Casas de Segóvia

Passear pela cidade de Segóvia nos permite conhecer sua dilatada história em seu rico patrimônio artístico e cultural. Além de seus inúmeros monumentos, apresenta também um rico mosaico de estilos, que podemos apreciar em suas casas. Em várias delas, se conservaram elementos de épocas passadas, em outras suas formas e localizaçao curiosa deleitam as vistas daqueles (as) que as contemplam. No entorno do chamado Bairro de Canonjías (ou da Claustra), se localizava a antiga Catedral Românica destruída no séc. XVI, e nele viviam os canônigos ou religiosos pertencentes ao clero local. O bairro era uma pequena cidade e permanecia isolado durante a noite, quando as três portas de acesso eram fechadas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO bairro possuía normas próprias, e quando foi construída a nova Catedral Gótica de Segóvia, muitos religiosos mudaram de lugar, e o bairro perdeu sua outrora funçao. As casas possuíam dois andares, sendo que a superior era considerada a planta nobre. Muitas delas conservam suas portadas românicas, algo raro em outras cidades. Por isso, sao consideradas um dos melhores exemplos de arquitetura civil do estilo no país. Todas as casas contavam com água procedente dos canais do aqueduto, que eram armazenadas em cisternas.

DSC09491A vida girava em torno do pátio interior, e muitos deles podemos ver, já que a maioria das casas com pátio mantêm a porta aberta para que possamos admirá-lo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO pátio acima pertencia a uma casa nobre e atualmente é a sede do Colégio Oficial de Arquitetos de Segóvia. Abaixo, vemos a fachada do imóvel.

OLYMPUS DIGITAL CAMERARecentemente, conhecemos a história da Juderia Segoviana, e as belas casas medievais que conservam sao outras de suas atraçoes.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA juderia nao se diferenciava dos demais bairros em sua disposiçao urbanística, nem nas formas construtivas de seus edifícios. As ruas sinuosas e estreitas sao uma característica comum das cidades medievais. As casas, igualmente estreitas, entre 4 a 7 metros de largura, compensavam esta limitaçao ganhando altura, e a maioria delas possuem 3 andares.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAGeralmente tinham entre 30 e 40 m quadrados, estando construídas com alvenaria e tijolo, além de estruturas de sustentaçao de madeira. Em sua parte traseira, situava-se o pátio comunitário.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs casas eram simples, mas sólidas. Abaixo, vemos outros exemplos de casas encontradas na Juderia de Segóvia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAlgumas casas da cidade foram construídas encima da muralha, compondo um cenário peculiar.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA famosa Casa de los Picos chama a atençao por  sua fachada decorada com elementos de caráter claramente defensivos, como vemos a seguir.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta singular decoraçao consiste na utilizaçao de materiais conhecidos como Pontas de diamantes, e a explicaçao mais aceita para este elemento decorativo é que a casa foi levantada junto a Porta de San Martín, um dos acessos da antiga muralha,  infelizmente desaparecida. Atualmente, a Casa de los Picos sedia uma escola de arte.

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A Juderia de Segóvia – Parte 2

Nao se conhece nenhum censo medieval que quantificasse a populaçao de judeus na cidade de Segóvia. A Juderia Segoviana pagava seus impostos de maneira coletiva, dificultando o conhecimento de quantas pessoas a habitava. No entanto, se sabe que a finais do séc. XV contava com aproximadamente centenas de famílias, um número importante para a época.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAo longo da Idade Média, os judeus de Segóvia atuavam em três grandes âmbitos profissionais: aqueles dedicados às finanças (arrecadaçao de impostos, fiadores e emprestadores), os comerciantes e os que trabalhavam com o artesanato (mais numerosos). Além do mais, eram muito respeitados os judeus de profissao liberal, principalmente os médicos. A grande maioria deles tem uma historia desconhecida, e nem sequer sabemos seus nomes. Apenas os mais importantes tiveram seus nomes citados em documentos, como é o caso de Abrahan Seneor, o personagem mais destacado da Juderia de Segóvia. Seu ascenso social produziu-se na época dos Reis Católicos, agradecidos pelo apoio prestado por ele na consolidaçao da rainha Isabel I ao trono. A partir deste momento, sua carreira pública se dividiu entre os serviços prestados aos reis, a quem serviu com honestidade e eficiência, e a atividade política e jurídica desempenhada junto à comunidade judaica castelhana.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1488, foi nomeado Tesoureiro Maior, o cargo fiscal mais importante do reino, e Juiz Maior das Juderias, cargo que ocupou até a expulsao dos judeus em 1492. Depois de sua  inesperada conversao, recebeu outros diversos cargos de importância. Abrahan Seneor possuía uma das casas mais luxuosas do bairro, e atualmente sedia o Centro Didático da Juderia de Segóvia, um centro cultural que mostra de forma permanente o legado da cultura judaica na cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAo entrar no centro, podemos admirar o belo pátio interior, típico das classes nobres da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPodemos conhecer diversos objetos relacionados à comunidade judaica, como este exemplar de uma Bíblia Portuguesa do séc. XIII, na realidade um fragmento do Livro do Êxodo, que narra a fuga dos hebreus do Egito, e normalmente lidos nas cerimônias religiosas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOu entao este traje típico de um noivo sefardí, como sao conhecidos os judeus que viveram na Espanha naquela época.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Centro Didático da Judería é uma excelente opçao para todos aqueles que desejem aprofundar-se no conhecimento da história dos judeus , em particular da cidade de Segóvia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs Sinagogas, além de uma referência como local de oraçao e de formaçao doutrinal, eram consideradas também um centro da vida social e local de reunioes. Durante a presença judaica na cidade, existiram 5 sinagogas, que nao coincidiram como tal ao longo dos séculos de existência do bairro judeu. A denominada Sinagoga Maior era a mais importante, e sua data de construçao é desconhecida. Sua primeira mençao data de 1373, e no começo do séc. XV foi expropriada e consagrada como a Igreja do Corpus Christi.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos uma foto do interior da antiga sinagoga.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa sequência, uma imagem da fachada sul da sinagoga, situada junto à muralha da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA denominada Segunda Juderia de Segóvia, instituída pelos Reis Católicos, era quatro vezes maior que a primeira, e seu recinto era acessível por 8 portas situadas estratégicamente. A Porta de San Andrés era a principal. Além dela, existiam os chamados Postigos, portas menores que facilitavam o trânsito de pessoas, como o Postigo do Sol, também conhecido como da Juderia. Abaixo, vemos ambas portas de acesso ao bairro judeu, que se conservam atualmente.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos principais pontos de encontro era a praça que se abria no interior da Porta de San Andrés, hoje em dia conhecida como Praça do Socorro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA juderia possuia todas as dependências de uso comunitário para satisfazer suas necessidades básicas, como hospitais, escolas, etc. Abaixo, vemos no lado esquerdo da foto a antiga carniceria (açougue), documentada já em 1287,  e situada próxima à muralha para facilitar a evacuaçao dos restos dos animais para fora das mesmas. No séc. XV, transformou-se no matadouro da cidade, funçao que exerceu até princípios do séc. XX. Atualmente abriga o Museu de Segóvia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPassear pela Juderia de Segóvia nos permite conhecer a própria história do povo judeu, e apreciar belos recantos, disfrutando de sua cultura e também de sua gastronomia nos diversos restaurantes que oferecem deliciosos pratos típicos.

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A Juderia de Segóvia

Na época medieval, Segóvia foi habitada por uma comunidade judaica que cumpriu um importante papel histórico no desenvolvimento da cidade. No entanto, o legado material que se conserva de sua presença é somente uma sombra daquilo que um segoviano podia contemplar em pleno séc. XV. Segóvia foi repovoada por Raimundo de Borgonha, genro do rei Alfonso VI, no séc. XI e desta época sao escassos os documentos relacionados aos judeus que viviam na cidade. A primeira notícia da existência de uma comunidade hebrea data de 1215, apesar de que foi somente em 1287 quando aparece documentado o nome do primeiro judeu, Salomón de Ávila. Já no séc. XIV, existe constância de uma próspera comunidade formada entre 50 e 100 famílias firmemente assentadas em Segóvia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADa mesma forma que em outras comunidades judaicas existentes no Reino, a Aljama (ou Juderia, o bairro onde viviam os judeus) de Segóvia encontrava-se sob a proteçao direta da monarquia castelhana. Mediante o pagamento de impostos, os judeus reconheciam a soberania e a vassalagem ao monarca, os quais, por sua vez, protegiam a comunidade através de oficiais encarregados de administrar a justiça. A história menciona também a estreita relaçao que mantiveram os judeus com a Catedral de Segóvia, pois a igreja e os bispos eram proprietários de muitos imóveis que eram alugados pelos judeus. Inclusive, muitos deles participaram nas reformas realizadas no templo catedralicio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma crise na Baixa Idade Média (1391/1419) acarretou uma grave mudança no convívio entre judeus e cristaos, devido a uma onda de ataques aos bairros judaicos de várias cidades do país (Toledo, Córdoba, Cuenca, etc). Até entao, os judeus viviam espalhados pelo perímetro urbano de Segóvia, mas em 1412 se promulgaram leis restritivas à comunidade judaica castelhana, proibindo o desempenho de certas atividades profissionais e establecendo uma segregaçao social, obrigando-os a viverem em bairros separados (cabe ressaltar que o mesmo sucedeu com os mouros). Assim, nasceu a Primeira Juderia de Segóvia. Sua situaçao piorou ainda mais quando vários judeus foram acusados de profanar a hóstia sagrada, bem como através dos discursos do frade dominicano Vicente Ferrer, que exigia a conversao ao catolicismo de todos os judeus habitantes do reino. Abaixo, vemos a Ermita  del Santo Cristo de la Cruz, construída no local de pregaçao do mencionado religioso.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADessa forma, surgiu um novo grupo social, forrmado pelos judeus conversos, também denominados cristaos novos. Apesar deste panorama sombrio, a Aljama de Segóvia situava-se entre as mais prósperas naquele momento. Na primeira metade do séc. XV, durante o reinado de Enrique IV, a populaçao judaica se recupera, pois o monarca estabele sua residência no Alcázar da cidade, aceitando servidores judeus e conversos no seu entorno particular. Entao, alguns judeus passaram a conviver com cristaos fora da juderia, em outras zonas da cidade. Em 1474, a filha de Enrique IV, Isabel I foi proclamada Rainha de Castilla y León em Segóvia, e um judeu chamado Abrahan Seneor desempenhou um papel destacado no acesso da rainha ao trono.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois de casar-se com Fernando de Aragao, o casal real passou a ser reconhecido como os Reis Católicos, que adotaram um programa de governo com drásticas consequências para os judeus. Novamente, a comunidade foi isolada num bairro próprio, a denominada Segunda Juderia de Segóvia (1481). Muitos conversos seguiam praticando abertamente suas antigas crenças, e para combater esta prática os Reis Católicos obtiveram uma autorizaçao do papa Sixto IV para o estabelecimento do Tribunal da Inquisiçao na Espanha, três anos antes de serem isolados na segunda juderia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA A presença do Tribunal da Inquisiçao provocou uma verdadeira convulsao social na cidade, contribuindo para o aparecimento de tensoes entre as diferentes comunidades. Ao mesmo tempo, os monarcas mantiveram com firmeza os interesses da comunidade judaica. A oposiçao religiosa e social contra eles teve seu centro no Monastério Dominicano de Santa Cruz, cujo prior, o frade Tomás de Torquemada, foi nomeado em 1483 Inquisidor Geral pelos Reis Católicos. Paralelamente, dentro da própria juderia, surgiram conflitos ocasionados pela divergência de interesses dos próprios dirigentes da comunidade e seus demais integrantes.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 31 de Março de 1492, os monarcas católicos promulgaram, de forma inesperada, uma lei que concedia aos judeus um prazo de 4 meses para que se convertessem ao catolicismo, ou entao abandonar o reino. A conversao mais significativa foi a do financeiro Abrahan Seneor, acima mencionado, que foi batizado no mesmo ano com o nome de Fernán Pérez Coronel no Monastério de Guadalupe, numa cerimônia presenciada pelos próprios Reis Católicos, que foram seus padrinhos. Aqueles que nao quiseram renunciar à sua fé, tiveram que vender seus bens, casas e prepararam-se para sua imediata saída de Segóvia. A antiga juderia se converteu, entao, no chamado bairro novo, agora habitado por cristaos. Um censo realizado em 1510 contabilizou a existência de 788 conversos na cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos uma imagem geral da Juderia de Segóvia, situada no lado direito da Catedral, que vemos no centro da foto.

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A Muralha de Segóvia – Parte 2

A Muralha de Segóvia foi construída mediante técnicas tradicionais, principalmente com alvenaria, e aproveitando-se a cal e a areia como argamassa. Para preencher os espaços entre as pedras, foram usados barro e restos de cerâmica. Os tipos principais de pedras utilizadas foram a calcárea e o granito, além do tijolo como material decorativo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA muralha possui um adarve, isto é, uma zona que pode ser percorrida sobre ela, cuja funçao era facilitar a ronda dos sentinelas e uma distribuiçao defensiva correta de seus membros. Atualmente, constituem excelentes mirantes da cidade, como o existente no chamado Jardim de los Poetas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra característica presente em sua estrutura sao as almenas, como sao denominados os remates superiores de uma construçao defensiva. A sucessao de almenas formam pequenos vaos chamados de cañoneras, onnde os canhoes eram introduzidos em caso de ataque.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADas 5 grandes portas que originalmente existiam, se conservam 3 delas. Além de permitir o trânsito dos habitantes, possuiam também  finalidades jurídica, policial e fiscal, neste caso para a entrada de mercadorias. A Porta de San Andrés é uma das mais importantes, estando franqueada por duas torres, uma quadrada ( feita de pedra calcárea e rematada com tijolos e arcos de meio ponto) e outra poligonal, mais robusta e construída com granito.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa torre de granito, podemos observar as chamadas Saetera, uma fina abertura usada para o lançamento de flechas (saetas), que constituiam uma excelente proteçao para o atirador.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta porta possui um claro aspecto militar-defensivo, de proporçoes monumentais. Mencionada já no ano de 1120, sofreu reformas importantes no séc. XV. Foi restaurada no final de séc. XX e em 2010. Dela, podemos realizar um percursso tanto pela parte externa (vista no post anterior), quanto por seu lado interno, que chega até o Alcázar de Segóvia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa parte intramuros da Porta de San Andrés, vemos a Plaza del Socorro, presidida pela imagem da Virgem de mesmo nome. Esta porta permite acesso ao bairro da comunidade judaica de Segóvia, cuja história conheceremos em breve.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra porta destacável é a de Santiago, cujo nome foi tomado de uma paroquia dedicada ao santo situada próxima a ela, e derrubada em 1836. Em sua origem, integrava uma das torres da muralha. No séc. XVII, transformou-se numa torre almenada de caráter defensivo, e posteriormente foi reformada dando-lhe um aspecto mais ornamental. Em 1887, foi adaptada como refúgio para pobres, funçao exercida até 1929.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1945, foi reformada para acolher a residência do pintor Santos Sanz. Em 2011 foi novamente restaurada e atualmente alberga uma coleçao visitável de fantoches. Ao corpo principal da Porta de Santiago se acede através de um arco de tijolo em forma de ferradura construído no séc. XIII. Já no interior da porta, dois arcos de meio ponto completam sua estrutura geral.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlém das portas principais, a Muralha de Segóvia está composta pelos Postigos, uma abertura de menor porte que se utilizavam somente para o trânsito de pessoas. Abaixo, vemos o Postigo del Consuelo, localizada no ponto em que a muralha se encontra com a parte elevada do aqueduto, que se introduz na cidade amuralhada.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalmente, vemos os Postigos del Sol e de La Luna (Lua), que comunicavam a antiga juderia com a parte extramuros da cidade de Segóvia.

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A Muralha de Segóvia

Segóvia (Comunidade de Castilla y León) está situada na confluência entre os rios Clamores e Eresma, e sua privilegiada localizaçao a converteu numa cidade de fácil defesa contra ataques externos. Esta característica fundamental repercutiu positivamente ao longo de sua dilatada história, pois Segóvia jamais foi conquistada. Além disso, o sistema de muralhas fortaleceu o poderoso conjunto defensivo, proporcionado por sua excepcional geografia. A muralha atua como um limite e elo de conexao entre a parte da cidade situada fora de seus limites (extramuros) e aquela situada no seu interior (intramuros).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Muralha de Segóvia se mantém conservada em quase todo o seu traçado, da mesma forma que as famosas Muralhas de Ávila e Lugo. É difícil precisar com exatidao o momento de sua construçao. Possui elementos de origem romano, principalmente pedras de granito que foram reutilizadas. Supoe-se que foi iniciada durante o período da reconquista crista, depois que a cidade foi repovoada apartir de 1088 por Raimundo de Borgoña.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo séc. XVI, as denominadas Guerras das Comunidades do Reino de Castilla (movimento popular de protesto contra o rei Carlos I, por ser estrangeiro e pelo temor da instalaçao de leis opressoras e impostos elevados) causou profundos danos em Segóvia, como a destruiçao de sua antiga Catedral Românica. O recinto de muralhas também foi afetado, sofrendo graves prejuízos. A partir de entao, a muralha perde seu valor defensivo, e muitas casas foram construídas adossadas aos seus muros e mesmo sobre ela.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA partir do séc. XVII, as pestes e a decadência da indústria textil, base de seu desenvolvimento econômico, provocaram a deterioraçao do centro urbano de Segóvia e, como consequência, da própria muralha. No séc. XIX, transformou-se numa cidade pobre e arruinada. As muralhas, que durante séculos foram consideradas um símbolo de seu progresso, riqueza e segurança, agora eram vistas como um estorvo para seu crescimento. Surge, de uma forma generalizada em toda a Espanha, um movimento popular que percorreu todo o país, aos gritos de “Abaixo as Muralhas”, cujo propósito era a adoçao de medidas higiênicas nos grandes centros urbanos, algo que as muralhas nao favoreciam.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlgumas das antigas portas de acesso da muralha foram derrubadas, como as de San Martín e a de San Juan. Com o advento no séc. XX de uma nova mentalidade conservacionista, a Muralha de Segóvia escapou da destruiçao e os trabalhos de recuperaçao continuam até os dias de hoje. Em 1985, a Unesco declarou o recinto amuralhado de Segóvia e seu impressionante aqueduto como Patrimônio da Humanidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAExiste uma rota externa que possibilita percorrer boa parte do perímetro da muralha, como vemos na imagem acima. Sua estrutura adapta-se à rocha sobre a qual se assenta a cidade. Possui um comprimento total de 3406 metros, e sua altura média é de 9,47m. Seus muros atingem 2,5m de espessura. O traçado da muralha está composto por torres, cubos defensivos e construçoes fortificadas, abrindo-se 3 portas principais de acesso ao recinto intramuros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOriginalmente, a muralha estava formada por 86 (ou 92, segundo alguns estudos) cubos e torres, dos quais se conservam 80. Estas estruturas auxiliam na estabilidade e defesa da própria muralha, reforçando as zonas mais débeis sob o ponto de vista construtivo. Sua forma é variada, podendo ser encontradas retangulares, circulares ou poligonais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos uma imagem geral da cidade de Segóvia, com vistas da catedral e do sistema defensivo proporcionado pela muralha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post, continuaremos conhecendo os segredos da Muralha de Segóvia.

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Românico Mudéjar – Cuéllar

A Arte Mudéjar desenvolveu-se entre os séc. XII e XVI nos reinos cristãos da Península Ibérica, sendo um fenômeno exclusivo desta região européia, que combina e reinterpreta os estilos artísticos cristãos (românico, gótico e renascentista) com a arte islâmica.

Os mudéjares representam os povos de religião e cultura muçulmana que sobreviveram nos reinos cristãos após a reconquista das terras que antes estavam sob o poder árabe, e que mediante o pagamento de impostos, conservaram o direito à prática de sua religião e um status jurídico próprio.

Este estilo artístico apresenta características particulares em cada região onde desenvolveu-se e, desta forma, podemos falar de um mudéjar aragonês, toledano ou castelhano-leonês. No entanto, de maneira geral, caracteriza-se pelo emprego do tijolo como matéria construtivo, sendo que os mestres de obras muçulmanos eram exímios na sua utilização. O tijolo também representava um material mais barato, da mesma forma que a mão de obra mudejár, em relação aos mestres cristãos. A construção dos monumentos podiam ser realizados em prazos mais curtos, e estes fatores fizeram com que a arquitetura mudéjar se propagasse durante 3 séculos.

Além do tijolo, utiliza-se também o gesso e o barro vidrado, colaborando no aspecto decorativo, outra das carcterísticas do estilo. Ao contrário das grandes construções cristas, não empregam silhares, senão alvenaria.

Ë normalmente aceitado que a aparição do estilo mudéjar surgiu no séc. XII na cidade de Sahagún, povoado leonês do Caminho de Santiago, e que extendeu-se às demais terras planas que continham escassas canteiras de pedra, como Zamora, Ávila, Valladolid, Segóvia,etc. Durante este século, na denominada bacia do rio Duero (Douro em português) desenvolveu-se o chamado Românico de Ladrillo (tijolo), uma das grandes contribuições espanholas ao românico europeu. Os mestres muçulmanos seguem as tipologias arquitetônicas cristas tanto na planta quanto no alçado dos edifícios, utilizando colunas, arcos cegos exteriores e arquivoltas nas portadas. O tijolo é utilizado como material construtivo e decorativo.

Si comparamos uma construção românica clássica, erguida com pedra, e outra mudéjar, feita de tijolo, encontraremos aspectos comuns em ambas, mas também adaptações obrigadas devido à mudança do material empregado, criando volúmens e estéticas novas, que fornecem ao estilo mudéjar sua personalidade própria.

A planta da grande maioria dos edifícios será a habitual dos templos românicos rurais, com apenas uma nave retangular e a cabeceira, que articula-se no presbitério e no ábside semicircular.

Nos melhores exemplos do mudéjar castelhano-leonês se utiliza, para decorar os muros interiores e exteriores, corpos superpostos de arcos cegos. As originais coberturas de madeira, muitas delas talhadas e decoradas com maestria, representa outra de suas características. Este tipo de cobertura anulava a necessidade do uso de contrafortes, algo comum nas igrejas românicas abovedadas.

As portas mudéjares imitam às do românico de pedra, ainda que normalmente menores, dispondo de várias arquivoltas planas de tijolo, com arcos semicirculares.

As torre pertencentes ao mudéjar castelhano-leonês não possuem uma localização prefixada em relação ao resto da igreja, ainda que seja preferido o costado septentrional. O modelo mais abundante e similar ao românico de pedra, apesar de sua austeridade, consiste num alto corpo de alvenaria, rematado por outro superior, no qual se abrem vãos composto por arcos duplos, de meio ponto ou apuntados. Em quanto à sua estrutura são ocas, com escadas de madeiras adossadas aos muros.

A cidade de Cuéllar situa-se na Província de Segóvia, na Comunidade de Castilla-León. Conserva a planta e o traçado medieval de uma típica vila castelhana e a importância de seu centro histórico foi reconhecida ao ser declarado Conjunto Histórico-Artístico em 1994. Um dos seus maiores atrativos turísticos, o Castelo dos Duques de Albuquerque, foi matéria de um post anterior.

Além disso, Cuéllar possui um dos principais e mais numerosos focos de arquitetura mudéjar da região, produto de uma importante comunidade muçulmana que acolheu até o séc. XV.

A Igreja de San Pedro possui um aspecto de fortaleza, ao estar localizada no final das muralhas que rodeiam a cidade. Sofreu muitas modificações do estilo original, como as janelas góticas da torre e do ábside, e as bôvedas. Foi desamortizada e utilizada como fábrica de farinha. Atualmente, o edifício é de propriedade particular.

A Igreja de San Esteban é considerada Monumento Histórico-Artístico desde 1931, sendo uma das mais importantes obras mudéjares de Cuéllar, com destaque para seu grande ábside. Construída entre os séc. XII e XIII.

Situada junto ao castelo, a Igreja de San Martín acolhe atualmente o Centro de Interpretação da Arte Mudéjar, pioneiro na Espanha. A torre é independente do resto do templo erguido no séc. XII, também declarado Monumento Histórico-Artístico.

A mais bela torre mudéjar da cidade pertence à Igreja de El Salvador, levantada em 1299. Os arcobotantes que saem da cabeceira foram construídos em séculos posteriores para suportar a bôveda barroca.

A Paroquial de San Miguel é um exemplo de templo totalmente reformado. Situada na Praça Maior, pertence ao gótico, embora conserve elementos românicos, mudéjares e renascentistas. No interior, alberga o retábulo barroco da Virgem do Rosário, padroeira da cidade.

A Igreja de Santa Maria de la Cuesta é de princípio do séc. XIII e segundo a tradição, fazia parte de um antigo convento templário. Abaixo, vemos sua torre.

Considerado um dos melhores exemplos de construção românica de caráter civil que se conserva no país, o Palácio de Pedro I foi construído entre os séc. XII e XIV. Nele, Pedro I, filho de Alfonso XI com Maria de Portugal, estabeleceu a corte na cidade em 1351, e foi também o local onde se casou com D.Juana de Castro.

Conventos e Monastérios de Segóvia

Nest último post da série dedicada à Segóvia, mostraremos os principais conventos e monastérios da cidade.

O Monastério de El Parral situa-se fora dos limites da cidade, próximo à Igreja de Vera Cruz. Trata-se de um convento monástico de clausura, pertencente à Ordem dos Jerônimos. Construído pelo rei Enrique IV em 1447, os edifícios que o compõem estão distribuídos em vários claustros, de estilo gótico, mudéjar e plateresco.

O nome do monastério se deve à Virgem do Parral, imagem românica venerada que se encontra no interior.

Em 1654, um incêndio destruiu boa parte das dependências monacais, que depois foi reconstruído pelo Frade Pedro de Huerte. O monastério foi crescendo, até que no séc. XIX entra num período de decadência que culmina em 1837 com a Desamortizaçao de Mendizábal, motivando o abandono do local e na dispersão de muitas obras de arte nele depositadas.

A Desamortizaçao correspondeu a um largo processo histórico, econômico e social iniciado a finais do séc. XVIII e que estendeu-se até princípios do séc. XX. Consistiu em colocar no mercado, mediante uma expropriação forçada, as terras e bens da Igreja Católica. Sua finalidade foi acrescentar riqueza nacional e criar uma nova burguesia e classe média. O estado obtinha ingressos extraordinários com os quais pretendia-se amortizar os títulos da dívida pública. Este mecanismo converteu-se numa arma política com que os liberais modificaram o sistema de propriedades do Antigo Regime, para implantar um novo estado Liberal durante a primeira metade do séc. XIX.

Voltando à história do monastério, a princípios do séc. XX muitas partes do edifício haviam sido destruídas. Porém, em 1914, é declarado Monumento Nacional e se empreende trabalhos de restauração. Em 1941, depois da Guerra Civil, a Ordem dos Jerônimos volta a desenvolver-se.

No interior, destaque para o Retábulo Maior, a obra mais relevante do monastério. Considerado o maior expoente renascentista da província de Segóvia, foi iniciado em 1528. em madeira policromada. Tanto a Igreja quanto o retábulo estão dedicados à Virgem, e nele encontramos os episódios de sua vida.

O púlpito foi construído a finais do séc. XV, e está decorado com uma representação das virtudes cardinais.

Outra obra fundamental é a portada da Antesacristia, realizada também no séc. XV.

Já o Santuário da Virgem de la Fuencisla alberga a imagem da padroeira de Segóvia. Inaugurado em 1613, no dia 25 de setembro celebram-se as festas em sua honra.

O Convento das Carmelitas Descalzas, edificado no séc. XVI  é conhecido porque nele encontramos a sepultura, feita de mármore e bronze, do poeta místico San Juan de la Cruz.

Espero que os posts dedicados à cidade tenham colaborado para divulgar o formidável patrimônio histórico- artístico de Segóvia e para aqueles que tenham o privilégio de vir à Espanha, uma visita a Segóvia não é somente recomendada, senão obrigatória.