Touros: Críticas e Controvérsias

Neste último post sobre esta extensa série sobre o mundo dos touros na Espanha veremos que mesmo no país as críticas e em relação às touradas sempre estiveram presentes em vários momentos históricos, apesar da grande popularidade da prática taurina, gerando controvérsias no âmbito da sociedade espanhola. Antes, porém, gostaria de mencionar algumas expressões coloquiais utilizadas no cotidiano e seu significado e que se originaram da tauromaquia. Por exemplo:

– “Cada toro tiene su lidia“: significa que cada pessoa ou situação é distinta das demais e requer um tratamento diferenciado

-“Coger el toro por los cuernos“: enfrentar de forma decidida a um problema, resolvendo-o de uma vez por todas.

-“Quedar para el arrastre“: quando uma pessoa encontra-se esgotada fisicamente.

-“Darle cornadas al viento“: realizar atos ou emitir frases ou palavras totalmente inúteis, ineficazes ou banais.

-“El toro de cinco y el torero de veinticinco“: contundente expressao destinada a estabelecer que cada coisa deve ser realizada no momento adequado.

20151218_085226As primeiras proibições documentadas das touradas na Espanha partiram da Igreja Católica no século XVI, quando em 1567 o Papa Pio V decretou que os participantes e espectadores de uma tourada seriam excomungados. Em 1575, ante a reação das autoridades espanholas, o Papa Gregório XIII se viu obrigado a moderar o decreto, excluindo da excomunhão aos laicos e reservando a pena somente aos religiosos e sacerdotes. Enquanto os monarcas da Dinastia dos Habsburgos eram adeptos das corridas de touros, os reis da Dinastia Bourbônica desprezavam os espetáculos por considerarem indignos, pelo qual Felipe V proibiu em 1723 sua realização. Já o Rei Fernando VI apenas consentiu a prática das touradas em troca que seus ingressos fossem destinados a obras de caridade, como a construção de hospitais. Em 1771, Carlos III proibiu novamente as touradas. Posteriormente, diversas propostas antitaurinas foram abolidas, por serem consideradas antipopulares.

20170528_191642 No século XX, a era dourada das touradas na Espanha, durante o governo de Franco e mais tarde no período democrático, era possível assistir touradas ao vivo pela TV. Em 2006, a RTVE (Radio e TV Espanhola) proibiu a emissão de touradas ao vivo em horários considerados de proteção para a infância (entre 17 e 20hs). No entanto, algumas cadeias autônomas permanecem realizando transmissões ao vivo de touradas de forma regular, como o canal de TV de Castilla La Mancha. A maior parte das transmissões, no entanto, é realizada pelo canal pago “canal + toros”. Atualmente proibida em muitos países, em 2004 a cidade de Barcelona declarou-se antitaurina, depois de uma petição popular  e em 2010 o Parlamento da Catalunha proibiu as corridas de touros em toda a comunidade. Numa pesquisa realizada no começo do século XXI, 31% dos espanhóis se mostraram interessados em relação às touradas, enquanto 69% eram indiferentes. O perfil das pessoas que acompanham as touradas na Espanha é predominantemente masculino, dentro de uma faixa etária superior aos 45 anos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInvariavelmente, as reações às touradas variam da repulsa à fascinação que provocam, e atualmente muitos são os estrangeiros que presenciam as touradas, utilizadas como propaganda turística. É verdade que quase todos os toureiros são corneados ao menos uma vez por temporada. O toureiro Juan Belmonte foi corneado mais de 50 vezes em sua carreira profissional. Desde 1700, 42 toureiros perderam sua vida na arena, sem contar picadores e banderilleros. Por outro lado, mais de 3 mil touros morrem anualmente nas temporadas taurinas. Um dos espetáculos taurinos que mais controvérsias suscitam atualmente é o chamado “Toro de la Vega“, realizado na cidade de Tordesillas (Tordesilhas, em português, a mesma do famoso tratado assinado por Portugal e Espanha em 1494). Esta festividade foi mencionada por primeira vez em 1534 e realiza-se anualmente no mês de setembro dentro das celebrações em honra à padroeira da localidade, N.Sra de la Peña. Abaixo, vemos uma foto da cidade de Tordesillas

OLYMPUS DIGITAL CAMERANeste tipo de espetáculo taurino, os touros partem da Plaza Mayor da cidade, sendo conduzido pelos habitantes locais atravessando a ponte sobre o Rio Duero (que vemos na foto acima) até os campos, onde se realiza uma caça e perseguição aos animais. Caso os touros consigam escapar das investidas, recebem o indulto, isto é, sua vida é perdoada, algo que normalmente não sucede. No século XXI, o “Toro de la Vega” adquiriu um grande protagonismo nos meios de comunicação e junto às associações de proteção aos animais, que denunciaram o cruel sofrimento a que sao submetidos. Em 2016, se proibiu a morte dos touros durante os festejos. Abaixo, vemos um monumento em homenagem ao “Toro de la Vega“…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAQual o futuro das touradas e dos espetáculos taurinos na Espanha ? As próximas gerações permanecerao fiéis à tradição ou a maioria de seus habitantes serão partidários em abolir este tradicional costume espanhol ?

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta é uma pergunta difícil de responder e somente o tempo dirá qual será o comportamento dos espanhóis e a futura realidade dos espetáculos taurinos. Se atualmente as touradas não gozam do mesmo prestígio que teve em épocas passadas, ainda podemos considerar a Espanha como o País dos Touros

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Os Pueblos mais Belos de Espanha: Parte 10

Neste último post da série sobre os Pueblos mais Belos de Espanha, veremos outros dos povoados da Comunidade de Castilla y León que se destacam por sua beleza, riqueza histórica e monumental. Situado na Província de Burgos, Peñaranda de Duero (matérias publicadas em 12 e 13/8/2013) é um dos mais belos pueblos que tive a oportunidade de conhecer na Espanha. Possui pouco mais de 500 habitantes, e a vista do castelo desde sua magnífica Praça Mayor é deslumbrante…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAIntegrante do famoso Caminho de Santiago, Astorga situa-se na Província de León (vários posts publicados entre 13 e 28/9/2014) e conta em seu patrimônio histórico com uma maravilhosa catedral e o Palácio Episcopal, uma das poucas obras que o arquiteto Antoni Gaudí realizou fora de Barcelona.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAArévalo se encontra na Província de Ávila (matérias publicadas entre 2 e 7/12/2013). É considerado um pueblo grande, pois conta com cerca de 8 mil habitantes, e sua riqueza histórica e artística é realmente fabulosa…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERACiudad Rodrigo (vários posts publicados entre 25/3 e 6/4/2015) é outro pueblo de maiores dimensões. Com cerca de 13 mil habitantes, possui uma belíssima catedral e um centro histórico repleto de atrativos para o visitante. Situado na Província de Salamanca

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalmente, na Província de Valladolid pude conhecer alguns belos pueblos que gostaria de mencionar. Tordesillas, por exemplo, ficou conhecida pelo tratado assinado em 1494 pelos monarcas português e espanhol, que traçou os limites das novas terras conquistadas entre os dois impérios. Vale a pena descobrir os segredos de seu interessante centro histórico (tema do post publicado em 3/6/2012).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAPeñafiel é outro povoado que possui um castelo impressionante, além de uma pitoresca Praça Mayor (publicado em 3 e 4/8//2015)…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAApesar da importância histórica e da riqueza monumental da maioria dos povoados mencionados nesta lista, os pueblos espanhóis enfrentam dificuldades associadas à sua perda populacional. Isso se deve ao fato de que a população jovem se desloca para os centros urbanos de maior tamanho, em busca de oportunidades de trabalho ou para o estudo. As baixas taxas de natalidade colaboram neste processo, que também afeta os ofícios tradicionais e a economia destes pequenos povoados. Um informe recente divulgado na mídia alerta para o fato de que mais de mil pueblos correm o risco de desaparecer, transformando-se em pueblos fantasmas. Tive a oportunidade de ler uma novela escrita por Julio llamazares em 1988, intitulada “La Lluvia Amarilla” (em português, “A Chuva Amarela”) em que o autor relata a solidão e a loucura de um idoso depois da morte de sua esposa num pequeno povoado situado nos Pirineus de Aragón, já que o casal eram os únicos sobreviventes do pueblo. O turismo interno representa atualmente uma boa fonte de ingressos para muitos destes povoados e uma alternativa econômica para sua própria sobrevivência. Esperamos que medidas sejam tomadas para que possam continuar existindo e revelar sua riqueza a todos aqueles que tenham a oportunidade de conhecer uma das maravilhas da Espanha, seus belos e inúmeros Pueblos.