Touros: Críticas e Controvérsias

Neste último post sobre esta extensa série sobre o mundo dos touros na Espanha veremos que mesmo no país as críticas e em relação às touradas sempre estiveram presentes em vários momentos históricos, apesar da grande popularidade da prática taurina, gerando controvérsias no âmbito da sociedade espanhola. Antes, porém, gostaria de mencionar algumas expressões coloquiais utilizadas no cotidiano e seu significado e que se originaram da tauromaquia. Por exemplo:

– “Cada toro tiene su lidia“: significa que cada pessoa ou situação é distinta das demais e requer um tratamento diferenciado

-“Coger el toro por los cuernos“: enfrentar de forma decidida a um problema, resolvendo-o de uma vez por todas.

-“Quedar para el arrastre“: quando uma pessoa encontra-se esgotada fisicamente.

-“Darle cornadas al viento“: realizar atos ou emitir frases ou palavras totalmente inúteis, ineficazes ou banais.

-“El toro de cinco y el torero de veinticinco“: contundente expressao destinada a estabelecer que cada coisa deve ser realizada no momento adequado.

20151218_085226As primeiras proibições documentadas das touradas na Espanha partiram da Igreja Católica no século XVI, quando em 1567 o Papa Pio V decretou que os participantes e espectadores de uma tourada seriam excomungados. Em 1575, ante a reação das autoridades espanholas, o Papa Gregório XIII se viu obrigado a moderar o decreto, excluindo da excomunhão aos laicos e reservando a pena somente aos religiosos e sacerdotes. Enquanto os monarcas da Dinastia dos Habsburgos eram adeptos das corridas de touros, os reis da Dinastia Bourbônica desprezavam os espetáculos por considerarem indignos, pelo qual Felipe V proibiu em 1723 sua realização. Já o Rei Fernando VI apenas consentiu a prática das touradas em troca que seus ingressos fossem destinados a obras de caridade, como a construção de hospitais. Em 1771, Carlos III proibiu novamente as touradas. Posteriormente, diversas propostas antitaurinas foram abolidas, por serem consideradas antipopulares.

20170528_191642 No século XX, a era dourada das touradas na Espanha, durante o governo de Franco e mais tarde no período democrático, era possível assistir touradas ao vivo pela TV. Em 2006, a RTVE (Radio e TV Espanhola) proibiu a emissão de touradas ao vivo em horários considerados de proteção para a infância (entre 17 e 20hs). No entanto, algumas cadeias autônomas permanecem realizando transmissões ao vivo de touradas de forma regular, como o canal de TV de Castilla La Mancha. A maior parte das transmissões, no entanto, é realizada pelo canal pago “canal + toros”. Atualmente proibida em muitos países, em 2004 a cidade de Barcelona declarou-se antitaurina, depois de uma petição popular  e em 2010 o Parlamento da Catalunha proibiu as corridas de touros em toda a comunidade. Numa pesquisa realizada no começo do século XXI, 31% dos espanhóis se mostraram interessados em relação às touradas, enquanto 69% eram indiferentes. O perfil das pessoas que acompanham as touradas na Espanha é predominantemente masculino, dentro de uma faixa etária superior aos 45 anos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInvariavelmente, as reações às touradas variam da repulsa à fascinação que provocam, e atualmente muitos são os estrangeiros que presenciam as touradas, utilizadas como propaganda turística. É verdade que quase todos os toureiros são corneados ao menos uma vez por temporada. O toureiro Juan Belmonte foi corneado mais de 50 vezes em sua carreira profissional. Desde 1700, 42 toureiros perderam sua vida na arena, sem contar picadores e banderilleros. Por outro lado, mais de 3 mil touros morrem anualmente nas temporadas taurinas. Um dos espetáculos taurinos que mais controvérsias suscitam atualmente é o chamado “Toro de la Vega“, realizado na cidade de Tordesillas (Tordesilhas, em português, a mesma do famoso tratado assinado por Portugal e Espanha em 1494). Esta festividade foi mencionada por primeira vez em 1534 e realiza-se anualmente no mês de setembro dentro das celebrações em honra à padroeira da localidade, N.Sra de la Peña. Abaixo, vemos uma foto da cidade de Tordesillas

OLYMPUS DIGITAL CAMERANeste tipo de espetáculo taurino, os touros partem da Plaza Mayor da cidade, sendo conduzido pelos habitantes locais atravessando a ponte sobre o Rio Duero (que vemos na foto acima) até os campos, onde se realiza uma caça e perseguição aos animais. Caso os touros consigam escapar das investidas, recebem o indulto, isto é, sua vida é perdoada, algo que normalmente não sucede. No século XXI, o “Toro de la Vega” adquiriu um grande protagonismo nos meios de comunicação e junto às associações de proteção aos animais, que denunciaram o cruel sofrimento a que sao submetidos. Em 2016, se proibiu a morte dos touros durante os festejos. Abaixo, vemos um monumento em homenagem ao “Toro de la Vega“…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAQual o futuro das touradas e dos espetáculos taurinos na Espanha ? As próximas gerações permanecerao fiéis à tradição ou a maioria de seus habitantes serão partidários em abolir este tradicional costume espanhol ?

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta é uma pergunta difícil de responder e somente o tempo dirá qual será o comportamento dos espanhóis e a futura realidade dos espetáculos taurinos. Se atualmente as touradas não gozam do mesmo prestígio que teve em épocas passadas, ainda podemos considerar a Espanha como o País dos Touros

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Toureiros famosos da Espanha – Parte 2

Neste segundo post sobre os Toureiros de maior renome da Espanha veremos outras personañidades do mundo taurino que  se destacaram na história da tauromaquia. Um deles foi Juan Belmonte (1892/1962), um toureiro nascido em Sevilha, considerado um dos mais populares da história e um dos renovadores da arte de torear à pé. Muitos o consideram o fundador do Toreo Moderno e liderou, junto com Joselito, a idade de ouro das touradas no início do século XX. Sua carreira profissional desenvolveu-se entre 1913 e 1936, ano em que se retirou definitivamente. Em 1919, chegou a participar de 109 touradas, uma cifra recorde na época. Foi o primeiro em torear estando imóvel junto ao touro, cujo estilo foi culminado por Manolete. Foi um grande amigo do escritor americano Ernest Hemingway, e aparece em duas de suas novelas, “Morte na Tarde ” e “Festa“. Em 1962, a ponto de cumprir 70 anos, se suicidou com um disparo. No filme “Meia noite em Paris“, de Woody Allen, Juan Belmonte foi representado pelo ator Daniel Lundh. Abaixo, vemos a Juan Belmonte na Plaza de Toros de Madrid (foto de Baldomero).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das dinastias taurinas mais famosas da história foi a família dos Ordóñez, originária de Ronda, encabeçada por Cayetano Ordóñez (1904/1961). Ficou conhecido pelo apelido “El Niño de la Palma“. Seu pai possuía uma loja de sapatos chamada “La Palma“, fato que explica o apelido. Abaixo, vemos uma escultura que lhe rende homenagem, situada em frente à Plaza de Toros de Ronda

OLYMPUS DIGITAL CAMERATeve 6 filhos, dos quais nada menos que 5 foram toureiros. O mais famoso de todos foi Antonio Ordóñez (1932/1998), que cresceu num ambiente taurino, presenciando as glórias de seu pai. Antonio triunfou em numerosas praças de touros, especialmente na de Madrid. Retirou-se de forma definitiva em 1981, momento em que passa a dedicar-se à ganadería e administrar a Plaza de Toros de Ronda, que havia adquirido. Considerado um dos maiores toureiros do século XX, Antonio Ordóñez possuía uma técnica perfeita, e também foi homenageado com uma escultura na Plaza de Toros de Ronda

OLYMPUS DIGITAL CAMERAVárias personalidades americanas do mundo artístico contribuíram para a divulgação das touradas, como o cineasta Orson Welles (1915/1985), autor do filme “Cidadão Kane“, uma obra fundamental da sétima arte. Sua amizade com Antonio Ordóñez foi de tal magnitude que suas cinzas foram depositadas numa fazenda situada em Ronda, pertencente ao toureiro. Abaixo, vemos uma imagem (carente de qualidade pela luz que incide no vidro que a protege) do grande cineasta americano assistindo uma tourada…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro grande admirador de Antonio Ordóñez foi o já mencionado escritor Ernest Hemingway (1899/1961), um grande apaixonado pelo país, seus costumes e tradições. Hemingway foi correspondente durante a Guerra Civil Espanhola (1936/1939) e um conhecido defensor da causa republicana. Abaixo vemos uma foto do escritor com Antonio Ordóñez (à direita) e seu pai Cayetano (à esquerda da foto)…

20190222_130947Na foto abaixo, vemos a Hemingway com Antonio Ordóñez

20190222_131325Outra das maiores rivalidades históricas das touradas foi protagonizada por Antonio Ordóñez e Luis Miguel “Dominguín”, motivo de inspiraçao para a obra “Verao Perigoso” de Hemingway, o último livro por ele escrito (1959/1960) e publicado póstumamente em 1985. Antonio Ordóñez era cunhado de Luis Miguel “Dominguín”, pois este casou-se com sua irma, Carmen Ordóñez. A seguir, uma foto de ambos toureiros…

20190222_131236Luis Miguel “Dominguín” (1926/1996) tornou-se famoso também por sua vida amorosa e sentimental, e suas relações com várias artistas de Hollywood agitaram a sociedade espanhola da época, como Rita Hayworth e Lauren Bacall. Seu romance com Ava Gardner tornou-se lendário. Se conta que na primeira noite com a atriz americana levantou-se da cama e preparava-se para sair do hotel, quando Ava Gardner lhe perguntou aonde se dirigia, e Dominguín respondeu que a contar aos demais a “façanha”. Dominguín foi um dos matadores mais  populares dos anos 40 e 50,  filho do também toureiro Domingo González “Dominguín” e pai do cantor Miguel Bosé. Seu êxito nas arenas taurinas foi tal que chegou a sair 5 vezes pela Porta Grande da Plaza de Toros de Las Ventas de Madrid. Retornando a Hemingway, o escritor foi assíduo frequentador das Tabernas de Madrid.  Uma de suas preferidas chamava-se “El Callejón“, como podemos ver na foto abaixo, junto com seu amigo Antonio Ordóñez, no lado direito da imagem.

20190222_131217Depois que a taberna foi fechada por seu proprietário espanhol nos anos 90, um cubano comprou o imóvel e o converteu num restaurante de gastronomía típica de seu país, chamado “Cuando salí de Cuba“. O busto em homenagem ao escritor, bem como uma grande quantidade de fotos da vida de Hemingway, algumas das quais aparecem nesta matéria (e que gentilmente me permitiram publicar) ainda podem ser admiradas no local.

20190222_131344Depois de conhecer o restaurante há alguns anos atrás, tornei-me um cliente habitual do mesmo…

20190222_135225O restaurante oferece um simpático atendimento e menus diários que custam 11 euros (dois pratos a escolher, bebida e sobremesa incluídas). Normalmente escolho batata com carne moída de primeiro prato e “Ropa Vieja” de segundo (carne desfiada com arroz branco, uma coisa rara na cidade). Realmente, uma delícia…

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Toureiros famosos da Espanha

No post de hoje, e no próximo, veremos alguns dos toureiros mais famosos da Espanha. Muitos deles fizeram parte de famílias que constituíram verdadeiras dinastias taurinas, caso de Pedro Romero (1754/1839), membro de uma ilustre família de toureiros, iniciada com seu avô Francisco Romero (1700/1763). Nascidos em Ronda, cidade considerada o berço da moderna arte de torear, suas inovações, como o uso do estoque para matar o animal inaugurada por Francisco, foram fundamentais para a história da tauromaquia. Em 1795, Pedro Romero inaugurou a Plaza de Toros de Ronda, uma das praças históricas do país. Para muitos estudiosos trata-se do toureiro mais completo de todos. É provável que em sua vida tenha matado a mais de 5 mil touros, e nunca foi ferido numa tourada. Faleceu em 1839, com a idade de 84 anos. Abaixo, vemos um quadro de Pedro Romero exposto no Museu Taurino da Plaza de Toros de Ronda.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos espetáculos taurinos mais vistosos que ainda existem são as chamadas “Corridas Goyescas“, em que os participantes utilizam trajes que foram retratados nos gravados do grande pintor Francisco de Goya. Este tipo de vestimenta surgiu em Madrid no século XVIII e foi utilizado pela burguesia até o século XIX, quando então seu uso se propagou ao resto da Espanha. A primeira “Corrida Goyesca” celebrou-se na Plaza de Toros de Murcia em 1929, para comemorar o centenário da morte do genial artista aragonês. Especialmente famosa é a realizada em Ronda, sendo que a primeira foi organizada em 1954, para comemorar o segundo centenário de nascimento de Pedro Romero.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMuitos dos toureiros mais famosos da Espanha tiveram um trágico destino em plena praça de touros, fato que colaborou para perpetuar a fama conquistada na arena. Este é o caso de José Gómez Ortega (1895/1920), mais conhecido como “Joselito“. Também representante de uma família dedicada ao mundo dos touros, é considerado um dos maiores toureiros da Espanha. Travou junto com o toureiro Juan Belmonte (1892/1962) uma rivalidade histórica no começo do século XX, a época dourada das touradas. Abaixo vemos a “Joselito” toureando na Plaza de Toros de Madrid (imagem tirada pelo fotógrafo Alfonso Sánchez Portela em 1914).

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo auge de sua trepidante carreira, e com apenas 25 anos,  “Joselito” foi morto na Plaza de Toros de Talavera de la Reina pelo touro “Bailaor” em 1920. A cada 16 de maio, dia de sua morte, ainda hoje se guarda um minuto de silêncio nas praças de touros de todo o país. Abaixo, vemos a “Joselito” na Praça de Touros de Sevilha (foto de Serrano).

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XX destaca, entre outros, a figura de Manuel Rodríguez Sánchez (1917/1947), conhecido como “Manolete“. Nasceu em Córdoba em 1917, sendo considerado um dos mais legendários e elegantes toureiros do país. Contribuiu de forma decisiva para o embelezamento das touradas ao incluir movimentos em que era capaz de manter-se praticamente imóvel quando o touro passava perto de seu corpo, realizando uma série de passos consecutivos. Abaixo, vemos uma estátua dedicada ao toureiro no Museu Taurino de Córdoba.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAManolete faleceu na Plaza de Toros de Linares (município situado na Província de Jaén, Andalucía) em 1947, numa corrida de touros que contou com a participação de outro grande matador, Luis Miguel “Dominguín”, quando sofreu uma grave lesão na artéria femural provocada pelo touro “Islero“. Apesar das várias transfusões de sangue recebida, o toureiro não resistiu. Atualmente, uma das teorias a respeito de sua morte diz que o toureiro faleceu devido à aplicação de uma transfusão incompatível com seu organismo. Em 1956, se inaugurou em Córdoba um monumento em sua homenagem, esculpido pelo artista Manuel Álvarez Laviada. Para  financiar sua execução, se realizou uma tourada, que arrecadou 800 mil pesetas…

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua morte provocou uma intensa comoção em todo o país. O General Franco decretou luto oficial de três dias, e Manolete  transformou-se num grande símbolo do pós guerra na Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAManolete se apresentou em inúmeras Praças de Touros da Espanha, mas foi na Praça Monumental da Cidade do México onde obteve seus maiores êxitos. Abaixo, vemos o cartaz da fatídica corrida de toros na Plaza de Toros de Linares.

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Plazas de Toros de España

Neste novo post sobre o mundo dos touros, veremos algumas das Plazas de Toros mais importantes do país, além de outras existentes nos povoados espanhóis, que caracterizam-se pelo tamanho reduzido e simplicidade construtiva, além de algumas de suas plazas históricas. Esta matéria será dividida em vários posts, devido a quantidade de locais que gostaria de publicar. As Plazas de Toros (original em espanhol) foram construídas a partir do século XVIII para acolher festividades taurinas como as corridas de touros ou touradas. Apesar disso, atualmente servem também como local para eventos diversos, como concertos musicais, como vemos na foto abaixo, em que aparece a Plaza de Toros de Las Ventas de Madrid como o local escolhido para a realização de uma feira.

20160611_164219Em 1961, a Plaza de Toros de Toledo foi palco para uma apresentação dos Harlem Globetrotters

20190117_122335Segundo informaçao que obtive na internet, existem 1727 plazas de toros espalhadas pelo país. Mesmo nos pequenos povoados vemos praças nas quais os habitantes podem presenciar festejos taurinos, como a Plaza de Toros de Fuentidueña del Tajo (conhecida como “La Ribereña“), um povoado situado na Comunidade de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs plazas de toros estão classificadas em diversas categorias, dependendo do tamanho, antiguidade, tradição taurina e o número de festividades anuais que acolhe. As mais importantes do país receberam a distinção de plazas de primeira categoria. Abaixo, vemos a Plaza de Toros de Navalcarnero (Comunidade de Madrid), inaugurada em 2006. Possui capacidade para 7500 espectadores e é considerada de terceira categoria.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMorella, um belíssimo povoado da Comunidade Valenciana, possui uma praça de mais de 100 anos. Integra o patrimônio histórico do povoado, mas sua arena é pequena e  não preenche o requisito básico de ter, como mínimo, 30 m de diâmetro.

 

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlgumas praças de touros são verdadeiramente curiosas, como a de Brihuega, um povoado de Castilla La-Mancha, conhecida como “La Muralha“, pois foi construída com materiais construtivos similares ao da muralha medieval que a rodeia. Edificada em apenas 200 dias, é considerada a maior da Província de Guadalajara, com capacidade para receber 7 mil espectadores. Inaugurada em 1965, é uma praça de terceira categoria.

DSC08111DSC08271Para a construção de algumas praças foram utilizados materiais originários provenientes de edifícios históricos, caso da Plaza de Toros de Medina de Rioseco  (Castilla y León), na qual se utilizou pedras do antigo castelo da localidade. De formato poligonal com 10 lados, foi inaugurada em 1858 (capacidade para 5500 espectadores, de terceira categoria).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAConhecida como “La Chata“, a Plaza de Toros de Albacete, cidade castelhana com grande tradição taurina, se destaca pela grande quantidade de touradas anuais que acolhe, mais que muitas praças de primeira categoria. Foi inaugurada em 1917 e sua construção segue o estilo neomudéjar.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA cidade de Toledo (Castilla La-Mancha), famosa por seu impressionante patrimônio histórico-artístico, organizou uma tourada em 1566 para celebrar o nascimento da Infanta Clara Eugênia, filha do monarca Felipe II. Até 1865, as touradas eram realizadas na Plaza del Zocodover, a principal praça da cidade. Em 1866, se construiu a Plaza de Toros de Toledo, com capacidade para 8530 espectadores, sendo considerada de segunda categoria.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERATambém do século XIX, a Plaza de Toros de Valencia é um exemplo de praça de primeira categoria. Inaugurada em 1859, possui capacidade para 17 mil espectadores, sendo considerada uma das maiores da Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADe estilo neoclássico e formato poligonal, sua construção foi inspirada na arquitetura civil romana, como os anfiteatros. Possui 384 arcos feitos de tijolo, o principal material construtivo do edifício.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta praça é visitável e possui um excelente Museu Taurino, inaugurado em 1929 e considerado um dos pioneiros no país, contando com um acervo de mais de 3 mil peças.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo exterior da praça vemos um monumento em homenagem ao banderillero valenciano Manolo Montoliu, personagem muito querido pelos valencianos e que faleceu na Praça de Touros de Sevilha em 1992.

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As Corridas de Touros – Parte 2

Nesta segunda matéria sobre as Corridas de Touros, veremos as partes que constituem o espetáculo taurino. Para tanto, contarei com fotos antigas que foram consideradas pioneiras do fotojornalismo na Espanha e que retratam um período de glória das touradas no país, além de outras fotos coloridas, realizadas por Jim Hollander.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs corridas de touros se dividem em três partes denominadas “Tercios“. Depois que o presidente da tourada mostra o lenço branco, ocorre o desfile dos participantes do espetáculo, como vimos no post anterior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA primeira parte denomina-se “Tercio de Varas“, e nela os “Picadores” entram no ruedo montados à cavalo, protegidos com roupas especiais que evitam episódios mortais com estes animais, algo que frequentemente ocorria no passado. Este costume passou a ser obrigatório a partir de 1928. Durante muito tempo, os “Picadores” eram considerados personagens de grande relevância numa tourada (foto abaixo de Hauser y Menet – 1900).

OLYMPUS DIGITAL CAMERANesta primeira parte da tourada, os “Picadores” com uma vara longa debilitam a fortaleza física dos touros, sem causar-lhe um dano excessivo. (foto abaixo de Jean Laurent – 1880).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs “Picadores” iniciam sua retirada da arena depois que o presidente considera que o castigo recebido pelo touro foi suficiente. Começa, então, o segundo tercio com a entrada dos “Banderilleros“, portando umas lanças menores feitas de madeira chamadas “Banderillas” (foto abaixo de Ruiz Vernacci – 1910).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta parte é tão antiga quanto as próprias touradas, e já no final do século XVII se utilizavam as banderillas para castigar o touro. Nos dois primeiros tercios, os picadores e banderilleros recebem o veredito do público sobre suas atuações em forma de palmas, vaias ou o silêncio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA última parte da tourada é formada pelo “Tercio de Muletas“, com a entrada do toureiro matador. Antes de sua estocada, o golpe mortal efetuado com sua espada, o toureiro realiza uma série de passes, como vemos na foto acima e abaixo (foto de Alfonso, na qual parece o famoso toureiro Juan Belmonte na Plaza de Toros de Madrid).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA qualidade de uma estocada é valorizada de acordo com alguns critérios: o local exato de inserção da espada, o ângulo que forma a espada com a coluna vertebral do animal e o grau em que a espada penetra na pele do touro. Se considera a “estocada perfeita” quando a espada forma um ângulo de 45 graus, e a morte do animal deve ser instantânea. Este momento crucial exige muita precisão por parte do toureiro. Abaixo vemos novamente a Juan Belmonte realizando uma estocada na Plaza de Toros de Las Ventas de Madrid em 1934 (foto de Baldomero).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAQuando o touro finalmente é arrastado da arena, chega o momento em que o público se manifesta sobre a atuação do toureiro, que pode variar muito, mas é sempre ruidosa. Caso a opinião geral seja unânime, o público lhe dedica uma grande ovação. Caso seja suficientemente intensa, o toureiro dá uma volta inteira na arena. Se o público considera uma atuação extraordinária, solicitará uma orelha ao toureiro e, em raras oportunidades, ambas orelhas. Abaixo, vemos um cartaz feito de azulejo na Plaza de Toros de Las Ventas de Madrid, no qual aparecem o nome dos toureiros que foram congratulados com as duas orelhas desde a inauguração da praça em 1931, algo difícil de suceder.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAQuando o touro demonstra uma bravura extraordinária, por uma petiçao do público ou do próprio toureiro, o animal recebe um indulto, isto é, sua vida é perdoada e o touro passa a ser utilizado como reprodutor. Este fato propicia um grande prestígio para a ganaderia na qual o touro foi criado. Finalizado o espetáculo, os grande triunfadores aguardam o prêmio mais cobiçado, saindo carregado pela multidão pela “Porta Grande” da Plaza de Toros (foto abaixo: Juan Belmonte na Plaza de Toros de Toledo em 1918, imagem de Baldomero).

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As Corridas de Touros

Depois de publicar matérias sobre os personagens principais de uma tourada, o touro e o toureiro, no post de hoje comentaremos sobre o espetáculo em si, sua organização e demais participantes. A Tourada ou Corrida de Touros é um dos espetáculos taurinos existentes, um evento que consiste em “lidiar” touros bravos, a pé ou a cavalo, num recinto fechado construído para tal finalidade, a Plaza de Toros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAComo espetáculo moderno realizado à pé, suas normas foram fixadas no século XVIII na Espanha, sendo que a tourada finaliza com a morte do touro. Também é praticada, devido a influência espanhola, em países sul-americanos como México, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela. Na Europa, além da Espanha, se realizam touradas em Portugal (onde geralmente não se mata o touro) e no sul da França, com  destaque para  a cidade de Arles, onde se organizam touradas no antigo anfiteatro romano.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs Corridas de Touros se classificam segundo a idade dos touros em “Becerradas“, “Novilladas” e as touradas propriamente ditas. Durante o espetáculo participam diversas pessoas com incumbências definidas, que seguem um rígido protocolo tradicional. O Toureiro é também conhecido como diestro, matador ou espada, e realiza a parte principal da tourada matando o touro com seu “estoque“. Geralmente, num evento taurino se “lidiam” 6 touros (quase sempre da mesma ganadería) por parte de 3 matadores.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma tourada é gerenciada pelo Presidente, geralmente um representante municipal e nomeado pela máxima autoridade civil da província onde se realiza o espetáculo. Conta com assessores que normalmente são um toureiro já retirado e uma pessoa do setor veterinário, também aposentado. Sua função principal é velar pelo regulamento da tourada em todos seus aspectos e manter a ordem dentro do recinto. Ordena o início da tourada e a mudança de tercios (como se conhecem as três partes que compõem uma tourada e que veremos no próximo post), além de conceder prêmios para os matadores (orelha e/ou rabo). Para tanto, conta com um jogo de lenços de cores variadas, através dos quais indica ao público as decisões pertinentes no decorrer da tourada. O público pode expressar aceitação ou desacordo com as decisões que foram tomadas através de palmas e vaias, respectivamente. Para dar início ao espetáculo, o presidente mostra um lenço branco, e começa o desfile de todos os participantes da corrida.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs pessoas que prestam auxílio ao toureiro matador são conhecidas como subalternos, e o conjunto do toureiro com os subalternos se chama quadrilla. Está composta por pessoas que atuam em determinados momentos da tourada, como os “Picadores“, que montados num cavalo, utilizam uma vara longa com uma parte metálica na ponta denominada “Puya“. Seu objetivo é castigar o touro, provar sua bravura e detectar as características do animal.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs denominados “Banderilleros” atuam no segundo tercio de uma tourada. Utilizam as “banderillas“, um pau cilíndrico feito de madeira com 70 cm de comprimento e decorados com papéis coloridos. Na ponta se coloca uma espécie de arpão para ser cravado na pele do touro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa terceira e definitiva parte de uma tourada, o toureiro matador é auxiliado pelo “Mozo de Espadas“, que colabora diretamente com o toureiro…

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Espanha – O País dos Touros

Poucos aspectos da cultura tradicional espanhola estão tão associados à imagem do país no estrangeiro como as touradas, aqui denominadas Corridas de Touros. Muitos de meus clientes me perguntam se atualmente as touradas continuam sendo realizadas na Espanha, e ficam surpresos quando a resposta é afirmativa. Se surpreendem ainda mais quando lhes comento que o desenlace final do espetáculo é a morte do touro. Apesar do desprezo de parte da sociedade espanhola e as críticas das associações de proteção à vida animal, o mundo dos touros continua gozando de saúde em boa parte do país, e o título de País dos Touros permanece em vigor.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs touradas constituem a expressão mais famosa, embora não seja a única, das festividades relacionadas com os touros. Particularmente, eu nunca presenciei uma tourada, pela crueldade do espetáculo e também porque não tenho “estômago” para vê-la. No entanto, reconheço sua importância como patrimônio cultural do país e tenho curiosidade por todos os aspectos relacionados à Tauromaquia, termo que designa a “Arte de lidiar Touros, tanto à pé, quanto à cavalo”. Em minhas viagens pelo país, sempre que posso visito as Plazas de Toros das cidades espanholas, os estádios construídos especialmente para os espetáculos taurinos, por sua importância histórica e arquitetônica e também por sua estética. Num sentido mais amplo, a tauromaquia envolve todo o processo prévio à realização das touradas, desde a criação dos touros, a confecção das vestimentas dos toureiros, a exibição de cartazes publicitários, etc.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADecidi, pois, realizar uma extensa série de posts abordando os mais variados aspectos da tauromaquia, desde as origens das touradas, passando pelas escolas mais importantes da arte de tourear, os toureiros mais famosos, as praças de touros de maior relevância, fatos curiosos e trágicos, além das críticas e controvérsias que sempre existiram envolvendo a prática dos espetáculos taurinos.

20190130_084655Neste post inicial, abordarei a origem das touradas e sua evolução histórica, que terá sua continuação na próxima publicação. O touro sempre foi um animal simbólico relacionado ao poder divino e à fertilidade, aparecendo um muitas culturas e em sua mitologia, como o famoso Touro de Creta e a lenda do Minotauro. As lutas rituais entre homem e animal representam o desejo humano de dominar a natureza. O antecedente direto do touro, o Uro, pastava pelas paisagens do continente europeu há milênios atrás e sua figura foi imortalizada por artistas pré-históricos na famosa Caverna de Altamira, situada na Cantábria, região norte da Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMatanças rituais com touros já eram realizadas na Mesopotâmia e na mencionada Ilha de Creta. Na Grécia antiga se praticavam sacrifícios rituais em honra a Zeus, a principal divindade da cultura helena. Em época romana, o Imperador Júlio César introduziu nos jogos circenses a luta entre o touro e o matador, armado com espada e escudo. A origem das corridas de touros na Espanha se remonta à cultura greco-latina que foi introduzida dentro do processo de romanizaçao da Península Ibérica, quando o atual território espanhol passou a ser uma província do Império Romano, denominada Hispania. Abaixo, vemos os denominados “Touros de Costitx“, peças taurinas esculpidas em bronze entre os séculos V e III aC e encontrados na Ilha de Mallorca, comprovando a importância simbólica dos touros dentro da cultura pré-romana na Espanha, e expostos no Museu Arqueológico Nacional de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs romanos introduziram na cultura local os jogos e lutas com feras, nas quais o touro era um animal frequente nos espetáculos, existindo constância de seu enfrentamento com outros animais selvagens, como leões, ursos, e também com humanos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADurante a época visigoda e muçulmana existem poucas fontes informativas referentes à prática de espetáculos taurinos. No entanto, a persistência das festividades em períodos históricos posteriores levam a crer que o costume de realizar-se touradas permaneceu intacto ao longo do tempo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA primeira Corrida de Touros oficialmente documentada celebrou-se em Ávila no ano 1080 e, desde então, passaram por períodos gloriosos e também momentos em que foram proibidas sua realização. Existem notícias sobre festas com touros em Cuéllar (Província de Segóvia) em 1215, quando o bispo local proibiu que os clérigos assistissem aos espetáculos. Em Pamplona, capital do Reino de Navarra e famosa pelo Encierro de San Fermín, onde os habitantes da correm junto com os touros pelas ruas da cidade, as primeiras notícias relacionadas com a realização de espetáculos taurinos remontam ao ano de 1385.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAUm pouco antes, no século XIII, o Rei Alfonso X “El Sabio” proibiu que os jogos com touros se celebrassem por dinheiro, indicando a existência de uma incipiente profissionalidade entre a sociedade da época.

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