La Alberca – Pueblo Medieval

O povoado de La Alberca conserva costumes e tradições que se remontam a um passado distante, como pude comprovar em meus passeios pela cidade. Um deles está associado a uma pequena capela situada junto ao muro exterior da igreja paroquial, chamada Capela de las Ánimas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste singular oratório está relacionado a um costume que ainda perdura no povoado, o da “Moça das Ánimas“, em que uma moça do povoado, nem sempre a mesma, realiza um ritual para os defuntos da localidade. Percorre as ruas do povoado no anoitecer de cada dia, com uma espécie de pequeno sino pendurado no pescoço, implorando orações às almas do purgatório com a seguinte frase: “Fiéis cristãos, recordemos as benditas almas do purgatório com um Pai Nosso e uma Ave Maria, por amor de Deus.” Uma lenda local conta que certa vez, numa fria noite de inverno, a encarregada de realizar o ritual deixou-se dominar pelo medo e nao saiu de sua casa para realizar a tradição. Ante sua falta de coragem, o próprio sino saltou sozinho pelas ruas, acompanhado pelos lamentos das almas em pena. Desde este dia, nunca mais o ritual deixou de ser realizado…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA agropecuária sempre constituiu o motor econômico da região, e toda a Província de Salamanca é famosa pela produção de embutidos, incluindo Jamón, chorizo, morcillas, etc. Ao lado das típicas lojas de souvenirs existentes no povoado, encontramos locais de venda destes produtos deveras apreciados da gastronomia espanhola.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra tradição local está relacionada justamente com o porco (cerdo, em espanhol), representado por uma escultura situada ao lado da igreja, conhecido como “Cerdo de San Antón“.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATodos os anos, no dia 13 de junho, em que se celebram as festividades de Santo Antônio de Pádua, um porco é solto nas ruas, depois de ser benzido previamente. O animal permanecerá solto pelo povoado até o dia 17 de janeiro, quando então é sorteado entre os habitantes. Neste período, o porco é alimentado pelos próprios cidadãos. O dinheiro arrecadado no sorteio é destinado a obras sociais realizadas por uma ONG. Este costume tradicional está associado ao período em que o Tribunal da Inquisição perseguiam os denominados Judeus Conversos, ou seja, os judeus que, para não terem que deixar o país após a expulsão de 1492, foram obrigados à conversão ao catolicismo (cabe recordar aqui que o consumo de porco na religião judaica é proibido), mas que na intimidade de seus lares seguiam com seus ritos religiosos tradicionais. Naquela época muitos judeus conversos saíam às ruas do povoado comendo toucinho de porco, demonstrando que haviam aderido à fé católica. Em muitas casas de La Alberca vemos símbolos religiosos esculpidos na fachada das casas, e outros bem curiosos como o que vemos abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERALa Alberca acolheu em época medieval uma grande quantidade de judeus conversos, devido ao isolamento do povoado e pela proximidade com o país vizinho, Portugal, onde podiam refugiar-se no caso de serem perseguidos pelo Tribunal do Santo Ofício da Inquisição. Devido à amplitude dos territórios e a escassez de funcionários, normalmente as sedes do tribunal encontravam-se nas grandes cidades, obrigando-o a buscar ajuda nos pequenos povoados através dos denominados Familiares do Santo Ofício, nome que recebiam determinados membros de menor nível cuja função era servir de informantes. O escudo acima representa que nesta casa vivia um destes membros, e que podemos encontrar em várias casas de La Alberca.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Tribunal da Inquisição estava composto por uma organizada rede de espionagem e um complexo serviço de informação, sendo que os familiares exerciam um papel fundamental. Nomeado pelos inquisidores de cada distrito, os familiares recebiam certos privilégios, como isenção de impostos e a possibilidade de portar armas. Para ser um familiar, não era necessário nenhum tipo de voto monástico ou que estivessem integrados ao clero. Além do mais, ser familiar da Inquisição constituia uma verdadeira honra e representava um símbolo de status social, supondo um reconhecimento público pelo critério de limpeza de sangue, segundo o qual para ser membro do tribunal se exigia que o nomeado e seus antepassados fossem todos cristãos velhos. Sua principal função consistia em denunciar, perseguir e deter a presuntos hereges, mas não de julgá-los, missão realizada pelo próprio tribunal. Os familiares beneficiavam-se economicamente das pessoas delatadas e em caso de represália por parte destas, estavam protegidos pelo tribunal. O nome dos delatores não eram conhecidos pelos acusados, já que não se tornavam públicos, tornando-os ainda mais temíveis.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAComo vimos no primeiro post sobre o povoado, o nome La Alberca significa “lugar das águas”, sendo que a região  é atravessada por vários cursos de água que descem pela montanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs águas correm pelo povoado através de canais que se encontram tapados por uma comprida estrutura de pedra, como vemos abaixo, situada na praça da igreja…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa próxima e última matéria sobre La Alberca, veremos sua singular arquitetura popular, uma de suas principais atrações…

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Um Passeio por Córdoba

Para se conhecer o Centro Histórico de Córdoba, declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco, o ideal é caminhar por suas ruas sem pressa, pois sempre existem lugares de interesse para os visitantes curiosos por sua milenar história. Ao redor da Mesquita-Catedral, por exemplo, existem várias construções que se destacam, como o antigo Hospital de San Sebastián, construído pelo arquiteto Hernán Ruiz “El Viejo” entre 1512 e 1516.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA instituição foi criada pela Confraria de San Sebastián, cuja origem se deve a grande quantidade de crianças abandonadas que haviam na época. Atualmente o edifício é a sede do Palácio de Congresso e Exposições, e conserva a bela fachada de sua igreja.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAo lado do Real Alcázar situa-se uma grande edifício, as Reales Caballerizas de Córdoba, fundada pelo Rei Felipe II com a finalidade de criar cavalos de pura raça espanhola para os serviços da Casa Real.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1757 sofreu um incêndio, sendo reconstruído durante o reinado de Carlos III. Em 1822, os cavalos utilizados pela corte foram retirados, e o edifício passou a ser usado pelo Corpo de Cavalaria.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 2002 foi adquirido pela Prefeitura de Córdoba como um espaço cultural. Atualmente se realizam espetáculos equestres no local, além de visitas guiadas pelo interior do edifício.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo vemos uma foto das Reales Caballerizas tirada desde o Real Alcázar

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro lugar emblemático do centro histórico é a Plaza de la Corredera, um verdadeiro ponto de encontro dos habitantes da cidade, declarada Bem de Interesse Cultural em 1981.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAConsiderada a única praça de formato quadrangular de toda a Comunidade de Andaluzia, ao modo das praças castelhanas, possui 113m de comprimento por 55m de largura. Seu espaço foi sempre utilizado para a representação de espetáculos públicos, como as Corridas de Touros. Em uma delas, a arquibancada de madeira caiu, para o desespero das pessoas que se encontravam no local. Se projetou então uma nova praça, antes irregular, num espaço uniforme, alinhando as fachadas dos edifícios de três níveis de altura e melhorando a segurança dos espetáculos públicos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs obras da nova praça realizaram-se no final do século XVII e foram pagas pelos próprios habitantes da cidade. O projeto se deve ao arquiteto Antonio Ramós Valdés. Grandes personagens da época presenciaram as Corridas de Touros, como o Rei Felipe IV e inclusive Cosme de Médici. A Plaza de la Corredera conserva edifícios cuja construção é anterior a própria praça, como a antiga Casa Consistorial, erguida no final do século XVI pelo arquiteto Hernán Ruiz II.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlém de representar o centro político da cidade, nela se situava também a prisão, que permaneceu no local até 1821, quando foi levada ao Real Alcázar de Córdoba. Em 1846, o edifício foi adquirido por um empresário cordobês, José Sánchez Peña, que instalou uma fábrica de sombreros, colocando as residências dos trabalhadores em sua parte superior. Depois, passou a abrigar o Mercado da cidade. Outro espetáculo famoso realizado na praça, antes da reforma, ocorreu em 1571, durante as festividades celebradas pela vitória na Batalha de Lepanto contra os turcos otomanos, quando se organizou uma verdadeira batalha naval na praça.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Tribunal da Inquisição também escolheu a praça para a realização de vários autos de fé, quando foram julgados os condenados por cometer delitos contra os dogmas da igreja. Escavações realizadas na praça durante as reformas descobriram mosaicos romanos em seu subsolo, atualmente expostos no Real Alcázar, cujas imagens já publiquei na matéria sobre a Córdoba Romana. Durante a Guerra da Independência no início do século XIX, os franceses colocaram patíbulos na praça para execução pública.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XX,  a praça foi pintada nas cores vermelha, verde e ocre, retornando ao aspecto que tinha no final do século XVII. Se dizia que nesta época a tonalidade vermelha se conseguia com o próprio sangue dos touros sacrificados na praça. É mole?

A Judería de Córdoba – Última Parte

No final do século XIV, uma onda de antisemitismo invadiu as juderías de boa parte da Espanha. Em 1391, a Judería de Córdoba foi praticamente destruída e numerosos judeus foram assassinados, acabando com séculos de tolerância entre as comunidades cristãs e judaicas. Em 1482, o Tribunal da Inquisição se instala na cidade, o segundo em ser criado no país, depois do de Sevilha. O primeiro auto de fé realizado ocorreu em 1483, momento em que os acusados de heresía eram julgados pelo tribunal eclesiástico. Em 1492, um  édito promulgado pelos Reis Católicos promoveu a expulsão dos judeus da Espanha. A única possibilidade que tinham para permanecer no país era se converterem ao catolicismo. Aqueles que adotaram esta medida ficaram conhecidos como cristãos novos ou judeus conversos. O Tribunal da Inquisição foi especialmente implacável contra aqueles que, apesar da conversão, seguiam praticando os antigos ritos judaicos na intimidade dos seus lares. A partir do século XVIII, o tribunal começou a proibir livros considerados heréticos, através de uma lista de obras cujos textos eram contrários aos dogmas católicos. Surgiu então o Índex de livros proibidos pela igreja.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Judería de Córdoba situava-se no meio do caminho entre o hotel onde me hospedei e a parte mais monumental da cidade, formada pela Mesquita-Catedral e o Real Alcázar. Por este motivo, por ela passava diariamente, descobrindo seus encantos e lugares pintorescos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANa judería encontra-se outros dos banhos de época árabe da cidade. Do século X, ficou conhecido depois da reconquista como Baños de Santa María (original em espanhol), por sua proximidade com a Mesquita-Catedral.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAHoje em dia, as antigas salas de banhos se converteram em locais onde se realizam espetáculos de flamenco, um símbolo de qualquer cidade andaluza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADurante minha estadia na cidade, aproveitei para saborear as delícias da gastronomia local, especialmente no Restaurante El Choto, localizado em plena Judería de Córdoba. Os menus diários custavam 15 euros, incluindo dois pratos a serem escolhidos, bebida, pão e sobremesa. O atendimento foi hiper atencioso e simpático, e de primeiro prato me aconselharam provar um prato típico da tradição sefardíe, berinjelas fritas com mel de cana de açúcar, uma verdadeira delícia…

OLYMPUS DIGITAL CAMERADe segundo prato, uma Carrillada de Ternera…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAE de sobremesa, laranjas feitas à moda cordobesa, com canela, azeite de oliva e açúcar…

OLYMPUS DIGITAL CAMERADe todas as ruelas que conformam o bairro, a mais fotografada pelos turistas é a Calleja de las Flores, realmente muito bonita com uma bela vista da torre campanário da Mesquita-Catedral, que aparece sobre os telhados de suas casas brancas…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAConsiderada outro dos símbolos da cidade, a rua está repleta de lojas de souvenir, algo que de um certo modo desvirtuou o caráter original desta pequena e bela rua. A cidade conta com inúmeros palácios de tempos antigos, como a chamada Casa do Indiano. Do século XV, sua fachada é um exemplo da arquitetura civil mudéjar existente na cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO nome do imóvel se deve a um antigo proprietário, que partiu para a América e fez fortuna. Quando regressou ficou conhecido como “O Indiano“. Uma de suas curiosidades é que a porta principal comunica com uma estreita rua, que também homenageia o proprietário, composta por algumas casas modernas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizo a matéria sobre a Judería de Córdoba com outras imagens deste emblemático lugar da cidade.

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Real Alcázar de Córdoba

Bem próximo à Mesquita-Catedral de Córdoba localiza-se outro monumento relevante da cidade, o Real Alcázar de los Reyes Cristianos (original em espanhol).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta fortaleza foi assim denominada para diferenciá-lo do desaparecido Alcázar Árabe que se levantava em suas proximidades.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFoi construído sobre restos romanos e árabes pelo Rei Alfonso XI em 1328, quase cem anos depois da cidade ter sido reconquistada por Fernando III. Possui um formato quadrado, com torrens nas esquinas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante a reconquista de Granada, foi utilizado pelos Reis Católicos como quartel geral. A partir de 1482, foi a sede do Tribunal da Inquisição de Córdoba, função que exerceu até a desintegração do tribunal em 1821.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADo alto de suas muralhas, as vistas da cidade são belíssimas, com destaque para a torre campanário da Mesquita-Catedral

OLYMPUS DIGITAL CAMERANesta fortaleza nasceu a Infanta María, filha dos Reis Católicos, que depois se tornaria Rainha de Portugal. Em 1486, recebeu a visita de Cristóvão Colombo, mostrando por primeira vez seu projeto aos Reis Católicos, que alguns anos depois financiariam  as viagens do navegante genovês.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFuncionou também, a partir do século XIX e durante boa parte do século XX, como prisão e quartel militar.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAtualmente é um museu, e em seu interior podemos contemplar diversas peças arqueológicas cujas imagens já foram publicadas no blog, principalmente quando abordei a época romana da cidade (mosaicos, sarcófagos, etc). A visita inclui banhos de época muçulmana que acabaram integrando-se às dependências do Alcázar.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das características dos banhos árabes, herdeiros dos antigos banhos romanos, constituem as pequenas aberturas nos tetos das salas, para iluminar o ambiente, como as que vemos acima. Belos pátios interiores compõem a estrutura do Real Alcázar…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOs jardins que decoram o Real Alcázar de Córdoba constituem outra imagem emblemática da cidade e são simplesmente maravilhosos, tema que comentarei no próximo post. Finalizo a matéria com outras fotos da fortaleza…

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A Judería de Toledo: Parte Final

A sociedade plural e tolerante de Toledo inicia sua decadência a partir do século XIV. Em 1391 ocorreram os primeiros ataques dos católicos contra a Judería Toledana. A convivência entre ambas comunidades se agravou quando o Rei Pedro I de Castilla, último monarca que protegeu a judeus e muçulmanos, foi assassinado por seu irmao Enrique de Trastámara durante a guerra civil travada em Castilla pelos direitos de sucessão ao trono. Nesta época, os monarcas castelhanos empreenderam um proceso para a construção de um estado moderno com a oposição da nobreza, que desejava manter seu poder. Estes viam na comunidade judaica colaboradores do poder real, que fez com que aumentasse o ódio dos inimigos que não desejavam o fortalecimento dos monarcas. Samuel Leví, tesoureiro maior de Pedro I, prestou inúmeros serviços para o rei. No entanto, devido aos problemas entre cristãos e judeus, o rei proibiu a construção de novas sinagogas, mas não pôde negar a seu amigo que edificasse a Sinagoga do Trânsito, pelo apoio recebido contra seu irmão Enrique, que almejava o trono. Apesar disso, o rei mandou prendê-lo e logo depois foi executado em 1361. Abaixo, vemos uma foto desta Sinagoga, atualmente sede do Museu Sefardí.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANão se sabe exatamente quantos judeus viviam na Espanha na Idade Média, mas seguramente era o país com a maior população judaica da Europa. Em Toledo viviam cerca de 350 famílias, que representava a maior comunidade de Castilla. Em todo o país, existiam outras juderías importantes, como as de Sevilha, Barcelona, Zaragoza, Tudela, etc. Nos primeiros tempos da reconquista, os judeus gozaram de uma situação jurídica especial, pois os monarcas os consideravam uma propriedade real, pertencentes ao tesouro real, e por este motivo eram protegidos. Este fato possibilitou que os judeus tivessem acesso direto aos reis, e privilégios foram concedidos. Um deles constituía numa multa coletiva, aplicada a uma cidade quando aparecia um judeu morto e o assassino não era encontrado.

DSC09355Os cristãos não viam com bons olhos as doações realizadas pelos monarcas às comunidades judaicas, nem os privilégios que ostentavam. No século XIII entra em vigor a lei eclesiástica que proibia o empréstimo com juros (usura), justamente num momento em que vários membros da comunidade judaica se especializaram em negócios financeiros. O ambiente social se agravou com a chegada na Península Ibérica das idéias anti judaicas reinantes pelo resto do continente europeu, e a propaganda contra a comunidade cresceu por todas as partes. As acusações contra os judeus de terem envenenado a água e de profanar hóstias consagradas aumentaram com a peste negra que assolou o continente entre 1348 e 1350. Também no ano de 1391 chegou à Toledo San Vicente Ferrer, monge dominicano e anti judeu declarado, que exaltou os ânimos contra a população judaica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANesta época já existiam na Espanha judeus que se converteram ao catolicismo. A partir do momento em que começaram a ocupar cargos de importância se criou uma atmosfera de inimizade e ódio. Quando se descobriu que muitos deles mantinham seus antigos rituais hebraicos, iniciou-se uma guerra aberta contra as comunidades judaicas no país. Uma das mais importantes ocorreu em Toledo em 1449. Os ataques se sucederam e grande parte das 12 sinagogas da cidade foram destruídas, além de muitas das casas habitadas por judeus. Apenas se conservaram as duas sinagogas que vemos atualmente, a de Santa María la Blanca e a Sinangoga do Trânsito, pois foram transformadas em igrejas católicas. Abaixo, vemos uma imagem interior da Sinagoga de Santa María

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPara solucionar o problema converso, os Reis Católicos obtiveram em 1478 uma bula papal autorizando a criação do Tribunal de Santo Ofício da Inquisição. Dois anos depois, foram nomeados os primeiros inquisidores, que começaram a atuar em Sevilha, e instigaram os monarcas para que a comunidade judaica fosse expulsa do país. Em 1480, foi promulgada uma lei real em Toledo que estabelecia novos bairros para a população judaica, situado fora do centro histórico da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalmente, em 1492 os Reis Católicos decretaram o édito de expulsão dos judeus da Espanha. Num prazo de 4 meses, todos aqueles que não optassem pela conversão tiveram que deixar o país. Os bens comunitários, sinagogas e cemitérios, por exemplo, foram confiscados pelo tesouro real. A expulsão gerou uma série de problemas, originados pela falta de pessoas com boa preparação intelectual e mão de obra qualificada. Muitas foram as explicações dadas pelos estudiosos sobre a decisão dos Reis Católicos, como a própria ambição real, que desejavam confiscar os bens da comunidade judaica. Outra razão foi a luta entre a nobreza e as grandes somas de dinheiro que os reis e a própria nobreza deviam a financeiros judaicos. Os judeus que permaneceram no país, obrigados à conversão, tomaram esta atitude para não perder seus bens, mas continuaram a serem perseguidos, principalmente quando mantinham suas tradições na intimidade do lar. Os judeus conversos foram apartados do poder, já que lhes exigiam responder ao denominado estatuto de “Pureza de Sangue“, sendo obrigados a demonstrar que seus antepassados eram cristãos velhos. Abaixo, vemos tumbas hebraicas de época medieval na Sinagoga do Trânsito.

DSC09454Se desconhece o número de judeus que partiram para outras terras, principalmente Portugal, Países Baixos, sendo que muitos foram acolhidos pelo antigo Império Otomano. O édito de 1492 representou um grande acontecimento em toda a Europa. Espanha, a terra européia judaica por excelência, lhes expulsava de seu território. Somente em 1968 se reconheceu oficialmente a abolição do édito promulgado pelos Reis Católicos. A comunidade judaica voltou a viver no país, e atualmente existem 12 delas espalhadas pelo território espanhol, principalmente em Madrid, Barcelona, Valencia, Palma de Mallorca, etc. Abaixo, vemos uma homenagem de Toledo aos judeus que viviam na cidade e que foram confinados e assassinados nos campos de extermínio nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois de 1492, o Bairro da Judería foi abandonado e ficou esquecido, mas muitas instituições religiosas católicas construíram conventos e monastérios em seu perímetro, como o Monastério de Santo Antônio, instalado em 1525 por uma comunidade de freiras franciscanas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOu o Convento de Carmelitas Descalças, a quinta instituição fundada por Santa Teresa de Ávila em seu processo de renovação da Ordem Carmelita (1569), que encontrou abrigo na Judería de Toledo….

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Ciudad Real – Comunidade de Castilla La Mancha

Ciudad Real é a capital da província homônima, uma das 5 que compõem a Comunidade de Castilla La Mancha (as demais são Toledo, Guadalajara, Cuenca e Albacete). Com uma população de 75 mil habitantes, conta com um interessante patrimônio histórico, infelizmente muitas vezes não devidamente valorizado pelos próprios espanhóis. Num final de semana decidi conhecer a cidade, e encontrei um lugar agradável para passear e com muita coisa interessante para ver.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASomente em relação ao seu patrimônio religioso, a cidade possui três igrejas góticas, incluída a catedral, o que reflete sua importância histórica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFoi fundada pelo rei Alfonso X “El Sábio” em 1255, com a finalidade de deter o crescente poder das Ordens Militares, especialmente a de Calatrava, que dominava o território onde se localiza. Inicialmente chamada Villa Real, o objetivo do monarca era diminuir seu poder e influência, criando uma cidade de realengo, que estivesse submetida à sua autoridade. Abaixo, vemos a escultura em homenagem ao rei fundador, situada em plena Praça Maior de Ciudad Real.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAPara proteger a cidade, Alfonso X ordenou a construção de um recinto de muralhas formado por 130 torres, com 7 portas de acesso ao interior. A única que se conserva é a magnífica Porta de Toledo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInspirada na arquitetura muçulmana, está sustentada por duas torres. Possui uma grande complexidade em relação aos seus vários arcos. Os exteriores são ojivais, os intermediários são de ferradura e os internos, góticos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Porta de Toledo foi finalizada em 1328, como indica uma inscrição, e foi declarada Monumento Nacional em 1915.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERALogo depois de sua fundação, na cidade passaram a conviver cristãos, judeus e muçulmanos, estando dividida em três paróquias, a de Santa María, de San Pedro e de Santiago. Ciudad Real chegou a ter uma das mais importantes juderias, ou bairro judeu, do antigo Reino de Castilla.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1420, o rei Juan II lhe concedeu o título de cidade, por seu apoio contra as ordens militares, momento em que passou a ser denominada Ciudad Real. Sua época de maior esplendor se verificou na época dos Reis Católicos (final do século XV e princípio do XVI). O aumento populacional e das atividades comerciais relacionadas à produção de lã, couro e vinho fizeram com que os Reis Católicos ordenassem a construção de importantes órgãos administrativos. Em 1488 se estabelece o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição e, seis anos mais tarde, a Real Chancelaría, o principal órgão de justiça do reino.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACom a expulsão das comunidades judia e muçulmana, a população diminuiu e a cidade entrou num período de decadência, do qual se recuperou apenas no século XIX, com a chegada da ferrovia. Em 1691, tornou-se a capital da Comarca de La Mancha e em 1833 criou-se a Província de Ciudad Real.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante a Guerra da Independência, ocorrida no princípio do século XIX, a cidade foi ocupada pelas tropas francesas até 1813, destruindo uma importante parte de seu patrimônio, especialmente religioso. A cidade se orgulha de ser conhecida como a “Capital del Quijote“, e as referências ao grande escritor Miguel de Cervantes e sua obra mais conhecida são abundantes.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANos próximos posts, vocês poderão conhecer um pouco mais sobre a cidade, e comprovar que ela merece uma visita, sem sombra de dúvida !

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Um Passeio por Murcia

Na matéria de hoje veremos outros lugares de interesse histórico e cultural que realizei durante minha visita à cidade de Murcia. A Universidade, por exemplo, ocupa o local do antigo Convento de la Merced.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA Universidade de Murcia possui um belíssimo claustro renascentista que data do séc. XVII. Suas esbeltas colunas de mármore culminam em capitéis toscanos. As galerias que compõem o claustro são utilizadas por seus alunos como espaço cultural.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAÉ considerado um dos claustros universitários mais belos do país. Bem próximo à Universidade localiza-se a Praça de Touros da cidade, já centenária…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro centro cultural importante é a sede do Colégio de Arquitetos, onde pude ver uma excelente exposição fotográfica sobre a Semana Santa, uma das principais festividades da cidade. O edifício foi construído em 1816 sobre um antigo palácio que pertenceu ao Tribunal da Inquisição. A fachada foi conservada, mas o interior foi totalmente remodelado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEntre um lugar e outro, aproveitei para descansar em algumas de suas inúmeras áreas verdes. O denominado Jardins del Malecón é um dos principais da cidade. Na entrada, vemos a Portada del Huerto de las Bombas, que pertenceu a um palacete cujo nome se deve a uma batalha ocorrida em suas imediações em 1706, durante o período da Guerra da Sucessão Espanhola. No centro da portada foi colocado o escudo nobiliário do proprietário.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro parque interessante é o Jardim do Salitre, também chamado da Pólvora, graças a uma fábrica que existiu no local, fundada em 1754. Proporcionou balas para os guerrilheiros da cidade, durante a resistência de seus habitantes contra a invasão de Napoleão no início do séc. XIX. Da antiga fábrica, se conserva sua chaminé…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma iniciativa da prefeitura que muito me agradou foi a colocação de avisos nas ruas da cidade, no sentido de alertar a população contra acidentes de pedestres, numa época em que as pessoas falam no celular ou escrevem no whatsApp e se esquecem de sua própria segurança.

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