Espanha – O País dos Touros

Poucos aspectos da cultura tradicional espanhola estão tão associados à imagem do país no estrangeiro como as touradas, aqui denominadas Corridas de Touros. Muitos de meus clientes me perguntam se atualmente as touradas continuam sendo realizadas na Espanha, e ficam surpresos quando a resposta é afirmativa. Se surpreendem ainda mais quando lhes comento que o desenlace final do espetáculo é a morte do touro. Apesar do desprezo de parte da sociedade espanhola e as críticas das associações de proteção à vida animal, o mundo dos touros continua gozando de saúde em boa parte do país, e o título de País dos Touros permanece em vigor.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs touradas constituem a expressão mais famosa, embora não seja a única, das festividades relacionadas com os touros. Particularmente, eu nunca presenciei uma tourada, pela crueldade do espetáculo e também porque não tenho “estômago” para vê-la. No entanto, reconheço sua importância como patrimônio cultural do país e tenho curiosidade por todos os aspectos relacionados à Tauromaquia, termo que designa a “Arte de lidiar Touros, tanto à pé, quanto à cavalo”. Em minhas viagens pelo país, sempre que posso visito as Plazas de Toros das cidades espanholas, os estádios construídos especialmente para os espetáculos taurinos, por sua importância histórica e arquitetônica e também por sua estética. Num sentido mais amplo, a tauromaquia envolve todo o processo prévio à realização das touradas, desde a criação dos touros, a confecção das vestimentas dos toureiros, a exibição de cartazes publicitários, etc.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADecidi, pois, realizar uma extensa série de posts abordando os mais variados aspectos da tauromaquia, desde as origens das touradas, passando pelas escolas mais importantes da arte de tourear, os toureiros mais famosos, as praças de touros de maior relevância, fatos curiosos e trágicos, além das críticas e controvérsias que sempre existiram envolvendo a prática dos espetáculos taurinos.

20190130_084655Neste post inicial, abordarei a origem das touradas e sua evolução histórica, que terá sua continuação na próxima publicação. O touro sempre foi um animal simbólico relacionado ao poder divino e à fertilidade, aparecendo um muitas culturas e em sua mitologia, como o famoso Touro de Creta e a lenda do Minotauro. As lutas rituais entre homem e animal representam o desejo humano de dominar a natureza. O antecedente direto do touro, o Uro, pastava pelas paisagens do continente europeu há milênios atrás e sua figura foi imortalizada por artistas pré-históricos na famosa Caverna de Altamira, situada na Cantábria, região norte da Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMatanças rituais com touros já eram realizadas na Mesopotâmia e na mencionada Ilha de Creta. Na Grécia antiga se praticavam sacrifícios rituais em honra a Zeus, a principal divindade da cultura helena. Em época romana, o Imperador Júlio César introduziu nos jogos circenses a luta entre o touro e o matador, armado com espada e escudo. A origem das corridas de touros na Espanha se remonta à cultura greco-latina que foi introduzida dentro do processo de romanizaçao da Península Ibérica, quando o atual território espanhol passou a ser uma província do Império Romano, denominada Hispania. Abaixo, vemos os denominados “Touros de Costitx“, peças taurinas esculpidas em bronze entre os séculos V e III aC e encontrados na Ilha de Mallorca, comprovando a importância simbólica dos touros dentro da cultura pré-romana na Espanha, e expostos no Museu Arqueológico Nacional de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs romanos introduziram na cultura local os jogos e lutas com feras, nas quais o touro era um animal frequente nos espetáculos, existindo constância de seu enfrentamento com outros animais selvagens, como leões, ursos, e também com humanos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADurante a época visigoda e muçulmana existem poucas fontes informativas referentes à prática de espetáculos taurinos. No entanto, a persistência das festividades em períodos históricos posteriores levam a crer que o costume de realizar-se touradas permaneceu intacto ao longo do tempo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA primeira Corrida de Touros oficialmente documentada celebrou-se em Ávila no ano 1080 e, desde então, passaram por períodos gloriosos e também momentos em que foram proibidas sua realização. Existem notícias sobre festas com touros em Cuéllar (Província de Segóvia) em 1215, quando o bispo local proibiu que os clérigos assistissem aos espetáculos. Em Pamplona, capital do Reino de Navarra e famosa pelo Encierro de San Fermín, onde os habitantes da correm junto com os touros pelas ruas da cidade, as primeiras notícias relacionadas com a realização de espetáculos taurinos remontam ao ano de 1385.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAUm pouco antes, no século XIII, o Rei Alfonso X “El Sabio” proibiu que os jogos com touros se celebrassem por dinheiro, indicando a existência de uma incipiente profissionalidade entre a sociedade da época.

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Cáceres – Extremadura

Cáceres foi a cidade que escolhi como base para conhecer a parte norte da Comunidade de Extremadura. Com quase 100 mil habitantes, Cáceres é a cidade mais populosa da parte norte da comunidade e considerada o município mais extenso de toda a Espanha (1.750 km quadrados).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos centros medievais mais importantes de todo o continente europeu, Cáceres foi declarada Patrimônio da Humanidade em 1986. Fundada pelos romanos, a cidade foi, no entanto, ocupada muito antes, como demonstram as pinturas rupestres encontradas em cavernas situadas na parte sul de seu núcleo urbano, como a Cueva de Maltravieso, cujas pinturas remontam a 20 mil anos atrás. Também foi ocupada pelos povos ibéricos, que construíram um castro (povoado ibérico) na região.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Cáceres foi fundada pelos romanos no ano de 28 aC com  a denominaçao de “Norba Caesarina“, em homenagem ao general romano Cayo Norbano Flaco, seu fundador, e ao Imperador Júlio César. Este primitivo núcleo transformou-se com o tempo no atual Centro Histórico da cidade. A cidade foi construída num local estratégico, na atualmente denominada Vía de la Plata, um caminho que unia as cidades de Astorga, no norte do país, com Mérida (Extremadura) e Sevilha (Andaluzia). Deste nome antigo, Norba Caesarina, procede o atual nome da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACom a chegada dos Visigodos no final do século V, o anterior assentamento romano foi arrasado e até os séculos VIII e IX não existem nenhuma referência à cidade. Foram os muçulmanos que aproveitaram sua localização estratégica e o que sobrou da antiga colônia romana como base militar para combater os reinos cristianos do norte. Desta forma, em 1147, Abd al-Mumin refundou a cidade e, a partir do século XII, árabes e cristãos se sucederam alternativamente no governo de Cáceres.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1169, o Rei Fernando II conquistou a cidade, entregando-a a um grupo de cavalheiros que constituíram uma ordem religiosa e militar, embrião da futura Ordem de Santiago. Quatro anos depois, Abu Yaqub reconquistou a cidade para os muçulmanos, ordenando degolar a maioria destes cavalheiros. A partir de 1212, data da vitória cristã na famosa Batalha de Navas de Tolosa, os avanços cristianos na Extremadura foram definitivos e em 1218 as Ordens Militares de Alcântara e de Santiago ampliaram seus domínios por quase toda a zona. Finalmente, em 1229, Cáceres foi definitivamente reconquistada pelo Rei Alfonso IX de León. O fato ocorreu precisamente no dia 23 de Abril, dia de São Jorge, que foi declarado padroeiro da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO falecimento de Alfonso IX de León um ano depois da reconquista fez com que Cáceres passasse a integrar o antigo Reino de Castilla. No século XIV, sucessivas lutas entre a nobreza local fez com que os Reis Católicos, no século seguinte, ordenassem a derrubada das torres defensivas pertencentes a estas famílias.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante as décadas seguintes ao Descobrimento da América, em Cáceres nasceram várias personalidades que desempenharam um importante papel no novo continente, ocupando cargos de relêvancia, como Diego García de Cáceres. Em 1790, ocorreu um fato decisivo para sua história, quando o Rei Carlos IV estabeleceu na cidade a sede da Real Audiência de Extremadura, o máximo órgão jurídico da região, fato que a transformou de uma simples vila a constituir uma cidade importante.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XIX, com a divisao administrativa de Extremadura em duas províncias, Cáceres foi designada capital de sua parte norte, enquanto Badajoz tornou-se a capital da província da metade sul. No verão de 1936, no início da Guerra Civil Espanhola, o General Franco estabeleceu em Cáceres seu quartel general. Atualmente, sua economia está baseada no setor de serviços, principalmente a construção e o turismo. Por ela passa o trem que liga Madrid a Lisboa, e transformou-se num dos principais destinos turísticos de toda a comunidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANesta nova série de matérias que hoje inicio, vocês poderão conhecer esta belíssima cidade e seu excepcional centro histórico, cuja visita é mais que recomendável….

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Apóstolo Santiago

Como complemento às matérias dedicadas a minha recente viagem realizada pela Galícia, decidi publicar uma pequena série de dois posts sobre o personagem fundamental destas terras, e motivo principal da existência de muitas das cidades que pertencem ao Caminho de Santiago, como a própria Santiago de Compostela. Refiro-me ao Apóstolo Santiago, o Santo Padroeiro da Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos 12 apóstolos de Jesus Cristo, Santiago (em português São Tiago) nasceu provavelmente na Galileia, e foi um dos filhos de Zebedeu e Salomé. Seu irmão, São João Evangelista, também fez parte do círculo íntimo de Jesus. Ambos o conheceram às margens do Mar da Galileia, quando pescavam junto com Simão Pedro e seu irmão André. Pedro, e os irmãos João e Tiago, formaram o trio de discípulos preferidos de Jesus e foram testemunhos diretos de alguns dos principais episódios da vida de Cristo. Depois da morte e ascensão de Jesus, Santiago começou a anunciar a nova fé e se encontrava em Jerusalém quando foi vítima da perseguição contra os cristãos promovida por Herodes Agripa, Rei da Judeia e neto de Herodes O Grande, que decapitou o santo pelas costas no ano 44. Santiago tornou-se, portanto, o primeiro apóstolo que foi martirizado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste pequeno resumo de sua vida constitui o ciclo evangélico da vida do santo. Com seu martírio em Jerusalém e seu posterior sepultamento em terras galegas, iniciou-se uma das maiores devoções a um santo cristão graças aos milhares de peregrinos que, desde a Idade Média, realizam o Caminho de Santiago para venerar seu sepulcro na Catedral de Santiago de Compostela. A tradição de seu enterramento na Galícia se fundamenta em vários textos que adquirem sua forma definitiva no século XII, como a “História Compostelana”, escrito em 1139 por ordem do Bispo Diego Gelmírez de Santiago de Compostela, e o Códice Calixtino, onde se relata os acontecimentos mais importantes de sua vida. Depois de predicar na região da Judeia, veio a Espanha para seguir com seu papel evangelizador. O primeiro em admitir a evangelização do apóstolo na Península Ibérica foi o famoso Beato de Liébana em seus comentários sobre o Apocalipse, redatado em 776. Foi ele também o primeiro em referir-se ao Apóstolo Santiago como Padroeiro da Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos episódios mais importantes da vida de Santiago na Espanha ocorreu na cidade de Zaragoza, quando no ano 40 a Virgem Maria, em “carne mortal”, ou seja, em vida, apareceu ao apóstolo no alto de uma coluna feita de jaspe, conhecida como Pilar. Como testemunho de sua presença, o apóstolo ergueu uma pequena capela, que com o passar dos séculos originou a construção da Basílica do Pilar, um dos centros de devoção mariana mais antigos e importantes do mundo, onde ainda hoje se venera a Coluna do Pilar. A denominada Virgem do Pilar foi declarada a Santa Padroeira da Espanha e do mundo hispânico. Abaixo, vemos uma foto da bela Basílica do Pilar de Zaragoza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois do martírio do santo em Jerusalém, seus restos foram trazidos por dois de seus discípulos, Atanasio e Teodoro, num barco à Galícia. Então, ambos discípulos começaram a procurar um local santo para seu enterramento, e foram recebidos pela Rainha Lupa, perversa governante da Galícia, que os enviou a uma de suas propriedades, onde prometeu bois para o transporte do sepulcro. No entanto, ao chegarem ao local, viram que se tratava de touros bravos. Também encontraram com um feroz dragão que esculpia fogo. Os discípulos, em vez de se assustarem, fizeram o sinal da cruz e, milagrosamente, o dragão explodiu e os touros se transformaram em bois mansos. Retornaram ao palácio da Rainha Lupa que, arrependida, se converteu ao cristianismo e transformou seu palácio numa igreja. Este fato foi mencionado no livro “A Lenda Dourada”, escrito em 1264 por Jacobo de la Vorágine. Abaixo, vemos uma pintura que retrata o episódio, que faz parte do acervo do Museu do Caminho, sediado no magnífico Palácio Episcopal de Astorga, projetado pelo arquiteto modernista Antoni Gaudí.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO sepulcro do santo foi enterrado na cidade de Iria Flávia, atual Padrón, e abandonado no século III devido às perseguições religiosas na época em que o território formava uma província do Império Romano, conhecida como Hispania. Perdida a memória exata do local onde foi enterrado o santo, segundo a lenda uma luz misteriosa apareceu ao eremita Pelayo indicando o local do sepulcro. O Bispo Teodomiro de Iria Flávia foi comunicado e descobriu o sepulcro de mármore do santo e de seus dois discípulos numa antiga necrópole da cidade. Este local, indicado por uma estrela, recebeu o nome de “Campus Stellae“, ou “Campo da Estrela“, origem da cidade de Santiago de Compostela. Na época do Rei Alfonso II “El Casto” (791/842), se difunde por toda a península a notícia da descoberta do sepulcro do santo, fato que originou uma das maiores rotas de peregrinação de todo o mundo cristão, o Caminho de Santiago. Abaixo, vemos o Apóstolo Santiago na fachada da igreja a ele dedicado, em Medina de Rioseco, cidade da Comunidade de Castilla y León.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEvidentemente, na Espanha existem muitos templos dedicados ao seu santo padroeiro. Abaixo, vemos a Igreja de Santiago de Madrid

OLYMPUS DIGITAL CAMERA A Igreja de Santiago de Málaga, onde foi batizado Pablo Picasso em 1881…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm muitas capelas existentes nas Catedrais da Espanha vemos sua figura, como na Capela Funerária de Santiago da Catedral de Toledo, em sua parte superior…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOu na Capela de Santiago, pertencente à Catedral de Segovia

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Betanzos – Galícia

Durante minha estadia em Ferrol, além de visitar La Coruña, aproveitei para passar o dia e retornar a Betanzos, cidade que já havia estado em 2012, mas que nesta oportunidade pude conhecer com mais calma e profundidade. Na primeira vez que estive em Betanzos fiquei impressionado pela beleza e monumentalidade de seu centro histórico, considerado um dos mais importantes de toda a Galícia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACom aproximadamente 13 mil habitantes, Betanzos é conhecida por ser a capital do gótico na Galícia, devido às várias e preservadas igrejas que foram edificadas neste estilo artístico, que em breve poderão conhecer. Além do mais, desde 1970 a cidade foi declarada Conjunto Histórico-Artístico em virtude da conservação de seu patrimônio histórico.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA cidade faz parte da Província de La Coruña, estando situada numa colina cercada pelos Rios Mandeo e Mendo, que se unem em seu perímetro para formar a chamada Ría de Betanzos. Abaixo, vemos uma imagem aérea de Betanzos

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma lenda afirma que Betanzos foi fundada por um chefe militar de origem celta chamado Breogán. Sua existência já foi documentada numa época em que o território espanhol fazia parte do Império Romano, constituindo uma de suas principais províncias, denominada Hispania.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFoi somente em 1212 quando recebeu o título de vila, concedido pelo monarca Alfonso IX, Rei de León e Galícia. Em 1465, Enrique IV lhe outorga o título de cidade e dois anos depois permite a realização de uma feira anual. Durante o reinado dos Reis Católicos, no final do seculo XV, Betanzos se converte numa das sete capitais de província do antigo Reino de Galícia, quando alcança seu máximo esplendor. Nada mais chegar à cidade, fui “recebido” por um belo conjunto de Hórreos, este tipo de construção associado ao armazenamento de grãos, onipresentes por toda a comunidade galega.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAtravessei uma das portas da antiga muralha medieval para conhecer suas principais atrações…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA muralha de Betanzos possuía 5 portas de entrada, das quais se conservam 3. Abaixo, vemos a porta situada em frente a uma das pontes que cruzam o curso fluvial que atravessa a cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA chamada Ponte Velha de Betanzos possuía uma torre defensiva no centro, que foi incorporada ao escudo da cidade. Atualmente pode ser visto em vários lugares do espaço urbano, como nas luminárias e também num pequeno parque, junto com os escudos de outras importantes cidades da Galícia. O escudo mais antigo que se conserva na cidade data do século XV.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANos próximos posts, publicarei várias matérias sobre a cidade, de forma que os leitores (as) do blog possam descobrir esta encantadora localidade do interior da Galícia.

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Torre de Hércules – Patrimônio da Humanidade

Em maio de 2012 estive na cidade de La Coruña, uma das mais importantes da Galícia, e sobre ela publiquei um dos primeiros posts do blog, em 23/5/2012. Naquela oportunidade, comentei um pouco sobre a história da cidade, mencionando algumas de suas principais atrações. Retornei a La Coruña com o Marcelo e a Cristina para um passeio de um dia, partindo de Ferrol, e voltei a visitar a Torre de Hércules, um impressionante farol de origem romano que foi declarado Patrimônio da Humanidade em 2009.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO tempo não estava muito convidativo, com chuva, vento e um pouco de frio, mas não impediu que visitássemos o farol, situado numa colina a 60 metros sobre o nível do mar. A Torre de Hércules é considerado o único farol da antiguidade que segue em funcionamento. Foi construído pelos romanos, no século I dC, e sob a torre se encontram  restos arqueológicos e os cimentos originais da estrutura, além de construções que foram realizadas posteriormente.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA lenda atribui ao herói grego Hércules sua construção, relatada pelo Rei Alfonso X “El Sábio” em 1270. Conta a história que Hércules venceu um gigante chamado Gerión, que ameaçava todos os habitantes da zona. Vitorioso, o herói enterrou a cabeça de seu inimigo e sobre ela ordenou que se edificasse uma torre. Em suas proximidades fundou uma cidade com o nome de Crunia, lembrança da primeira mulher que a habitou e da qual se apaixonou. Esta denominação latina evolucionou até o nome da cidade atual, La Coruña (em espanhol) ou A Coruña (em galhego). A origem lendária do farol podemos observar numa das portas da torre.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATrata-se do único farol romano de todo o mundo do qual se sabe o nome do arquiteto que o projetou, Caio Sevio Lupo, graças a uma inscrição conservada. A Torre de Hércules se iluminava com uma lâmpada de azeite, similar às de uso doméstico, mas de grande tamanho. Abaixo, vemos uma pedra circular que fazia parte do sistema de iluminação do farol, colocada sobre o recipiente que continha o azeite. Vemos na foto o orifício onde a mancha era acesa, projetando a luz sobre um espelho parabólico.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOriginalmente o farol era mais baixo, com 41.5 metros de altura e mais largo, porque contava com uma rampa exterior através da qual se transportava o combustível que o alimentava. Atualmente, possui 59m de altura e possui uma planta quadrada, sendo que sua luz alcança as 24 milhas náuticas. Da parte subterrânea, onde se encontram os restos arqueológicos, começa uma escada que nos conduz ao alto da torre.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACartazes advertem que a subida não é apta para pessoas com problemas cardiorrespiratórios ou claustrofobia…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInfelizmente, em razão das medidas de segurança adotadas devido ao mau tempo, no dia em que estivemos no farol as visitas à parte mais alta da torre foram suspensas. De qualquer modo, pudemos admirar o núcleo interno desta maravilhosa obra de engenharia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAo longo de sua milenar história, o farol sofreu diversas modificações, sendo a mais importante realizada em 1788, durante o reinado de Carlos III, cuja estátua colocada em frente a torre celebra o fato.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA reforma recobriu a estrutura romana com fachada que vemos atualmente. Para recordar a antiga rampa existente, se introduziu na fachada uma faixa ascendente que percorre toda a altura da torre. Abaixo, vemos alguma imagens do farol tiradas em 2012, quando o sol embelezava este emblemático monumento da arquitetura romana na Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizo o post com uma placa colocada na fachada que enaltece a importância da reforma de Carlos III.

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Ponte Romana de Córdoba

A Ponte que atravessa o Rio Guadalquivir é o monumento mais famoso de Córdoba, referente à sua etapa romana, e constitui uma de suas imagens mais divulgadas, com a Mesquita-Catedral de fundo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFoi construída em época de Augusto, no século I aC, um período de grande atividade construtiva em toda a Hispania. Também  conhecida como a “Ponte Velha“, durante 20 séculos foi a única ponte existente na cidade, e provavelmente substituiu uma construção anterior feita de madeira.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA estrutura fazia parte da denominada Via Augusta, considerada a calçada romana mais comprida de toda a Hispania, com cerca de 1500 km. Seu trajeto ligava os Pirineus com Cádiz, bordeando o Mar Mediterâneo. Os romanos foram os primeiros em construir pontes de pedra, e algumas delas se conservam dois milênios depois, o que comprova o alto nível técnico da Engenharia Romana. Composta por 16 arcos, a Ponte Romana de Córdoba foi reconstruída várias vezes ao longo da história, mas sua cimentação e traçado permanecem sendo originais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEntre suas reformas mais importantes, a primeira ocorreu no período califal e depois foi novamente reformada quando a cidade foi reconquistada no século XIII. No princípio do século XX, sofreu outra intervenção. Sua última restauração foi realizada entre 2006 e 2008. Estas reformas tiveram um caráter mais estético que estrutural. Em um de seus extremos situa-se a Torre de Calahorra, construída no século XIV pelo Rei Alfonso XI sobre uma antiga fortaleza árabe (foto acima e abaixo), para a proteção da ponte.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo interior da torre está sediado o Museu das Três Culturas, um interessante espaço cultural sobre a história da cidade. Além do mais, é possível subir à sua parte superior, que proporciona uma das mais belas vistas da ponte e de toda a cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADo outro lado, vemos a Porta da Ponte, edificada durante o reinado de Felipe II em 1572, que encarregou o arquiteto Hernán Ruiz III para substituir uma anterior construção, que integrava o recinto de muralhas da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XVII, uma epidemia assolou a cidade. Segundo os cordobeses, foi graças à intervenção milagrosa do Arcanjo São Rafael que a peste acabou. Em sinal de agradecimento, no ano de 1651 se colocou uma imagem do santo no meio da ponte e as velas que vemos atualmente comprovam a devoção dos habitantes de Córdoba ao seu santo padroeiro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 2004, a ponte foi fechada para a circulação de veículos, e passou a ser utilizada somente para pedestres e pelos milhares de turistas que visitam a cidade cada dia. A Ponte Romana foi cenário de várias produções cinematográficas, como o filme “Carmen“, de 2004, e também para a quinta temporada da popular série “Jogo de Tronos“.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA importância política da Corduba Romana decaiu a partir da segunda metade do século IV, quando Hispalis (atual Sevilha) se converteu na capital da Província Bética. Dita província deixou de estar sob o controle de Roma depois da invasão dos Povos Bárbaros no ano de 409 dC, dando início à etapa visigoda. A cidade romana foi praticamente destruída, mas desta época se conservam apenas vestígios arqueológicas no Museu Arqueológico de Córdoba.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante o período visigodo, se construiu a Basílica de San Vicente, o principal templo religioso da cidade, que posteriormente daria lugar à Mesquita de Córdóba de época árabe, que ainda hoje assombra aos visitantes. Com a invasão árabe da Península Ibérica em 711 dC, Córdoba se transformou na capital de Al Andaluz, um período de grande esplendor, que veremos nas próximas matérias.

Córdoba Romana – Parte 2

Na matéria de hoje, faremos um itinerário pelos monumentos de época romana conservados na cidade de Córdoba, que tive a oportunidade de visitar. O denominado Templo Romano ergue-se em pleno centro histórico da cidade, na zona do antigo Fórum Romano.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua construção foi iniciada na época de Cláudio (41/54 dC) e finalizou-se em tempos de Domiciano (81/96 dC). Dedicado ao culto imperial, originalmente possuia 32m de comprimento por 16m de largura, e estava feito de mármore.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAProvavelmente o templo mais importante da Corduba Romana, foi descoberto durante a construção do Edifício do Ayuntamiento em 1950. Estava formado por 6 colunas em sua fachada principal e 10 em cada uma das partes laterais. As colunas que vemos atualmente foram reconstruídas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo interior do Ayuntamiento se conservaram partes do antigo Templo Romano.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA lei romana obrigava que as sepulturas deviam ser construídas fora do recinto de muralhas. Um exemplo é o Mausoléu Romano, construído no século I dC, cuja tipologia cilíndrica é rara na Espanha. Este monumento funerário de 13 m de diâmetro foi descoberto em 1993, e pertenceu a uma família da elite romana, por seu tamanho.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAComo qualquer cidade romana de importância, Corduba teve seu teatro, considerado o maior de Hispania, e um dos maiores de todo o Império Romano. Atualmente se encontra no subsolo do Museu Arqueológico de Córdoba.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm complexo sistema de canais possibilitava o escoamento de água do teatro, transportando-a até uma grande cloaca central.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFoi edificado entre os séculos I aC e I dC, e atualmente se conserva cerca de 30 % de sua superfície. Foi utilizado até o século III, quando um terremoto o afetou gravemente. A partir deste momento, iniciou-se uma etapa de abandono e os materiais construtivos do teatro acabaram sendo reutilizados em outras construçoes. O espaço onde se localizava se transformou numa zona residencial. Algumas ruínas das casas pertencentes ao século XII podem ser vistas no interior do museu.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO mármore que não podia ser reutilizado era queimado para ser transformado em cal pura em fornos como este, datados entre os séculos V e VI dC.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANormalmente os fornos possuíam uma forma circular ou quadrada.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Corduba Romana foi o berço de um dos grandes filósofos da antiguidade, o estoico Lucio Anneo Séneca (Corduba – 4 aC/Roma – 65 DC). Membro de uma família aristocrática, além de seu importante papel como filósofo, exerceu cargos como político, além de ter sido um renomado orador e escritor. Filho do orador Marco Anneo Séneca, era conhecido como Séneca “O Jovem”, para distingui-lo do pai. Figura fundamental na política romana do período imperial, foi considerado um de seus senadores mais influentes e respeitados. No terreno filosófico, Séneca é o máximo representante do  Estoicismo, doutrina filosófica que buscava a sabedoria através do desprezo aos bens materiais. Abaixo vemos um monumento a ele dedicado, localizado junto à muralha de Córdoba.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAE um busto, que se encontra no Real Alcázar dos Reis Cristianos

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