Touros: Críticas e Controvérsias

Neste último post sobre esta extensa série sobre o mundo dos touros na Espanha veremos que mesmo no país as críticas e em relação às touradas sempre estiveram presentes em vários momentos históricos, apesar da grande popularidade da prática taurina, gerando controvérsias no âmbito da sociedade espanhola. Antes, porém, gostaria de mencionar algumas expressões coloquiais utilizadas no cotidiano e seu significado e que se originaram da tauromaquia. Por exemplo:

– “Cada toro tiene su lidia“: significa que cada pessoa ou situação é distinta das demais e requer um tratamento diferenciado

-“Coger el toro por los cuernos“: enfrentar de forma decidida a um problema, resolvendo-o de uma vez por todas.

-“Quedar para el arrastre“: quando uma pessoa encontra-se esgotada fisicamente.

-“Darle cornadas al viento“: realizar atos ou emitir frases ou palavras totalmente inúteis, ineficazes ou banais.

-“El toro de cinco y el torero de veinticinco“: contundente expressao destinada a estabelecer que cada coisa deve ser realizada no momento adequado.

20151218_085226As primeiras proibições documentadas das touradas na Espanha partiram da Igreja Católica no século XVI, quando em 1567 o Papa Pio V decretou que os participantes e espectadores de uma tourada seriam excomungados. Em 1575, ante a reação das autoridades espanholas, o Papa Gregório XIII se viu obrigado a moderar o decreto, excluindo da excomunhão aos laicos e reservando a pena somente aos religiosos e sacerdotes. Enquanto os monarcas da Dinastia dos Habsburgos eram adeptos das corridas de touros, os reis da Dinastia Bourbônica desprezavam os espetáculos por considerarem indignos, pelo qual Felipe V proibiu em 1723 sua realização. Já o Rei Fernando VI apenas consentiu a prática das touradas em troca que seus ingressos fossem destinados a obras de caridade, como a construção de hospitais. Em 1771, Carlos III proibiu novamente as touradas. Posteriormente, diversas propostas antitaurinas foram abolidas, por serem consideradas antipopulares.

20170528_191642 No século XX, a era dourada das touradas na Espanha, durante o governo de Franco e mais tarde no período democrático, era possível assistir touradas ao vivo pela TV. Em 2006, a RTVE (Radio e TV Espanhola) proibiu a emissão de touradas ao vivo em horários considerados de proteção para a infância (entre 17 e 20hs). No entanto, algumas cadeias autônomas permanecem realizando transmissões ao vivo de touradas de forma regular, como o canal de TV de Castilla La Mancha. A maior parte das transmissões, no entanto, é realizada pelo canal pago “canal + toros”. Atualmente proibida em muitos países, em 2004 a cidade de Barcelona declarou-se antitaurina, depois de uma petição popular  e em 2010 o Parlamento da Catalunha proibiu as corridas de touros em toda a comunidade. Numa pesquisa realizada no começo do século XXI, 31% dos espanhóis se mostraram interessados em relação às touradas, enquanto 69% eram indiferentes. O perfil das pessoas que acompanham as touradas na Espanha é predominantemente masculino, dentro de uma faixa etária superior aos 45 anos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInvariavelmente, as reações às touradas variam da repulsa à fascinação que provocam, e atualmente muitos são os estrangeiros que presenciam as touradas, utilizadas como propaganda turística. É verdade que quase todos os toureiros são corneados ao menos uma vez por temporada. O toureiro Juan Belmonte foi corneado mais de 50 vezes em sua carreira profissional. Desde 1700, 42 toureiros perderam sua vida na arena, sem contar picadores e banderilleros. Por outro lado, mais de 3 mil touros morrem anualmente nas temporadas taurinas. Um dos espetáculos taurinos que mais controvérsias suscitam atualmente é o chamado “Toro de la Vega“, realizado na cidade de Tordesillas (Tordesilhas, em português, a mesma do famoso tratado assinado por Portugal e Espanha em 1494). Esta festividade foi mencionada por primeira vez em 1534 e realiza-se anualmente no mês de setembro dentro das celebrações em honra à padroeira da localidade, N.Sra de la Peña. Abaixo, vemos uma foto da cidade de Tordesillas

OLYMPUS DIGITAL CAMERANeste tipo de espetáculo taurino, os touros partem da Plaza Mayor da cidade, sendo conduzido pelos habitantes locais atravessando a ponte sobre o Rio Duero (que vemos na foto acima) até os campos, onde se realiza uma caça e perseguição aos animais. Caso os touros consigam escapar das investidas, recebem o indulto, isto é, sua vida é perdoada, algo que normalmente não sucede. No século XXI, o “Toro de la Vega” adquiriu um grande protagonismo nos meios de comunicação e junto às associações de proteção aos animais, que denunciaram o cruel sofrimento a que sao submetidos. Em 2016, se proibiu a morte dos touros durante os festejos. Abaixo, vemos um monumento em homenagem ao “Toro de la Vega“…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAQual o futuro das touradas e dos espetáculos taurinos na Espanha ? As próximas gerações permanecerao fiéis à tradição ou a maioria de seus habitantes serão partidários em abolir este tradicional costume espanhol ?

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta é uma pergunta difícil de responder e somente o tempo dirá qual será o comportamento dos espanhóis e a futura realidade dos espetáculos taurinos. Se atualmente as touradas não gozam do mesmo prestígio que teve em épocas passadas, ainda podemos considerar a Espanha como o País dos Touros

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Um Touro na Gran Vía de Madrid

No post de hoje comentarei sobre um dos acontecimentos mais insólitos produzidos na história da tauromaquia, ocorrido não numa praça de touros, e sim numa das avenidas mais importantes do centro de Madrid, a Gran Vía. No dia 23 de janeiro de 1928, uma manada de touros de lidia e várias vacas foram conduzidos a um corral na cidade de Madrid. Por incrível que pareça, um touro bravo e uma vaca escaparam dos cuidadores e começaram a percorrer as ruas mais importantes da cidade. Durante o percurso, o touro começou seu espetáculo atacando um táxi, perfurando o carro com seus chifre. A notícia de um touro bravo nas ruas da cidade espalhou-se rapidamente e muitos comerciantes, com medo de algo pudesse ocorrer, fecharam as portas de seus estabelecimentos. Algumas pessoas foram feridas, como uma senhora de 66 anos que foi lançada pelo ar durante o ataque do touro. Outras pessoas que tentaram ajudar a pobre vítima também foram atacadas e resultaram feridas. Logo depois, o animal chegou a uma zona popular, graças a um mercado existente. Ao ver o touro enfurecido, as pessoas entraram em pânico, dispersando-se em busca de refúgio, enquanto o touro investia contra os produtos comestíveis do local. Um vendedor de frutas tornou-se sua próxima vítima, sendo atacado por detrás e ficando inconsciente. Uma das rodas do carro ficou enganchada no chifre do touro, dando-lhe um aspecto grotesco enquanto prosseguia com seus ataques.

OLYMPUS DIGITAL CAMERALogo depois, o touro investiu contra um jovem de 16 anos, mas felizmente a roda enganchada protegeu o garoto, que foi salvo por outras pessoas sendo levado para fora do perigo, sofrendo feridas de pouca gravidade. O touro e sua acompanhante bovina detiveram os ataques e começaram a comer umas bananas espalhadas pela rua, quando finalmente decidiram vaguear pela Gran Vía, uma das ruas mais movimentadas do centro de Madrid. Ao ver o animal na grande avenida, os pedestres ficaram desesperados e alguns tentaram enfrentar-se ao touro, mas desistiram ao ver o tamanho e ferocidade do animal. O mais incrível do fato foi que um toureiro de 30 anos chamado Diego Mazquiarán, mais conhecido como “Fortuna“, passava naquele momento pela Gran Vía, junto com sua esposa. O toureiro não atravessava um bom momento naquela temporada taurina, e ainda se recuperava de uma lesão sofrida durante uma tourada. Fortuna apartou sua mulher e tirou seu abrigo, que passou a utilizar como muleta, realizando alguns passes e distraindo o animal. Em seguida, chamou um garoto e lhe pediu que fosse a sua residência, situada próxima à Gran Vía, e que trouxesse seu estoque (espada) de matar. Durante cerca de 15 minutos, o toureiro manteve o touro ocupado, enquanto a multidão que começava a concentra-se no local lhe incentivava aplaudindo-o.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs espectadores situados nos balcões e janelas dos edifícios da avenida presenciaram a dramática cena e a polícia foi incapaz de controlar o público atônito. Com a espada já na mão, o toureiro esperou que o touro se colocasse na postura correta e deu uma meia estocada, que não foi suficiente para acabar com a vida do animal. O clamor do público presente transformou-se em desespero generalizado quando o touro ferido se dirigiu a eles. Fortuna executou rapidamente alguns passes mais e finalmente realizou uma segunda estocada, desta vez mortal. A multidão enlouqueceu e todos levantaram seus lenços brancos em agradecimento ao toureiro, carregando-o pelos ombros e levado a uma cafeteria próxima, onde brindaram a façanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO público, em homenagem ao toureiro, realizou uma petição à Prefeitura de Madrid para que lhe fosse outorgada a Cruz da Beneficência, a medalha de maior importância que um civil poderia receber, e que afinal lhe foi concedida. A partir deste êxito inesperado, Fortuna em pouco tempo já tinha programado 18 novas touradas, mas sua carreira não se prolongou muito, pois faleceu apenas 8 anos depois do sucedido na Gran Vía. Fortuna foi incluído entre os toureiros que inauguraram a Plaza de Touros de Las Ventas, como podemos observar no cartaz de inauguração da praça, com seu nome inscrito entre os toureiros participantes (colocado abaixo da palavra “Espadas”).

IMG_3458No mesmo ano, em 1928, um outro torro escapou do corral, aparecendo na também central Calle de Atocha. Uma pessoa recebeu ferimentos graves e outras 4 foram feridas sem sérias consequências. Neste caso, como não havia nenhum toureiro matador presente no local, o animal foi abatido pela guarda civil com um disparo. Em 1973, um matador chamado Luis Segura, ajudado por seu irmão, tentou um logro publicitário ao matar um touro que supostamente se havia escapado e chegado à Plaza de España. Quando finalmente se soube que o animal havia sido colocado de forma proposital no lugar, o toureiro foi levado aos tribunais e acabou na prisão…Finalizo a matéria com uma foto atual da Gran Vía de Madrid

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Os Touros na Arte

Devido a importância que os touros e os espetáculos taurinos exerceram na cultura espanhola, foram retratados nas mais variadas expressões artísticas, como a pintura, escultura, artes decorativas, e também na literatura, na música e no cinema. Nesta série que estou realizando sobre o mundo dos touros na Espanha já publiquei diversas imagens em que os touros aparecem como objeto temático no mundo da arte. Neste post veremos algumas obras em que foram representados nos mais variados estilos e técnicas pictóricas, por diversos e reconhecidos artistas ao longo da história, e também por artistas anônimos. Um exemplo é o pintor e gravador espanhol Antonio Carnicero (1748/1814), que em 1790 realizou uma série de gravados sobre tauromaquia, alguns dos quais encontram-se expostos no Museu de História de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos outro gravado em que se representa uma corrida de touros na Plaza Mayor de Madrid, realizado em 1791.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA O genial pintor Francisco de Goya realizou diversas séries de gravados sobre uma ampla variedade temática, que inclui os desastres da Guerra da Independência Espanhola, crítica social e inclusive sobre tauromaquia, já que foi um apaixonado pelas touradas (post publicado em 3/2/2016).

20150816_112346OLYMPUS DIGITAL CAMERAArtistas anônimos deixaram seu registro sobre o mundo dos touros, como no quadro abaixo, intitulado “Corrida de Touros em Cuenca“, realizado em 1661…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA temática taurina aparece também em cenas cotidianas, como neste quadro realizado pelo pintor e escultor Enrique Mélida y Alinari (1838/1892), intitulado “Jugando al toro“.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro grande pintor espanhol, Pablo Picasso, explorou o forte simbolismo taurino para representar o horror da Guerra Civil Espanhola no seu famoso “Guernica“, uma das obras de arte fundamentais do século XX, que pode e deve ser contemplado no Museu Reina Sofia de Madrid.

DSC03525Quando estive na cidade de Jaén (Andaluzia) tive a oportunidade de visitar uma exposição sobre Arte Naif, em que os artistas retrataram o mundo taurino, como María Cruz Gutiérrez Segovia, em sua obra “Corrida de Touros“, realizada em 1987.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlguns artistas retrataram as festividades taurinas que se realizam nos povoados espanhóis, como Marta Rodríguez Salmones, em sua obra “Touros em Turégano“, de 1977…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOu Catalina López Sevilla, em sua obra “Touros em Santisteban del Puerto“, de 1984…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo campo da escultura, muitos e renomados artistas como Mariano Benlliure, por exemplo, deixaram seu legado relacionado com a tauromaquia. O artista valenciano realizou o monumento funerário ao grande toureiro Joselito situado no cemitério de Sevilha. Vários outros toureiros foram homenageados com esculturas que foram colocadas em diversas praças de touros espalhadas pelo país, assim como os espetáculos que se organizam em todo o território espanhol. A seguir, vemos uma escultura que representa a tradicional festa da “Vaquilla del Ángel“, organizada na cidade de Teruel (Aragón), cujo início se remonta ao ano 1679.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO ambiente taurino também foi abundantemente recriado na tradicional música espanhola, como na Zarzuela e no Flamenco. Na literatura, em obras de escritores consagrados como Lope de Vega, Cervantes, Rafael Alberti, Vicente Blasco Ibáñez, somente para citar alguns. Nas denominadas Artes Decorativas, os touros aparecem como elementos que embelezam espaços vinculados à tauromaquia, como nas Tabernas, como tivemos oportunidade de salientar…

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Toureiros famosos da Espanha – Parte 2

Neste segundo post sobre os Toureiros de maior renome da Espanha veremos outras personañidades do mundo taurino que  se destacaram na história da tauromaquia. Um deles foi Juan Belmonte (1892/1962), um toureiro nascido em Sevilha, considerado um dos mais populares da história e um dos renovadores da arte de torear à pé. Muitos o consideram o fundador do Toreo Moderno e liderou, junto com Joselito, a idade de ouro das touradas no início do século XX. Sua carreira profissional desenvolveu-se entre 1913 e 1936, ano em que se retirou definitivamente. Em 1919, chegou a participar de 109 touradas, uma cifra recorde na época. Foi o primeiro em torear estando imóvel junto ao touro, cujo estilo foi culminado por Manolete. Foi um grande amigo do escritor americano Ernest Hemingway, e aparece em duas de suas novelas, “Morte na Tarde ” e “Festa“. Em 1962, a ponto de cumprir 70 anos, se suicidou com um disparo. No filme “Meia noite em Paris“, de Woody Allen, Juan Belmonte foi representado pelo ator Daniel Lundh. Abaixo, vemos a Juan Belmonte na Plaza de Toros de Madrid (foto de Baldomero).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das dinastias taurinas mais famosas da história foi a família dos Ordóñez, originária de Ronda, encabeçada por Cayetano Ordóñez (1904/1961). Ficou conhecido pelo apelido “El Niño de la Palma“. Seu pai possuía uma loja de sapatos chamada “La Palma“, fato que explica o apelido. Abaixo, vemos uma escultura que lhe rende homenagem, situada em frente à Plaza de Toros de Ronda

OLYMPUS DIGITAL CAMERATeve 6 filhos, dos quais nada menos que 5 foram toureiros. O mais famoso de todos foi Antonio Ordóñez (1932/1998), que cresceu num ambiente taurino, presenciando as glórias de seu pai. Antonio triunfou em numerosas praças de touros, especialmente na de Madrid. Retirou-se de forma definitiva em 1981, momento em que passa a dedicar-se à ganadería e administrar a Plaza de Toros de Ronda, que havia adquirido. Considerado um dos maiores toureiros do século XX, Antonio Ordóñez possuía uma técnica perfeita, e também foi homenageado com uma escultura na Plaza de Toros de Ronda

OLYMPUS DIGITAL CAMERAVárias personalidades americanas do mundo artístico contribuíram para a divulgação das touradas, como o cineasta Orson Welles (1915/1985), autor do filme “Cidadão Kane“, uma obra fundamental da sétima arte. Sua amizade com Antonio Ordóñez foi de tal magnitude que suas cinzas foram depositadas numa fazenda situada em Ronda, pertencente ao toureiro. Abaixo, vemos uma imagem (carente de qualidade pela luz que incide no vidro que a protege) do grande cineasta americano assistindo uma tourada…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro grande admirador de Antonio Ordóñez foi o já mencionado escritor Ernest Hemingway (1899/1961), um grande apaixonado pelo país, seus costumes e tradições. Hemingway foi correspondente durante a Guerra Civil Espanhola (1936/1939) e um conhecido defensor da causa republicana. Abaixo vemos uma foto do escritor com Antonio Ordóñez (à direita) e seu pai Cayetano (à esquerda da foto)…

20190222_130947Na foto abaixo, vemos a Hemingway com Antonio Ordóñez

20190222_131325Outra das maiores rivalidades históricas das touradas foi protagonizada por Antonio Ordóñez e Luis Miguel “Dominguín”, motivo de inspiraçao para a obra “Verao Perigoso” de Hemingway, o último livro por ele escrito (1959/1960) e publicado póstumamente em 1985. Antonio Ordóñez era cunhado de Luis Miguel “Dominguín”, pois este casou-se com sua irma, Carmen Ordóñez. A seguir, uma foto de ambos toureiros…

20190222_131236Luis Miguel “Dominguín” (1926/1996) tornou-se famoso também por sua vida amorosa e sentimental, e suas relações com várias artistas de Hollywood agitaram a sociedade espanhola da época, como Rita Hayworth e Lauren Bacall. Seu romance com Ava Gardner tornou-se lendário. Se conta que na primeira noite com a atriz americana levantou-se da cama e preparava-se para sair do hotel, quando Ava Gardner lhe perguntou aonde se dirigia, e Dominguín respondeu que a contar aos demais a “façanha”. Dominguín foi um dos matadores mais  populares dos anos 40 e 50,  filho do também toureiro Domingo González “Dominguín” e pai do cantor Miguel Bosé. Seu êxito nas arenas taurinas foi tal que chegou a sair 5 vezes pela Porta Grande da Plaza de Toros de Las Ventas de Madrid. Retornando a Hemingway, o escritor foi assíduo frequentador das Tabernas de Madrid.  Uma de suas preferidas chamava-se “El Callejón“, como podemos ver na foto abaixo, junto com seu amigo Antonio Ordóñez, no lado direito da imagem.

20190222_131217Depois que a taberna foi fechada por seu proprietário espanhol nos anos 90, um cubano comprou o imóvel e o converteu num restaurante de gastronomía típica de seu país, chamado “Cuando salí de Cuba“. O busto em homenagem ao escritor, bem como uma grande quantidade de fotos da vida de Hemingway, algumas das quais aparecem nesta matéria (e que gentilmente me permitiram publicar) ainda podem ser admiradas no local.

20190222_131344Depois de conhecer o restaurante há alguns anos atrás, tornei-me um cliente habitual do mesmo…

20190222_135225O restaurante oferece um simpático atendimento e menus diários que custam 11 euros (dois pratos a escolher, bebida e sobremesa incluídas). Normalmente escolho batata com carne moída de primeiro prato e “Ropa Vieja” de segundo (carne desfiada com arroz branco, uma coisa rara na cidade). Realmente, uma delícia…

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Toureiros famosos da Espanha

No post de hoje, e no próximo, veremos alguns dos toureiros mais famosos da Espanha. Muitos deles fizeram parte de famílias que constituíram verdadeiras dinastias taurinas, caso de Pedro Romero (1754/1839), membro de uma ilustre família de toureiros, iniciada com seu avô Francisco Romero (1700/1763). Nascidos em Ronda, cidade considerada o berço da moderna arte de torear, suas inovações, como o uso do estoque para matar o animal inaugurada por Francisco, foram fundamentais para a história da tauromaquia. Em 1795, Pedro Romero inaugurou a Plaza de Toros de Ronda, uma das praças históricas do país. Para muitos estudiosos trata-se do toureiro mais completo de todos. É provável que em sua vida tenha matado a mais de 5 mil touros, e nunca foi ferido numa tourada. Faleceu em 1839, com a idade de 84 anos. Abaixo, vemos um quadro de Pedro Romero exposto no Museu Taurino da Plaza de Toros de Ronda.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos espetáculos taurinos mais vistosos que ainda existem são as chamadas “Corridas Goyescas“, em que os participantes utilizam trajes que foram retratados nos gravados do grande pintor Francisco de Goya. Este tipo de vestimenta surgiu em Madrid no século XVIII e foi utilizado pela burguesia até o século XIX, quando então seu uso se propagou ao resto da Espanha. A primeira “Corrida Goyesca” celebrou-se na Plaza de Toros de Murcia em 1929, para comemorar o centenário da morte do genial artista aragonês. Especialmente famosa é a realizada em Ronda, sendo que a primeira foi organizada em 1954, para comemorar o segundo centenário de nascimento de Pedro Romero.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMuitos dos toureiros mais famosos da Espanha tiveram um trágico destino em plena praça de touros, fato que colaborou para perpetuar a fama conquistada na arena. Este é o caso de José Gómez Ortega (1895/1920), mais conhecido como “Joselito“. Também representante de uma família dedicada ao mundo dos touros, é considerado um dos maiores toureiros da Espanha. Travou junto com o toureiro Juan Belmonte (1892/1962) uma rivalidade histórica no começo do século XX, a época dourada das touradas. Abaixo vemos a “Joselito” toureando na Plaza de Toros de Madrid (imagem tirada pelo fotógrafo Alfonso Sánchez Portela em 1914).

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo auge de sua trepidante carreira, e com apenas 25 anos,  “Joselito” foi morto na Plaza de Toros de Talavera de la Reina pelo touro “Bailaor” em 1920. A cada 16 de maio, dia de sua morte, ainda hoje se guarda um minuto de silêncio nas praças de touros de todo o país. Abaixo, vemos a “Joselito” na Praça de Touros de Sevilha (foto de Serrano).

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XX destaca, entre outros, a figura de Manuel Rodríguez Sánchez (1917/1947), conhecido como “Manolete“. Nasceu em Córdoba em 1917, sendo considerado um dos mais legendários e elegantes toureiros do país. Contribuiu de forma decisiva para o embelezamento das touradas ao incluir movimentos em que era capaz de manter-se praticamente imóvel quando o touro passava perto de seu corpo, realizando uma série de passos consecutivos. Abaixo, vemos uma estátua dedicada ao toureiro no Museu Taurino de Córdoba.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAManolete faleceu na Plaza de Toros de Linares (município situado na Província de Jaén, Andalucía) em 1947, numa corrida de touros que contou com a participação de outro grande matador, Luis Miguel “Dominguín”, quando sofreu uma grave lesão na artéria femural provocada pelo touro “Islero“. Apesar das várias transfusões de sangue recebida, o toureiro não resistiu. Atualmente, uma das teorias a respeito de sua morte diz que o toureiro faleceu devido à aplicação de uma transfusão incompatível com seu organismo. Em 1956, se inaugurou em Córdoba um monumento em sua homenagem, esculpido pelo artista Manuel Álvarez Laviada. Para  financiar sua execução, se realizou uma tourada, que arrecadou 800 mil pesetas…

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua morte provocou uma intensa comoção em todo o país. O General Franco decretou luto oficial de três dias, e Manolete  transformou-se num grande símbolo do pós guerra na Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAManolete se apresentou em inúmeras Praças de Touros da Espanha, mas foi na Praça Monumental da Cidade do México onde obteve seus maiores êxitos. Abaixo, vemos o cartaz da fatídica corrida de toros na Plaza de Toros de Linares.

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Plazas de Toros de Madrid

Madrid é a capital mundial das touradas, e a Plaza de Toros de Las Ventas é considerada a mais importante do mundo (matéria publicada em 21/5/2012). Esta foi a terceira Plaza de Toros permanente que teve Madrid, e no post de hoje veremos as antigas Plazas de Toros que existiram na capital espanhola, além de imagens da atual Plaza de Toros de Las Ventas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAntigamente, as Plazas de Toros foram construídas em madeira e eram desmontáveis. Não se sabe com certeza onde esteve localizada a primeira Praça de Touros de Madrid. Segundo alguns autores, foi projetada pelo renomado arquiteto espanhol Pedro de Ribera em 1737, cuja enorme contribuição para o urbanismo da capital espanhola foi o tema de dois posts publicados em 23 e 24/6/2015. Esta primeira Praça de Touros tinha um caráter provisório e estava situada junto ao Rio Manzanares. Possuía uma capacidade para receber 11 mil espectadores e foi a base construtiva para as demais Praças de Touros de formato circular. Foi utilizada apenas durante 12 anos, já que em 1749, com o apoio do Rei Fernando VI, se construiu a primeira praça estável de Madrid,  situada junto à emblemática Porta de Alcalá, como vemos abaixo na imagem.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta praça carecia de qualquer interesse arquitetônico, pois sua construção foi puramente funcional. Se manteve em atividade até 1874, quando as corridas de touros foram levadas a uma nova Praça de Touros. Foi derrubada dentro do processo de ampliação urbana da cidade e da construção do novo Bairro de Salamanca. A seguir vemos uma maquete da Praça de Touros da Porta de Alcalá, que podemos ver no Museu de História de Madrid, e uma placa comemorativa em sua localização original.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA segunda Plaza de Toros permanente de Madrid chamava-se “Plaza de Toros de la Fuente del Berro“, e se encontrava no espaço atualmente ocupado pelo Palácio de Deportes da Comunidade de Madrid, que vemos abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta nova praça tinha capacidade para acolher a 13 mil espectadores e inaugurou o estilo neomudéjar para as Praças de Touros. O denominado estilo mudéjar desenvolveu-se entre os séculos XII e XVI, e se considera um estilo artístico autóctono e exclusivo do país. Foi utilizado nos edifícios religiosos (igrejas), na arquitetura civil (palácios) e também militar (muralhas). Suas construções utilizavam o tijolo como elemento construtivo e decorativo, incorporando características da arquitetura muçulmana, como o denominado Arco de Ferradura. A partir do século XIX, dentro do processo histórico da arquitetura, se realizou uma interpretação deste estilo (neomudéjar), originando diversas construções que ainda podemos admirar pela Espanha, como em muitas das praças de touros ainda existentes. Abaixo, vemos uma foto desta segunda praça permanente que teve Madrid, construída em 1874.

DSC07969A última tourada realizada nesta praça ocorreu em 1934. Com o grande aumento populacional verificado na primeira metade do século XX, surgiu a necessidade de se construir uma nova e maior Plaza de Toros, a atual Plaza de Toros de Las Ventas.

20190130_084854Esta praça, a mais importante e de maior prestígio do mundo, recebeu este nome por estar situada no Bairro de “Las Ventas del Espíritu Santo“. Com capacidade para acolher a 23 mil espectadores, é a maior de toda a Espanha, e nela atuaram e continuam apresentando-se os toureiros mais famosos do país. Apesar disso, a maior de todo o mundo é a Plaza de Toros Monumental da Cidade do México, com capacidade para 41 mil espectadores, construída em 1946. Abaixo, vemos uma foto do interior da Plaza de Las Ventas, com destaque para o Palco Real.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFoi projetada no estilo neomudéjar pelo arquiteto José Espeliú e finalizada por Manuel Muñoz Monasterio, depois do falecimento do primeiro arquiteto em 1928. Abaixo, vemos uma foto antiga tirada logo depois de finalizadas as obras, em 1929.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADevido à falta de infraestrutura urbana desta parte da cidade, a primeira corrida de touros foi realizada em 1931, mas a praça somente foi oficialmente inaugurada em 1934.

IMG_3450No exterior da Plaza de Las Ventas vemos diversas esculturas que homenageiam toureiros famosos, como o toureiro francês de origem espanhol José Cubero Sánchez (1964/1985), conhecido como “El Yiyo“. Com apenas 21 anos, e no auge de sua carreira e popularidade, foi morto por um touro na Plaza de Toros de Colmenar Viejo, um município da Comunidade de Madrid.

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Históricas Plazas de Toros de España

O post de hoje está dedicado às denominadas Praças de Touros Espanholas de caráter histórico, que integram o patrimônio arquitetônico, histórico e cultural das cidades onde se encontram situadas. Como fato comum a todas elas, foram construídas antes de 1800, e veremos algumas das principais. A Plaza de Toros de Aranjuez, cidade declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco, é uma das mais antigas…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAFoi construída em 1796, durante o reinado de Carlos IV, sobre uma praça anterior levantada em 1760.

20150923_114743Em 1809, a Praça de Touros de Aranjuez sofreu um grande incêndio, sendo reconstruída em 1829. Possui capacidade para receber 8700 espectadores.

20150923_115120A cidade de Zaragoza (Comunidade de Aragón) possui uma bela Plaza de Toros, que faz parte da União de Praças de Touros Históricas da Espanha, uma associação cujo objetivo é a preservação e divulgação das praças mais antigas do país. Sua construção original data de 1764, e abaixo vemos uma foto desta praça primitiva.

01. Plaza de toros antigaEm 1917, a praça foi reformada no estilo neomudéjar, ampliando sua capacidade para acolher a 13500 espectadores.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Praça de Touros de Zaragoza é conhecida também como “La Misericordia” ou “Coso de Pignatelli“, uma referência a Ramón Pignatelli, reitor da Casa de Misericórdia e promotor de sua reforma.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAConsiderada uma praça de primeira categoria, atualmente possui um mecanismo de cobertura retrátil, uma das primeiras da Espanha em ostentar esta tecnologia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlém de touradas, acolhe espetáculos diversos, como concertos musicais, por exemplo. Durante minha estadia de 4 anos na cidade, pude presenciar um show do Gilberto Gil na praça, na época Ministro da Cultura….

DSC00172Também situada em Aragón, a histórica cidade de Tarazona possui um impressionante patrimônio histórico-artístico, e a Antiga Praça de Touros é um de seus monumentos de maior destaque.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACom uma curiosa planta octogonal, foi construída entre 1790/1792. Sua singularidade é que forma um conjunto residencial com um pátio interior onde se realizavam as atividades taurinas. Os balcões das casas eram alugados para que outras pessoas pudessem assistir às festividades.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADeclarada Bem de Interesse Cultural, a última tourada que se realizou na Plaza de Toros de Tarazona ocorreu em 1868. Atualmente sua função residencial se conserva, e no pátio também são realizados atividades culturais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADe importância fundamental no mundo taurino, a Plaza de Toros de Ronda é de visita obrigatória para qualquer pessoa que deseje conhecer uma praça que conserva sua arquitetura original.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA cidade de Ronda (Andaluzia) é considerada o berço da moderna arte de torear, e sua plaza de toros é realmente impressionante. Foi edificada em 1784 e inaugurada um ano depois com performances dos grandes toureiros Pedro Romero e Pepe Hillo, dois dos maiores representantes da história das touradas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta praça de touros foi construída pela Real Maestranza de Ronda, uma corporação nobre fundada em 1572, durante o reinado de Felipe II. Esta antiga associação tinha um objetivo inicial relacionada ao exercício da equitação e, originalmente, foi uma escola de aprendizagem do manejo de armas à cavalo. Por este motivo, possui uma renomada escola de equitação até hoje. Abaixo, vemos uma dependência da escola…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Praça de Touros de Ronda é visitável, e seu ruedo (arena) é o mais extenso de todo o mundo, com 60 metros de diâmetro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAÉ frequente os exercícios equestres realizados na arena da praça, de forma que podemos admirar a apresentação de cavalos de raça andaluz no interior da mesma…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAlém do mais, a Plaza de Toros de Ronda possui um imperdível Museu Taurino. Finalizamos a matéria com  detalhes decorativo desta praça histórica da Espanha.

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