A Judería de Toledo: Parte 3

Depois que a cidade de Toledo foi reconquistada pelo monarca Alfonso VI em 1086, a boa convivência entre cristãos, árabes e judeus prosseguiu. Muitos dos muçulmanos mais ricos preferiram, no entanto, mudarem-se para a Andalucia, zona que ainda era governada por dirigentes árabes. Os que permaneceram na cidade passaram a ser denominados Mudéjares, que realizaram diversas construçoes para os reis castelhanos, contribuindo para o desenvolvimento do estilo mudéjar na cidade, uma de suas principais características e o estilo por excelência encontrado em Toledo. Abaixo, vemos um exemplo deste tipo de arquitetura encontrado na Judería de Toledo, a Igreja de Santo Tomé, famosa por acolher em seu interior o famoso quadro de El Greco, “O Enterro do Senhor de Orgaz”, tema de matérias publicadas em 28/1 e 29/1/2015. 

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA comunidade judaica prosperou porque alguns de seus membros foram nomeados para cargos de relevância dentro da corte, como conselheiros, médicos, astrólogos, financiadores etc, concedendo importantes benefícios para a sociedade judaica. Uma das personalidades mais famosas da Judería de Toledo foi Samuel Leví, tesoureiro maior do Rei Pedro I de Castilla.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERASamuel Leví foi o responsável pela construção de uma das sinagogas mais importantes de Toledo no século XIV (1357), denominada Sinagoga do Trânsito. Em 1971 passou a ser sede do Museu Sefardí, e representa um exemplo vivo da passagem da comunidade judaica pela Espanha e outra amostra do Mudéjar Toledano. Abaixo, vemos uma foto exterior deste templo de visita obrigatória…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos uma imagem do interior da Sinagoga do Trânsito.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Judería de Toledo chegou a contar com 12 sinagogas e 5 centros de estudo, dados que refletem a importância da comunidade na cidade castelhana. A outra sinagoga que se conservou, construída no final do século XII e declarada Monumento Nacional, é a Sinagoga de Santa María La Blanca, considerada a Sinagoga Maior de Toledo (matéria publicada em 27/6/2012).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Sinagoga de Sofer constituiu outro dos templos judaicos de importância, segundo as fontes documentais. No entanto, desta sinagoga se conservam apenas ruínas, que podem ser vistas em frente à Escola de Artes e Ofícios (publicado recentemente, em 22/7/2017), junto com restos arqueológicos referentes ao sistema hidráulico de época romana. Um pequena fonte de água identifica os restos conservados e na parte subterrânea podemos ver as ruínas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAlém das comunidades árabes e judia, a comunidade cristã se incrementou de forma notável depois da reconquista de Toledo. Num primeiro momento, os antigos mozárabes (católicos que viveram sob o poder muçulmano) conservaram suas tradições e continuaram utilizando o idioma árabe para a escritura de documentos. Numerosos grupos chegaram à cidade oriundos do norte da península, Portugal, França e da Europa Central. Este conjunto de culturas distintas estabeleceram laços de convivência, mas eram regidos por suas próprias leis. A sexta feira, por exemplo, era o dia sagrado para os muçulmanos, o sábado para os judeus e o domingo para os católicos. Seus rituais eram diferentes, e sua forma de vestir e de se alimentar também. Apesar disso, os membros das três culturas passeavam pelas mesmas ruas, compravam nos mesmos estabelecimentos comerciais, existindo relações de amizade e amor entre eles. É neste período em que se manifesta o auge cultural da cidade, culminando na fundação da famosa Escola de Tradutores de Toledo pelo Rei Alfonso X “El Sábio” (reinou entre 1241 e 1264), uma instituição na qual se reunia os grandes sábios das três comunidades. Foram eles que realizaram a tradução do árabe e do hebreu para o latim das grandes obras filosóficas e científicas da antiguidade clássica. Também nesta época se completa a configuração urbana herdada dos árabes, formada por um labirinto de ruas com construções mudéjares que propiciaram uma certa uniformidade à paisagem de Toledo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos a Porta del Cambrón, considerada a porta de acesso à Judería de Toledo. De origem muçulmana (séculos X e XI), seu nome se deve à presença no local de plantas espinhosas denominadas cambroneras, mas sempre foi conhecida como a Porta dos Judeus.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASeu aspecto atual é o resultado de reformas realizadas entre 1572 e 1577 durante o reinado de Felipe II, quando foi rebatizada como Porta de Santa Leocádia, padroeira da cidade, cuja imagem preside a porta, debaixo do escudo de Felipe II.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA seguir vemos uma foto da parte externa da Porta del Cambrón

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Ayuntamientos de España: Parte 5

Outro aspecto importante a salientar em relação à decoração das fachadas dos edifícios que albergam os Ayuntamientos de España constituem as imagens, tanto religiosas, quanto profanas, e os símbolos heráldicos. Por exemplo, no Ayuntamiento de Zaragoza, foram esculpidos os Anjos da Cidade, pelo famoso escultor Pablo Serrano, em 1965.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANumerosas também, as imagens profanas recordam heróis mitológicos, como na excepcional fachada do Ayuntamiento de Tarazona (Comunidade de Aragón).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMuitas das imagens possuem um significado alegórico, representando a indústria, o comércio, os ofícios tradicionais, bem como virtudes morais, como a justiça, a caridade, etc. Em certos edifícios, aparecem medalhões representando a personagens reais, como no Ayuntamiento de Chinchilla de Aragón (Castilla La Mancha) com o busto do Rei Carlos III, cuja construção ocorreu durante seu reinado (segunda metade do século XVIII).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOs Escudos de Armas representam outro elemento decorativo presentes em muitas Casas Consistoriais do país. Originários da Idade Média, os escudos mais antigos pertencem ao período gótico, como podemos observar no Ayuntamiento de Baeza (Andalucía), cidade que conserva três edifícios que foram sedes da prefeitura local. Este é o mais antigo deles.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XVI, com o florescimento da arquitetura civil, os escudos se proliferam nos edifícios sedes de Ayuntamientos, caso do Ayuntamiento de Ciudad Rodrigo (Castilla y León).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAMuitos dos escudos de armas estão relacionados a títulos nobiliários e linhagens, principalmente em edifícios que foram construídos originalmente como palácios, que depois se converteram em prefeituras. Um exemplo é o Ayuntamiento de Úbeda, antigo palácio de Vázquez de Molina, cujo escudo preside a fachada.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO mesmo sucede com o Ayuntamiento de Ayllón (Castilla y León), antigo palácio dos Marqueses de Villena, senhores da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAlguns escudos se referem aos alcaldes que promocionaram a construção do edifício, como em Ciudad Rodrigo. As Armas Reais também aparecem em muitos edifícios, principalmente dos monarcas da Dinastia dos Habsburgos. No antigo Ayuntamiento de Covarrubias (Castilla y León), por exemplo, vemos o Escudo de Armas de Felipe II

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Museu de Belas Artes – Parte 2

O acervo permanente do Museu de Belas Artes de Valencia inclui importantes obras de duas escolas fundamentais na evolução da História da Arte, o Renascimento e a Pintura Flamenca. A cidade foi uma das portas de entrada na Península Ibérica das novas idéias humanistas provenientes tanto da Itália, graças aos intensos contatos políticos com Sicília e Nápoles, então parte integrante do Império Espanhol, como também através da cidade francesa de Avigñon, na época sede pontifícia. Esta proximidade fez com que Valencia se tornasse um foco da cultura renascentista, que na Espanha tardou em implantar-se devido a persistência, principalmente religiosa, em relaçao à Arte Gótica. No século XVI, o Renascimento Italiano triunfa em todo o continente, e sua assimilação em território espanhol resulta inevitável. Abaixo, vemos um quadro intitulado “Virgen de las Fiebres“, pintado pelo italiano Bernardino di Benedetto Biagio (1454/1513), que representa os vínculos existentes entre Valencia e Roma nos finais do século XV graças à família dos Borgia. Francisco de Borgia, que aparece no lado direito do quadro, ocupou cargos importantes na corte pontifícia na época de seu parente, o Papa Alejandro VI. A Virgem, representada como Mãe da Sabedoria, ensina o filho a ler. Este quadro teve uma forte repercussão em Valencia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm relação à temática, escassos sao os quadros pintados por artistas espanhóis do Renascimento que tratam de temas mitológicos e de nus femininos, abundantes na Itália, devido ao predomínio dos temas religiosos que persistem no país. Um exemplo é o quadro da “Purísima Concepción” de Nicolás Falcó, artista ativo em Valencia no final do século XV e início do XVI. Pertencente à fase inicial do Renascimento Espanhol, a obra apresenta um marcado caráter eucarístico.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro artista que desenvolveu sua carreira em Valencia, já no período de maturidade do Renascimento no país (segundo quarto do século XVI), ficou conhecido como Mestre de Alzira. Este artista anônimo recebeu este nome devido a um retábulo dedicado à Virgem que realizou para uma igreja situada na cidade de Alzira, sendo considerado um dos personagens mais interessantes do panorama artístico valenciano da primeira metade do século XVI. Abaixo, vemos a obra por ele realizada “Cristo sobre o sepulcro com três anjos“.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAValencia possui uma grande tradição artística, que se reflete na importância de alguns de seus pintores mais famosos. Juan de Juanes (1523/1579) é um deles, um nome fundamental do Renascimento Espanhol. Foi um dos criadores de imagens religiosas de maior popularidade na época e o mais importante pintor valenciano de seu tempo. Influenciado por Rafael, suas obras destacam pelo intenso colorido e perfeito equilíbrio compositivo. A seguir vemos um “Ecce Homo“, pintado por ele.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma de suas obras mais conhecidas é este quadro da “Santa Ceia“, que retrata o momento em que Jesus anuncia que será traído por um de seus apóstolos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADocumentado em Valencia entre 1505 e 1525, o pintor Fernando Llanos é de origem castelhano e colaborou com Leonardo da Vinci em Florença. O Museu de Belas Artes possui uma bela obra sua, o quadro “Flagelación“, pintado em 1520.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos grandes impulsores da arte de sua época foi o Rei Felipe II, verdadeiro mecenas  que colaborou para a assimilação da arte clássica. O Monastério de El Escorial, construído em seu reinado, tornou-se o modelo arquitetônico do Renascimento Espanhol, influenciando notavelmente as construções posteriores. Abaixo, vemos um retrato do monarca realizado por um anônimo flamenco no século XVI, que segue as tendências dos retratos cortesanos impostos pelo pintor holandês Antonio Moro (1519/1579) e o valenciano Alonso Sánchez Coelho (1531/1588).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Pintura Flamenca foi uma das escolas preferidas pelos monarcas espanhóis, junto com a italiana. Abaixo, vemos um exemplo, o quadro de São Sebastião sendo atendida pela viúva Irene e sua criada, realizado por Matthias Storm (1600/1650), um discípulo de Caravaggio. O corpo do santo é iluminado por uma fonte de luz ausente do quadro, criando um ambiente melancólico e meditativo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post, veremos os grandes nomes da Pintura Espanhola presentes no acervo do Museu de Belas Artes de Valencia.

 

Esculturas do Museu do Prado

Apesar de ser reconhecido internacionalmente como uma Pinacoteca, ou Museu de Pinturas, o Museu do Prado possui cerca de 900 esculturas em seu acervo artístico. Como no caso das pinturas, as esculturas formavam parte das coleções dos Reis da Espanha. Algumas das obras mais importantes estão situadas no claustro do desaparecido Monastério de San Jerónimo, que foi restaurado e colocado dentro do novo edifício projetado por Rafael Moneo durante as obras de ampliação do museu, finalizadas em 2007.

DSC09089O núcleo central da coleção de escultura formou-se na primeira metade do século XVI, durante o reinado de Carlos I. A ele se deve um excepcional conjunto  de obras, os retratos familiares de corpo inteiro que o monarca encarregou aos escultores italianos Leone Leoni (1509/1590) em 1549, e que foram finalizados por seu filho Pompeo Leoni (1530/1608). Consideradas obras primas da Escultura Renascentista, foram realizadas em bronze e Mármore de Carrara, materias perfeitos para exprimir os valores de nobreza e eternidade. Representam o próprio imperador e os membros mais próximos de sua família. Abaixo, vemos o monarca Carlos I (1500/1558), uma escultura realizada em mármore em 1553, na qual o rei aparece vestido com uma armadura e um medalhão que representa a Marte, Deus da Guerra. Carlos I foi o único Rei Espanhol proclamado Imperador, por ter sido Rei da Espanha e também do Sacro Império Germânico.

DSC09085Carlos I casou-se com sua prima Isabel de Portugal (1503/1539) em 1526. Foi a primeira e única esposa do rei, que sentiu por ela um profundo amor. Faleceu em Toledo no ano de 1539, com apenas 36 anos. Para recriar sua imagem, Leone Leoni recorreu a um retrato da imperatriz pintado por Ticiano, que se conserva no Museu do Prado.

DSC09075A seguir vemos um relevo do casal real, encarregado a Leone Leoni em 1549, e terminado em Milão 6 anos depois. Feitos de mármore e decorados com motivos da Mitologia Clássica.

DSC09077 Maria de Hungria (1505/1558), irma de Carlos I, casou-se em 1521 com Luis II, Rei da Hungria, que veio a falecer 5 anos depois. Entre 1531 e 1556 foi a regente dos Países Baixos. Na escultura, aparece vestida como viúva. Encarregada a Leone Leoni em 1548, foi realizada em bronze.

DSC09080Um dos filhos que Carlos I teve com Isabel de Portugal, Felipe II (1527/1598) foi o responsável por trazer de forma permanente a capital do Império Espanhol para Madrid, em 1561. Entre 1554 e 1558 foi também Rei da Inglaterra, graças ao seu casamento com Maria Tudor. Abaixo vemos sua escultura, realizada em bronze e fundida em 1551.

DSC09073Felipe II também aparece num busto feito de alabastro e atribuído a Pompeo leoni (1560).

DSC09083Os dois escultores, pai e filho, foram também os responsáveis de outras obras primas do Renascimento Espanhol, os mausoléus do Imperador Carlos I e Felipe II, que podemos ver no Monastério de El Escorial. Finalizo a matéria comentando que o claustro é o único local do Museu do Prado onde as fotos estão permitidas…

 

Os “Viajes de Água” – Madrid

Apesar de sua importância histórica, o Rio Manzanares nunca pôde contribuir para a cidade com o elemento indispensável à vida, a água. Isso ocorreu devido à peculiar localização do Centro Histórico de Madrid, situado num barranco a 70 metros de desnível em relação ao rio, como podemos ver abaixo na imagem.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFelizmente, Madrid é uma cidade que possui um abundante lençol freático, com uma grande quantidade de água subterrânea. Para poder aproveitá-la, se construiu uma rede de galerias ou minas de captação de água denominadas “Viajes de Água“. Este sistema estava formado por uma rede de tubos feitos de barro ou chumbo que conduzia a água até as fontes públicas da cidade, distribuídas pelo centro antigo. De origem árabe, esta técnica de abastecimento continuou sendo utilizada e ampliada durante o período subsequente à dominação árabe, principalmente depois que Madrid tornou-se a capital permanente do Reino no século XVI (1561) e o incrível crescimento populacional verificado a partir deste momento. O próprio nome árabe da cidade, Mayrit, significa local onde sao abundantes os canais subterrâneos de abastecimento de água, ou seja, os “Viajes de Água“.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMadrid foi a única cidade que articulou seu abastecimento graças a este sistema. Sua técnica consistia, primeiro, em localizar uma zona aquífera, e depois, cavar poços que se comunicavam entre si mediante as galerias. Todas estas galerias se reuniam numa só, que conduzia a água até a cidade pelo desnível existente entre a área de captação (zona norte da cidade) e o centro histórico. O trajeto do líquido finalizava em uma fonte pública ou particular, na qual  jorrava livremente, sem que houvesse a existência de um meio regulador como as torneiras de hoje em dia. O abastecimento de água se complementava com os chamados “Viajes de Água Grossos“, assim denominado pela pior qualidade da água e o pior gosto que tinha, sendo usada para a agricultura e o consumo industrial. Além do mais, existia a água procedente dos poços situados nos pátios residenciais. O escasso nível de água do Rio Manzanares foi usado somente para a lavagem de roupa, como vimos nas matérias anteriores.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs “Viajes de Água” foram os responsáveis pelo abastecimento de água de Madrid até mediados do século XIX, quando se inaugurou o Canal de Isabel II, que veremos em breve.Durante o reinado de Felipe II (segunda metade do século XVI), Madrid já se destacava pela qualidade de suas águas, distribuídas nas 15 fontes públicas existentes. A completa rede de “viajes” foi regulamentada em 1617 por um órgão recém criado denominado “Junta de Fuentes“, função até então exercida pelo Conselho de Madrid. As classes humildes acudiam às fontes, com seus cântaros e outros tipos de recipientes. Já a classe média e a aristocracia se asseguravam o consumo de água mediante o transporte feito através de carroças puxadas por jumentos. Outra possibilidade era a contratação  de funcionários que levavam água à domicílio, os chamados “Aguadores“.

dsc07974No século XVII haviam cerca de  mil aguadores que levavam água das fontes públicas aos domicílios. Seu ofício, como muitas outras atividades, foi regulamentado pelo poder público. Eles tinham, como mínimo, o direito à metade dos canos existentes numa fonte para poder encher seus recipientes. Por este motivo, ocorreram vários conflitos entre a população de baixa renda e os aguaderos, pois estes tentavam ocupar, sob multa, todos os canos e ganhar mais dinheiro. Como os “Viajes de Água” eram subterrâneos, atualmente podemos  observar sua existência através de indícios que provam sua presença, como esta rara tampa que ainda podemos ver numa das ruas da cidade (vemos escrito na parte inferior, Viaje Antiguo de Água e, na parte posterior, Ayuntamiento de Madrid, ou seja, a Prefeitura da cidade).

20150720_180345No próximo post, publicarei a segunda parte dos “Viajes de Água“…nao percam !!!!

Rio Manzanares – Parte 2

Em seu trajeto por Madrid, existem várias pontes que cruzam o Rio Manzanares, algumas delas históricas. Uma das primeiras matérias publicadas no blog (18/4/2012) falei a respeito da maioria delas. A Ponte de Segóvia é a mais antiga, embora tenha sido reconstruída depois da Guerra Civil.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta ponte foi construída no século XVI, logo depois que Madrid tornou-se a capital permanente da Espanha, durante o reinado de Felipe II (1561), como uma entrada digna para a corte. O arquiteto responsável de sua construção foi Juan de Herrera, também autor do projeto final do Monastério de El Escorial. As vistas do Centro Histórico de Madrid desde a Ponte de Segóvia impressionam, como vemos na foto acima, em que aparecem o Palácio Real e a Catedral de Almudena. Abaixo, vemos um quadro realizado entre 1640 e 1660 no qual podemos apreciar a ponte e o antigo Alcázar de Madrid, que sofreu um terrível incêndio em 1734, dando lugar ao atual Palácio Real.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA seguir, vemos uma foto antiga da Ponte de Segóvia

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra das pontes históricas de Madrid, a Ponte de Toledo foi projetada por Pedro de Ribera, um dos arquitetos que mais contribuíram para o desenvolvimento da paisagem urbana da cidade, sendo finalizada em 1732.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua construção foi promovida pelo então alcalde (prefeito) de Madrid, o Marquês de Vadillo. Feita de granito, está composta por 9 arcos e foi decorada em sua parte central com duas esculturas que representam o santo padroeiro de Madrid, San Isidro, e sua esposa, Santa María de la Cabeza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos uma foto antiga da Ponte de Toledo, de 1920…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAComo sucedeu com o próprio Rio Manzanares, a Ponte de Toledo também se tornou objeto de sátira dos literatos e intelectuais, que o designaram “Muita ponte para tão escasso rio…”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAo longo dos séculos, o Rio Manzanares foi aproveitado economicamente, e antigamente nas suas margens existiam moinhos para a produção de farinha. Denominados Norias, sua origem se remonta à época romana, e posteriormente foram aperfeiçoados pelos árabes. Durante a idade Média, sua importância foi tal que se tornaram monopólio senhorial, passando depois a ser propriedade do conselho da cidade e também das Ordens Religiosas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAntigamente, o Rio Manzanares nao era “calmo” como atualmente, e as enchentes provocadas em várias ocasiões destruíram boa parte dos moinhos existentes. Outra atividade relevante exercida em suas margens foi a lavagem de roupa. De fato, em muitas fotos antigas do rio podemos apreciar a paisagem ribeirinha tingida pelo branco das roupas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO ofício das lavadeiras estava regulamentado, e no final do século XIX e princípios do XX atingiu proporções industriais. Um grande canal, paralelo ao rio, foi construído para esta atividade, que desapareceu depois do término da Guerra Civil devido à contaminaçao industrial.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Rio Manzanares possuía uma fauna e flora diversificada, e a pesca foi intensamente praticada tempos atrás. Vários fatores limitaram esta atividade, como o aumento populacional e sua consequente massificação. A partir do momento em que o rio foi canalizado no século XX, a rota migratória de várias espécies de peixe foi afetada. Muitas outras desapareceram com a contaminação industrial. Finalmente, a introdução de novas espécies, que não pertenciam originalmente à fauna fluvial, como as trutas e o chamado peixe-gato, que se alimenta de outras espécies, contribuíram para a diminuição da pesca.

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Rio Manzanares – Madrid

As cidades cortadas por cursos fluviais sempre exerceram um certo fascínio para mim, pois acredito que propiciam uma paisagem urbana diferente das demais cidades, que não possuem o privilégio de ter um rio que atravesse seu perímetro. Madrid é uma destas cidades “abençoadas”pela natureza, e o Rio Manzanares é o grande protagonista desta dádiva natural.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA partir de hoje iniciaremos uma matéria sobre o Manzanares, sua importância histórica e também sobre o curioso sistema de abastecimento de água de Madrid ao longo dos séculos. O Rio Manzanares está intrínsecamente relacionado com a história da cidade. Nasce da neve derretida no alto da Serra de Guadarrama, o maciço montanhoso que atravessa o norte da Comunidade de Madrid, a 2265m de altitude.

dsc04631Inicialmente um pequeno arroio, o Manzanares desce a serra por um território que foi declarado Reserva Natural, o Parque Nacional da Serra de Guadarrama.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO local denominado “La Pedriza” é um dos mais belos recantos do parque. O pequeno rio é alimentado por outros arroios até chegar à cidade de Manzanares El Real, povoado que na Idade Média foi um senhorio feudal, e que inspirou o nome atual do rio. Abaixo, vemos o Castelo de Manzanares El Real, uma impressionante fortaleza gótica construída no século XIV.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADentro do limite urbano desta cidade, o Rio Manzanares desemboca na Represa de Santillana, que vemos abaixo, junto com uma parte da fortaleza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois, o Rio Manzanares aumenta o seu volume de água proveniente de outros cursos fluviais. Ao entrar em Madrid, o rio está canalizado e termina o seu percurso no sul da Comunidade de Madrid, “entregando” suas águas no Rio Jarama, um afluente do Rio Tajo, o mais extenso do país. Ao atravessar a fronteira portuguesa, o Rio Tajo muda de nome, e passa a ser chamado de Tejo, desembocando no Oceano Atlântico, em Lisboa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAntigamente o Rio Manzanares era conhecido pelo nome de Guadarrama, que no idioma árabe significa “Rio de Arreial”. O seu fundo arenoso e o baixo fluxo de água do rio (principalmente no verão) foram fatores que limitaram sua utilização para a navegação, exceção feita às pequenas embarcações.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAProjetos para torná-lo navegável foram realizados, principalmente depois de 1580, quando Portugal foi incorporado à Monarquia Espanhola, durante o reinado de Felipe II. O faraônico projeto tinha como objetivo a construção de um canal que chegasse à Toledo e, depois pelo rio Tajo, até Lisboa. No entanto, problemas técnicos derivados do escasso nível de água e de seu elevadíssimo custo tornaram o projeto inviável, e não foi construído.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA escassa importância geográfica do Rio Manzanares, cujo percurso atravessa de forma exclusiva a Comunidade de Madrid, e seu pequeno fluxo de água, fez com que fosse ridicularizado por poetas e escritores espanhóis, principalmente os do denominado Siglo de Oro (Século de Ouro da Cultura Espanhola, referente aos séculos XVI e XVII). Um dos mais conhecidos literatos da época, Francisco de Quevedo, referiu-se ao Manzanares como “Aprendiz de Rio”. Pobre Manzanares…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPor outro lado, foi também inspiração para pintores, como Goya, por exemplo, que realizou vários quadros em que aparece retratado, principalmente associado às festas que se realizam em suas margens, como as Romerias dedicadas ao Santo Padroeiro de Madrid, San Isidro. Do ponto de vista arqueológico, o Rio Manzanares possui uma importância fundamental, pois em suas margens foram encontrados restos da presença do homem pré-histórico desde o Paleolítico. Nos depósitos do Museu das Origens de Madrid (normalmente uma parte dos museus não aberta à visitação pública) podemos admirar muitos dos achados arqueológicos descobertos na beira do rio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAInúmeros restos encontrados permitem conhecer os animais que antigamente habitavam suas margens, como esta mandíbula de Mastodonte.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA ribeira do Rio Manzanares foi habitada, antes da presença romana na região, pelos povos denominados Carpetanos, e sao abundantes atualmente as zonas arqueológicas e cavernas onde se desenvolvem trabalhos de investigação. Estes povos foram conquistados pelos romanos, assimilando sua cultura. Hoje em dia, é uma maravilha passear pela beira do Rio Manzanares em seu trajeto por Madrid, pois foi transformada numa zona de ócio onde podemos contemplar os inúmeros monumentos, construções e pontes que o atravessam. Uma de suas construções mais emblemáticas é o Estádio Vicente Calderón, pertencente ao Atlético de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAConstruído entre 1961 e 1966, seu nome é uma homenagem a um antigo presidente do clube, mas é também conhecido como “Estádio del Manzanares“. O estádio foi vítima de uma “enfermidade” construtiva, denominada “Aluminosis“, ocasionada pela utilizaçao de materiais de baixa qualidade, apesar da avançada tecnologia assegurada pelo fabricante. Como consequência, foram realizadas várias e intermináveis reformas em sua estrutura. Na realidade, seus dias estão contados, e esta é a última temporada em que o Atlético de Madrid disputará seus jogos neste lendário estádio, pois a partir do próximo ano se procederá à inauguração de seu novo campo de futebol. Finalizamos este post, com uma foto do Vicente Calderón em construção…

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