Santo Domingo de Guzmán

Finalizo os posts sobre Caleruega com uma matéria sobre seu filho mais ilustre, Santo Domingo de Guzmán (Sao Domingos de Gusmão, em português), fundador da Ordem Dominicana, também denominada Ordem dos Predicadores, de grande importância na história do Cristianismo. Em frente ao Real Monastério de Santo Domingo de Caleruega existe um monumento em sua homenagem.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASanto Domingo nasceu neste povoado em 1170 e faleceu com 51 anos de idade, na cidade italiana de Bolonha, em 1221. Filho de Félix Nuñez de Guzmán (conhecido como o Venerável Félix) e Juana Garcés (também chamada de Santa Juana de Aza, beatificada em 1828), teve dois irmãos maiores, Antonio e o Beato Manés, considerado um dos primeiros beatos dominicano. Abaixo, vemos sua família num mosaico situado no interior do Real Monastério de Santo Domingo de Caleruega.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASanto Domingo foi batizado na Igreja Paroquial de Caleruega, que vemos a seguir.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Pia Batismal desta igreja foi levada ao Monastério de Santo Domingo El Real de Madrid, onde todos os membros da Família Real Espanhola são batizados. Abaixo, vemos o monastério na capital e a famosa Pia Batismal.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERASanto Domingo recebeu uma cuidada educação moral e cultural. Ao descobrir sua vocação missionária, foi predicar a doutrina católica aos cátaros em 1206, que professavam uma corrente cristã considerada herética pelo catolicismo oficial, iniciando desta forma o movimento dos predicadores. Neste ano, estabeleceu no sul da França sua primeira instituição religiosa feminina e, em 1215, a primeira fundação masculina. Também neste ano chega a Roma para assistir o Quarto Concilio de Letrán e solicitar ao Papa a aprovação de sua ordem como nova instituição religiosa. Para sua criação, escolhe a regra de Santo Agostinho, e em 22/12/1216 recebeu do Papa Honorio III a bula “Religiosam Vitam“, conformando a fundaçao da Ordem dos Predicadores. Abaixo, vemos uma escultura gótica do santo (1380/1410), feita de alabastro (Monastério de Santo Domingo de Caleruega).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFaleceu em 1221 no Convento Dominicano da cidade de Bolonha, e seus restos encontram-se enterrados na Basílica de Santo Domingo desta cidade italiana. Foi canonizado em 1234 pelo Papa Gregório IX. São Domingos, capital da República Dominicana, leva este nome em homenagem ao santo de Caleruega. A seguir, vemos outra escultura de Santo Domingo, datada de 1500 (Real Monastério de Santo Domingo de Caleruega).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma lenda a ele associada diz que o santo teve uma visão da Virgem com um rosário, ensinando-lhe como rezá-lo, ordenando-o para que difundisse a doutrina católica pelo mundo. Apesar de que o rosário fosse conhecido desde o século IX, o santo espanhol teve um papel fundamental na difusão do rosário, outorgando-lhe uma finalidade evangelizadora. Abaixo, vemos uma pintura do santo, do século XVII…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das representações artísticas mais comuns do santo é a do cão com uma tocha na boca. Segundo a tradição, sua mãe, Santa Juana de Aza, antes do nascimento do filho, teve um sonho em que um cachorro saía de seu ventre, com uma tocha acesa na boca. Incapaz de compreender seu significado, decidiu buscar a Santo Domingo de Silos, fundador do famoso monastério beneditino situado próximo a Caleruega, realizando uma peregrinação a dita instituição. Ali finalmente compreendeu o sonho, e seu filho seria o responsável por difundir o “fogo” de Jesus Cristo ao redor do mundo através da predicação. Em outro mosaico do Real Monastério de Santo Domingo de Caleruega podemos ver o episódio….

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm agradecimento ao santo de Silos, a Beata Juana colocou o nome de Domingo ao seu filho, um nome apropriado pois se origina do latim “Dominicus“, que significa “Do Senhor“. Deste nome se originou a palavra “Dominicanus“, a denominação da ordem fundada pelo santo, um composto de “Dominus” e “Canis“, que significa “Cão do Senhor“. Na sacristia do Real Monastério de Caleruega se conservam dois sepulcros com os restos de seu irmão Antonio e de Félix de Guzmán, pai do santo, que vemos na foto abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm outras representações, Santo Domingo de Guzmán aparece segurando a Bíblia, fonte de predicação, ou com uma igreja na mão, que representa a Igreja Universal.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAHistóricamente, a Ordem Dominicana teve um papel preponderante, e nos últimos 900 anos, 4 papas pertenceram a ela, além de quase 3 mil cardeais e bispos. Muitos dos principais santos dominicanos desempenharam um relevante papel na arte, literatura e da filosofia. Entre alguns dos mais importantes, citamos: San Vicente Ferrer (1350/1419), predicador e filósofo, a mística Santa Catalina de Siena (1347/1380), Santo Tomás de Aquino (1225/1274), autor da “Suma Teológica” e principal representante da Escolástica, San Luís Beltrán (1526/1581), um dos primeiros missioneiros do continente americano, e Rosa de Lima (1586/1617), exemplo de vida religiosa na América Latina. Depois da descoberta da América, vários frades dominicanos defenderam o apoio aos direitos indígenas, como o espanhol Bartolomé de las Casas (1486/1566). A seguir, vemos um quadro com personagens relevantes da Ordem Dominicana.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAtualmente, a Ordem Dominicana está formada por cerca de 160 mil membros, dos quais 6 mil frades espalhados por 88 países continuam exercendo a obra predicadora do santo de Caleruega.

Real Monastério de Santo Domingo – Caleruega

O povoado de Caleruega deve sua existência a que atualmente é sua principal atração turística, o Real Monastério de Santo Domingo. Sua história se remonta um pouco depois da morte de Santo Domingo, fundador da Ordem dos Dominicanos, em 1221, quando seu irmão, o Beato Manés, ordenou a construção de uma capela no local de nascimento do santo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAInicialmente, o monastério esteve habitado por freiras pertencentes à Ordem de Santo Agostinho. Com a canonização de Santo Domingo no século XIII, o Rei Alfonso X “El Sábio” ordenou o traslado de monjas dominicanas ao monastério, que tornaram-se as proprietárias do Senhorio de Caleruega a partir deste momento. Ou seja, a vila de Caleruega passa a pertencer à comunidade de religiosas dominicanas deste monastério, fato que se prolongou até o século XIX.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos um facsímil do documento original feito de pergaminho, no qual o Rei Alfonso X outorga o Senhorio de Caleruega ao Real Monastério de Santo Domingo, em 1266.

OLYMPUS DIGITAL CAMERALodo depois, o monarca ordenou a construção de uma igreja gótica no local da antiga capela. Deste edifício do século XIII se conservam algumas interessantes esculturas religiosas, ambas do século XIII, como a do Arcanjo Gabriel e da Virgem da Anunciação em estado de gestação, uma representação rara em sua iconografia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADa igreja gótica também se conserva o coro, que vemos a seguir…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XVI se construiu uma nova igreja no estilo renascentista, que é a que vemos atualmente.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo centro da nave vemos um belo Retábulo Maior de estilo renascentista, com cenas relativas à vida de Santo Domingo, cujas pinturas foram realizadas por Blas de Cervera (1584/1643). Em sua parte superior, vemos um calvário de madeira executado por integrantes da escola de Gregorio Fernández, um dos principais escultores barrocos da Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO claustro do Monastério de Santo Domingo é muito bonito. Composto por dois níveis, o primeiro foi construído em pedra entre os séculos XIII e XIV, e o segundo é posterior, edificado somente no século XVIII, e construído com tijolos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos a decoração dos capitéis do nível inferior do claustro….

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo claustro se encontra o que restou do sepulcro da Infanta Leonor, filha do Rei Alfonso X “El Sabio”, além da roupa com que foi sepultada…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XX se construiu a cripta do monastério, presidido por um poço de água, em que a tradição o associa como o local exato de nascimento de Santo Domingo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante a visita podemos apreciar várias obras artísticas, como esculturas de Santo Domingo e pinturas relacionadas com personagens relevantes da Ordem Dominicana, como a que vemos a seguir, um quadro do século XVII de Santo Tomás de Aquino, um dos mais importantes teólogos do cristianismo, e principal expoente da corrente denominada Escolástica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1868, dentro dos processos desamortizadores do século XIX, o Real Monastério de Santo Domingo deixou de se a proprietária do povoado de Caleruega, que começa a se desenvolver como um núcleo urbano.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA No próximo e último post sobre Caleruega, publicarei uma matéria sobre seu filho ilustre, Santo Domingo de Guzmán, e a Ordem dos Dominicanos por ele criada.

Caleruega – Província de Burgos

Depois de conhecer Coruña del Conde e a antiga cidade romana de Clunia, fomos visitar o povoado de Caleruega, também situado na Província de Burgos, precisamente na Comarca da Ribera del Duero.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste pequeno povoado de cerca de 500 habitantes sempre aparece na lista dos Pueblos mais bonitos da Espanha

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERASeu nome está vinculado aos vascos, que desempenharam um importante papel de repovoamento depois que a cidade foi reconquistada aos mouros. Significa “terra de Cal“, graças às montanhas de pedra calcárea que rodeiam o município.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA existência de Caleruega se remonta ao século X, durante o processo de reconquista nos primórdios do território do antigo Reino de Castilla. Sua importância histórica se deve a que no povoado nasceu Santo Domingo de Guzmán, fundador da Ordem dos Dominicanos (Orden de los Dominicos, em espanhol), também conhecida como Ordem dos Predicadores.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs edifícios históricos de Caleruega estão vinculados a Ordem Dominicana, como o Real Monastério de Santo Domingo, que em breve veremos no blog, e o Convento dos Padres Dominicanos, construído em 1952. Ambos edifícios transformaram o povoado num dos principais referentes mundiais relacionados a ordem fundada por Santo Domingo de Guzmán.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADa época inicial de Caleruega se conservam monumentos importantes, como o Torreón de los Guzmanes, assim denominado porque tradicionalmente se acredita que esteve relacionado com a família de Santo Domingo de Guzmán.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta torre de 20m de altura foi edificada no século XII, e formava parte do recinto defensivo criado pelos reis cristãos para impedir que os exércitos muçulmanos pudesem apoderar-se novamente destas terras. Constitui um dos poucos exemplos de torre defensiva de Castilla y León com um formato quadrado. A torre pode ser visitada, e em sua parte superior acolhe um museu relacionado com a Ordem dos Dominicanos, bem como com outros interessantes peças religiosas, como uma coleção de esculturas do Menino Jesus realizadas entre os séculos XVII e XIX.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERACuriosamente, o Convento dos Padres Dominicanos foi construído rodeando a torre, e atualmente a fortificação encontra-se integrada ao claustro do convento.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos outras imagens do convento, cuja construção na metade do século XX levou em consideração a presença do Real Monastério situado ao lado, de forma que mantivesse uma uniformidade construtiva e arquitetônica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro monumento importante de Caleruega é a Igreja de San Sebastián, construída no século XII no estilo românico. Deste período inicial se conserva a torre a o arco da entrada.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post publicarei uma matéria sobre o Real Monastério de Santo Domingo, construído no local de nascimento do santo fundador da Ordem Dominicana

Clunia – Parte 2

No Conjunto Arqueológico de Clunia se conserva a maior parte dos espaços públicos que constituíam uma cidade romana, cujo urbanismo refletia o próprio modelo da capital imperial, Roma. O centro da vida pública estava composta pelo Foro, local onde se realizavam as principais atividades políticas, comerciais, jurídicas e religiosas da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Foro situava-se no centro da cidade, onde de cruzavam as avenidas principais, o chamado Cardus Maximus e o Decumanus Maximus. Possuía um formato retangular que media 160m de comprimento por 115 m de largura. Contava com um templo dedicado a Júpiter, a principal divindade religiosa da antiga Roma. Foi edificado no século I dC.

OLYMPUS DIGITAL CAMERABoa parte de seu espaço estava ocupada pela Basílica, com funções jurídicas e comerciais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo Foro também situavam-se as tabernas, cujas ruínas vemos abaixo, além de um detalhe arquitetônico de uma delas, do século I dC.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOs Romanos davam um grande valor a sua higiene pessoal, e as Termas constituiam um local de grande importância social. Em Clunia podemos ver os restos das chamadas Termas de los Arcos, construídas também no século I dC.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs termas estavam formadas por um espaço denominado Palestra, onde se realizavam exercícios físicos. Depois de sua prática, as pessoas banhavam-se em piscinas para limpar o corpo. Em seguida, passavam às salas de banhos com temperaturas variadas: Frigidarium (banho frio), Tepidarium (banho temperado) e Caldarium (banho quente).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO aquecimento da água se produzia através do sistema de hipocausto, com um forno e uma câmara situados sob o pavimento da sala.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos restos conservados de maior importância do conjunto arqueológico, o Teatro Romano de Clunia é uma verdadeira maravilha construtiva. Escavado na rocha e com capacidade para acolher cerca de 10 mil espectadores, foi um dos maiores de toda a Hispania.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA arquibancada estava apoiada na própria ladeira do terreno e parte dela foi talhada diretamente na rocha. Encontrava-se rematado em sua parte superior por um pórtico, que servia de acesso à parte interior do teatro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO público presente no teatro contemplava uma fachada composta por dois níveis de altura formada por colunas, e decoradas com estátuas. Abaixo, vemos uma recriação do teatro…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo século II dC, o teatro passou a ser utilizado como local para espetáculos de lutas de gladiadores e animais ferozes.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADurante o século III DC, se produz um progressivo despovoamento da cidade, devido à crise geral deste período e a própria decadência do Império Romano, sendo que no final do século foi incendiada pelos povos bárbaros. Clunia sobrevive até o século VII, mas ua importância em época visigoda diminui, com o desaparecimento de sua existência das fontes literárias. Apesar de sua ruínas despertarem a curiosidade das autoridades desde o século XVI, foi somente a partir do século XX quando começaram a ser realizadas escavações sistemáticas no local.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante a Idade Média, Clunia serviu como canteiro de pedra para a construção de outros edifícios das cidades próximas, tanto populares como nobres, como o próprio Castelo de Coruña del Conde, que vimos recentemente no blog. Por este motivo, suas ruínas foram permanentemente saqueadas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs trabalhos arqueológicos iniciaram em 1915 e as ruínas deixaram de ser saqueadas, principalmente com a chegada de Blas Taracena (1895/1951), um renomado arqueólogo espanhol, e com a declaração de Clunia como Monumento Nacional. As escavações permanecem ativas até os dias de hoje…

Clunia – Província de Burgos

Há cerca de 2200 anos atrás os romanos se estabeleceram na Península Ibérica, dentro do contexto da Segunda Guerra Púnica (218/201 aC), travada contra outra potência mediterrânea da época, Cartago, que terminou com o triunfo do Império Romano e a derrota do General Aníbal. Finalizado o confronto, os romanos demoraram dois séculos em conquistar plenamente o novo território, devido as constantes guerras travadas contra os povos ibéricos, autóctonos do território espanhol, e também pelos conflitos entre os próprios governadores romanos, como no caso de Sertorio, que desafiou o poder de Roma. Com a conquista dos povos indígenas, a cultura local foi substituída pela civilização latina. O nome dado pelos romanos à península, Hispania, esteve relacionado à nomenclatura oficial das três províncias criadas para sua administração no final do século I aC: Hispania Ulterior Baetica (cuja capital foi a atual cidade de Córdoba), Hispania Citerior Tarraconensis (capital Tarraco, atual Tarragona) e Hispania Ulterior Lusitania (Capital Emérita Augusta, atual cidade de Mérida).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPosteriormente, com a reforma administrativa efetuada por Diocleciano (284/305 dC), as províncias foram aumentadas, como vemos no mapa abaixo:

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO nome do país, Espanha, se originou do termo Hispania, e uma das explicações de seu significado seria “Terra de Coelhos“. Muitas das cidades mais importantes do país foram fundadas pelos romanos, como por exemplo: Zaragoza (CaesarAugusta), Barcelona (Barcino), Sevilha (Hispalis), Toledo (Toletum), etc. Algumas delas conservam um impressionante patrimônio histórico relacionado à época romana, e foram declaradas Patrimônio da Humanidade, como os Conjuntos Arqueológicos de Tarragona e de Mérida, o Aqueduto Romano de Segovia e a Muralha Romana de Lugo. Além do mais, se conservam por todo o país vestígios arqueológicos de cidades de grande importância naquele período, como a antiga cidade romana de Clunia, situada atualmente na Província de Burgos, próxima à cidade de Coruña del Conde, que vimos no último post.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOriginalmente, esta zona esteve ocupada pelos Arévacos, um povo pré-romano pertencente aos Celtiberos, que se assentaram neste local. Apesar do desconhecimento em relação a sua localização exata, todas as informações relacionados a este anterior povoado se devem às fontes romanas, sendo que finalmente a cidade foi submetida ao poder imperial de Roma. A denominada Colônia Clunia Sulpicia foi uma das principais cidades romanas da metade norte de Hispania. Pertenceu à província de Hispania Citerior Tarraconensis e constituiu um Convento Jurídico (assembléia de reunião entre os povos romanos e as comunidades indígenas, que aconselhavam o governador na administração e na justiça). Situava-se no alto de um cerro que supera os 1000m de altitude, na estrada que ligava Tarraco (atual Tarragona) com Asturica Augusta (atual cidade de Astorga).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm Clunia, o político e militar romano Quinto Sertorio resistiu durante 20 anos a Pompeyo, que destruiu a cidade no ano 72 aC. Foi reconstruída pelo Imperador Tibério (14/37 dC), que lhe concedeu inicialmente o título de Municipium, o segundo em importância de uma cidade romana, com um status inferior ao de Colônia. Clunia emitiu moedas de bronze e de ouro com a efígie do imperador, como vemos abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA cidade adquiriu o título de colônia e o nome de Sulpicia depois que Sulpicio Galba se proclamasse imperador na própria cidade, durante a revolução travada contra o Imperador Nero. Seu esplendor ocorreu entre os séculos I e II dC, chegando a ter cerca de 30 mil habitantes, uma quantidade apreciável para a época. Clunia constitui atualmente um excepcional enclave arqueológico, cujas ruínas estão entre as mais importantes da Espanha Romana. Como ocorre com qualquer outra cidade, a maior parte do espaço urbano estava constituído por residências, como a denominada Casa de Taracena, que preserva um impressionante conjunto de mosaicos que podemos contemplar na visita guiada que se realiza no local, decorado com elementos geométricos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA casa ocupa quase toda a extensão de um quarteirão…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO mosaico central possui um grande interesse devido à variedade de sua composição policromada. Seus motivos decorativos relacionam-se com a moda imperial vigente entre os séculos II e III dC, com a presença de elementos geométricos e da flora.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADurante a visita, vemos outros mosaicos conservados, como os que vemos a seguir.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEm Clunia foi criada a primeira Legião Romana de Hispania, a Legio VII Gemina. No Centro de Interpretaçao construído como complemento informativo à visita, podemos observar vários restos arqueológicos encontrados no local, como uma estela funerária, com o nome do defunto em sua parte inferior e curiosos elementos geométricos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizo esta primeira parte da matéria sobre a cidade romana de Clunia com uma foto minha, tirada por uma das pessoas que integrava a excursão, dentro do Teatro Romano da cidade.

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Coruña del Conde – Província de Burgos

Recentemente realizei uma excursão organizada pelos meus professores de história a uma região de grande potencial turístico, a Província de Burgos, uma das províncias que formam a Comunidade de Castilla y León. Visitamos a antiga cidade romana de Clunia e o belo povoado de Caleruega, que em breve vocês verão no blog. Nossa primeira parada, no entanto, foi o município de Coruña del Conde, cujas principais atividades econômicas são a agricultura (cereais e vinho) e a indústria madeireira. Este pueblo conta com apenas 120 habitantes, mas em seus limites acolhe uma das construções mais antigas da zona conhecida como Ribera del Rio Duero, a Ermita de Santo Cristo de San Sebastián (a palavra ermita, em português, pode ser traduzida como uma pequena capela).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO reduzido tamanho da construção é inversamente proporcional à sua importância histórica, representando uma combinação das diversas culturas presentes nesta zona entre os séculos IX e X. Parece que o edifício original foi destruído pelos árabes no século X, sendo reconstruído no estilo pré-românico com influências bizantinas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADa etapa pré-românica, o grande destaque fica por conta do ábside da ermita, cujo formato retangular constitui uma das principais características desta corrente arquitetônica. Foi construído provavelmente no ano 912, quando este território foi incorporado ao antigo Condado de Castilla. Seu muro foi decorado com os denominados Arcos Cegos

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANa parede superior do ábside vemos um relevo com uma curiosa figura humana, que por sua vestimenta poderia remontar à época visigoda

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlguns dos capitéis que rematam as colunas da ermita também pertencem ao período pré-românico, como vemos abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA ermita foi novamente reformada no final do século XI, quando se adotou o estilo românico, como podemos observar em sua porta principal, formada por 3 arcos semicirculares.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO mais curioso desta reforma foi a incorporação de diversos blocos de pedra que foram trazidos da cidade romana de Clunia, situada próxima ao município de Coruña del Conde. Algumas destas pedras apresentam relevos esculpidos, como observamos nas colunas que sustentam a porta principal.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutras apresentam símbolos pagãos, como o chamado corno da abundância

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO interior deste insólito templo religioso está composto por apenas uma nave retangular, que não visitamos pois a ermita estava fechada à visitação pública.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADesde a ermita, tínhamos uma bela vista das ruínas do Castelo de Coruña del Conde, cuja origem se remonta ao século X, quando o Rei García de León decidiu repovoar estas terras. No início do século XXI, o castelo foi reforçado para que não desabasse. Como curiosidade, a prefeitura do município, proprietária da fortaleza, colocou a construção a venda ao preço de 1 euro (acreditem, se quiser…) a qualquer pessoa que se comprometa em sua restauração e posterior conservação, diante da impossibilidade de obter fundos públicos para a tarefa….alguém se habilita ?

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Castells – Parte 2

Neste segundo post sobre os Castells, ou torres humanas, veremos algumas curiosidades sobre este verdadeiro símbolo cultural da Catalunha. Em Tarragona é tão popular que existe um belíssimo monumento em sua homenagem, esculpido em bronze por Francesc Anglès e inaugurado em 29/5/1999. Sua localização, a Rambla Nova, uma das avenidas mais conhecidas da cidade, foi escolhida pelos próprios habitantes locais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO monumento possui 11 metros de altura e pesa 12 toneladas, e está formado por um total de 219 figuras. O curioso é que o escultor representou a vários personagens do mundo cultural e artístico espanhol, como Picasso, Miró, Paul Casals, e a si mesmo. Observando a escultura, vemos que se representam todos os elementos indispensáveis para sua construção. Antes de se começar a torre humana, uma banda de música começa a tocar peças musicais denominadas Toc de Castells, que somente finalizará ao término da torre, quando todos seus membros encontram-se novamente no solo. Um dos membros mais importantes durante a realização de um Castell é o chamado Cap de Colla, que dá orientaçoes precisas sobre a construção.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm Castell está composto por várias partes, começando pela Pinya, a base da torre, que concentra  a grande maioria dos participantes. Pode chegar a ter centenas de pessoas, incluindo não somente os membros da Colla Castellera, como também amigos, familiares e pessoas apaixonadas, que se unem espontaneamente e auxiliam em sua formação de suporte para o Castell. Está considerado o elemento mais complexo de toda a estrutura, principalmente no núcleo.

DSC02082A parte central de um Castell denomina-se Tronc, formado por vários pisos com a mesma quantidade de membros em cada um. Sua complexidade depende da altura e estrutura (quantidade de pessoas por piso).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA parte superior de um Castell, chamada Pom de Dalt, completa o tronco e possui a mesma composição em quanto a número de participantes. Normalmente inclui os 3 últimos andares da estrutura, nas quais as crianças sobem até chegar ao último nível.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs Castells possuem um vocabulário próprio no idioma catalão, que designam cada Castell em função de sua estrutura quanto ao número de membros em cada andar ou piso e o número de andares. Sua estrutura geral é cada vez mais complexa na medida em que ganha altura. Recebem uma denominação através de dois números. O primeiro descreve a quantidade de pessoas em cada piso, e o segundo número o total de pisos. Por exemplo, um “tres de vuit” ou três de oito. significa que o Castell está composto por 3 membros num total de oito andares. Alguns Castells recebem uma denominação própria, como o 5×8, chamado de “Catedral“.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADe acordo com o número de membros em cada andar os Castells recebem nomes específicos, como por exemplo: 1) Pilar: somente 1 pessoa por andar, que pode chegar ter até 8 pisos. 2) Dos de: formado por duas pessoas, pode alcançar 9 pisos, façanha realizada em 1993. 3) Trés de: três pessoas em cada andar, e pode chegar a 10 pisos, a altura máxima alcançada por um Castell nos registros históricos. Para muitos,  a torre humana de estética mais perfeita. 4) Quatre de: 4 pessoas por andar, de grande exigência física e técnica. Em 2015 se realizou um Castell de 4×10, algo que jamais havia sido possível até então. Para uma mesma altura, se valoriza mais um Castell com maior quantidade de pessoas por andar (um 5×8 vale mais que um 3×8). Existem Castells formado por 4 membros por andar com um pilar de vários andares no meio da estrutura principal, considerado um dos mais espetaculares por sua grande complexidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAQuando uma construção torna-se muito alta e com poucos participantes em cada piso, se necessita um apoio adicional  para suportar a estrutura e fornecer a devida estabilidade. Por exemplo, o denominado Foire consiste numa base construída no segundo andar sobre a Pinya, a base principal situada no solo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm Castell pode ser realizado total ou parcialmente, recebendo as seguintes expressões: Se diz que um Castell foi Descarregado quando atingiu o topo e foi desmontado com êxito. Carregado quando atingiu o topo mas desabou na desmontagem. Um Intent quando desabou antes de atingir o topo e um Intent Desmuntat quando a Colla (associaçao que está construindo a torre) decide desmontá-la antes de atingir o topo. Normalmente isso ocorre quando a construção está instável e corre o perigo de cair.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante a história, foram documentados 3 acidentes mortais durante a realização de um Castell. O último deles ocorreu em 2006, quando se tornou obrigatório o uso de capacetes entre as crianças que sobem na parte mais alta da torre.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASegundo dados obtidos na Internet, em 2005 a porcentagem de Castells que não cairam foi de 96.3 %. A capacidade de absorção da energia produzida por uma queda na base da torre (Pinya) é de aproximadamente 40 a 60%.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Atualmente, as Collas de Castellers (agremiações que realizam os Castells) estão organizadas como qualquer associação ou clube, com sede própria ou local de reunião e treinamento. Uma das mais conhecidas da cidade chama-se Xiquets de Tarragona, e algumas de suas participantes, de forma amistosa e simpática, me permitiram tirar uma foto…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta Colla Castellera existe desde 1970, e originou-se com a fusão de duas outras entidades…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra parte integrante de um Castell é a banda de música, que começa a tocar quando inicia-se a construção da torre. Em caso de queda, a música para no ato…

OLYMPUS DIGITAL CAMERADesde 1980 se realizam a cada 2 anos um Concurso de Castells na antiga Praça de Touros de Tarragona, chamada Tarraco Arena. É o único momento que os Castells adquirem um caráter competitivo. A antiga Praça de Touros foi reformada para abrigar estes eventos, com a instalaçao de um teto móvel para proteger os Castells em caso de chuva, pois nestas condições não são construídos, devido ao maior perigo de queda. Apesar de ser considerado o evento máximo dos Castellers, muitas associações se recusam a participam do concurso, por considerar que descaracterizam seu espírito comunitário. Em youtube existem muitos vídeos sobre estes impressionantes concursos. Selecionei um deles para que vocês tenham uma idéia…

Finalizo a matéria sobre os Castells, manifestação declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, e também sobre a cidade de Tarragona, depois de várias publicações. Gostaria de comentar que a maioria das fotos do post são de minha autoria, com exceção das fotos 7 e 11 (de cima para baixo), tiradas do livro “Castells – Torres Humanas”, escrito por Josep Almirall.