Igreja do Corpus Christi – Madrid

Madrid é uma cidade eminentemente barroca, em quanto a maioria de suas igrejas históricas. No princípio do século XVII, era  a capital de um grande império, e as ordens religiosas desejavam ter uma “casa mãe” na cidade. A Contrarreforma, que foi criada para deter o avance protestante na Europa, teve na Espanha e em sua monarquia o aliado principal  e sua grande defensora. Como consequência, Madrid torna-se uma cidade conventual. Tamanha concentração de templos atraiu a um grande contingente de artistas portugueses, italianos, flamencos, além dos próprios espanhóis, evidentemente, para decorar as inúmeras igrejas que se edificavam. A fase inicial do desenvolvimento do estilo barroco em Madrid possui algumas características que podemos identificar, como a simplicidade e austeridade exterior, mas uma rica coleção de imagens sacras no interior, destinadas à veneração dos santos como exemplo de conduta e a propagação da fé católica. Quadros e estátuas recriam a vida dos santos cristãos e os mistérios da fé católica para uma população em grande parte analfabeta, possibilitando a compreensão da doutrina. Um exemplo perfeito deste momento inicial na evolução do barroco na cidade é a Igreja de Corpus Christi, situada perto da Praça Maior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Apesar de sua localização em pleno Centro Histórico de Madrid, muitos habitantes da cidade nem sequer sabem de sua existência, ao estar numa praça algo escondida dos principais pontos turísticos e das ruas mais importantes. A Igreja do Corpus Christi é uma das mais acolhedoras da fase inicial do barroco madrilenho e, milagrosamente, chegou intacta aos dias atuais, sem qualquer tipo de reforma ou ampliação desde que foi construída em 1607. Na singela porta vemos as esculturas de Santa Paula e São Jerônimo adorando o Corpus Christi.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro elemento que caracteriza esta fase primeira do barroco é o predomínio da linha reta sobre a curva, um aspecto sobrevivente do estilo anterior, o renascimento, principalmente relacionado com o monumento mais representativo deste estilo na Espanha, o Monastério de El Escorial, e seu principal artífice, o arquiteto Juan de Herrera. Na realidade, a igreja integra um conjunto maior, o Monastério de Jerónimas del Corpus Christi, um convento de clausura que continua funcionando como tal, sendo que suas freiras seguem fabricando seus deliciosos doces, cuja produção não atende a demanda, pois são poucas e de idade…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO convento foi fundado por Beatriz Ramírez de Mendoza,  descendente de outra Beatriz que tornou-se famosa por ser a educadora dos filhos de Isabel La Católica, Beatriz Galindo, que realizou diversas obras assistenciais na cidade. Entre outras qualidades, possuía um domínio perfeito do latim. Um dos principais bairros de Madrid para comer tapas homenageia esta mulher avançada para a época em que viveu, com o apelido que ficou conhecida, “La Latina“. O projeto construtivo da igreja e do convento se deve ao arquiteto Miguel de Soria, que realizou um templo de uma nave, como vemos acima.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm fato curioso repercutiu de forma permanente para a igreja e o nome como ela popularmente passou a ser conhecida foi o achado de um quadro da Imaculada Conceição numa carbonería, local onde se produz o carbón, carvão em português. Este quadro foi adquirido por uma frade franciscano, que o levou ao convento mais próximo onde se encontrava, o Convento do Corpus Christi. Uma vez colocado no interior da igreja, adquiriu a fama de milagroso por seus devotos. A partir deste momento, a igreja ficou conhecida como “Las Carboneras“, as freiras que custodiaram a obra. Abaixo, vemos dito quadro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO interior da igreja guarda inúmeras obras de importância artística, como o Retábulo Maior do século XVII, uma magnífica obra de Antón de Morales, síntese magistral de arquitetura, pintura e escultura.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO destaque do retábulo é um excelente quadro da Última Ceia realizado por Vicente Carducho, raro por seu posicionamento vertical. A ambos lados, ente colunas de Ordem Corintio, vemos as esculturas de São Jerônimo (esquerda) e São João Batista (direita).

OLYMPUS DIGITAL CAMERACulmina o retábulo um calvário atribuído a Pompeo Leoni, escultor que realizou diversos e impressionantes bustos dos monarcas espanhóis.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATambém do século XVII é o retábulo dedicado à Virgem das Tribulações e da Paz Interior, atribuído a Pedro de la Torre. A escultura da virgem foi realizada em 1812 por José de Tomás.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa próxima matéria, veremos a Igreja das Calatravas, pertencente à segunda fase do Barroco Madrilenho….

Monastério de El Paular – Segunda Parte

Um dos principais tesouros do Real Monastério de Santa Maria de El Paular encontra- se no claustro, construído no estilo gótico (séc. XV) por Juan Guas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1626, o então abade do monastério, Juan de Baeza, encarregou ao pintor Vicente Carducho uma série de quadros de grande tamanho (3.45 x 3.15m) para decorar o claustro. O artista realizou, num prazo de 6 anos, um total de 56 obras, considerada a obra pictórica mais completa e ambiciosa jamais realizada sobre a Ordem dos Cartuxos, na época responsável pelo Monastério de El Paular. Vicente Carducho (nascido em Florença em 1576 ou 1578 e falecido em Madrid em 1638) foi um pintor barroco de origem italiana que trabalhou para a corte espanhola. Além de um respeitado teórico da arte, era considerado um dos melhores da época, reunindo as condições necessárias para a realização do projeto. Entre elas, um amplo conhecimento no desenho de composições de grande tamanho, habilidade para expressão de sentimentos e gestos, assim como a destreza no emprego de cores que amenizassem o dramatismo das cenas. Estes aspectos definiam um gênero artístico com uma alta cota de consideração no séc. XVII, a Pintura Histórica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADe todos os quadros realizados, dois deles foram perdidos na Guerra Civil Espanhola. Os 54 restantes se dividem em dois grupos. Os 27 primeiros ilustram a vida do fundador da Ordem dos Cartuxos, São Bruno (1035/1101), desde o momento em que decide abandonar a vida pública e retirar-se aos Montes de Chartreuse (França), até sua morte. Estão representados o impulso fundacional da ordem e seus diversos aspectos, o retiro em paisagens remotas, sua vida de humildade, mortificação e penitência, a dedicação ao estudo e a oração, etc. Na foto abaixo, vemos um quadro em que a Virgem Maria e São Pedro aparecem aos primeiros monges cartuxos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois de iniciar a construção do primeiro recinto monástico, Sao Bruno e seus companheiros perceberam que o local não contava com água suficiente. Deus escutou suas preces, e fez brotar um manancial. O milagre foi retratado no primeiro quadro da esquerda, que vemos abaixo. Nele, São Bruno agradece a Deus, enquanto os demais manifestam seu espanto com o acontecimento.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANuma outra representação, Hugo, Bispo de Grenoble, veste o hábito dos Cartuxos, em  reconhecimento ao acético modo de vida destes religiosos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma forte carga dramática se observa no quadro dedicado à morte de São Bruno, acentuada pelo emprego da técnica do claro-escuro, recordando ao mestre Caravaggio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO segundo grupo de pinturas está relacionado aos feitos mais notáveis da história da ordem, desde o séc. XI até o XVI. Em algumas delas, foram representadas cenas heróicas, relativas às perseguições e martírios padecidos por algumas comunidades cartuxas nos séc. XV e XVI.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO quadro acima,  por exemplo, retrata a prisão e morte de 10 membros da Comunidade Cartuxa de Londres, detidos e assassinados pela oposição em aceitar o poder religioso do rei Enrique VIII sobre a Igreja Católica. A seguir, vemos a Morte do Venerado Odón de Novara, no quadro de fundo da foto abaixo. Segundo a tradição, Odón faleceu com mais de 100 anos no Monastério Cartuxo de Tagliacozzo, Itália, onde passou seus últimos anos caracterizados por um exemplar ascetismo. No quadro, Jesus aparece ante o falecido para levar sua alma. A seu lado e ajoelhados, vemos da direita para a esquerda, ao escritor Lope de Vega, o próprio pintor Vicente Carducho, e o abade Juan de Baeza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA A série de pinturas reflete a predileção barroca pela religiosidade, a oração, milagres e o dramatismo dos martírios. Depois da Desamortização de Mendizábal (1835), o Monastério de El Paular foi abandonado e suas obras de arte foram levadas a outros locais. De forma surpreendente, os quadros de Carducho permaneceram na Espanha, sendo que o Museu do Prado guardava a maior parte da série, seguido do Museu Provincial de La Coruña. Depois que o magnífico coro que decorava a igreja foi devolvido (encontrava-se desde o séc. XIX na Basílica de São Francisco El Grande de Madrid), iniciou-se uma campanha para a devolução dos quadros de Vicente Carducho ao seu local original, o claustro do Monastério de El Paular. Em 2006, os quadros foram restaurados pelo Museu do Prado, depois de 4 anos de um intenso trabalho, e em 2011 foi concretizado o antigo sonho de vê-los novamente e em perfeito estado de conservação, no local para os quais foram destinados.

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Museu Nacional de Escultura – Segunda Parte

Neste post, veremos algumas das obras do incomparável acervo do Museu Nacional de Escultura, em ordem cronológica, segundo o estilo que representam.

No entanto, começamos pela capela, um dos espaços mais autênticos do museu. Quando passou a integrar o museu em 1933, se instalaram algumas obras que evocassem seu antigo esplendor. Algumas dela são:

Retábulo Maior do Monastério de La Mejorada de Olmedo (Província de Valladolid). Realizado por Alonso Berruguete (1523/1526). Foi instalado onde situava-se o antigo retábulo original feito por Gil de Siloé para a decoraçao da capela, e que foi destruído durante a invasao napoleônica. De estilo renascentista, exibe cenas da vida de Jesus e Maria.

Sepulcro de alabastro de Diego de Avellaneda: Felipe Vigarny –  1536/1542. Procedente do Monastério de San Juan Bautista e Santa Catalina (Prov. De Sória).

Estátua orante de bronze do Duque de Lerma: Pompeo Leoni/Juan de Arfe (1601/1608). Procedente da Igreja Convento de San Pablo de Valladolid. A solenidade do retrato e o modo de conceber a imagem no contexto de uma atmosfera sacra e suntuosa forma parte do desejo de vencer a morte com a fama póstuma e perpetuar-se.

Iniciamos nossa visualização cronológica através do estilo românico. Depois de um largo período de tempo, que começou com a queda do império romano (séc. V) e prolongou-se até o surgimento do românico ( séc. XI), ocorreu um empobrecimento e até mesmo um desaparecimento da escultura como forma artística, e com a chegada do novo estilo houve um ressurgimento, propiciado pela integração da escultura de pedra com a arquitetura, que podemos observar nos templos e igrejas do período, bem como na escultura em madeira, da qual se conservam numerosos exemplos com sua policromia original. A iconografia básica destas talhas está representada pela Virgem com o menino Jesus, o cristo crucificado e o descendimento de seu corpo da cruz.

A finalidade destas obras não eram meramente decorativas ou narrativas, e sim comover o fiel, mostrando-lhes imagens concretas da divindade. No geral, as figuras são tratadas de forma pouco natural, sem proporções entre as diferentes partes do corpo e em posição rígida, hierática e frontal. Abaixo, vemos alguns exemplos de estátuas românicas do museu.

Na sala dedicada ao séc. XV, um período de transição do gótico ao renascimento, destacamos o retábulo da vida da Virgem, um anônimo flamenco. Procedente do Convento de San Francisco (Valladolid), é um exemplo de como eram apreciadas no Reino de Castilla a arte flamenca (Países Baixos). Na parte central, observamos o pranto da Virgem por seu filho morto.

Da época renascentista (séc. XVI), veremos várias obras:

Retábulo Maior de San Benito El Real (Valladolid): realizado por Alonso Berruguete entre 1526/1532, a obra revela o aprendizado adquirida pelo autor durante sua estância na Itália com os mestres renascentistas. Representa a imagem da Jerusalém Celestial, a cidade de Deus,com cenas do Novo e velho Testamento, em torno a San Benito.

Silhería do Coro do Monast. San Benito El Real: André de Nájera (1504/1533).

Enterro de Cristo: Juan de Juni (1541/1544), procedente do Convento de San Francisco(Valladolid). O conjunto oferece um marcado caráter cenográfico. O movimento e a atitude de uma figura é realizado de maneira similar nas figuras posicionadas no lado oposto, de forma a propiciar uma visualizaçao geral e frontal de toda a obra.

Tentações de San Antonio Abad: Diego Rodrigues e Leonardo de Carrión (1553/1559). Procedente do hospital de San Antonio Abad (Valladolid).

Redenção dos cativos por San Pedro Nolasco: Pedro De La Cuadra (1599). Fazia parte do retábulo maior do Convento de la Merced Calzada (Valladolid). A cena representa um fato freqüente no séc. XVI, a compra de cristãos, presos por africanos em batalhas ou através da pirataria, por frades da Ordem da Merced, fundada por San Pedro Nolasco, com esta intenção libertadora.

O barroco representou, no plano artístico, o que a contra-reforma significou no religioso, uma tentativa de deter o avance protestante pela Europa. Algumas das medidas utilizadas foram a propagação na crença dos milagres e o culto às relíquias, expostas em obras exuberantes. Impulsou também a canonização de santos mártires e popularizou as festas de devoção coletivas. Neste ambiente, as ordens religiosas, em especial a jesuíta, converteu-se em grandes patrocinadoras artísticas.

As artes plásticas, transformadas em um decisivo meio de propaganda, alcança uma dramática expressividade. Os temas religiosos incluem o arrebatamento do êxtase, as visões celestiais, a renúncia ao mundo profano, a ansiedade espiritual e, sobretudo, ao aspecto macabro da morte, através de formas violentas, insólitas e impressionantes.

Veremos, agora, algumas da obras do período expostas na coleção permanente do museu:

Retábulo Relicário de San Diego de Valladolid: Juan de Muniátegui e irmaos Vicente e bartolomé Carducho (pinturas). Os relicários expostos no interior refletem a relaçao entre estátuas e relíquias. A imagem foi o catalizador do seu poder, cuja veneração era o essencial, situando-a num cenário que cativasse a imaginação dos fiéis.

Paso de la Sexta Angústia: Gregório Fernández (1616), procedente da Confradia das Angústias (Valladolid). A composiçao adota a fórmula estabelecida em 1522, na qual Jesus não aparece situado no joelho da mãe, mas estendido no solo com a cabeça apoiada no seu regaço. Observamos a maneira naturalista das figuras, a expressividade nos rostos e mãos e a qualidade plástica anatômica, características deste que é considerado um dos maiores escultores espanhóis de todos os tempos. Além disso, detalhe para o contraste cromático e os excepcionais estudos anatômicos que podemos contemplar na figura dos dois ladrões.

Batismo de Cristo: Gregório Fernández (1624), procedente do Convento del Carmen Descalzo (Valladolid). Integrava o retábulo principal do convento, e magnífica é o detalhe da mão esquerda de Jesus.

San Juan Evangelista: Juan Martinez Montañés (1638), procedente do Convento de Santa María de la Pasión (Sevilha). Escultura pertencente ao retábulo a que estava destinada. Trata-se de uma visao de San Juan já maduro, como corresponderia à época de seu exílio na ilha grega de Patmos, onde redatou o Apocalipse, sentado e escrevendo, acompanhado de seu atributo habitual, a águia. Obra de grande qualidade técnica, deste artista que é conhecido como o “Deus da madeira”.

Alegoria da Virgem Imaculada: Juan de Roelas (1616), procedente do Monastério de San Benito El Real (Valladolid). O quadro reflete o documento fundamental para entender-se o dogma, no qual diz que a Virgem foi concebida sem o pecado original, e venerada na procissão que se celebra em Sevilha, em que participam todas as classes sociais.

Menino Jesus: Alonso Cano (séc. XVII).

Madalena Penitente: Pedro de Mena (1664), procedente da casa da Companhia de Jesus (Madrid). Inspirado em Gregório Fernández, é uma obra prima das artes plásticas espanholas por sua alta expressividade e soberba policromia naturalista.

Do séc. XVIII, admiramos a escultura de Sao Miguel Arcanjo, de Felipe Espinabete. Santo de grande devoção na época medieval, seu culto decaiu durante a contra-reforma, mas ganhou um novo impulso para defender o triunfo do catolicismo sobre o culto protestante. Obra plenamente rococó, personifica o triunfo do bem sobre o mal de uma forma preciosa.

Espero que tenham gostado. Quando de viagem por Espanha, nao deixem de visitar o museu e a cidade de Valladolid.