Cartagena Eclética e Modernista – Parte 3

Como vimos nas matérias anteriores, o estilo modernista foi um dos preferidos para a construção de edifícios em Cartagena durante o boom econômico que a cidade ostentou no princípio do séc. XX. No entanto, foi integrado nos edifícios de base eclética, sendo incorporado somente nos detalhes decorativos, principalmente nas fachadas das construções. Um exemplo é a Casa Cervantes, situado em plena Calle Mayor do centro histórico de Cartagena.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs grandes dimensões do edifício se destacam em relação às demais construções circundantes. Construído em 1900, trata-se da primeira obra modernista na cidade, e foi projetada pelo arquiteto Victor Beltrí. Os símbolos relacionados ao comércio, indústria e mineração, bases do crescimento de Cartagena nesta época, são abundantes, uma referência à origem da fortuna de seu primeiro proprietário, o empresário Serafín Cervantes.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo ano seguinte (1901), Victor Beltrí foi o responsável por outro belo edifício, a Casa Aguirre.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos destaques do edifício é a belíssima torre, rematada por uma incrível cúpula. A fachada foi totalmente decorada em sua parte superior por um conjunto de cerâmicas, que proporcionam um aspecto impressionante à construção. Atualmente, a Casa Aguirre é a sede do Museu Regional de Arte Moderna de Cartagena (MURAM).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADe 1906 é a Casa Maestre, inspirada no Modernismo Catalão. O rico e influente José Maestre encarregou a um arquiteto de Barcelona, Marcelino Coquillat y Llofriu, o projeto de uma residência que superasse as demais que estavam sendo construídas na época.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERA O projeto de Llofriu foi dirigido por Victor Beltrí. Este edifício teria uma grande influência na carreira artística de Beltrí e, como consequência, na arquitetura de Cartagena.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInspirada na Casa Calvet de Barcelona, realizada por Antoni Gaudí, na Casa Maestre destaca a fachada, única parte conservada do projeto original.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra emblemática construção eclética com detalhes modernistas é a Estação Ferroviária de Cartagena.

OLYMPUS DIGITAL CAMERARealizada pelo engenheiro Rafael Peyroncely em 1907, em seu exterior construiu um corpo central decorado, com um relógio que preside a fachada.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs elementos modernistas podem ser apreciados na estrutura de ferro que se eleva sobre a porta principal.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO interior da estação também estava decorado no estilo modernista, mas atualmente se conserva em seu estado original somente a bilheteria (que não é a utilizada hoje em dia) e algumas luminárias.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizamos o post com uma foto da parte traseira do edifício.

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Cartagena Eclética e Modernista – Parte 2

Na matéria de hoje veremos algumas das construções mais importantes de Cartagena, realizadas dentro do contexto da Arquitetura Eclética na cidade. A denominada Casa Pedreño, por exemplo, foi construída pelo arquiteto Carlos Mancha em 1875. Recorda os palácios renascentistas italianos, e foi encarregada pelo empresário industrial e deputado Andrés Pedreño. Atualmente, funciona como um centro cultural.

OLYMPUS DIGITAL CAMERABem próximo a Casa Pedreño encontramos o Cassino de Cartagena, um edifício representativo da burguesia local, pois em sua origem era a Casa do Marquês de Tilly. Conserva sua portada do séc. XVIII, e foi reformada em várias ocasiões, de maneira definitiva em 1897 pelo arquiteto Victor Beltrí. Nas janelas vemos medalhões alegóricos que representam as artes cênicas, indústria, comércio e as ciências.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra magnífica construção é o Gran Hotel, realizado entre 1909 e 1916. Inicialmente, as obras foram dirigidas pelo projetista, Tomás Rico, responsável pela construção até sua morte, em 1912. Depois, foi terminada por Victor Beltrí. Este conservou o projeto original da planta e os detalhes decorativos dos três primeiros andares, mas rematou o edifício de uma forma atraente e pessoal, com uma bela cúpula. A singular localização do edifício, na esquina entre várias ruas estreitas, foi inteligentemente aproveitada por Tomás Rico, que levantou as duas fachadas  formando um ângulo agudo no vértice onde as mesmas se convergem. A cúpula acentua a impressão de proa de uma embarcação, que produz todo o conjunto visto da praça. Para evitar a monotonia, o branco e o vermelho se combinam, assim como os diversos elementos decorativos, pois apenas os andares terceiro e quarto são iguais. Hoje em dia, o Gran Hotel funciona como um edifício de escritórios.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERASituado junto ao Porto de Cartagena, o edifício da Casa Consistorial ou Ayuntamiento de Cartagena (popularmente conhecido como sede da Prefeitura) também foi construído por Tomás Rico em 1907.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPossui três fachadas diferentes, sendo que a principal foi realçada por um pórtico e uma esbelta cúpula.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO edifício apresenta um caráter clássico, no estilo francês, e seu projeto foi pensado para enfatizar a função oficial do edifício. Outro de seus destaques é a Torre do Relógio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERATive o privilégio de poder conhecer algumas salas do interior, e contemplar  sua espetacular escada imperial.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAApesar de sua elegância, o edifício apresentou diversos problemas estruturais desde o início, finalmente solucionados nas últimas reformas realizadas entre 1995 e 2006. Abaixo, vemos alguns detalhes decorativos do teto do vestíbulo de entrada.

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Cartagena Eclética e Modernista

Uma das principais características da paisagem urbana de Cartagena é a grande quantidade de belos edifícios que encontramos num passeio pelo seu centro histórico.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEste fato sucedeu porque entre 1874 e o início da Primeira Guerra Mundial (1914), Cartagena gozou de uma grande prosperidade econômica, devido principalmente ao auge da mineração, que favoreceu o desenvolvimento de outras atividades industriais e comerciais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO crescimento então vigente se refletiu na proliferação de novos edifícios, tanto públicos, quanto privados, e na planificação de um novo traçado urbano, que ampliou os limites da cidade. Este processo ficou conhecido como Ensanche, e sucedeu na maioria das grandes cidades da Europa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA nascente burguesia local, ávida por manifestar de forma artística seu status social, busca nas novas formas arquitetônicas um símbolo de sua ascensão e poder. As estéticas eclética e modernista começam a aparecer na cidade, graças ao seu espírito inovador.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOs elementos modernistas se manifestaram na decoração de edifícios de base eclética, nos quais se integraram.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANovos e arrojados arquitetos surgiram nesta época, assimilando as novas correntes internacionais da arquitetura. Um dos principais nomes foi Victor Beltrí (Tortosa-1865/Cartagena-1936), autor da maioria dos edifícios modernistas que podemos admirar na cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADurante um bom tempo de minha visita à cidade estive contemplando os detalhes destes edifícios, algo que me surpreendeu muito, pois não sabia que Cartagena possuía um repertório tão variado de arquitetura eclética e modernista.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANão consegui, apesar de meu esforço, nenhuma informação sobre os edifícios cujas imagens vemos neste post introdutório sobre o ecleticismo e o modernismo em Cartagena. Nas próximas matérias, entretanto, vocês conhecerão as construções mais famosas que adotaram estas correntes artísticas na cidade.

Cartagena Medieval e Moderna

No final do séc. II dC e durante todo o séc. III, Cartago Nova sofreu uma profunda crise e boa parte dela foi abandonada. A cidade recupera-se no séc. IV, mas seu perímetro urbano diminui consideravelmente., aproveitando-se os materiais das velhas construções para restituir uma nova imagem urbana, agora convertida em capital do Conventus Carthaginense, título concedido pelo Imperador Diocleciano. Depois da desaparição do Império Romano, Cartagena formou parte dos domínios bizantinos na Península Ibérica, sendo sua capital. No séc. VII, a cidade é completamente destruída pelos Visigodos. Pouco se sabe sobre Cartagena depois deste acontecimento, e volta a ser citada somente no séc. X, quando aparece como um enclave árabe, com o nome de Qartayannat Al – Halfa. Cartagena é reconquistada pelos cristãos em 1245 e no ano seguinte o rei Fernando III lhe outorga o Foro de Córdoba, cuja cópia vemos abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA imposição de um novo modo de vida provocou rebeliões entre a população árabe que permaneceu na cidade (mudéjares), sufocadas em 1264. A partir de então, boa parte de seus habitantes abandonam novamente a cidade. Será somente no séc. XVI quando Cartagena é repovoada e o porto recobra o importante papel que teve ao longo de sua história.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADesta época medieval, a construção mais importante é o Castelo da Concepção, situado na parte mais elevada do cerro de mesmo nome, a colina mais alta das cinco que rodeiam o centro histórico. Neste local, durante a época romana, se erguia um templo dedicado a Esculápio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta fortaleza foi construída com os materiais da época romana, que foram reutilizados, assim como com parte das antigas muralhas islâmicas pré existentes. As primeiras notícias deste castelo datam do reinado de Enrique III (1390/1406). A partir do séc. XVI são frequentes os comentários sobre o ruinoso estado da fortaleza. Apesar disso, continuou sendo a praça forte de Cartagena, um local privilegiado para receber os sinais da rede de atalaias (torres defensivas) costeiras em caso de perigo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAApesar da sua progressiva deterioração, em 1915 o castelo passa a ser propriedade da Prefeitura de Cartagena, momento em que é restaurado pelo arquiteto Victor Beltrí, dentro do processo de reurbanização da zona, que se transforma num parque. Atualmente, novamente reformado, o Castelo da Concepção é a sede do Centro de Interpretação da História de Cartagena.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPara se chegar até ele, a melhor forma é subir pelo elevador panorâmico, de 45m de altura.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPor sua estratégica posição, Cartagena é designada no séc. XVII, base naval, convertendo-se num dos três Departamentos Marítimos da Espanha em 1726.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO séc. XVIII representa um dos períodos culminantes de sua história, graças ao grande desenvolvimento da base naval existente e uma ampliação de seu arsenal bélico, além de uma série de construções militares de defesa e serviços complementares (muralhas, hospitais, quartéis, etc). A maioria destas obras foram realizadas durante o governo de Carlos III (1759/1788), por iniciativa do Conde de Aranda, capitão geral de Valencia e Murcia. Uma das peças fundamentas deste plano defensivo é a Muralha do Mar, que vemos a seguir.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAUma vez perdida sua função defensiva, inicia-se o lento processo de sua destruição. O aspecto que atualmente observamos da Muralha do Mar é fruto de uma remodelação realizada no final do séc. XX.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo entanto, se conserva a Porta do Arsenal, a única porta sobrevivente da muralha construída no séc. XVIII. Em 1865, foi colocada a torre do relógio, que vemos na sequência.

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Cartagena Romana

Um novo período histórico se inicia para Cartagena, quando a cidade de Cartago é destruída pelo Império Romano durante o transcurso da Segunda Guerra Púnica. O general romano Publio Cornelio Escipión conquista a antiga cidade púnica de Qart-Sadasht em 209 aC, recebendo a partir de então a denominação de Cartago Nova. Com o tempo, transforma-se na principal cidade da chamada Província Hispania Citerior. Foi durante a época do Imperador César (44 aC) quando passa a ser uma colônia de direito, recebendo o título de Colônia Urbs Julia Nova karthago, com um estatuto jurídico próprio, comparado ao da própria Roma.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACartago Nova viveu em época de Augusto seu momento de máximo esplendor e um imenso projeto de reformas urbanas se realiza, dotando a cidade de construções administrativas, civis e religiosas. Um dos monumentos conservados mais importantes do período de Augusto é o Teatro Romano, construído durante os últimos anos do séc. I aC.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAConstruído num local densamente povoado, se aproveitou a ladeira rochosa para que fosse construída boa parte do recinto onde os habitantes pudessem assistir os espetáculos. A fachada do teatro possuía 16m de altura, e certamente causaria um grande impacto àqueles que chegavam a cidade por mar. Sua capacidade é estimada em 6 mil espectadores, e todos eles ocupavam um local determinado, segundo a hierarquia social. Os mais humildes presenciavam os espetáculos na lotada parte superior, enquanto os destacados magistrados ocupavam os privilegiados locais inferiores.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO teatro, além de sua função lúdica, constituía o local perfeito para a propaganda política e religiosa do imperador, personificado em Cartegena por dois jovens príncipes, Cayo e Lucio, que provavelmente foram os financiadores da obra e de sua ornamentação, segundo os restos arqueológicos encontrados.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo final do séc. II dC, o Teatro Romano de Cartagena sofreu um incêndio, cuja destruição fez com que jamais se recuperasse. Os elementos arquitetônicos foram empregados mais tarde na remodelação de novos espaços destinados a praças e mercados públicos nos séculos IV e V dC.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEntre os séculos XI e XIII, perdido qualquer resto do teatro, se construíram residências islâmicas em seu entorno, que depois se tornaram os primeiros assentamentos cristãos após a reconquista da cidade em 1243.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois de quase 20 anos de trabalhos arqueológicos, o Teatro Romano foi recuperado, constituindo um um dos monumentos mais importantes da cidade. O edifício conhecido como Palácio de Pascual de Riquelme, situado em frente à Prefeitura de Cartagena, se converteu num grande museu concebido pelo reconhecido arquiteto Rafael Moneo, que conduz o visitante desde a Praça do Ayuntamiento até o interior do Teatro Romano.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO museu se articula em dois edifícios distintos, unidos por um corredor subterrâneo. As salas que o conformam foram divididas tematicamente, onde podemos apreciar elementos decorativos do teatro e comprovar a importância que os mesmos tinham dentro da estrutura do Império Romano.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlém do mais, os achados arqueológicos incluem uma casa construída no séc. II aC, que foi demolida para a construção do teatro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma cripta construída no séc. XIX, cuja singularidade radica que sua planta se adaptou às dimensões de duas dependências pertencentes a uma casa romana do séc. I aC, sendo que seus pavimentos foram utilizados para o solo da capela.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANão bastassem tantas coisas interessantes, podemos contemplar também os restos da antiga Catedral de Santa Maria, levantada com as pedras romanas do teatro. Reformas posteriores foram feitas e a igreja passou a ocupar parte do espaço do antigo teatro. Sua origem se remonta ao séc. XIII, depois de restituída a Diocese de Cartagena, logo após a reconquista pelos cristãos. Coma transferência da capitalidade eclesiástica para Murcia a igreja, ainda sem finalizar, se transformou apenas numa simples paróquia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Igreja de Santa Maria sempre esteve em más condições de conservação, graças ao seu progressivo abandono. Finalmente, entre 1899 e 1904, foi reconstruída pelo arquiteto Victor Beltrí, mas os danos ocasionados pela Guerra Civil Espanhola provocaram sua ruína definitiva. Atualmente, forma um conjunto único junto com o Teatro Romano.

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