Centro de História de Zaragoza

No post de hoje veremos um local que foi transformado em um importante Centro Cultural, depois que perdeu suas funções religiosas originais. O Centro de História de Zaragoza situa-se no antigo Convento de San Agustín, sendo considerado uma das instituições culturais mais ativas da cidade.

20181113_124253O Convento de San Agustín foi fundado no século XIII pela Ordem dos Agostinhos. No princípio do século XVIII foi reformado no estilo barroco em uma de suas fachadas, fato que originou a criação  da Plaza de San Agustín, que vemos abaixo.

20181113_131143Deste período, se conservam a fachada da igreja e parte do convento. Esta instituição religiosa desempenhou um papel fundamental na defesa da cidade durante os chamados Sítios de Zaragoza, quando foi sitiada pelo exército francês de Napoleão Bonaparte, entre 1808 e 1809. Ao estar localizado na primeira linha defensiva da cidade, foi transformado em baluarte. No entanto, os franceses conseguiram abrir uma brecha através da qual penetraram na cidade, ocasionando a devastação do convento. Poucos anos depois, com o processo de desamortização dos bens religiosos, o convento foi finalmente abandonado e transformado em quartel.

20181113_130711Em 1978, o local foi adquirido pela Prefeitura de Zaragoza, que realizou vários projetos de recuperação, que culminaram na criação do Centro de História, aberto ao público em 2003.

20181113_13041420181113_130334Atualmente, o Centro de História de Zaragoza promove uma intensa atividade cultural, com exposições, conferências, debates, apresentações de livros, etc.

20181113_12505020181113_125818O centro acolhe também o Museu do Origami, considerado um dos melhores da Europa.

20181113_125636Quando lá estive, pude ver uma interessante exposição sobre as Festas do Pilar, celebradas anualmente no mês de outubro, em homenagem à Virgem do Pilar, Padroeira da Espanha.

20181113_13063820181113_130120Depois da visita, tomei um café em sua moderna cafeteria…

20181113_124640O Convento foi habilitado como biblioteca, que tive a oportunidade de visitar e fotografar um detalhe arquitetônico…

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Os Gravados de Goya: Desastres da Guerra

Um dos fatos mais marcantes da Espanha no séc.XIX, vivido intensamente por Goya, foi a invasão das tropas de Napoleão, que desencadeou a Guerra da Independência, entre os anos de 1808 e 1814. Neste período, o poder da nação esteve nas mãos de José I, irmão do imperador francês. Muitas cidades foram destruídas e o patrimônio artístico e histórico do país, saqueado. Alguns dos episódios mais relevantes do período foram retratados por Goya em seus quadros, como os famosos ” El Dos de Mayo” e  “El Tres de Mayo“, datas dos célebres acontecimentos ocorridos em Madrid, quando a população se rebelou contra as tropas francesas, e cuja consequência foi o fuzilamento dos cabeças desta revolta popular. Ambas obras podem ser admiradas hoje em dia no Museu do Prado. Goya realizou também uma série de gravados sobre a guerra, composta por 85 lâminas e que foram realizadas entre 1810 e 1814. No entanto, somente foram publicadas em 1863, ou seja, 35 anos depois da morte do pintor.

20150816_112833Nesta série, Goya retrata o horror da guerra e suas fatais consequências. Não enaltece as vitórias, mas as cenas de bandidagem das tropas francesas, o patriotismo das guerrilhas e a crueldade perpetuada pelos dois bandos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta impressionante série foi provavelmente criada depois de sua visita à Zaragoza, cidade que foi bombardeada e sitiada pelo inimigo. Goya recolheu inúmeras testemunhas do massacre, sendo que representam fatos verídicos. Depois de uma brava resistência, Zaragoza caiu em 1809 e sua população esteve à beira do colapso devido a uma epidemia de tifo, provocada pelos incontáveis cadáveres putrefatos que se amontoavam pelas ruas da cidade. Todas as lâminas das 4 séries dos Gravados de Goya estão numeradas e com um título. A de abaixo denomina-se “Al cementério“…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta outra, simplesmente “Por Quê ?”…

20150816_112846Nestas cruéis cenas, observamos a miséria humana como decorrência da guerra.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA vivência das histórias que viu e ouviu deixaram a Goya fortemente sensibilizado, e de forma permanente. O gravado a seguir chama-se “Yo lo vi…”

20150816_112805Em muitos locais do interior do país a população rural, pobre e insuficientemente armada, utilizou as técnicas da guerrilha, que foram combatidas de maneira terrível pelo exército de Napoleão.

20150816_112824Em algumas lâminas, Goya homenageia o heroísmo popular, caso de de Agustina de Aragón, uma mulher de Zaragoza que vendo os artilheiros mortos não hesitou em pegar o canhão e disparar contra o inimigo. Ainda hoje, é considerada um dos símbolos da resistência de Zaragoza contra o invasor. O gravado se chama “Que valor…”

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Zaragoza Moderna e Contemporânea

Capital da província homônima e da Comunidade de Aragón, Zaragoza é a quinta maior cidade espanhola, somente superada por Madrid, Barcelona, Valencia e Sevilha. Com aprox. 700mil hab., concentra mais de 50% do total populacional da comunidade. Situa-se no vale do rio Ebro, numa posição estratégica, a meio caminho entre Madrid e Barcelona. Possui clima mediterâneo continental semidesértico, com verões quentes, invernos rigorosos e escassas chuvas. O denominado “cierzo”, vento que sopra no inverno, faz com que a sensação térmica seja ainda mais baixa.

Da Caesar Augusta romana à muçulmana Saraqusta, Zaragoza foi sempre um núcleo importante de comunicações.

De sua época fundacional, dedicamos um post à Zaragoza romana. Com a queda do império, foi ocupada pelos visigodos no séc. V, cujo auge se deu no séc. VII, com a figura do bispo Bráulio como protagonista.

Em 704 foi dominada pelos árabes e converteu-se num importante centro cultural e econômico. Com a decomposição do Califato de Córdoba, Zaragoza transformou-se num Reino de Taifa em 1018. O período de máximo esplendor ocorreu no séc. XI.

A reconquista crista sucedeu em 1118, através de Alfonso I “El Batallador”, e tornou-se capital do Reino de Aragón. Abaixo, vemos a estátua de Alfonso I, situada no Parque Grande.

Durante o reinado de Fernando “El Católico”, funda-se a universidade e a Lonja dos Mercadeiros. A expulsão dos judeus em 1492 e dos mouros em 1609 provocam uma certa paralizaçao no seu crescimento.

No séc. XIX, Zaragoza converteu-se num símbolo de resistência contra as tropas de Napoleão, na chamada Guerra de Independência. Encerrada dentro de seus muros, a população da cidade resistiu heroicamente ao assédio dos franceses, um inimigo cujo exército era considerado o melhor do mundo na época. Além do numerosa quantidade de mortos na batalha, uma epidemia de tifo assolou a cidade durante a contenda. O episódio ficou conhecido como os “Sítios de Zaragoza”, e muitos monumentos recordam os heróis e heroínas defensores da cidade.

O Monumento aos Sítios de Zaragoza, localizada na praça homônima, foi realizado por Agustín Querol, em comemoração ao seu centenário, sendo inaugurado em 1908 pelo rei Alfonso XIII e coincidindo com a Exposição Internacional Hispano-Francesa. (fotos acima).

A escultura mostra cenas do episódio, bem como vários de seus personagens, como a heroína Agustina de Aragón, defendendo a Porta del Portillo e ao Gen.Palafox, comandante do exército da cidade.

Agustina de Aragón é um dos nomes mais recordados dos sítios, por sua valentia e tomada de iniciativa. Quando tudo parecia perdido, e as tropas francesas após a derrubada de parte da muralha que rodeava a Praça do Portillo, praticamente tinham o caminho livre para invadir a cidade, Agustina, com um canhão ao lado, fez retroceder o exército invasor, e seu nome foi glorificado pelos comandantes do exército como modelo de resistência. Uma estátua na Praça do Portillo lhe rende homenagens, e atrás, vemos a Igreja de N.Sra. do Portillo, onde encontra-se sepultada.

A Porta de Carmen, construída em 1789, era uma das 12 vias de acesso ao interior da cidade. Durante os Sítios, serviu de ponto de apoio da resistência. As marcas de disparo são ainda visíveis em sua estrutura.

O mesmo se pode dizer deste palácio, igualmente afetado durante as batalhas.

Atualmente, Zaragoza é uma cidade moderna, que propicia excelente qualidade de vida aos seus habitantes. Com a inauguração, em 2003, das linhas ferroviárias de alta velocidade (AVE), se pode percorrer os 300km que separam tanto Madrid quanto Barcelona, em apenas 1h15min, desde a moderna Estação Delícias.

Em 2008, no ano do bicentenário dos Sítios de Zaragoza e no centenário da exposição hispano-francesa de 1908, a cidade acolheu a Exposição Internacional, dedicada à água e o desenvolvimento sustentável. Muitas obras de infraestrutura foram realizadas, como a reabilitação das margens do rio Ebro, promovendo uma nova opção de lazer, bem como iniciativas ecológicas de transporte urbano, como o sistema de aluguel de bicicletas, excelente medida numa cidade plana como Zaragoza.

Recentemente foi inaugurada a primeira parte do sistema de Tranvias, cujo objetivo é descongestionar o tráfico de veículos no centro da cidade.

Outra iniciativa exemplar é o projeto “Isso nao é um solar”, um programa de intervençao de espaços urbanos sem utilidade, que foram transformados em novas áreas públicas. Iniciada no centro histórico, logo extendeu-se por toda a cidade. O objetivo é tentar solucionar, a um custo baixo, numerosos edifícios urbanos em situaçao de degradaçao, criando parques, áreas esporivas, iniciativas ecológicas e artística, etc.

Veremos, agora, alguns dos principais monumentos modernos e contemporâneos desta acolhedora cidade.

O Palácio Arçobispal, situado ao lado da catedral de San Salvador, é a casa do bispo da cidade e, recentemente, foi inaugurado em uma de suas dependências o Museu Diocesano.

Construída em 1764, a Praça de Touros de La Misericórdia é uma das mais antigas de Espanha.

Como em outras cidades espanholas, em Zaragoza a tradiçao taurina começa desde cedo.

Inaugurado em 1929, o Parque Grande José Antonio Labordeta, anteriormente denominado Primo de Rivera, foi durante muito tempo a área verde por excelência dos zaragozanos. O atual nome homenageia um cantor e político aragonês, recentemente falecido.

O novo espaço cultural da cidade é o Museu Pablo Serrano, dedicado à obra do escultor aragonês, e também local para exposições temporais.

Situada na Praça do Pilar, a Fonte da Hispanidade foi realizada em 1991, durante as obras de reestruturaçao da praça. Seu desenho representa a América Latina.

Como Veneza, o leao é um dos símbolos da cidade, como estes, que sao os guardioes da Ponte de Pedra. O símbolo pode ser visto no emblema do principal clube de futebol da cidade, o Real Zaragoza.

A Jota Aragonesa é uma das manifestaçoes folclóricas mais representativas da comunidade, dentro do gênero musical. Tal como a conhecemos atualmente, data de finais do séc. XVIII e se expressa através da dança, do canto e da interpretaçao instrumental, principalmente com instrumentos de corda.

Passear por suas ruas nos permite apreciar a imensa variedade arquitetônica de seus edifícios.

A principal festa da cidade se celebra no dia 12 de outubro, em honra à Virgem do Pilar. Porém, a animaçao corre solta durante todo o ano, principalmente na zona da cidade denominada “El Tubo”, localizada no centro histórico, e formada por estreitas ruas com uma enorme quantidade de bares. Aliás, os zaragozanos dizem que a cidade detém o recorde na relaçao bares/habitantes. Nao sei até que ponto a afirmaçao é verdadeira, mas a quantidade de bares realmente impressiona…

Espero que vocês tenham gostado desta série de post de Zaragoza. Quando venham a Espanha, nao deixem de visitá-la, vale muito a pena.