Clunia – Província de Burgos

Há cerca de 2200 anos atrás os romanos se estabeleceram na Península Ibérica, dentro do contexto da Segunda Guerra Púnica (218/201 aC), travada contra outra potência mediterrânea da época, Cartago, que terminou com o triunfo do Império Romano e a derrota do General Aníbal. Finalizado o confronto, os romanos demoraram dois séculos em conquistar plenamente o novo território, devido as constantes guerras travadas contra os povos ibéricos, autóctonos do território espanhol, e também pelos conflitos entre os próprios governadores romanos, como no caso de Sertorio, que desafiou o poder de Roma. Com a conquista dos povos indígenas, a cultura local foi substituída pela civilização latina. O nome dado pelos romanos à península, Hispania, esteve relacionado à nomenclatura oficial das três províncias criadas para sua administração no final do século I aC: Hispania Ulterior Baetica (cuja capital foi a atual cidade de Córdoba), Hispania Citerior Tarraconensis (capital Tarraco, atual Tarragona) e Hispania Ulterior Lusitania (Capital Emérita Augusta, atual cidade de Mérida).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPosteriormente, com a reforma administrativa efetuada por Diocleciano (284/305 dC), as províncias foram aumentadas, como vemos no mapa abaixo:

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO nome do país, Espanha, se originou do termo Hispania, e uma das explicações de seu significado seria “Terra de Coelhos“. Muitas das cidades mais importantes do país foram fundadas pelos romanos, como por exemplo: Zaragoza (CaesarAugusta), Barcelona (Barcino), Sevilha (Hispalis), Toledo (Toletum), etc. Algumas delas conservam um impressionante patrimônio histórico relacionado à época romana, e foram declaradas Patrimônio da Humanidade, como os Conjuntos Arqueológicos de Tarragona e de Mérida, o Aqueduto Romano de Segovia e a Muralha Romana de Lugo. Além do mais, se conservam por todo o país vestígios arqueológicos de cidades de grande importância naquele período, como a antiga cidade romana de Clunia, situada atualmente na Província de Burgos, próxima à cidade de Coruña del Conde, que vimos no último post.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOriginalmente, esta zona esteve ocupada pelos Arévacos, um povo pré-romano pertencente aos Celtiberos, que se assentaram neste local. Apesar do desconhecimento em relação a sua localização exata, todas as informações relacionados a este anterior povoado se devem às fontes romanas, sendo que finalmente a cidade foi submetida ao poder imperial de Roma. A denominada Colônia Clunia Sulpicia foi uma das principais cidades romanas da metade norte de Hispania. Pertenceu à província de Hispania Citerior Tarraconensis e constituiu um Convento Jurídico (assembléia de reunião entre os povos romanos e as comunidades indígenas, que aconselhavam o governador na administração e na justiça). Situava-se no alto de um cerro que supera os 1000m de altitude, na estrada que ligava Tarraco (atual Tarragona) com Asturica Augusta (atual cidade de Astorga).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm Clunia, o político e militar romano Quinto Sertorio resistiu durante 20 anos a Pompeyo, que destruiu a cidade no ano 72 aC. Foi reconstruída pelo Imperador Tibério (14/37 dC), que lhe concedeu inicialmente o título de Municipium, o segundo em importância de uma cidade romana, com um status inferior ao de Colônia. Clunia emitiu moedas de bronze e de ouro com a efígie do imperador, como vemos abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA cidade adquiriu o título de colônia e o nome de Sulpicia depois que Sulpicio Galba se proclamasse imperador na própria cidade, durante a revolução travada contra o Imperador Nero. Seu esplendor ocorreu entre os séculos I e II dC, chegando a ter cerca de 30 mil habitantes, uma quantidade apreciável para a época. Clunia constitui atualmente um excepcional enclave arqueológico, cujas ruínas estão entre as mais importantes da Espanha Romana. Como ocorre com qualquer outra cidade, a maior parte do espaço urbano estava constituído por residências, como a denominada Casa de Taracena, que preserva um impressionante conjunto de mosaicos que podemos contemplar na visita guiada que se realiza no local, decorado com elementos geométricos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA casa ocupa quase toda a extensão de um quarteirão…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO mosaico central possui um grande interesse devido à variedade de sua composição policromada. Seus motivos decorativos relacionam-se com a moda imperial vigente entre os séculos II e III dC, com a presença de elementos geométricos e da flora.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADurante a visita, vemos outros mosaicos conservados, como os que vemos a seguir.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEm Clunia foi criada a primeira Legião Romana de Hispania, a Legio VII Gemina. No Centro de Interpretaçao construído como complemento informativo à visita, podemos observar vários restos arqueológicos encontrados no local, como uma estela funerária, com o nome do defunto em sua parte inferior e curiosos elementos geométricos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizo esta primeira parte da matéria sobre a cidade romana de Clunia com uma foto minha, tirada por uma das pessoas que integrava a excursão, dentro do Teatro Romano da cidade.

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Córdoba Romana

Antes de ser fundada pelos Romanos, a zona onde se situa a cidade de Córdoba já havia sido um núcleo populacional muito tempo antes. Estudos arqueológicos demonstram a ocupaçao do terreno a partir da Idade do Cobre, entre o segundo e o terceiro milênio antes de Cristo. Sua consolidação como núcleo urbano se remonta a fase final da Idade do Bronze, entre os séculos IX e VIII aC. Devido a sua riqueza mineral, atraiu outros povos do Mediterrâneo, como fenícios e gregos. Entre os séculos VII e VI aC se transforma numa cidade bem organizada. Foi habitada pelos Turdetanos, um povo pré-romano que habitava a Turdetânia, região que compreendia o vale do Rio Guadalquivir desde o Algarve (Portugal) até a Serra Morena, coincidindo com o território da antiga civilização de Tartessos. No Museu Arqueológico de Córdoba existem vestígios da presença humana na cidade em suas várias etapas históricas, como esta escultura que representa um leão, datada do século IV aC.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOu esta dama ibérica, feita em pedra calcárea no século II aC.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAdornos de prata utilizados pela aristocracia pré-romana, também pertencente ao século II aC, podem ser admirados no museu.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs descobertas arqueológicas e as fontes escritas confirmaram a hipótese tradicional que Córdoba foi fundada a mediados do século II aC pelo general romano Marcus Claudius Marcellus, com o nome de Corduba. A cidade prospera rapidamente graças a riqueza mineral de suas serras, os recursos agropecuários do vale e o comércio incrementado através do controle de seu porto fluvial, situado no Rio Guadalquivir.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASeu urbanismo seguia as características próprias das cidades romanas, com uma muralha guarnecida por torres e um traçado urbano formado pelo Cardo Máximo e Decumano Máximo, as principais avenidas que se orientavam em relação aos quatro pontos cardeais. No século I aC foi destruída por Júlio César e seu exército, sendo novamente fundada, mas com um status de colonia, outorgando cidadania romana a seus habitantes. A partir deste momento, inicia-se um grande processo construtivo, conforme o modelo importado de Roma e o emprego sistemático de materiais nobres em suas construções, como o mármore. Diversas peças arqueológicas pertencentes ao período romano compõem o acervo do Museu Arqueológico de Córdoba, como esta máscara teatral feita de mármore do século I dC.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm Baco adolescente, feito de bronze, datado entre os séculos I e II dC, que vemos abaixo no centro da imagem.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma peça que representa a deusa Afrodite agachada, também feita de mármore, do século II dC.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm fragmento de sarcófago com a representaçao de Daniel na cova dos leões, do século IV dC.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANum dos principais monumentos da cidade, o Alcázar dos Reis Cristianos (original em  espanhol), se exibem outras peças romanas de grande interesse, como este excepcional sarcófago do século III dC, feito num grande bloco de mármore e ricamente esculpido, que foi encontrado na cidade em 1958.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADiversos mosaicos romanos, que originalmente decoravam as residências das famílias aristocráticas da cidade romana, podem ser contemplados no Alcázar. Compreendem figuras geométricas e motivos mitológicos principalmente, como este mosaico com a representação da Medusa, uma figura habitual na Arte Romana (século II dC).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOu este mosaico com a representação de Polifemo e Galatea, também do século II dC, que decorava uma rica mansão na Corduba Romana.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post, veremos os principais monumentos romanos que se conservam na cidade atual, que comprovam a importância que Córdoba teve desde sua origem.

Museu Provincial de Lugo

O Museu Provincial de Lugo  é um local imprescindível para se conhecer a história da cidade. Como vimos no último post, está situado no local do antigo Convento Franciscano, cujo espaço foi remodelado e ampliado para acolher a coleção do museu.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Museu Provincial foi criado em 1932 com o objetivo de proteger os bens culturais encontrados na cidade e também na Província de Lugo, que se encontravam dispersos em coleções particulares e outras instituições públicas. Com o incremento e quantidade das peças, o museu foi trazido em 1957 para o convento, que conserva três dependências da antiga instituição religiosa (claustro, refeitório e cozinha). Abaixo, vemos uma foto da fachada principal do museu.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO acervo compreende peças de várias etapas históricas, como a de sua época fundacional, a romana. Um grande mosaico romano foi colocado no centro do espaço expositivo…

OLYMPUS DIGITAL CAMERABustos romanos também podem ser admirados…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO antigo claustro tornou-se um local perfeito para a exposição de várias peças arqueológicas de interesse.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo vemos uma Estela (século I dC), monumento monolítico encontrado na província com inscrições que cumprem finalidades comemorativas, funerárias, religiosa ou geográfica, representando importantes documentos para arqueólogos e historiadores.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADo século III dC vemos uma Ara, monumento religioso típico da etapa romana, com uma função funerária e de homenagem às divindades do panteão romano, neste caso do deus Manes. Foi encontrado na Muralha de Lugo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAVários escudos nobres podem ser vistos no claustro, como este, do século XVIII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Sepulcros encontraram seu lugar no claustro, como este que vemos a seguir, do século XVI.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsculturas Sacras formam parte do acervo, algumas de grande interesse, como esta imagem da Virgem das Angústias, do século XIX, feita de granito.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das coleções mais interessantes do museu constituem a excelente amostra dos chamados Relógios de Sol. Apesar do clima instável da Galícia, estes objetos sao abundantes na comunidade. O museu conta com 42 peças destas peças típicas do artesanato popular local. O mais antigo data de 1685, mas a maior parte dos relógios pertencem ao século XIX.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA coleção inclui ainda pintura religiosa dos séculos XV ao XX, esculturas românicas, góticas, renascentistas e barrocas, além de uma grande quantidade de obras realizadas por artistas galegos. Infelizmente, somente em alguns locais do museu se permitem tirar fotografias. Em 1962, o Museu Provincial de Lugo foi declarado Bem de Interesse Cultural.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPossui também uma incrível colecção de lucernas de diversas épocas, de 2300 aC ao século XV dC. Estes pequenos utensílios tinham a função de lâmpadas feitas de pedra ou terracota. Utilizadas desde a pré-história, foram os romanos quem a produziram em massa, constituindo objetos comuns encontrados em pesquisas arqueológicas. Fico devendo as fotos…

Lugo Romana

A cidade de Lugo foi fundada há cerca de 2 mil anos atrás, quando o atual território espanhol era uma província do grande Império Romano, denominada Hispania. Sua história se inicia como um acampamento romano, provavelmente no local onde originalmente havia um castro, isto é, um povoado fortificado de origem celta. Este acampamento militar foi construído dentro do contexto das chamadas Guerras Cântabras, travadas no noroeste da península contra os povos que a habitavam, durante o governo do Imperador Augusto, com a finalidade de anexionar estas terras ao imenso império da antiguidade. Em 25 aC, em nome do imperador, Paulo Fabio Máximo funda Lucus Augusti, embrião da atual Lugo. Na Praça Maior da cidade vemos uma escultura dedicada a ambos fundadores.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA palavra “Lucus” significa “bosque sagrado”, cuja origem está relacionada ao idioma celta e relacionada à divindade Lug. A partir do ano 50 dC, inicia-se a expansão da cidade, que se converte num importante núcleo urbano, representativo da cultura e do modo de vida romano, como comprovam os restos arqueológicos conservados. Lucus Augusti formava parte de uma rede de cidades integradas por uma Vía Romana, incluindo a atual Astorga (a romana Asturica) e a cidade portuguesa de Braga (Bracara).

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo século III dC, Lucus Augusti foi a capital do denominado Convento Lucense, uma das três áreas administrativas que compunham uma das províncias de Hispania, chamada Gallaecia. Num passeio pela cidade podemos vislumbrar seu passado romano através dos restos arqueológicos que foram preservados, além de sua impressionante muralha, que veremos no próximo post. Abaixo, vemos um Miliário, que marcavam as distâncias entre as principais cidades da Hispania, colocados nas estradas que integravam o território, as conhecidas Calçadas Romanas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Alguns dos restos encontrados foram protegidos com uma estrutura de vidro que dificultam as boas fotos, como as que vemos abaixo, de uma casa romana.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOu então uma estrutura funerária pertencente aos séculos I/II dC, situada na velha prisão de Lugo

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo entanto, outros achados arqueológicos podem ser admirados com total claridade, como os restos de outra casa romana (Domus), decorada com mosaicos

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAComo toda cidade romana de importância, Lucus Augusti possuía suas Termas, cujos restos estão situados dentro de um hotel balneário, com acesso livre ao público.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs Termas Romanas de Lugo foram declaradas Monumento Histórico-Artístico em 1931. A parte melhor conservada corresponde ao vestiário, composto por urnas utilizadas como armários para guardar a roupa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo local foram expostos pequenos altares de época romana denominados Aras. Estavam dedicados às divindades do panteão romano, onde se realizavam votos de ação de graças ou pedidos concretos, por meio de uma inscrição em latim. As Aras existentes nas Termas Romanas de Lugo foram dedicadas às Ninfas, divindades relacionadas a natureza, principalmente a agua.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa parte baixa da cidade, vemos a ponte romana que cruza o Rio Miño, e que servia de elo de comunicação entre Lucus Augusti e Bracara (Braga).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta ponte sofreu numerosas intervenções, e de sua época romana se conservam somente os alicerces. A calçada romana que unia ambas cidades faz atualmente parte do Caminho de Santiago.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAUm “soldado romano” protege a ponte contra os possíveis invasores…

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Museu Arqueológico Regional – Alcalá de Henares

Como vimos em matérias anteriores, um dos passeios mais interessantes que podemos fazer em Alcalá de Henares é visitar sua origem como a cidade romana de Complutum, nos diversos recintos arqueológicos existentes. Complementando o entendimento do seu rico passado, vale a pena conhecer o Museu Arqueológico Regional, situado na Plaza de las Bernardas, ao lado do Convento de San Bernardo e em frente a fachada lateral do Palácio do Arcebispo, que vimos em posts recentes.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO museu foi criado em 1997 para acolher os restos arqueológicos encontrados na Comunidade de Madrid, com o objetivo de conservar, investigar e difundir o seu patrimônio, mas foi aberto ao público somente dois anos depois. Está situado no antigo Convento de Dominicanos de la Madre de Dios, fundado em 1565. O edifício atual se construiu entre os séculos XVII e XVIII, e seu exterior foi conservado, ao contrário do interior, cujos espaços conventuais foram adaptados a sua nova função como centro cultural. No antigo claustro do convento se realizam diversas exposições temporais de grande interesse. Abaixo, vemos o claustro vazio, sendo preparado para uma nova exposição.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO edifício teve uma história complicada, pois durante a invasão francesa no início do século XIX foi transformado num quartel de cavalaria. No entanto, funcionou como convento até a Desamortização de Mendizábal, em 1836. Depois, o imóvel foi adquirido pela prefeitura, que o converteu em prisão e depois em tribunal, momento em que sofreu uma importante reforma.Em 1987 se realizaram um novo processo de reabilitação devido ao avançado estado de ruína em que se encontrava. Apesar disso, se conservam pinturas murais de sua época religiosa…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO museu está composto por diversas salas organizadas cronologicamente, desde a pré-história até o século XVI, quando Madrid se torna a capital do reino. Mostrarei a vocês somente alguma das  partes dedicadas à Complutum romana, e sua relação histórica com a atual Alcalá de Henares. Um mapa nos mostra algumas das cidades mais importantes da Hispania e as diversas calçadas romanas que as comunicavam.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs vias romanas eram verdadeiras obras de engenharia, e muitas delas ainda se conservam ao menos em parte. Durante seu longo traçado, se colocavam colunas de pedras a cada milha (1481m) para informar a distância percorrida e o nome do governante responsável pela construção daquele trecho em particular.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa época romana, a produção de cerâmica alcançou um grande desenvolvimento técnico. Para tanto, existiam os denominados fornos rurais, que abasteciam a vila e os núcleos populacionais próximos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADa mesma forma que hoje, as mulheres e homens daquele período se adornavam com peças de grande beleza…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMuitas das residências aristocráticas em zonas rurais alcançaram um alto grau de luxo e riqueza, e algumas das dependências destas casas foram recriadas com os achados arqueológicos existentes no acervo do museu.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAComo não poderia ser de outra forma, o Museu Arqueológico Regional exibe uma bela coleção de mosaicos romanos, encontrados nas escavações realizadas na zona do antigo foro de Complutum. Estes mosaicos pertenciam às casas aristocráticas que ficaram conhecidas pelas cenas retratadas nos mesmos. A Casa de Baco, por exemplo, foi assim denominada pelos mosaicos com temática envolvendo o Deus do vinho, datados do século IV dC.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANa mesma casa também foram descobertos mosaicos compostos por figuras geométricas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Casa de Aquiles, também situada próxima ao foro, recebeu este nome graças a um mosaico com a representação do mito de Aquiles e Pentesilea, em que o herói grego derruba a rainha das Amazonas do cavalo para matá-la.

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Complutum – Casa de Hippolytus

Um pouco afastada do bairro Regio II, que vimos na última matéria, a Casa de Hippolytus constitui  o outro recinto arqueológico em Alcalá de Henares da antiga Complutum Romana, cuja visita recomendo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO conjunto arqueológico representam as ruínas de um antigo colégio para jovens, que pertencia a uma das famílias mais proeminentes da cidade. Sua origem data da segunda metade do século I dC, sendo reformado no século III dC. Já no século V, foi utilizado como uma necrópole. A Casa de Hippolytus foi aberta ao público em 1999 e formava parte de um grupo de edifícios e jardins da família dos Anios, que construíram um mausoléu dentro do colégio, descoberto em 1881 e infelizmente desaparecido.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA construção da Casa de Hippolytus foi um ato benéfico da família, como sede de uma instituição educacional com infraestrutura para ócio e reuniões. A maior parte dos restos conservados correspondem às reformas realizadas no século III dC. Abaixo, vemos uma representação do aspecto que provavelmente possuía a casa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das áreas mais importantes do conjunto é o jardim, que estava composto por uma grande variedade de espécies vegetais (olmos, cedros, etc), sendo que várias delas tinham uma procedência oriental, além de uma rica fauna, fatos que sugerem uma recriação de um jardim exótico oriental, algo excepcional no mundo romano. A seguir, vemos um dos restos conservados e uma representação do mesmo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAComo espaço público que era, a Casa de Hippolytus possuía termas para os banhos, e se conservam os pilares de tijolo do sistema de aquecimento da água, denominado Hipocausto. Como de costume nas Termas Romanas, estavam compostas pelas zonas de água fria, temperada e água quente (frigidarium, tepidarium e caldarium) e estavam orientadas em direção sul, com uma maior incidência de raios solares.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAVemos também restos de uma piscina trilobulada, assim denominada por seu formato. Originalmente, se encontrava fechada e coberta por uma cúpula e se chegava a ela através de um pátio coberto por um pavimento de mosaicos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFrequente nas termas e também nos colégios eram as letrinas, uma sala retangular que funcionava como uma espécie de banheiro coletivo, com um sistema de encanamento para a evacuação das águas fecais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADe grande interesse arquitetônico, a sala abovedada foi construída durante a reforma no século III dC. Sua avançada técnica construtiva permitiu que pequenos tijolos de cerâmica proporcionassem uma estrutura articulada que se podia dobrar, conseguindo a curvatura desejada.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA casa possuía um espaço sagrado dedicado à deusa Diana, divindade associada à caça e aos bosques. Possivelmente havia uma outra sala dedicada a Hércules, padroeiro da juventude e símbolo dos valores heroicos que se transmitiam aos jovens. Também era habitual o culto ao Gênio da Juventude, curiosamente representado por um homem adulto. Deste local se conserva uma coluna e fragmentos de uma estátua de Diana.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAComplutum conta com uma das coleções mais interessantes de Mosaicos Romanos de toda a Espanha. É considerado um conjunto singular por seu caráter urbano, já que a maioria dos mosaicos conservados estão relacionados com vilas rurais. Abaixo, vemos alguns existentes na Casa de Hippolytus.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm destes mosaicos é verdadeiramente excepcional, pois foi assinado por Hippolytus, o artista que o realizou, que acabou dando o nome a todo o recinto arqueológico. O mosaico em si representa uma cena de pesca, e possuía uma finalidade didática, com um amplo catálogo da fauna marinha do Mar Mediterâneo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADesde o século III e ao longo do século IV dC, Complutum conheceu um grande desenvolvimento, mas a partir do século seguinte inicia-se sua decadência com a queda do Império Romano. A cidade progressivamente é abandonada e a invasão muçulmana em 711 provoca o colapso da antiga cidade romana. A cidade árabe é fundada num outro local, num dos cerros que cercam a cidade atual a 630m de altitude, e passa a ser denominada Qalat abd Al-Salam. Para sua construção, foram utilizados os materiais dos edifícios e casas da antiga Complutum.

Museu Arqueológico Nacional: Mosaicos Romanos

De todo o espetacular acervo do Museu Arqueológico Nacional de Madrid, uma das coisas que mais me impressionou foi sua coleção de Mosaicos Romanos, tanto pela quantidade, quanto pela qualidade artística. De fato, os mosaicos constituíram uma das principais manifestações da arte no mundo romano. Parece que os primeiros mosaicos apareceram na Ilha de Creta no séc. VIII aC, e seu apogeu na civilização romana ocorreu nos séculos II e III dC. Posteriormente, passaram à tradição do cristianismo e sua técnica foi usada para decorar diversos monumentos religiosos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs mosaicos representavam um elemento decorativo muito apreciado pelos romanos, tanto nos edifícios públicos como nas residências aristocráticas. Eram utilizados como pavimentos das diversas dependências que compunham o interior das casas, e demonstravam o poder econômico do proprietário e seu nível cultural. A grande quantidade de mosaicos encontrados em Hispania comprovam a excelente qualidade dos artesãos que os elaboraram. Abaixo, vemos um mosaico decorado com motivos florais do séc. IV, encontrado na Vila del Soto de Ramalete, situada em Tudela (Navarra). O mosaico adornava o vestíbulo de uma sala de recepção de uma vila rural. As flores e a presença do golfinho estão relacionados com a abundância e fertilidade, fontes de riqueza e prosperidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs mosaicos representam uma excelente fonte de informações sobre o mundo romano em relação a vários aspectos da vida de seus cidadãos, como as atividades de ócio, seu sistema de crenças, etc, etc. Os espaços públicos dedicados ao entretenimento popular,  como o teatro, anfiteatro, circo e termas representavam um meio de promoção das elites e uma forma de controle das massas populares. Os espetáculos eram oferecidos gratuitamente à população e realizados em honra aos imperadores e aos deuses. Um dos preferidos eram as corridas de bigas (carros puxados por 2 cavalos) e de quadrigas (puxados por 4 cavalos), que podiam ser vistas no Circo Máximo, as maiores construções do Império Romano.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAExtremamente populares, as lutas de gladiadores entre si ou contra animais selvagens se disputavam nos anfiteatros. O verdadeiro mundo do Panis et Circensis

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutros mosaicos serviam para representar a própria identidade do proprietário da casa, como o que vemos a seguir. Encontrado na Província de Sória, pertence ao séc. IV dC. O dono da casa era um membro da aristocracia rural que vivia numa esplêndida vila, e deixou constância de seu nome num anagrama situado no centro do mosaico. Os motivos geométricos decoram o resto de sua superfície.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEntre os temas mais frequentes estão os mitológicos, com cenas derivadas das inúmeras lendas e mitos da tradição clássica, seus heróis e deuses. Hércules, por exemplo, recebeu uma grande devoção popular em Hispania e desempenhava um papel civilizador. Exemplificava também as virtudes do nobre romano. O conhecimento de suas façanhas indicava o gosto erudito do proprietário da residência. Abaixo, vemos um mosaico com a representação dos 12 trabalhos do herói semi-divino. Do séc. III dC, foi encontrado em Liria, atual Comunidade Valenciana.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das divindades populares da Religião Romana era o Gênio, uma espécie de tutor que cumpria as mesmas funções do anjo da guarda no cristianismo. Normalmente, recebiam devoção em pequenos santuários domésticos e favoreciam o ciclo das estações e as colheitas. Trata-se de uma força divina que cria e conserva tudo que existe. Como divindade protetora, cuida das casa e seus moradores. A cornucópia, símbolo da abundância e prosperidade, é seu atributo. Na sequência, vemos sua representação num mosaico de finais do séc. II, encontrado em Aranjuez.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Medusa também é associada à fertilidade, abundância e proteção. No mosaico abaixo, aparece junto com pássaros, leões e cavalos marinhos, além das estações do ano (séc. IV, Palencia).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra temática bastante habitual nos mosaicos romanos era o ciclo das estações, representado no exemplar que vemos a seguir, que impressiona por seu tamanho. Além das estações, se representa também os meses do ano e os signos do Zodíaco. Além do mais, cenas bucólicas se combinam com divindades, referências às festas religiosas e ao calendário anual. Do séc. III, foi achado na Província de Albacete.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERACom a desintegração do Império Romano no séc. V dC, Hispania foi invadida pelos povos bárbaros. A partir de então, foi dominada pelos chamados Visigodos. Um pouco de sua história e algumas das peças mais importantes do Museu Arqueológico Nacional nos ajudarão na compreensão de sua evolução e declínio na Península Ibérica.