A Judería de Toledo: Parte Final

A sociedade plural e tolerante de Toledo inicia sua decadência a partir do século XIV. Em 1391 ocorreram os primeiros ataques dos católicos contra a Judería Toledana. A convivência entre ambas comunidades se agravou quando o Rei Pedro I de Castilla, último monarca que protegeu a judeus e muçulmanos, foi assassinado por seu irmao Enrique de Trastámara durante a guerra civil travada em Castilla pelos direitos de sucessão ao trono. Nesta época, os monarcas castelhanos empreenderam um proceso para a construção de um estado moderno com a oposição da nobreza, que desejava manter seu poder. Estes viam na comunidade judaica colaboradores do poder real, que fez com que aumentasse o ódio dos inimigos que não desejavam o fortalecimento dos monarcas. Samuel Leví, tesoureiro maior de Pedro I, prestou inúmeros serviços para o rei. No entanto, devido aos problemas entre cristãos e judeus, o rei proibiu a construção de novas sinagogas, mas não pôde negar a seu amigo que edificasse a Sinagoga do Trânsito, pelo apoio recebido contra seu irmão Enrique, que almejava o trono. Apesar disso, o rei mandou prendê-lo e logo depois foi executado em 1361. Abaixo, vemos uma foto desta Sinagoga, atualmente sede do Museu Sefardí.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANão se sabe exatamente quantos judeus viviam na Espanha na Idade Média, mas seguramente era o país com a maior população judaica da Europa. Em Toledo viviam cerca de 350 famílias, que representava a maior comunidade de Castilla. Em todo o país, existiam outras juderías importantes, como as de Sevilha, Barcelona, Zaragoza, Tudela, etc. Nos primeiros tempos da reconquista, os judeus gozaram de uma situação jurídica especial, pois os monarcas os consideravam uma propriedade real, pertencentes ao tesouro real, e por este motivo eram protegidos. Este fato possibilitou que os judeus tivessem acesso direto aos reis, e privilégios foram concedidos. Um deles constituía numa multa coletiva, aplicada a uma cidade quando aparecia um judeu morto e o assassino não era encontrado.

DSC09355Os cristãos não viam com bons olhos as doações realizadas pelos monarcas às comunidades judaicas, nem os privilégios que ostentavam. No século XIII entra em vigor a lei eclesiástica que proibia o empréstimo com juros (usura), justamente num momento em que vários membros da comunidade judaica se especializaram em negócios financeiros. O ambiente social se agravou com a chegada na Península Ibérica das idéias anti judaicas reinantes pelo resto do continente europeu, e a propaganda contra a comunidade cresceu por todas as partes. As acusações contra os judeus de terem envenenado a água e de profanar hóstias consagradas aumentaram com a peste negra que assolou o continente entre 1348 e 1350. Também no ano de 1391 chegou à Toledo San Vicente Ferrer, monge dominicano e anti judeu declarado, que exaltou os ânimos contra a população judaica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANesta época já existiam na Espanha judeus que se converteram ao catolicismo. A partir do momento em que começaram a ocupar cargos de importância se criou uma atmosfera de inimizade e ódio. Quando se descobriu que muitos deles mantinham seus antigos rituais hebraicos, iniciou-se uma guerra aberta contra as comunidades judaicas no país. Uma das mais importantes ocorreu em Toledo em 1449. Os ataques se sucederam e grande parte das 12 sinagogas da cidade foram destruídas, além de muitas das casas habitadas por judeus. Apenas se conservaram as duas sinagogas que vemos atualmente, a de Santa María la Blanca e a Sinangoga do Trânsito, pois foram transformadas em igrejas católicas. Abaixo, vemos uma imagem interior da Sinagoga de Santa María

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPara solucionar o problema converso, os Reis Católicos obtiveram em 1478 uma bula papal autorizando a criação do Tribunal de Santo Ofício da Inquisição. Dois anos depois, foram nomeados os primeiros inquisidores, que começaram a atuar em Sevilha, e instigaram os monarcas para que a comunidade judaica fosse expulsa do país. Em 1480, foi promulgada uma lei real em Toledo que estabelecia novos bairros para a população judaica, situado fora do centro histórico da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalmente, em 1492 os Reis Católicos decretaram o édito de expulsão dos judeus da Espanha. Num prazo de 4 meses, todos aqueles que não optassem pela conversão tiveram que deixar o país. Os bens comunitários, sinagogas e cemitérios, por exemplo, foram confiscados pelo tesouro real. A expulsão gerou uma série de problemas, originados pela falta de pessoas com boa preparação intelectual e mão de obra qualificada. Muitas foram as explicações dadas pelos estudiosos sobre a decisão dos Reis Católicos, como a própria ambição real, que desejavam confiscar os bens da comunidade judaica. Outra razão foi a luta entre a nobreza e as grandes somas de dinheiro que os reis e a própria nobreza deviam a financeiros judaicos. Os judeus que permaneceram no país, obrigados à conversão, tomaram esta atitude para não perder seus bens, mas continuaram a serem perseguidos, principalmente quando mantinham suas tradições na intimidade do lar. Os judeus conversos foram apartados do poder, já que lhes exigiam responder ao denominado estatuto de “Pureza de Sangue“, sendo obrigados a demonstrar que seus antepassados eram cristãos velhos. Abaixo, vemos tumbas hebraicas de época medieval na Sinagoga do Trânsito.

DSC09454Se desconhece o número de judeus que partiram para outras terras, principalmente Portugal, Países Baixos, sendo que muitos foram acolhidos pelo antigo Império Otomano. O édito de 1492 representou um grande acontecimento em toda a Europa. Espanha, a terra européia judaica por excelência, lhes expulsava de seu território. Somente em 1968 se reconheceu oficialmente a abolição do édito promulgado pelos Reis Católicos. A comunidade judaica voltou a viver no país, e atualmente existem 12 delas espalhadas pelo território espanhol, principalmente em Madrid, Barcelona, Valencia, Palma de Mallorca, etc. Abaixo, vemos uma homenagem de Toledo aos judeus que viviam na cidade e que foram confinados e assassinados nos campos de extermínio nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois de 1492, o Bairro da Judería foi abandonado e ficou esquecido, mas muitas instituições religiosas católicas construíram conventos e monastérios em seu perímetro, como o Monastério de Santo Antônio, instalado em 1525 por uma comunidade de freiras franciscanas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOu o Convento de Carmelitas Descalças, a quinta instituição fundada por Santa Teresa de Ávila em seu processo de renovação da Ordem Carmelita (1569), que encontrou abrigo na Judería de Toledo….

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Escola de Artes e Ofícios de Toledo

O visitante que chega por primeira vez a Toledo observará que a cidade possui um certa homogeneidade arquitetônica, que se reflete em suas construções mais emblemáticas, como suas belas igrejas. Esta particularidade urbana se deve ao estilo mudéjar, abundante na cidade e seu estilo artístico por excelência. O Mudéjar é considerado a grande aportação espanhola à História da Arquitetura, e desenvolveu-se a partir do século XII, estendendo-se até o século XVI. Se caracteriza predominantemente pelo emprego do tijolo, não só como material construtivo, mas também como elemento decorativo. Outra de suas principais características é a utilização de elementos arquitetônicos associados à Arte Muçulmana, como o Arco de Ferradura, por exemplo. Abaixo, vemos a Igreja de Santiago Mayor, construída no estilo mudéjar.

DSC09136Em algumas construçoes mudéjares se utilizaram como elemento decorativo a cerâmica vidriada. A palavra Mudéjar está relacionada com a populaçao muçulmana que permaneceu na Espanha, mesmo depois da reconquista cristã. Um dos ofícios tradicionais da comunidade era justamente a construção, e os reis espanhóis admiravam sua arquitetura e arte. Desta forma, os mudéjares começaram a realizar edifícios para os reis espanhóis, incorporando elementos de sua própria arquitetura. Abaixo, vemos a Paróquia de Santa Leocádia de Toledo, erguida no estilo mudéjar.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo final do século XIX apareceu na arquitetura uma corrente que propunha a revalorização dos chamados estilos históricos europeus, como o românico, gótico, etc. Evidentemente, na Espanha começaram a surgir edifícios que de uma certa forma interpretavam a antiga tradiçao mudéjar, que foram denominados neomudéjares. Um exemplo deste tipo de arquitetura podemos apreciar em várias Praças de Touros espalhadas pelo país. Em Toledo, um exemplo desta atividade construtiva está representada pela Escola de Artes e Ofícios.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das amostras mais significativas da arquitetura toledana de finais do século XIX, a Escola de Artes e Ofícios foi projetada pelo arquiteto Arturo Mélida, sendo que sua construção iniciou-se em 1882, durante o reinado de Alfonso XII.

DSC09362O edifício somente foi concluído em 1931, quando no país reinava o monarca Alfonso XIII, filho do anterior. Esta bela construção situa-se em pleno Bairro da Judería, o antigo bairro da comunidade hebraica, que será o tema dos próximos posts que publicarei.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa fachada do edifício principal vemos representado o Escudo dos Reis Católicos

OLYMPUS DIGITAL CAMERATodos os elementos do estilo mudéjar podem ser vistos no edifício, como a abundância de tijolo, a cerâmica vidriada e as características da Arte Muçulmana.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATambém observamos a presença de novos materiais que passaram a ser usados na arquitetura a partir do final do século XIX, como o ferro forjado, empregado em sua decoração.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADSC09367Abaixo, vemos uma foto do teto na entrada da Escola de Artes e Ofícios

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO edifício foi construído sobre terrenos antigamente ocupados pelo Monastério de San Juan de los Reyes, construído na época dos Reis Católicos e parcialmente destruído durante a invasão francesa de início do século XIX.

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Posada de la Hermandad – Toledo

Bem próximo à Catedral de Toledo situa-se um curioso e antigo edifício, a Posada de la Hermandad, cuja bela fachada de pedra impressiona a todos aqueles que passam pelo local. Estamos na Calle de la Hermandad, cujo nome é uma referência a uma instituição criada na Idade Média, a Santa Hermandad.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Santa Hermandad foi criada durante o reinado do monarca Alfonso VIII (1158/1214) com a finalidade de defender a população da cidade contra os bandidos. Possuía jurisdição para deter, julgar e executar os réus acusados de cometer delitos na cidade. Os Reis Católicos encontraram nesta instituição um excelente instrumento para restabelecer a ordem e a justiça e em 1476 foi estendida a todo o reino, sendo denominada a partir deste momento como Hermandad Nueva ou Santa Hermandad. A fachada deste edifício, que foi a sede desta espécie de polícia medieval, se conserva intacta, apresentando uma grande riqueza decorativa, presidida pelo Escudo dos Reis Católicos, Fernando de Aragón e Isabel de Castilla. O edifício data do século XV, e foi construído junto a um conglomerado de residências medievais em torno a um pátio. A Posada de la Hermandad é considerada a única construção não religiosa da época que se conserva em Toledo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante os reinados da Dinastia Austríaca dos Habsburgos, a Santa Hermandad manteve seu prestígio, e no século XVII incorporou uma série de calabouços em sua parte subterrânea, que podem ser visitados.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADurante o século XVIII, a Santa Hermandad entrou em decadência e em 1835 a Rainha Isabel II assinou um decreto que estipulava sua abolição. Posteriormente, o edifício foi utilizado como prisão, residência particular, escola de idiomas, arquivo e museu. Atualmente, como dependência municipal, realizam-se atos culturais e exposições temporais. Tive a oportunidade de ver uma interessantíssima, dedicada às Catapultas e Máquinas de Assédio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Catapulta teve um papel fundamental na construção das muralhas defensivas, a partir do século IV aC. A Balística havia alcançado um grande desenvolvimento, tornando possível lançar projéteis a uma longa distância com uma incrível precisão. Concentrando em um único ponto sucessivos disparos, se conseguia debilitar o sistema defensivo de uma cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFilón de Bizancio afirmava que uma muralha deveria ter uma largura mínima de 5 metros, para poder resistir o impacto das pedras e que era aconselhável manter estas máquinas a uma distância de ao menos 150m da fortificação. Recomendava também a construção de fossos e outros tipos de obstáculos para reforçar a defesa e dificultar a conquista das cidades. Um dos tipos mais simples de máquinas de guerras antigas é o denominado Trabuco de Torção, considerada a mais poderosa da Idade Média (acima e abaixo).

OLYMPUS DIGITAL CAMERASucessor das Catapultas, as origens do Trabuco se remontam ao século III aC, onde foram fabricados inicialmente na China. No século VI chegou ao mediterrâneo e foi decisivo para a expansão do Império Muçulmano. Os cristãos copiaram o artefato dos árabes e o utilizaram nas cruzadas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAVitruvio, o grande engenheiro e arquiteto romano do século I aC, descreve Catapultas capazes de lançar pedras de 160 kg a uma distância de 400m. Alguns modelos lançavam também flechas com grande precisão, como as chamadas Catapultas de Arco Flexível.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste tipo de Catapulta foi desenhado baseando-se nos arcos da época. Seu grande inconveniente era que, na medida em que o arco aumentava de tamanho, o esforço para aplicar a tensão também aumentava consideravelmente, diminuindo sua manejabilidade. A solução encontrada foi suprir a força humana  por artefatos mecânicos incorporados à máquina. Abaixo, vemos outro tipo de máquina utilizada na antiguidade, a Balesta

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Utilizado pelos romanos, o Ariete Móvil constituiu uma das armas mais poderosas de seu temível exército (quem não viu uma destas armas nos filmes de época, em que o grande tronco de madeira central era empurrado com toda a força para derrubar as portas das muralhas…).

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Ayuntamientos de España: Parte 6

Nesta matéria sobre os Ayuntamientos de España, veremos alguns elementos que caracterizam o interior dos edifícios sedes das prefeituras espanholas. Desde os primeiros exemplos medievais, o interior destas construções tiveram uma grande evolução, adaptando-se às necessidades cada vez mais complexas da administração municipal. As dependências mais importantes estão ligadas diretamente à vida civil, como a Sala de Plenos, a Sala de Justiça, Arquivo Municipal, prisão, etc. Ao entrar no edifício, o Vestíbulo é a primeira parte de contato do cidadão com a Prefeitura, sendo considerado um local de recepção. Em muitos casos, possui uma entrada para carruagens e veículos. Abaixo, vemos o decorado teto do vestíbulo pertencente ao Ayuntamiento de Cartagena.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANele situa-se o posto de guarda municipal e de segurança. Em muitos edifícios vemos o Escudo da Cidade, como no Ayuntamiento de Badajoz.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Vestíbulo comunica com uma grande escada de acesso ao nível superior, onde se localizam as dependências principais. Muitas delas destacam por sua beleza e suntuosidade, como no Ayuntamiento de Cartagena.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, a escada do Ayuntamiento de Valencia

OLYMPUS DIGITAL CAMERADo Ayuntamiento de Murcia

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma constante decorativa, os vitrais estão presentes em vários Edifícios de Ayuntamientos (nas paredes e nas coberturas), caso de Málaga

DSC09534No Ayuntamiento de Cartagena

OLYMPUS DIGITAL CAMERADe Murcia

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm vários Ayuntamientos existe um pátio, que serve de eixo organizador de suas dependências. Uma parte fundamental é o Salão de Plenos, onde se realizam as sessões municipais. Normalmente, possui um formato retangular ou quadrado e está presidido por um quadro de Cristo, do Escudo da Cidade ou pelo retrato do Rei da Espanha. Pinturas alegóricas contribuem para sua decoração, como representação das artes, comércio, indústria, etc. A seguir, vemos esta dependência crucial no Ayuntamiento de Valencia, que possui um formato semicircular, como se fosse um teatro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Salão de Festas apresenta geralmente uma rica decoração, mas encontram-se somente nos edifícios de maior tamanho, como em Valencia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAUma importante dependência da administração municipal constitui o Arquivo, onde se guardam importantes documentos da história local. Seu aparecimento nos Edifícios de Ayuntamientos oficialmente se deu com os Reis Católicos, que promulgaram uma lei em 1500 criando os arquivos municipais, embora já existissem em algumas prefeituras. Os documentos eram custodiados por um escrivão ou secretário, até que foram substituídos pelos cargos de bibliotecário ou arquivador. Em algumas prefeituras , os documentos eram colocados em arcas ou armários situados junto ao despacho do prefeito, ainda que nas cidades de maior importância existia uma sala específica para o Arquivo. Em determinadas Casas Consistoriais podemos ver o Museu Municipal (geralmente situado em edifícios separados da Prefeitura), onde estão expostas peças artísticas relevantes da história da cidade, como ocorre no Ayuntamiento de Valencia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAntigamente, todas as dependências administrativas e judiciárias situavam-se no mesmo edifício. Por este motivo, em muitas Casas Consistoriais havia uma prisão, normalmente situada em sua planta inferior. Infelizmente, se conservam poucas das prisões municipais, da mesma forma que as Capelas situadas no interior dos Ayuntamientos.

Ayuntamientos de España: Parte 2

Na Arquitetura Civil Espanhola se destaca por sua importância e originalidade o Edifício do Ayuntamiento ou da Prefeitura. A própria evolução dos estilos arquitetônicos deixará suas marcas nas construções realizadas para acolher a sede desta instituição pública. Normalmente, a construção era realizada o mais sólida e artisticamente possível, por constituir o símbolo representativo das cidades. Abaixo, vemos os Edificios do Ayuntamiento de Arévalos e de Toro, ambas cidades situadas na Comunidade de Castilla y León.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAntes que o Conselho tivesse um local próprio para exercer suas funções políticas e administrativas, as sessões eram realizadas em lugares como as Praças de Mercado, Igrejas e Catedrais. Por exemplo, houve uma lei aprovada em 1325 em Calatayud na qual estava terminantemente proibido jogar lixo no átrio da Igreja de San Andrés, local de reunião do Conselho. O Conselho de Sevilha se realizava na antiga mesquita árabe, naquela época já transformada em catedral. O Conselho de Burgos se reuniu em vários lugares distintos, como o claustro de sua Catedral Gótica, que vemos abaixo.

IMG_2857O Caso de Burgos é curioso, pois até finais do século XVIII as sessões do Ayuntamiento se realizavam no Arco de Santa María, que exerceu as funções de Casa Municipal, porta de entrada à cidade e Arco de Triunfo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1788 se finalizou o atual Edifício do Ayuntamiento de Burgos, levantado sobre uma das portas da muralha que cercava a cidade.

20150727_113517Uma constante da administração municipal era situar as Casas Consistoriais junto à Praça do Mercado ou no local de maior atividade do perímetro urbano, como no caso dos Ayuntamientos de Gijón (Asturias) e de Guadalajara (Comunidade de Castilla La Mancha).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XV iniciam-se as construções de edifícios para sediar a instituição, adaptando antigas construções ou então erguendo novos edifícios. A primeira época de esplendor da Arquitetura Civil relacionada com os Ayuntamientos ocorrerá com a chegada do Renascimento, momento em que se erguerá numerosos e belos edifícios ao longo do século seguinte, como os de Úbeda (Comunidade de Andalucía) e de Sigüenza (Castilla La Mancha).

OLYMPUS DIGITAL CAMERA OLYMPUS DIGITAL CAMERAO ímpeto construtivo dos conselhos inicia-se durante o reinado dos Reis Católicos, a partir de 1480. Com o aparecimento das Plazas Mayores, herdeira das antigas Praças de Mercado, os Edifícios do Ayuntamiento passam a ter seu lugar preferencial, pelo caráter representativo da praça, com o edifício consistorial presidindo a mesma, como nos casos de Salamanca e Riaza, ambas cidades castelhanas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADepois da Lei de Desamortização dos bens eclesiásticas, aprovada em 1835, muitos edifícios religiosos ou conventos passaram a ser propriedade municipal, transformando-se em Ayuntamientos. Este é o caso do Ayuntamiento de Bilbao (País Vasco), construído sobre o antigo Convento de San Agustín, e finalizado em 1892.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois da Guerra Civil de 1936/1939, numerosas construções foram praticamente destruídas e tiveram que ser reconstruídas. Outros edifícios, originalmente destinados como Ayuntamiento, atualmente exercem outras funções, como em Albacete (Castilla La Mancha).

DSC09468A seguir, vemos o atual Ayuntamiento de Albacete, uma construção moderna…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm fato marcante na vida pública das cidades espanholas, algo que não mudou ao longo dos séculos, foi a construção dos Edifícios do Ayuntamiento. Finalizamos com uma imagem do Ayuntamiento de Toledo (Castilla La Mancha).

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Cidade Universitária – Madrid

A Cidade Universitária de Madrid localiza-se na parte noroeste da cidade, no Distrito de Moncloa. Por este motivo, é também conhecido como Campus de Moncloa, e alberga a maior parte dos edifícios das Faculdades da Universidade Complutense e da Universidade Politécnica de Madrid, além de cerca de 30 colégios maiores. Ultimamente, estive várias vezes no campus fotografando suas principais faculdades, e decidi realizar uma matéria sobre a Cidade Universitária, por sua grande importância histórica, educacional e arquitetônica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInicialmente, a instituição de Ensino Superior de Madrid denominava-se Universidade Central e estava situada na Calle de San Bernardo, ocupando o antigo edifício do Noviciado de Jesuítas, fundado em 1602 e cuja finalidade principal era fornecer uma formação espiritual aos aspirantes a entrar na Companhia de Jesus. Abaixo, vemos o edifício…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAJá a Universidade Complutense, uma das instituições educacionais mais relevantes da história da Espanha, foi fundada pelo Cardeal Cisneros em 1499, na cidade de Alcalá de Henares, terra natal de Cervantes, declarada Patrimônio da Humanidade e localizada a cerca de 20 km de Madrid (ver matérias publicadas entre 23/8 e 27/8/2016). Por incrível que pareça, mesmo sendo capital do país, Madrid nao teve universidade própria, até que em 1822, durante o período conhecido como Triênio Liberal, se decidiu trazer a Universidade Complutense a Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPor não existir locais adequados para a instalação da universidade, vários edifícios foram utilizados para suas funções educativas, até que em 1842 foi trazida para o edifício de Noviciado. Foi então que o edifício foi reconstruído pelo arquiteto Narciso Pascual y Colomer e adaptado para sediar a universidade. As classes universitárias iniciaram suas atividades durante o curso de 1844/1845, com a abertura das Faculdades de Direito e Filosofia e Letras. A Universidade Central continuou desempenhando seus serviços até o momento em que foi levado à Cidade Universitária.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAApesar de ter sido construída e reconstruída no século XX (no próximo post falaremos um pouco de sua conturbada história), na Cidade Universitária podemos contemplar monumentos históricos, como a Portada que pertenceu ao Hospital de La Latina,que atualmente se encontra em frente à fachada da Faculdade de Arquitetura.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste hospital também foi fundado no ano de 1499, por Beatriz Galindo e seu marido Francisco Ramírez. Ambos pertenceram ao círculo familiar dos Reis Católicos, Beatriz como responsável da educação dos filhos de Isabel La Católica e o marido como um tenente do exército de Fernando El Católico. Por seu domínio total do latim, Beatriz Galindo ficou conhecida como “La Latina” e realizou diversas obras assistenciais em Madrid naquela época. Este apelido passou a denominar o bairro onde foram criadas as principais instituições por ela fundada. O centro assistencial denominava-se Hospital de la Concepción de Nuestra Señora, mas sempre foi conhecido como Hospital de La Latina.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA portada foi edificada no estilo gótico-mudéjar pelo mestre Hazan, e consta de um arco gótico com três esculturas em sua parte superior e o escudo dos fundadores. O hospital esteve em funcionamento até 1899, e foi demolido em 1904 por reformas urbanas na Calle de Toledo, onde se localizava. Abaixo, vemos uma foto antiga do hospital e da portada em sua localização original.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA portada se encontra na Cidade Universitária desde os anos 60 e a estrutura de tijolo que a sustenta foi projetada pelo arquiteto Fernando Chueca Goitia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos aspectos mais importantes do projeto construtivo da Cidade Universitária foi que os edifícios deveriam situar-se dentro de um entorno natural com amplos espaços abertos dotados de vegetaçao. Esta idéia de um campus-parque se inspirou nos modelos das universidades americanas, adaptados às características espanholas. Abaixo, vemos o Real Jardim Botânico de Alfonso XIII, monarca que viabilizou o projeto da Cidade Universitária, formando parte do projeto original realizado em 1927 por encargo do rei.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPor uma série de razões históricas, que abordaremos na próxima matéria, o jardim botânico somente foi inaugurado em 2001 como um espaço propício para a investigação e divulgação de mais de 800 espécies botânicas. Atualmente também se realizam concertos nos limites do jardim.

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Um Passeio por Valencia

No post de hoje faremos um passeio pelo Centro Histórico de Valencia, descobrindo seus lugares mais representativos do ponto de vista histórico, e conhecendo também o legado relacionado com alguns de seus personagens principais. Um deles nos remonta à época romana, momento em que aparece a figura de San Vicente Mártir, que foi martirizado por defender a fé cristã no ano de 304 dc. É possível visitar a prisão onde recebeu o martírio, transformada numa capela. O local conserva a coluna que, segundo a tradição, o santo foi torturado. San Vicente Mártir tornou-se o padroeiro da cidade de Valencia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPouco mais de mil anos depois, nasce em Valencia outro Vicente de grande importância religiosa, San Vicente Ferrer (1350/1419). Pertencente à Ordem Dominicana, sua voz de predicador ressoou pelas ruas da cidade, sendo venerado pelos seus habitantes. Abaixo, vemos uma estátua em sua homenagem.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATambém podemos ver sua representação na coleção pictórica do Museu Catedralício, num quadro realizado pelo pintor valenciano Joan Reixach entre 1455 e 1459. San Vicente Ferrer é representado de corpo inteiro em atitude de predicação, e vestido com o hábito branco e negro, próprio dos dominicanos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos o edifício construído sobre a casa natal do santo…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO período gótico foi uma época de grande prosperidade para Valencia, como vimos em matérias anteriores. Em algumas mansões aristocráticas o estilo combinou-se com a corrente artística subsequente, o Renascimento, caso do Palácio de Benicarló, construído no final do século XV e princípio do XVI.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAtual sede das Cortes de Valencia, sua construção foi ordenada pelo Duque de Gandia, membro da conhecida família dos Borja (Borjia, em italiano), cujo personagem mais destacado foi Rodrigo de Borja, que se tornou papa entre  1492 e 1503, com o nome de Alejandro VI. Por este motivo, o edifício também é conhecido como Palácio dos Borja. No século XX, este palácio teve um papel significativo durante a Guerra Civil Espanhola, pois entre 1936 e 1937 Valencia tornou-se a capital do Governo Republicano, e o Palácio de Benicarló transformou-se na sede do governo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAValencia adquiriu um grande protagonismo durante a etapa renascentista, pois foi a porta de entrada deste estilo artístico italiano na Espanha. O primeiro livro editado no país se imprimiu na cidade em 1474, e se encontra na Biblioteca da Antiga Universidade de Valencia. Esta instituição cultural fundamental, de grande prestígio atualmente, foi fundada em 1499. Seu edifício histórico situa-se na Plaza del Patriarca. Para sua construção, o conselho da cidade adquiriu várias casas localizadas nas proximidades, encarregando o arquiteto Pere Compte para que realizasse o projeto. É considerada uma das mais antigas e importantes do país.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa fachada que dá para a praça foi colocada uma bela fonte em 1966, realizada por Javier Goerlich. No centro desta estrutura de aspecto clássico, foi colocada uma estátua  de mármore branco que representa uma figura feminina, símbolo da sabedoria. A ambos lados, 4 estátuas de bronze representam o Papa Alejandro VI, que expediu a bula fundacional da universidade em 1501, o reitor vitalício Vicente Blasco Ibáñez, e os Reis Católicos. Na parte superior da fonte, vemos a inscrição SPQ Valentinus, que significa “Em nome do Senado e do Povo de Valencia”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO aspecto atual desta universidade pública pertence ao período neoclássico, como podemos observar na fachada principal e no claustro maior. No centro do mesmo, vemos um monumento em homenagem ao filósofo, humanista e pedagogo valenciano Joan Lluís Vives (1493/1540), obra realizada por Josép Aixá em 1880.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANas galerias do claustro foram colocadas lápides comemorativas de alguns fatos históricos de relevância do país, como a heróica resistência da cidade de Zaragoza durante o assédio das tropas de Napoleão no começo do século XIX (episódio conhecido como Os Sítios de Zaragoza).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlém de constituir a sede institucional e também da Reitoria, o Edifício da Antiga Universidade alberga um centro cultural, com um interesse programação cultural.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm minha visita à cidade, tive a ocasião de ver uma maravilhosa exposição sobre a Guerra Civil Espanhola, com fotos que mostram diversas facetas do conflito. Por exemplo, na imagem abaixo vemos uma reunião de mulheres comunistas militantes que protestam para que os homens participassem nas frentes de batalha da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA população de Valencia observa atônita os ataques aéreos…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPor primeira vez se realizou uma exposição sobre um dos símbolos da República Espanhola, a Revista La Traca. Publicada em Valencia entre 1909 e o final da república, tornou-se a revista de maior tiragem do país, e também uma das mais polêmicas. Seu proprietário, Vicente Miguel Carceller, era o principal editor da Espanha na época. Devido à sua atitude antifacista, a circulação desta revista satírica e anticlerical foi proibida por Franco, e Vicente Miguel Carceller, fusilado em 1940. O recente atentado a uma editorial em Paris teve seu antecedente em Valencia, 77 anos atrás…

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