Touros: Críticas e Controvérsias

Neste último post sobre esta extensa série sobre o mundo dos touros na Espanha veremos que mesmo no país as críticas e em relação às touradas sempre estiveram presentes em vários momentos históricos, apesar da grande popularidade da prática taurina, gerando controvérsias no âmbito da sociedade espanhola. Antes, porém, gostaria de mencionar algumas expressões coloquiais utilizadas no cotidiano e seu significado e que se originaram da tauromaquia. Por exemplo:

– “Cada toro tiene su lidia“: significa que cada pessoa ou situação é distinta das demais e requer um tratamento diferenciado

-“Coger el toro por los cuernos“: enfrentar de forma decidida a um problema, resolvendo-o de uma vez por todas.

-“Quedar para el arrastre“: quando uma pessoa encontra-se esgotada fisicamente.

-“Darle cornadas al viento“: realizar atos ou emitir frases ou palavras totalmente inúteis, ineficazes ou banais.

-“El toro de cinco y el torero de veinticinco“: contundente expressao destinada a estabelecer que cada coisa deve ser realizada no momento adequado.

20151218_085226As primeiras proibições documentadas das touradas na Espanha partiram da Igreja Católica no século XVI, quando em 1567 o Papa Pio V decretou que os participantes e espectadores de uma tourada seriam excomungados. Em 1575, ante a reação das autoridades espanholas, o Papa Gregório XIII se viu obrigado a moderar o decreto, excluindo da excomunhão aos laicos e reservando a pena somente aos religiosos e sacerdotes. Enquanto os monarcas da Dinastia dos Habsburgos eram adeptos das corridas de touros, os reis da Dinastia Bourbônica desprezavam os espetáculos por considerarem indignos, pelo qual Felipe V proibiu em 1723 sua realização. Já o Rei Fernando VI apenas consentiu a prática das touradas em troca que seus ingressos fossem destinados a obras de caridade, como a construção de hospitais. Em 1771, Carlos III proibiu novamente as touradas. Posteriormente, diversas propostas antitaurinas foram abolidas, por serem consideradas antipopulares.

20170528_191642 No século XX, a era dourada das touradas na Espanha, durante o governo de Franco e mais tarde no período democrático, era possível assistir touradas ao vivo pela TV. Em 2006, a RTVE (Radio e TV Espanhola) proibiu a emissão de touradas ao vivo em horários considerados de proteção para a infância (entre 17 e 20hs). No entanto, algumas cadeias autônomas permanecem realizando transmissões ao vivo de touradas de forma regular, como o canal de TV de Castilla La Mancha. A maior parte das transmissões, no entanto, é realizada pelo canal pago “canal + toros”. Atualmente proibida em muitos países, em 2004 a cidade de Barcelona declarou-se antitaurina, depois de uma petição popular  e em 2010 o Parlamento da Catalunha proibiu as corridas de touros em toda a comunidade. Numa pesquisa realizada no começo do século XXI, 31% dos espanhóis se mostraram interessados em relação às touradas, enquanto 69% eram indiferentes. O perfil das pessoas que acompanham as touradas na Espanha é predominantemente masculino, dentro de uma faixa etária superior aos 45 anos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInvariavelmente, as reações às touradas variam da repulsa à fascinação que provocam, e atualmente muitos são os estrangeiros que presenciam as touradas, utilizadas como propaganda turística. É verdade que quase todos os toureiros são corneados ao menos uma vez por temporada. O toureiro Juan Belmonte foi corneado mais de 50 vezes em sua carreira profissional. Desde 1700, 42 toureiros perderam sua vida na arena, sem contar picadores e banderilleros. Por outro lado, mais de 3 mil touros morrem anualmente nas temporadas taurinas. Um dos espetáculos taurinos que mais controvérsias suscitam atualmente é o chamado “Toro de la Vega“, realizado na cidade de Tordesillas (Tordesilhas, em português, a mesma do famoso tratado assinado por Portugal e Espanha em 1494). Esta festividade foi mencionada por primeira vez em 1534 e realiza-se anualmente no mês de setembro dentro das celebrações em honra à padroeira da localidade, N.Sra de la Peña. Abaixo, vemos uma foto da cidade de Tordesillas

OLYMPUS DIGITAL CAMERANeste tipo de espetáculo taurino, os touros partem da Plaza Mayor da cidade, sendo conduzido pelos habitantes locais atravessando a ponte sobre o Rio Duero (que vemos na foto acima) até os campos, onde se realiza uma caça e perseguição aos animais. Caso os touros consigam escapar das investidas, recebem o indulto, isto é, sua vida é perdoada, algo que normalmente não sucede. No século XXI, o “Toro de la Vega” adquiriu um grande protagonismo nos meios de comunicação e junto às associações de proteção aos animais, que denunciaram o cruel sofrimento a que sao submetidos. Em 2016, se proibiu a morte dos touros durante os festejos. Abaixo, vemos um monumento em homenagem ao “Toro de la Vega“…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAQual o futuro das touradas e dos espetáculos taurinos na Espanha ? As próximas gerações permanecerao fiéis à tradição ou a maioria de seus habitantes serão partidários em abolir este tradicional costume espanhol ?

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta é uma pergunta difícil de responder e somente o tempo dirá qual será o comportamento dos espanhóis e a futura realidade dos espetáculos taurinos. Se atualmente as touradas não gozam do mesmo prestígio que teve em épocas passadas, ainda podemos considerar a Espanha como o País dos Touros

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Os Touros na Arte

Devido a importância que os touros e os espetáculos taurinos exerceram na cultura espanhola, foram retratados nas mais variadas expressões artísticas, como a pintura, escultura, artes decorativas, e também na literatura, na música e no cinema. Nesta série que estou realizando sobre o mundo dos touros na Espanha já publiquei diversas imagens em que os touros aparecem como objeto temático no mundo da arte. Neste post veremos algumas obras em que foram representados nos mais variados estilos e técnicas pictóricas, por diversos e reconhecidos artistas ao longo da história, e também por artistas anônimos. Um exemplo é o pintor e gravador espanhol Antonio Carnicero (1748/1814), que em 1790 realizou uma série de gravados sobre tauromaquia, alguns dos quais encontram-se expostos no Museu de História de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos outro gravado em que se representa uma corrida de touros na Plaza Mayor de Madrid, realizado em 1791.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA O genial pintor Francisco de Goya realizou diversas séries de gravados sobre uma ampla variedade temática, que inclui os desastres da Guerra da Independência Espanhola, crítica social e inclusive sobre tauromaquia, já que foi um apaixonado pelas touradas (post publicado em 3/2/2016).

20150816_112346OLYMPUS DIGITAL CAMERAArtistas anônimos deixaram seu registro sobre o mundo dos touros, como no quadro abaixo, intitulado “Corrida de Touros em Cuenca“, realizado em 1661…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA temática taurina aparece também em cenas cotidianas, como neste quadro realizado pelo pintor e escultor Enrique Mélida y Alinari (1838/1892), intitulado “Jugando al toro“.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro grande pintor espanhol, Pablo Picasso, explorou o forte simbolismo taurino para representar o horror da Guerra Civil Espanhola no seu famoso “Guernica“, uma das obras de arte fundamentais do século XX, que pode e deve ser contemplado no Museu Reina Sofia de Madrid.

DSC03525Quando estive na cidade de Jaén (Andaluzia) tive a oportunidade de visitar uma exposição sobre Arte Naif, em que os artistas retrataram o mundo taurino, como María Cruz Gutiérrez Segovia, em sua obra “Corrida de Touros“, realizada em 1987.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlguns artistas retrataram as festividades taurinas que se realizam nos povoados espanhóis, como Marta Rodríguez Salmones, em sua obra “Touros em Turégano“, de 1977…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOu Catalina López Sevilla, em sua obra “Touros em Santisteban del Puerto“, de 1984…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo campo da escultura, muitos e renomados artistas como Mariano Benlliure, por exemplo, deixaram seu legado relacionado com a tauromaquia. O artista valenciano realizou o monumento funerário ao grande toureiro Joselito situado no cemitério de Sevilha. Vários outros toureiros foram homenageados com esculturas que foram colocadas em diversas praças de touros espalhadas pelo país, assim como os espetáculos que se organizam em todo o território espanhol. A seguir, vemos uma escultura que representa a tradicional festa da “Vaquilla del Ángel“, organizada na cidade de Teruel (Aragón), cujo início se remonta ao ano 1679.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO ambiente taurino também foi abundantemente recriado na tradicional música espanhola, como na Zarzuela e no Flamenco. Na literatura, em obras de escritores consagrados como Lope de Vega, Cervantes, Rafael Alberti, Vicente Blasco Ibáñez, somente para citar alguns. Nas denominadas Artes Decorativas, os touros aparecem como elementos que embelezam espaços vinculados à tauromaquia, como nas Tabernas, como tivemos oportunidade de salientar…

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O Encierro de Pamplona

Um dos espetáculos taurinos mais conhecidos dentro e fora da Espanha, o Encierro de Pamplona é uma das festas mais populares do país, reconhecida como de Interesse Turístico Internacional. Os chamados Encierros constituem uma festa em que os touros correm pelas ruas das cidades e dos povoados do país, acompanhados por uma multidão de corajosos e, muitas vezes, inconsequentes cidadãos. Normalmente, finalizam o trajeto dentro da praça de touros da localidade. Abaixo, vemos uma foto antiga de um encierro realizado num povoado da Comunidade de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Encierro de Pamplona, capital e maior cidade da Comunidade de Navarra, realiza-se dentro do conjunto de festividades em honra ao padroeiro de Navarra, San Fermín, motivo pelo qual são também denominados Sanfermines. As festas começam com o lançamento de um pequeno foguete chamado chupinazo, que se organiza desde o balcão do edifício sede da Prefeitura de Navarra, às 12:00hs do dia 6 de julho. A multidão que se concentra na praça situada em frente ao Ayuntamiento aguarda ansiosa e com muito ruído o começo da festa. Abaixo, vemos o belo edifício do Ayuntamiento de Pamplona.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO encierro propriamente dito realiza-se pelas ruas do centro histórico da cidade, num trajeto de 849m, e os touros e os milhares de acompanhantes finalizam o percurso na Plaza de Toros de Pamplona, onde depois se organiza uma corrida de touros com os animais que participaram do encierro. Apesar de ser um espetáculo antigo, sua fama mundial é recente, divulgada ao mundo graças ao escritor americano Ernest Hemingway depois do lançamento de seu primeiro  livro de importância em 1926, intitulado “Fiesta” em espanhol e “The Sun Also Rises“, no original em inglês. Abaixo, vemos um monumento em Pamplona que homenageia o esperado acontecimento.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua origem é medieval, estando relacionada com três fatos, os atos religiosos em honra a San Fermín, realizados antes do século XII, as feiras comerciais e as touradas, documentadas em Pamplona desde o século XIV. Na Idade Média, os pastores navarros traziam os touros dos campos até a Plaza Mayor de Pamplona, que servia de coso taurino, ao não existir então um local apropriado para as touradas. Na noite anterior à tourada, acampavam próximo à cidade e, ao amanhecer, os touros eram levados e acompanhados por gente que montados a cavalo ou à pé, ajudavam a que os animais fossem colocados nos currais (foto abaixo de Jim Hollander).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA partir do século XIX, as pessoas começaram a correr dos touros pela parte dianteira, ao invés de atrás, como habitualmente se realizava antes, transformando-se num costume popular. Antigamente a tradição se chamava “Entrada” e em 1856 passou a denominar-se “Encierro“. Durante a festa, a população da cidade, de aproximadamente 200 mil habitantes, se multiplica por 5 com a chegada de turistas estrangeiros. Muitos deles, depois de criar coragem com uma boa quantidade de cerveja, decidem correr junto aos touros, e os acidentes são inevitáveis…(foto de Jim Hollander).

OLYMPUS DIGITAL CAMERADesde que existem registros oficiais, a partir de 1924, se contabilizam o falecimento de 15 pessoas no Encierro de Pamplona. Os touros realizam o trajeto em cerca de 4 minutos aproximadamente, estando proibido maltratar o touro durante o percurso, como puxar o rabo, subir em cima dele, etc. Os 6 touros participantes são acompanhados por outros 6 animais mansos que servem de guias para os demais e também para tranquilizar os touros bravos (foto abaixo de Jim Hollander).

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo filme “Dia e Noite“, de 2010, protagonizado por Tom Cruise e Cameron Díaz, aparecem cenas do Encierro de Pamplona, mas que foram filmados em Sevilha (???)….No dia 14 de julho, às 24:00hs, realiza-se o encerramento das festividades. No Youtube existe uma grande quantidade de vídeos das Festas de San Fermín de Pamplona. Escolhi um para que possam ver a inauguração da festa…

Toureiros famosos da Espanha – Parte 2

Neste segundo post sobre os Toureiros de maior renome da Espanha veremos outras personañidades do mundo taurino que  se destacaram na história da tauromaquia. Um deles foi Juan Belmonte (1892/1962), um toureiro nascido em Sevilha, considerado um dos mais populares da história e um dos renovadores da arte de torear à pé. Muitos o consideram o fundador do Toreo Moderno e liderou, junto com Joselito, a idade de ouro das touradas no início do século XX. Sua carreira profissional desenvolveu-se entre 1913 e 1936, ano em que se retirou definitivamente. Em 1919, chegou a participar de 109 touradas, uma cifra recorde na época. Foi o primeiro em torear estando imóvel junto ao touro, cujo estilo foi culminado por Manolete. Foi um grande amigo do escritor americano Ernest Hemingway, e aparece em duas de suas novelas, “Morte na Tarde ” e “Festa“. Em 1962, a ponto de cumprir 70 anos, se suicidou com um disparo. No filme “Meia noite em Paris“, de Woody Allen, Juan Belmonte foi representado pelo ator Daniel Lundh. Abaixo, vemos a Juan Belmonte na Plaza de Toros de Madrid (foto de Baldomero).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das dinastias taurinas mais famosas da história foi a família dos Ordóñez, originária de Ronda, encabeçada por Cayetano Ordóñez (1904/1961). Ficou conhecido pelo apelido “El Niño de la Palma“. Seu pai possuía uma loja de sapatos chamada “La Palma“, fato que explica o apelido. Abaixo, vemos uma escultura que lhe rende homenagem, situada em frente à Plaza de Toros de Ronda

OLYMPUS DIGITAL CAMERATeve 6 filhos, dos quais nada menos que 5 foram toureiros. O mais famoso de todos foi Antonio Ordóñez (1932/1998), que cresceu num ambiente taurino, presenciando as glórias de seu pai. Antonio triunfou em numerosas praças de touros, especialmente na de Madrid. Retirou-se de forma definitiva em 1981, momento em que passa a dedicar-se à ganadería e administrar a Plaza de Toros de Ronda, que havia adquirido. Considerado um dos maiores toureiros do século XX, Antonio Ordóñez possuía uma técnica perfeita, e também foi homenageado com uma escultura na Plaza de Toros de Ronda

OLYMPUS DIGITAL CAMERAVárias personalidades americanas do mundo artístico contribuíram para a divulgação das touradas, como o cineasta Orson Welles (1915/1985), autor do filme “Cidadão Kane“, uma obra fundamental da sétima arte. Sua amizade com Antonio Ordóñez foi de tal magnitude que suas cinzas foram depositadas numa fazenda situada em Ronda, pertencente ao toureiro. Abaixo, vemos uma imagem (carente de qualidade pela luz que incide no vidro que a protege) do grande cineasta americano assistindo uma tourada…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro grande admirador de Antonio Ordóñez foi o já mencionado escritor Ernest Hemingway (1899/1961), um grande apaixonado pelo país, seus costumes e tradições. Hemingway foi correspondente durante a Guerra Civil Espanhola (1936/1939) e um conhecido defensor da causa republicana. Abaixo vemos uma foto do escritor com Antonio Ordóñez (à direita) e seu pai Cayetano (à esquerda da foto)…

20190222_130947Na foto abaixo, vemos a Hemingway com Antonio Ordóñez

20190222_131325Outra das maiores rivalidades históricas das touradas foi protagonizada por Antonio Ordóñez e Luis Miguel “Dominguín”, motivo de inspiraçao para a obra “Verao Perigoso” de Hemingway, o último livro por ele escrito (1959/1960) e publicado póstumamente em 1985. Antonio Ordóñez era cunhado de Luis Miguel “Dominguín”, pois este casou-se com sua irma, Carmen Ordóñez. A seguir, uma foto de ambos toureiros…

20190222_131236Luis Miguel “Dominguín” (1926/1996) tornou-se famoso também por sua vida amorosa e sentimental, e suas relações com várias artistas de Hollywood agitaram a sociedade espanhola da época, como Rita Hayworth e Lauren Bacall. Seu romance com Ava Gardner tornou-se lendário. Se conta que na primeira noite com a atriz americana levantou-se da cama e preparava-se para sair do hotel, quando Ava Gardner lhe perguntou aonde se dirigia, e Dominguín respondeu que a contar aos demais a “façanha”. Dominguín foi um dos matadores mais  populares dos anos 40 e 50,  filho do também toureiro Domingo González “Dominguín” e pai do cantor Miguel Bosé. Seu êxito nas arenas taurinas foi tal que chegou a sair 5 vezes pela Porta Grande da Plaza de Toros de Las Ventas de Madrid. Retornando a Hemingway, o escritor foi assíduo frequentador das Tabernas de Madrid.  Uma de suas preferidas chamava-se “El Callejón“, como podemos ver na foto abaixo, junto com seu amigo Antonio Ordóñez, no lado direito da imagem.

20190222_131217Depois que a taberna foi fechada por seu proprietário espanhol nos anos 90, um cubano comprou o imóvel e o converteu num restaurante de gastronomía típica de seu país, chamado “Cuando salí de Cuba“. O busto em homenagem ao escritor, bem como uma grande quantidade de fotos da vida de Hemingway, algumas das quais aparecem nesta matéria (e que gentilmente me permitiram publicar) ainda podem ser admiradas no local.

20190222_131344Depois de conhecer o restaurante há alguns anos atrás, tornei-me um cliente habitual do mesmo…

20190222_135225O restaurante oferece um simpático atendimento e menus diários que custam 11 euros (dois pratos a escolher, bebida e sobremesa incluídas). Normalmente escolho batata com carne moída de primeiro prato e “Ropa Vieja” de segundo (carne desfiada com arroz branco, uma coisa rara na cidade). Realmente, uma delícia…

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Plazas de Toros de Madrid

Madrid é a capital mundial das touradas, e a Plaza de Toros de Las Ventas é considerada a mais importante do mundo (matéria publicada em 21/5/2012). Esta foi a terceira Plaza de Toros permanente que teve Madrid, e no post de hoje veremos as antigas Plazas de Toros que existiram na capital espanhola, além de imagens da atual Plaza de Toros de Las Ventas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAntigamente, as Plazas de Toros foram construídas em madeira e eram desmontáveis. Não se sabe com certeza onde esteve localizada a primeira Praça de Touros de Madrid. Segundo alguns autores, foi projetada pelo renomado arquiteto espanhol Pedro de Ribera em 1737, cuja enorme contribuição para o urbanismo da capital espanhola foi o tema de dois posts publicados em 23 e 24/6/2015. Esta primeira Praça de Touros tinha um caráter provisório e estava situada junto ao Rio Manzanares. Possuía uma capacidade para receber 11 mil espectadores e foi a base construtiva para as demais Praças de Touros de formato circular. Foi utilizada apenas durante 12 anos, já que em 1749, com o apoio do Rei Fernando VI, se construiu a primeira praça estável de Madrid,  situada junto à emblemática Porta de Alcalá, como vemos abaixo na imagem.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta praça carecia de qualquer interesse arquitetônico, pois sua construção foi puramente funcional. Se manteve em atividade até 1874, quando as corridas de touros foram levadas a uma nova Praça de Touros. Foi derrubada dentro do processo de ampliação urbana da cidade e da construção do novo Bairro de Salamanca. A seguir vemos uma maquete da Praça de Touros da Porta de Alcalá, que podemos ver no Museu de História de Madrid, e uma placa comemorativa em sua localização original.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA segunda Plaza de Toros permanente de Madrid chamava-se “Plaza de Toros de la Fuente del Berro“, e se encontrava no espaço atualmente ocupado pelo Palácio de Deportes da Comunidade de Madrid, que vemos abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta nova praça tinha capacidade para acolher a 13 mil espectadores e inaugurou o estilo neomudéjar para as Praças de Touros. O denominado estilo mudéjar desenvolveu-se entre os séculos XII e XVI, e se considera um estilo artístico autóctono e exclusivo do país. Foi utilizado nos edifícios religiosos (igrejas), na arquitetura civil (palácios) e também militar (muralhas). Suas construções utilizavam o tijolo como elemento construtivo e decorativo, incorporando características da arquitetura muçulmana, como o denominado Arco de Ferradura. A partir do século XIX, dentro do processo histórico da arquitetura, se realizou uma interpretação deste estilo (neomudéjar), originando diversas construções que ainda podemos admirar pela Espanha, como em muitas das praças de touros ainda existentes. Abaixo, vemos uma foto desta segunda praça permanente que teve Madrid, construída em 1874.

DSC07969A última tourada realizada nesta praça ocorreu em 1934. Com o grande aumento populacional verificado na primeira metade do século XX, surgiu a necessidade de se construir uma nova e maior Plaza de Toros, a atual Plaza de Toros de Las Ventas.

20190130_084854Esta praça, a mais importante e de maior prestígio do mundo, recebeu este nome por estar situada no Bairro de “Las Ventas del Espíritu Santo“. Com capacidade para acolher a 23 mil espectadores, é a maior de toda a Espanha, e nela atuaram e continuam apresentando-se os toureiros mais famosos do país. Apesar disso, a maior de todo o mundo é a Plaza de Toros Monumental da Cidade do México, com capacidade para 41 mil espectadores, construída em 1946. Abaixo, vemos uma foto do interior da Plaza de Las Ventas, com destaque para o Palco Real.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFoi projetada no estilo neomudéjar pelo arquiteto José Espeliú e finalizada por Manuel Muñoz Monasterio, depois do falecimento do primeiro arquiteto em 1928. Abaixo, vemos uma foto antiga tirada logo depois de finalizadas as obras, em 1929.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADevido à falta de infraestrutura urbana desta parte da cidade, a primeira corrida de touros foi realizada em 1931, mas a praça somente foi oficialmente inaugurada em 1934.

IMG_3450No exterior da Plaza de Las Ventas vemos diversas esculturas que homenageiam toureiros famosos, como o toureiro francês de origem espanhol José Cubero Sánchez (1964/1985), conhecido como “El Yiyo“. Com apenas 21 anos, e no auge de sua carreira e popularidade, foi morto por um touro na Plaza de Toros de Colmenar Viejo, um município da Comunidade de Madrid.

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Plazas de Toros de España

Neste novo post sobre o mundo dos touros, veremos algumas das Plazas de Toros mais importantes do país, além de outras existentes nos povoados espanhóis, que caracterizam-se pelo tamanho reduzido e simplicidade construtiva, além de algumas de suas plazas históricas. Esta matéria será dividida em vários posts, devido a quantidade de locais que gostaria de publicar. As Plazas de Toros (original em espanhol) foram construídas a partir do século XVIII para acolher festividades taurinas como as corridas de touros ou touradas. Apesar disso, atualmente servem também como local para eventos diversos, como concertos musicais, como vemos na foto abaixo, em que aparece a Plaza de Toros de Las Ventas de Madrid como o local escolhido para a realização de uma feira.

20160611_164219Em 1961, a Plaza de Toros de Toledo foi palco para uma apresentação dos Harlem Globetrotters

20190117_122335Segundo informaçao que obtive na internet, existem 1727 plazas de toros espalhadas pelo país. Mesmo nos pequenos povoados vemos praças nas quais os habitantes podem presenciar festejos taurinos, como a Plaza de Toros de Fuentidueña del Tajo (conhecida como “La Ribereña“), um povoado situado na Comunidade de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs plazas de toros estão classificadas em diversas categorias, dependendo do tamanho, antiguidade, tradição taurina e o número de festividades anuais que acolhe. As mais importantes do país receberam a distinção de plazas de primeira categoria. Abaixo, vemos a Plaza de Toros de Navalcarnero (Comunidade de Madrid), inaugurada em 2006. Possui capacidade para 7500 espectadores e é considerada de terceira categoria.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMorella, um belíssimo povoado da Comunidade Valenciana, possui uma praça de mais de 100 anos. Integra o patrimônio histórico do povoado, mas sua arena é pequena e  não preenche o requisito básico de ter, como mínimo, 30 m de diâmetro.

 

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlgumas praças de touros são verdadeiramente curiosas, como a de Brihuega, um povoado de Castilla La-Mancha, conhecida como “La Muralha“, pois foi construída com materiais construtivos similares ao da muralha medieval que a rodeia. Edificada em apenas 200 dias, é considerada a maior da Província de Guadalajara, com capacidade para receber 7 mil espectadores. Inaugurada em 1965, é uma praça de terceira categoria.

DSC08111DSC08271Para a construção de algumas praças foram utilizados materiais originários provenientes de edifícios históricos, caso da Plaza de Toros de Medina de Rioseco  (Castilla y León), na qual se utilizou pedras do antigo castelo da localidade. De formato poligonal com 10 lados, foi inaugurada em 1858 (capacidade para 5500 espectadores, de terceira categoria).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAConhecida como “La Chata“, a Plaza de Toros de Albacete, cidade castelhana com grande tradição taurina, se destaca pela grande quantidade de touradas anuais que acolhe, mais que muitas praças de primeira categoria. Foi inaugurada em 1917 e sua construção segue o estilo neomudéjar.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA cidade de Toledo (Castilla La-Mancha), famosa por seu impressionante patrimônio histórico-artístico, organizou uma tourada em 1566 para celebrar o nascimento da Infanta Clara Eugênia, filha do monarca Felipe II. Até 1865, as touradas eram realizadas na Plaza del Zocodover, a principal praça da cidade. Em 1866, se construiu a Plaza de Toros de Toledo, com capacidade para 8530 espectadores, sendo considerada de segunda categoria.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERATambém do século XIX, a Plaza de Toros de Valencia é um exemplo de praça de primeira categoria. Inaugurada em 1859, possui capacidade para 17 mil espectadores, sendo considerada uma das maiores da Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADe estilo neoclássico e formato poligonal, sua construção foi inspirada na arquitetura civil romana, como os anfiteatros. Possui 384 arcos feitos de tijolo, o principal material construtivo do edifício.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta praça é visitável e possui um excelente Museu Taurino, inaugurado em 1929 e considerado um dos pioneiros no país, contando com um acervo de mais de 3 mil peças.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo exterior da praça vemos um monumento em homenagem ao banderillero valenciano Manolo Montoliu, personagem muito querido pelos valencianos e que faleceu na Praça de Touros de Sevilha em 1992.

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As Corridas de Touros – Parte 2

Nesta segunda matéria sobre as Corridas de Touros, veremos as partes que constituem o espetáculo taurino. Para tanto, contarei com fotos antigas que foram consideradas pioneiras do fotojornalismo na Espanha e que retratam um período de glória das touradas no país, além de outras fotos coloridas, realizadas por Jim Hollander.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs corridas de touros se dividem em três partes denominadas “Tercios“. Depois que o presidente da tourada mostra o lenço branco, ocorre o desfile dos participantes do espetáculo, como vimos no post anterior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA primeira parte denomina-se “Tercio de Varas“, e nela os “Picadores” entram no ruedo montados à cavalo, protegidos com roupas especiais que evitam episódios mortais com estes animais, algo que frequentemente ocorria no passado. Este costume passou a ser obrigatório a partir de 1928. Durante muito tempo, os “Picadores” eram considerados personagens de grande relevância numa tourada (foto abaixo de Hauser y Menet – 1900).

OLYMPUS DIGITAL CAMERANesta primeira parte da tourada, os “Picadores” com uma vara longa debilitam a fortaleza física dos touros, sem causar-lhe um dano excessivo. (foto abaixo de Jean Laurent – 1880).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs “Picadores” iniciam sua retirada da arena depois que o presidente considera que o castigo recebido pelo touro foi suficiente. Começa, então, o segundo tercio com a entrada dos “Banderilleros“, portando umas lanças menores feitas de madeira chamadas “Banderillas” (foto abaixo de Ruiz Vernacci – 1910).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta parte é tão antiga quanto as próprias touradas, e já no final do século XVII se utilizavam as banderillas para castigar o touro. Nos dois primeiros tercios, os picadores e banderilleros recebem o veredito do público sobre suas atuações em forma de palmas, vaias ou o silêncio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA última parte da tourada é formada pelo “Tercio de Muletas“, com a entrada do toureiro matador. Antes de sua estocada, o golpe mortal efetuado com sua espada, o toureiro realiza uma série de passes, como vemos na foto acima e abaixo (foto de Alfonso, na qual parece o famoso toureiro Juan Belmonte na Plaza de Toros de Madrid).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA qualidade de uma estocada é valorizada de acordo com alguns critérios: o local exato de inserção da espada, o ângulo que forma a espada com a coluna vertebral do animal e o grau em que a espada penetra na pele do touro. Se considera a “estocada perfeita” quando a espada forma um ângulo de 45 graus, e a morte do animal deve ser instantânea. Este momento crucial exige muita precisão por parte do toureiro. Abaixo vemos novamente a Juan Belmonte realizando uma estocada na Plaza de Toros de Las Ventas de Madrid em 1934 (foto de Baldomero).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAQuando o touro finalmente é arrastado da arena, chega o momento em que o público se manifesta sobre a atuação do toureiro, que pode variar muito, mas é sempre ruidosa. Caso a opinião geral seja unânime, o público lhe dedica uma grande ovação. Caso seja suficientemente intensa, o toureiro dá uma volta inteira na arena. Se o público considera uma atuação extraordinária, solicitará uma orelha ao toureiro e, em raras oportunidades, ambas orelhas. Abaixo, vemos um cartaz feito de azulejo na Plaza de Toros de Las Ventas de Madrid, no qual aparecem o nome dos toureiros que foram congratulados com as duas orelhas desde a inauguração da praça em 1931, algo difícil de suceder.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAQuando o touro demonstra uma bravura extraordinária, por uma petiçao do público ou do próprio toureiro, o animal recebe um indulto, isto é, sua vida é perdoada e o touro passa a ser utilizado como reprodutor. Este fato propicia um grande prestígio para a ganaderia na qual o touro foi criado. Finalizado o espetáculo, os grande triunfadores aguardam o prêmio mais cobiçado, saindo carregado pela multidão pela “Porta Grande” da Plaza de Toros (foto abaixo: Juan Belmonte na Plaza de Toros de Toledo em 1918, imagem de Baldomero).

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