada página está dividida em 3 colunas paralelas, com a Bíblia Hebraica no exterior, a Bíblia Grega no interior, e a Vulgata Latina no meio. O quinto volume apresenta as escrituras gregas do Novo Testamento, dispostas em duas colunas, uma em grego e a outra em latim, além de um dicionário destes dois idiomas. Se considera a primeira publicação do Novo Testamento impresso da história. O sexto volume inclui elementos para o estudo da bíblia, como um dicionário dos idiomas hebraico e aramaico, além de uma gramática hebraica. A Bíblia Poliglota Complutense é considerada um dos testemunhos mais relevantes do Humanismo Cristão do Renascimento. Se publicaram cerca de 600 cópias, das quais se conhece atualmente 123.