San Martín del Castañar – Parte 2

Encerro esta série de matérias sobre os pueblos serranos da Província de Salamanca com um breve “passeio” pelo povoado de San Martín del Castañar.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEu penso que os pueblos espanhóis constituem a alma mais autêntica do país, sendo que as transformações ao longo dos séculos não modificaram num grau elevado o ambiente urbano, seus costumes e tradições, o cotidiano da população etc. Durante muito tempo os habitantes de San Martín del Castañar se abasteceram de água através de fontes estratégicamente localizadas, algumas das quais ainda podemos admirar.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO povoado conserva também a tradição de realizar touradas, como no idioma espanhol são conhecidas as Corridas de Touros. A Praça de Touros da localidade, onde se realizam os festejos taurinos, é realmente pitoresca…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERASeus habitantes souberam conciliar as atividades econômicas tradicionais com o entorno natural, num estilo de vida sustentável que se remonta à séculos…

OLYMPUS DIGITAL CAMERA O pueblo, além do patrimônio histórico que vocês viram no post anterior, conserva ainda 4 ermitas, e uma singela ponte medieval

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA Sierra de Francia é um local maravilhoso para desfrutar da natureza e para contemplar inúmeros pueblos interessantes, como La Alberca, Mogarraz e San Martín del Castañar

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA arquitetura popular tradicional destes povoados foi o motivo principal da declaração de conjuntos históricos que ostentam, uma excelente maneira de conservá-los para as próximas gerações.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizo a matéria com uma simples e bela frase de Georges Dumézil (1898/1906), famoso historiador francês, cuja mensagem é especialmente verdadeira para estes povoados serranos:

“Os povoados sem lendas se morrem de frio.”

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San Martín del Castañar

Meu passeio de fim de semana pela Província de Salamanca finalizou em outro pueblo encantador da Sierra de Francia, chamado San Martín del Castañar.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAo contrário dos outros povoados visitados, a origem de San Martín del Castañar data do período romano, fato comprovado por um monumento de pedra situado no centro da cidade, um espécie de coluna que se conhece como estela.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACom pouco mais de 200 habitantes, a vila foi declarada Conjunto Histórico-Artístico em 1982. Historicamente o povoado era um senhorio episcopal, pertencente ao Bispo de Salamanca. Um de seus principais destaques é o castelo construído no século XV, ainda que seja provável a existência de uma fortaleza em épocas anteriores.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADo antigo conjunto defensivo, se conserva a torre. No século XVI, o castelo foi utilizado como prisão. Atualmente é uma propriedade da prefeitura de San Martín del Castañar, e cumpre uma função dupla, como cemitério municipal e também como Centro de Interpretação da Reserva Natural da Sierra de Francia, cuja importância ecológica foi reconhecida como Reserva da Biosfera.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro monumento relevante do povoado é a Igreja Paroquial de San Martín de Tours, edificada a partir do século XIII, mas reformada posteriormente.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO interior do templo é muito bonito, estando formado por 3 naves, separadas por amplos arcos…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO retábulo central está dedicado a San Martín, um personagem que nasceu na Itália (315/397), sendo criado em Pávia, mas que foi aclamado por uma grande maioria popular como Bispo de Tours, cidade francesa. No ano 337 ocorreu o episódio mais importante de sua iconografia (representação na história da arte), quando exercia a função de soldado. Se encontrava na cidade de Amiens (França) quando viu em uma das portas da cidade um mendigo praticamente nu pedindo esmolas. Como ninguém lhe ajudava, se aproximou ao pobre mendigo entregando-lhe sua capa de soldado. Na mesma noite, Jesus Cristo lhe apareceu, vestido com a capa. Esta é a principal representação artística do santo, que podemos contemplar no retábulo da igreja.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO culto a San Martín estendeu-se rapidamente desde Tours a todo o continente europeu. A capa do santo encontra-se na Capela Palatina de Aquisgrán (Alemanha), cuja construção foi ordenada pelo Imperador Carlos Magno para albergar suas relíquias. Abaixo, vemos o  teto da igreja, construído com um belo artesanato de madeira no estilo mudéjar.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos a cúpula

OLYMPUS DIGITAL CAMERAE um interessante púlpito de pedra, construído na época dos Reis Católicos (século XV)…

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Um Passeio por Mogarraz

A Comarca de la Sierra de Francia está formada por montanhas e vales, onde se assentaram uma série de pueblos de grande interesse histórico, como La Alberca, sua capital, San Martín del Castañar, que veremos no próximo post, e Mogarraz. Seus habitantes, desde tempos remotos, se dedicaram à agricultura e à pecuária, aproveitando todos os espaços disponíveis, criando áreas nas ladeiras das montanhas para o cultivo e o pasto.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra característica que compartem estes povoados é sua arquitetura popular, cujas casas foram construídas com entramados de madeira, que vimos mais detalhadamente num post recém publicado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMogarraz é um pueblo com menos de 300 habitantes, cuja importância histórica foi reconhecida ao ser declarado Conjunto Histórico-Artístico em 1986. Suas ruas estreitas seguem o urbanismo medieval, como podemos observar nas fotos desta matéria.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA fundação de Mogarraz se deve ao processo de repovoamento efetuado pelos reis castelhanos no século XII. Obteve o título de vila somente em 1656.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua economia sempre esteve baseada no cultivo da uva, da cereja e na exploração dos recursos naturais da zona, como a madeira, realizada de forma sustentável desde séculos. Neste sentido, Mogarraz situa-se num local privilegiado, dentro dos limites do Parque Natural de Las Batuecas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAo contrário de La Alberca, em que muitas de suas típicas casas foram restauradas, em Mogarraz conservam seu aspecto original.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATambém aqui encontramos as fachadas das residências ornamentadas com motivos religiosos esculpidos, a grande maioria talhados pela comunidade de judeus conversos que passaram a viver na comarca em épocas passadas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO principal monumento do povoado é a Igreja Paroquial de N.Sra de las Nieves, construída no estilo renascentista. A torre campanário é posterior, erguida no século XVIII, cumprindo uma função de defesa e vigilância.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASeu artesanato é famoso em toda a Espanha e no estrangeiro, principalmente as jóias feitas com fios de ouro e prata, além do bordado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOutros produtos de grande fama, extensivo à toda a Província de Salamanca, constituem os embutidos, derivados da criação de cerdos (porcos, em português), como o jamón, o chorizo, a morcilla, etc. Tivemos o prazer de realizar uma degustação maravilhosa destes produtos numa loja que comercializa alguns dos melhores embutidos da zona.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERACaminhamos sem pressa pelo povoado, principalmente quando a chuva dava uma trégua, sob o olhar atento dos retratos, admirando sua bela, rústica e peculiar arquitetura popular

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Mogarraz – O Pueblo dos Retratos

Depois de visitar o Santuário da Peña de Francia, nosso passeio prosseguiu visitando outros lugares interessantes desta parte da Província de Salamanca, salpicada de pueblos encantadores, como Mogarraz, por exemplo. Nada mais chegar ao povoado, percebi que em muitas casas do povoado haviam pinturas representando retratos de diversas pessoas. Quem serão estas pessoas? Foi o primeiro que pensei…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANa realidade, estes retratos foram realizados por um pintor do povoado em 1967, que decidiu representar os próprios habitantes do pueblo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta iniciativa foi uma das mais geniais que tive a oportunidade de presenciar em minhas andanças pelo país, homenagear os próprios cidadãos de uma localidade. Os retratos foram colocados nas casas onde os retratados viviam.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEvidentemente, muitas das pessoas do povoado já faleceram, ou se mudaram para outras cidades. No entanto, tive o privilégio de conhecer uma simpática senhora que nos contou um pouco de sua vida, cujo retrato adorna os muros da casa onde vive, realizado quando tinha 18 anos…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo total, este pintor realizou 388 retratos, sendo que muitos deles foram colocados nos muros da igreja paroquial de Mogarraz.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPara poder pintar todos estes retratos, o artista utilizou uma estratégia inteligente. Foi à prefeitura do município e recolheu as fotos dos habitantes do povoado que foram entregues para a solicitação dos bilhetes de identidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAo percorrer as ruas do pueblo, várias pessoas, inclusive eu, manifestaram uma estranha sensação, de estar constantemente sendo observadas pelos retratados…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post, faremos um pequeno passeio por este singular pueblo da Serra de Francia

Santuário de N.Sra de la Peña de Francia

O povoado de La Alberca é considerada a capital da Comarca de Sierra de Francia, formada por vales e espaços naturais de grande importância, além de outros pueblos de grande interesse cultural e turístico. Uma das principais atrações da região é o Santuário de N.Sra de la Peña de Francia, um local emblemático da Província de Salamanca e centro de peregrinação há séculos. O santuário situa-se no alto de uma montanha denominada Peña de Francia, a uma altitude de 1783m, onde se guarda e venera a imagem da Virgen de la Peña, padroeira da província e da Comunidade de Castilla y León. Sua localização o converte no santuário mariano a maior altitude de todo o mundo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPraticamente inacessível durante o inverno, o santuário é visitado por uma grande quantidade de peregrinos durante o resto do ano. Como demonstra a foto acima, o inverno europeu deste ano foi muito rigoroso e, em plena primavera, as montanhas da Sierra de Francia continuavam nevadas. A Sierra de Francia encontra-se no limite entre a Província de Salamanca e Portugal. Deste modo, do alto da montanha podemos avistar a Serra da Estrela, situada no país vizinho, além da Comunidade de Extremadura e a planície da comunidade castelhana.

 

 

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO nome Peña de Francia, e a imagem venerada, é uma referência aos repovoadores procedentes de França que se assentaram na região nos séculos XI e XII. A importância religiosa do santuário começou em 1434, quando um tal Simón Vela descobriu a imagem de uma virgem negra numa cova no alto da montanha. Inicialmente se construiu uma capela para abrigar a imagem, que vemos abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO lugar passou a pertencer a Ordem Dominicana, que se tornou a proprietária destas terras, como podemos observar na coluna que vemos a seguir, denominada Rollo Jurisdiccional, que outorga o status jurídico, neste caso eclesiástico, de uma localidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1445, com o apoio real, se construiu o convento e a igreja do mesmo finalizou-se cinco anos depois. A torre atual foi levantada no século XVIII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATambém faz parte do conjunto uma hospedaria independente do santuário e uma antena de telecomunicações.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAÉ difícil imaginar hoje em dia as dificuldades passadas pela comunidade de religiosos em épocas passadas devido ao rigor climático e o complicado que devia ser chegar ao alto da montanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs padres dominicanos desempenharam uma importante atividade missioneira, impulsando a devoção da virgem em muitos lugares do mundo, como na América e em Filipinas. De fato, a Virgen de la Peña é a padroeira da cidade de São Paulo, onde é conhecida como a Virgem de Nossa Senhora da Penha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA comunidade de religiosos abandonou o santuário com a Desamortização de Mendizábal em 1836, mas retornou em 1900, e continuam realizando suas atividades atualmente. Abaixo, vemos o interior da igreja e a imagem da Virgen de la Peña, talhada em 1890. Ignoro o destino da imagem original.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA Virgen de la Peña foi citada na universal obra de Cervantes, “El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de La Mancha“…

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Arquitetura Popular de La Alberca

A principal atração do povoado de La Alberca é, inegavelmente, sua interessante e peculiar Arquitetura Popular, que podemos contemplar nas casas do pueblo, motivo fundamental que outorgou ao local a designação de Monumento Nacional em 1940 ( o primeiro pueblo da Espanha em receber este título).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERASua arquitetura tradicional se conservou graças a manutençao da principal atividade econômica do povoado ao longo dos séculos, a agropecuária. As casas se apoiam uma nas outras, como podemos observar na foto acima, em ruas estreitas sem nenhum tipo de organização urbana. A característica mais notória destas casas é a forma como foram construídas, com entramados feitos de madeira.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs fachadas típicas apresentam o aspecto natural de seus elementos construtivos. A madeira é colocada sem pintar, sendo que o espaço entre elas é preenchido por pedras ou barro cozido.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA castanheira é a espécie de árvore que proporciona a madeira ideal para a construção. Já para as vigas mais importantes da estrutura se utiliza a madeira de roble. Ambas se caracterizam por sua dureza e resistência. As casas possuem dois ou três andares.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm cima das portas das casas aparecem esculpidos nas pedras motivos religiosos como cruzes, invocações à Virgem Maria, escudos de ordens religiosas, as iniciais do proprietário ou a data de construção do edifício, a grande maioria pertencente ao século XVIII. Muitos destes símbolos advertiam que na casa viviam um cristão novo ou judeu converso, como passaram a ser conhecidos os judeus que se converteram ao cristianismo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlgumas casas, no entanto, conservam particularidades de uma construção medieval, como a que vemos abaixo, cuja fachada está formada por uma porta semicircular feita de pedra.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAHabitualmente a fachada possui duas portas, uma que é utilizada pelos moradores e outra, mais larga, usada para a entrada de animais, que permanecen numa espécie de quintal.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATambém observamos que em muitas casas, ao lado da porta, existem um tipo de banco feito de pedra, que era utilizado pelas mulheres para a realização de ofícios tradicionais, como costurar, por exemplo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs entramados de madeira se constituem por troncos verticais paralelos e outros que são colocados horizontalmente e na diagonal.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMuitas das casas de La Alberca foram restauradas, apresentando um bonito aspecto, como vemos abaixo no detalhe de suas janelas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO primeiro andar da casa é utilizado como um espaço para dormitórios. No segundo encontramos a cozinha, coincidindo com o centro social da residência e lugar de encontro de seus membros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAntigamente as casas estavam desprovidas de chaminés, e a fumaça saía pelo telhado da parte superior, entre as telhas. Tradicionalmente, o combustível utilizado era a lenha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAlgumas casas foram devidamente restauradas e adaptadas como pousadas rurais, como a que vemos na sequência.

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La Alberca – Pueblo Medieval

O povoado de La Alberca conserva costumes e tradições que se remontam a um passado distante, como pude comprovar em meus passeios pela cidade. Um deles está associado a uma pequena capela situada junto ao muro exterior da igreja paroquial, chamada Capela de las Ánimas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste singular oratório está relacionado a um costume que ainda perdura no povoado, o da “Moça das Ánimas“, em que uma moça do povoado, nem sempre a mesma, realiza um ritual para os defuntos da localidade. Percorre as ruas do povoado no anoitecer de cada dia, com uma espécie de pequeno sino pendurado no pescoço, implorando orações às almas do purgatório com a seguinte frase: “Fiéis cristãos, recordemos as benditas almas do purgatório com um Pai Nosso e uma Ave Maria, por amor de Deus.” Uma lenda local conta que certa vez, numa fria noite de inverno, a encarregada de realizar o ritual deixou-se dominar pelo medo e nao saiu de sua casa para realizar a tradição. Ante sua falta de coragem, o próprio sino saltou sozinho pelas ruas, acompanhado pelos lamentos das almas em pena. Desde este dia, nunca mais o ritual deixou de ser realizado…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA agropecuária sempre constituiu o motor econômico da região, e toda a Província de Salamanca é famosa pela produção de embutidos, incluindo Jamón, chorizo, morcillas, etc. Ao lado das típicas lojas de souvenirs existentes no povoado, encontramos locais de venda destes produtos deveras apreciados da gastronomia espanhola.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra tradição local está relacionada justamente com o porco (cerdo, em espanhol), representado por uma escultura situada ao lado da igreja, conhecido como “Cerdo de San Antón“.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATodos os anos, no dia 13 de junho, em que se celebram as festividades de Santo Antônio de Pádua, um porco é solto nas ruas, depois de ser benzido previamente. O animal permanecerá solto pelo povoado até o dia 17 de janeiro, quando então é sorteado entre os habitantes. Neste período, o porco é alimentado pelos próprios cidadãos. O dinheiro arrecadado no sorteio é destinado a obras sociais realizadas por uma ONG. Este costume tradicional está associado ao período em que o Tribunal da Inquisição perseguiam os denominados Judeus Conversos, ou seja, os judeus que, para não terem que deixar o país após a expulsão de 1492, foram obrigados à conversão ao catolicismo (cabe recordar aqui que o consumo de porco na religião judaica é proibido), mas que na intimidade de seus lares seguiam com seus ritos religiosos tradicionais. Naquela época muitos judeus conversos saíam às ruas do povoado comendo toucinho de porco, demonstrando que haviam aderido à fé católica. Em muitas casas de La Alberca vemos símbolos religiosos esculpidos na fachada das casas, e outros bem curiosos como o que vemos abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERALa Alberca acolheu em época medieval uma grande quantidade de judeus conversos, devido ao isolamento do povoado e pela proximidade com o país vizinho, Portugal, onde podiam refugiar-se no caso de serem perseguidos pelo Tribunal do Santo Ofício da Inquisição. Devido à amplitude dos territórios e a escassez de funcionários, normalmente as sedes do tribunal encontravam-se nas grandes cidades, obrigando-o a buscar ajuda nos pequenos povoados através dos denominados Familiares do Santo Ofício, nome que recebiam determinados membros de menor nível cuja função era servir de informantes. O escudo acima representa que nesta casa vivia um destes membros, e que podemos encontrar em várias casas de La Alberca.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Tribunal da Inquisição estava composto por uma organizada rede de espionagem e um complexo serviço de informação, sendo que os familiares exerciam um papel fundamental. Nomeado pelos inquisidores de cada distrito, os familiares recebiam certos privilégios, como isenção de impostos e a possibilidade de portar armas. Para ser um familiar, não era necessário nenhum tipo de voto monástico ou que estivessem integrados ao clero. Além do mais, ser familiar da Inquisição constituia uma verdadeira honra e representava um símbolo de status social, supondo um reconhecimento público pelo critério de limpeza de sangue, segundo o qual para ser membro do tribunal se exigia que o nomeado e seus antepassados fossem todos cristãos velhos. Sua principal função consistia em denunciar, perseguir e deter a presuntos hereges, mas não de julgá-los, missão realizada pelo próprio tribunal. Os familiares beneficiavam-se economicamente das pessoas delatadas e em caso de represália por parte destas, estavam protegidos pelo tribunal. O nome dos delatores não eram conhecidos pelos acusados, já que não se tornavam públicos, tornando-os ainda mais temíveis.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAComo vimos no primeiro post sobre o povoado, o nome La Alberca significa “lugar das águas”, sendo que a região  é atravessada por vários cursos de água que descem pela montanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs águas correm pelo povoado através de canais que se encontram tapados por uma comprida estrutura de pedra, como vemos abaixo, situada na praça da igreja…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa próxima e última matéria sobre La Alberca, veremos sua singular arquitetura popular, uma de suas principais atrações…